Não é novidade que o uso de agrotóxicos causa efeitos negativos à saúde dos humanos e outros seres vivos. Conforme o Instituto Nacional do Câncer (Inca), estudos vêm mostrando o potencial de desenvolvimento de câncer relacionado a inúmeros desses pesticidas, justificando a recomendação de precaução referente ao uso e ao contato. Ignorando tudo isso, a bancada ruralista do Câmara dos Deputados, que responde aos interesses do agronegócio, aprovou no último dia 9, o Projeto de Lei que facilita ainda mais o suso desses venenos no Brasil.

O uso de agrotóxicos causa inúmeros efeitos nocivos à saúde, classificados entre agudos e crônicos. Dentro destes últimos, podem ser destacados esquecimento, aborto, impotência, depressão, problemas respiratórios graves, disfunção de tireoide, anormalidade nos ovários e próstata, problemas no desenvolvimento intelectual e físico de crianças, entre outros.

Reportagem da mídia alemã DW Brasil publicada recentemente, divulgou que o nosso país é um dos que se destacam no estudo realizado por grupos ambientalistas alemães acerca do uso de pesticidas no mundo, Pestizidatlas 2022 (em português Atlas dos Pesticidas), divulgado no último dia 12 de janeiro, em Berlim, pela Fundação Heinrich Böll, uma entidade próxima ao Partido Verde daquele país, em cooperação com um grupo ambientalista chamado Amigos da Terra e o jornal francês Le Monde Diplomatique.

Modelo predador

Além de descrever quão lucrativo é o negócio dos agrotóxicos, o Atlas dos Pesticidas revelou que o Brasil é o 3º país do mundo a utilizar defensivos agrícolas, e que, inclusive, dá passe livre a produtos proibidos em outras partes, sobretudo a União Europeia (UE). De acordo com o relatório, a legislação brasileira autoriza o uso de produtos cuja toxicidade é duas, três e até mesmo 100 vezes maior do que os valores máximos permitidos pelos países europeus.

E por que isso acontece? A resposta é óbvia. Porque, desde a colonização, as terras brasileiras foram utilizadas para gerar lucros a poucos e poucas. Primeiramente, através da extração de madeira (o pau-brasil), e, posteriormente, a partir da introdução da monocultura de cana-de-açúcar, de café, de algodão, entre outros produtos agrícolas, que depois foram acompanhados pela introdução da pecuária, assim como da extração de outros recursos, como minérios e, mais recentemente, petróleo.

No que se refere especificamente ao modelo de produção agropecuária brasileiro, é preciso compreender que este não prioriza a agricultura familiar ou a pequena produção. Ao contrário. É, em essência, um modelo predador e depredador, excludente, e que, portanto, tem como prioridade as máquinas e a produção do lucro (a qualquer custo), em detrimento da vida humana.

Apesar disso, no entanto, esse modelo é reverenciado por muitos setores da sociedade, principalmente a burguesia agrária, representada enfaticamente pela mídia hegemônica, como sinônimo de desenvolvimento. Não raramente vemos e ouvimos, na tevê, por exemplo, que o “Agro é pop”, que“agro é tec” e que gera milhões de empregos.

Essa “mídia favorável” ao agronegócio acaba funcionando como uma espécie de “aparelho legitimador” da destruição, do envenenamento, da escravização de pessoas (vide os casos de fiscalizações que detectaram utilização de mão de obra em condições análogas à escravidão), sem contar com a expropriação de terras das populações originárias, que, há séculos, lutam em favor da vida, pois as suas existências estão diretamente atreladas à terra.

“Pátria agropecuária”

Toda essa midiatização favorável pressiona os governos, principalmente a partir da justificativa de que são gerados inúmeros empregos. Deste modo, portanto, todas as críticas feitas (ainda que com comprovações relativas aos danos) são “facilmente” desestimadas e deslegitimadas. Afinal, quem se oporá à geração de emprego e renda?

