ARTES VISUAIS

Por CWeA Comunicação

 

A pintura de Eduardo Sued ocupa, na história da pintura brasileira contemporânea, uma posição singular, tanto pelo requinte cromático quanto pela extrema complexidade formal. A produção sistemática e intensa do artista, com o passar do tempo, foi configurando um campo pictórico autônomo, marcado pela disciplina estrita da pintura e pelo espírito de pesquisa permanente.

Eduardo Sued nasceu no Rio de Janeiro, em 1925, filho de imigrantes sírios da cidade de Homs, situada a nordeste de Damasco. Estudou na Escola Nacional de Engenharia, no Rio de Janeiro, e abandonou a faculdade no terceiro período para total dedicação às artes plásticas. Contrário às rígidas regras tradicionais e acadêmicas, preferiu frequentar as atividades dos cursos livres. Estudou pintura e desenho com o pintor alemão Henrique Boese, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, em 1949. Nos anos 1950, trabalhou como desenhista no escritório de Oscar Niemeyer; Sued sempre menciona que a matemática o permitiu cultivar, desde o início, a clareza do pensar e a disciplina na precisão do fazer.

Em seguida, viajou para Paris, lá frequentou a Académie Julian e a Académie de la Grande Chaumière, onde havia a predominância da Escola de Paris e estavam em curso as principais vertentes do cubismo — o epicentro da pintura moderna. Em 1953, retornou ao Rio de Janeiro, alinhado com as poéticas de fragmentação cubista picassianas e com os valores plásticos modernos, adquiridos durante a sua estada europeia. Estudou gravura em metal com Iberê Camargo, no ateliê da Lapa, um trabalho minucioso e quase artesanal; aprendeu várias técnicas importantes para a sua formação profissional. Passou a produzir gravuras conhecidas como águas-tintas, com cores justapostas em tonalidades suaves, realizadas sobre superfícies granuladas do metal.

A princípio, havia, em seu trabalho, a presença de um expressionismo de âmbito figurativo, derivado da absorção das linguagens vanguardistas e de seu aprendizado europeu. Segundo o artista:

A espacialidade é hoje, em meus trabalhos, a mais forte presença entre os elementos formais da pintura. Daí o vazio! Daí as paisagens de Monet, Pissarro, os pré-renascentistas, os planos frontais de Velázquez e Rembrandt (“A ronda noturna”), de Matisse (o “Ateliê vermelho”, as grandes colagens) ou de Picasso (“Guernica”), a me terem vivamente impressionado. […] Tudo foi decantado. E a figura perdeu o seu sentido.

Sued segue o seu caminho, sem se filiar jamais a nenhum movimento ou programas estéticos, mantendo-se independente e distante das discussões entre figurativos e abstratos e/ou das dissidências entreconcretos paulistas. Nos anos 1960, também não se submeteu à nova ordem figurativa que estava em vigor. As ideias construtivas encontraram um intenso desenvolvimento no cenário da arte brasileira, após a inauguração da I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Os pioneiros construtivistas russos, como Vladimir Tatlin, Rodchenko e Kasimir Malevich, os holandeses vinculados ao neoplasticismo, como Piet Mondrian e Theo van Doesburg, fundadores do De Stijl, e o alemão Josef Albers lidavam diretamente com as questões relacionadas com o campo cromático. O crítico de arte e seu grande amigo Ronaldo Brito, que acompanha seu trabalho desde os anos 1960, afirmou que “Eduardo Sued é o grande desinibidor da linguagem abstrata de origem construtiva, na pintura moderna brasileira”.

A produção pictórica de Eduardo Sued traz as ambiguidades contemporâneas, evoca as vertentes da vanguarda europeia e reafirma a inclinação da arte brasileira para a herança histórica do construtivismo. O legado do pensamento construtivo está presente no seu pensamento estético. A pintura é a sua linguagem, exaustivamente exercitada, extremamente atuante, que discute, rediscute, desafia a si e a sua obra. Sued soube adequar seu trabalho às questões da arte contemporânea, enquanto desenvolvia uma linguagem pictórica baseada na investigação de campos cromáticos e na problematização do espaço. A cor é o elemento formativo e fundamental de sua trajetória, assim como a geometria estrutura a organização da superfície das telas.

