Por Alice Slater para InDepthNews.

Neste possível fim dos tempos, em meio a uma pandemia global, com uma sucessão interminável de desastres climáticos e milhares de armas nucleares nos EUA e na Rússia posicionadas e prontas para destruir a vida na Terra, parece difícil acreditar que somos assolados por uma mídia comprada e corrupta. Essa mesma mídia nos agride com as más condutas da Rússia e da China e, mais recentemente, da Coreia do Norte, e nessas reportagens agressivas quase não mencionam como os EUA podem ser causa de tudo isso.

Essa imprensa também não relata os muitos recursos rejeitados pelos Estados Unidos, numa tentativa de dominação global. Em vez de promover as oportunidades importantes, temos — todas as nações e povos do mundo — que trabalhar em cooperação para salvar a Mãe Terra. Os boletins de notícias do ocidente oferecem uma dieta diária constante do dano que poderia ser infligido aos “inocentes” Estados Unidos, ecoando tons da terrível era McCarthy da década de 1950 em uma nova Guerra Fria e talvez uma Terceira Guerra Mundial.

A Coreia do Norte é um exemplo disso. Reportagens recentes no The New York Times observaram uma série de novos testes de mísseis pela Coreia do Norte e relataram que, pela primeira vez, um veto no Conselho de Segurança da ONU pela Rússia e China bloqueou severas sanções adicionais propostas pelos Estados Unidos sobre aquela pobre nação em dificuldades.

Na sua reportagem, o New York Times citou John Delury, professor de história na Yonsei University, Coreia do Sul: “nenhuma quantidade de sanções poderia criar as pressões que a COVID-19 criou nos últimos dois anos. No entanto, vemos a Coreia do Norte implorar: ‘peguem nas nossas armas e nos ajudem’… os norte-coreanos vão passar fome.“, ele disse, em vez de desistir de suas armas nucleares.

Mas esta avaliação insensível ignora a longa e lamentável história de negociações fracassadas entre os EUA e a Coreia do Norte.

A Coreia do Norte vem testando mísseis e desenvolvendo armas nucleares desde que saiu do Tratado de Não Proliferação Nuclear, em 2003. O país alega que os Estados Unidos o destacaram como alvo de um ataque nuclear preventivo e o ameaçaram com um embargo e uma punição militar.

Os norte coreanos têm agora cerca de 40 a 50 das 14.000 armas nucleares no planeta, com 13.000 delas nos EUA e na Rússia, e o restante distribuído entre China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão e Israel.

Na Assembleia Geral da ONU, a Coreia do Norte foi o único país com armas nucleares a votar em favor da criação de um grupo de trabalho para analisar as negociações multilaterais para o desarmamento nuclear. Tais negociações resultaram na decisão de estabelecer negociações para o novo tratado de proibição da bomba. Nessa reunião histórica, em que 135 nações votaram em favor do grupo de trabalho, a Índia, a China e o Paquistão abstiveram-se e os EUA, a Rússia, o Reino Unido, a França, Israel e todos os estados sob o guarda-chuva nuclear dos EUA votaram contra.

Esse voto norte-coreano foi uma tentativa de chamar a atenção do mundo para acabar com o isolamento e a punição que o país sofreu ao longo dos anos. No entanto, não foi totalmente noticiado na imprensa.

Durante as negociações com Trump e a Coreia do Sul, em 2019, a Coreia do Norte estava disposta a renunciar ao seu programa nuclear se esse ato substituísse a trégua na qual o país vive por um tratado de paz. Desde 1953, 38 mil tropas dos EUA estão alojadas perto da fronteira norte-coreana conduzindo manobras militares com a Coreia do Sul, e a população do país sofre com a falta de comida, combustível e medicação, por conta de sanções cruéis e destruidoras.

Trump, na intenção de manter as aparências e conseguir um acordo, propôs a retirada das 10 mil tropas americanas posicionadas lá por todos esses anos. Tanto os democratas como os republicanos no Congresso o impediram de fazer tal acordo. Biden não deu seguimento à proposta, e Kim está mais uma vez ostentando os mísseis para chamar a nossa atenção.

Para um acordo visando a eliminação das suas armas nucleares, a Coreia do Norte exige o fim da trégua e a assinatura de um tratado de paz — o que poria um fim à Guerra da Coreia, depois de quase 70 anos – a interrupção das manobras de guerra em suas fronteiras, e a retirada das sanções punitivas, tão destrutivas para a saúde e o bem-estar de seu povo.

Isso permitiria tráfego livre entre EUA e Coreia do Sul, acabando com a triste situação daqueles que não podem cruzar a fronteira para visitar familiares e amigos.


Traduzido do inglês por Felipe Balduino / Revisado por Doralice Silva