Por isso, na falta de uma diversidade nas abordagens midiáticas, por conta, entre outros fatores, da concentração da propriedade dos meios de comunicação no País, prevalecem os discursos pró-agronegócio, os quais são fortemente assimilados e reproduzidos; inclusive por líderes políticos de partidos que se identificam como progressistas e/ou de esquerda, como o PT.

Por exemplo, a ex-Presidenta Dilma Rousseff, disse, em 2015, em solenidade de inauguração da Escola Nacional de Gestão Agropecuária (Enagro), em Brasília, que “a Pátria Agropecuária” passaria a integrar a “Pátria Educadora” (este era o slogan do seu segundo mandato). A petista afirmou, na ocasião, que o agronegócio deu muitos ganhos ao país que, por esse motivo, seu governo aumentou em 20% os recursos para o setor, mesmo em momentos de dificuldades.

Qualquer dúvida referente à apreciação do agronegócio por parte de Rousseff pode ser dirimida somente pelo fato de ela haver nomeado pecuarista Kátia Abreu ministra da Agricultura, cuja atuação é abertamente em defesa dos interesses desse setor. E se isso não for suficiente, é possível resgatar, através da mídia hegemônica, matérias jornalísticas dando visibilidade ao apoio do setor à reeleição de Rousseff, em 2014, por exemplo com declarações do chamado “Rei da soja”, Eraí Maggi, de que a Presidenta melhorou o setor, em infraestrutura, em financiamentos, etc..

Justiça seja feita a Dilma Rousseff, já que não foi a única petista que abraçou a causa do agronegócio. Em 2008, em seu segundo mandato, o Presidente Lula assinou a Medida Provisória 432/2008 para atender reivindicações do setor. Em tese, tratou-se de nada menos do que “rolagem” e “anistia de dívidas” de grandes ruralistas, que significou muitos bilhões de reais aos cofres públicos (leia-se ao povo brasileiro), recursos financeiros que poderiam seguir outro caminho, como, por exemplo, educação, infraestrutura, moradia, etc., e que gerariam mais e melhores empregos.

Estamos escolhendo mal

E nem falar dos governos que antecederam o PT. Os mandatos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), por exemplo, foram só “festa” para o agronegócio, a ponto de o setor mostrar-se reticente em relação ao governo posterior (Lula) que, como vimos, não deixou a desejar. Nos mandatos de FHC, a soja foi grande rainha do agronegócio, mas, no que se refere à safra de grãos de um modo geral, por exemplo, o Brasil alcançou as 76 milhões de toneladas na temporada 1993/1994, para 97,1 milhões de toneladas no biênio 2002/2003.

Como vemos, o agronegócio tem sido consagrado pilar fundamental da economia brasileira, em que pese o nível de destruição que causa. E o pior de tudo isso é que, aliado à burguesia rural nacional, os principais beneficiários de toda essa destruição são empresas transnacionais, as quais monopolizam a comercialização (e também a logística) desses produtos; sem contar os agentes especuladores financeiros, que ganham bilhões de dólares no mercado de commodities do setor. Trata-se da “unificação do mundo” para se fazer negócios.

É preciso que a sociedade se conscientize acerca da importância de eleger parlamentares comprometidos e comprometidas com a educação socioambiental, com o planejamento da produção com base nas reais necessidades sociais. E com o redimensionamento do sistema midiático nacional, a fim de que as publicidades capitalistas e nocivas ao conjunto da sociedade não tenham esse espaço descomunal que atualmente tem.

Isso significa afirmar que, majoritariamente, estamos escolhendo mal nossos deputados e nossas deputadas. A bancada ruralista, ou “bancada do Boi”, formada por mais de 250 parlamentares tem realizado verdadeiros estragos no Brasil. E para que isso seja barrado, essa gente precisa estar fora. É necessário que estejamos atentas e atentos nas próximas eleições. Trata-se de uma questão vital.