 

Eduardo Sued_2017 Oléo sobre tela 70x80cm Assinado e datado no verso – Crédito: Jaime Acioli

 

Ele tem um processo ininterrupto de pintura e suas inquietantes geometrias, aliadas aos seus audaciosos contrastes cromáticos, apresentam-nos verdadeiros dilemas para as certezas composicionais, com forte evidência de um vigor poético. Entre os artistas que marcaram fortemente os seus trabalhos, Sued fala a esse respeito: Klee, Picasso e Mondrian condicionaram-me ao desenvolvimento da percepção, do meu estar na arte. Tenho grande admiração por Miró, Morandi, Giacometti, Brancusi, Léger, De Chirico e o grupo Bauhaus.

A sua experiência estética do mundo, com sua pluralidade cromática, legitima o sentido da realidade atual. Encontramos, além da gramática do legado construtivo, o caráter inquieto dos planos indeterminados e descontínuos cézannianos, as cores decididas e saturadas matisseanas, as fragmentações cubistas picassianas, a ordenação clara e ortogonal da estrutura neoplástica de Mondrian. Segundo o artista: “logo percebi que a proposta de Mondrian não era uma extrapolação impensada, mas um grande salto, não para fora, mas para dentro da própria pintura”. O crítico de arte Ronaldo Brito definiu o seu trabalho como uma pintura reflexiva: “As telas de Sued preferem se converter em lugares propícios ao exercício filosófico da visão”.

Realizou sua primeira exposição individual na Galeria Bonino, no Rio de Janeiro, em 1958, quando apresentou os elementos fundamentais do seu pensamento plástico, as pinturas, guaches e aquarelas, com uma caligrafia cromática e uma linguagem da abstração geométrica. Participou da 41ª Bienal de Veneza, em 1984, com um trabalho inédito, composto de faixas de seda pura coloridas que substituem as tiras verticais alongadas de cor na superfície da tela, como negação da profundidade, na fronteira do tridimensional. Acompanho a trajetória de Sued há muitos anos e conheci o seu ateliê na Rua Viveiros de Castro, em Copacabana, e o ateliê na Rua da Alfândega, no Centro do Rio de Janeiro, onde realizou o trabalho para a Bienal de Veneza, composto de áreas cromáticas cortadas em tecido de seda pura, que atuam no movimento da superfície da obra, como um questionamento dos limites da pintura.

Nos anos 1980, surgem novos elementos em seu trabalho. A base da tela rompe o contorno da totalidade da superfície e pulveriza o espaço construído pela forma do quadrado. Uma espécie de “rodapé pictórico”, no qual as diferenciadas zonas cromáticas são divididas em segmentos desiguais, que interrompem a extensão contínua das cores. Em suas palavras: “a base rompe o contorno do quadro, faz com que ele deixe de ser só um quadrado”.

No seu pensamento plástico, o ato de pintar tem uma intensa relação com a música. Não trabalha apenas com os olhos, mas com os ouvidos para escutar as exigências das telas. As cores servem para serem vistas e ouvidas e menciona que, quando ele está em dúvida, fecha os olhos e aproxima o ouvido da tela, pensando nos valores de claro e escuro. As cores desabrocham aos poucos: “Ouço o que a tela pede. Costumo ouvir as cores para poder fazer a estrutura cromática das telas”. Utiliza essa correspondência como metáfora da sua vivência pictórica, recomenda ao artista trabalhar com os ouvidos para escutar as exigências das telas.

O vocabulário Sued é baseado em estruturas geométricas e ousadas oposições cromáticas, uma totalidade plástica original com uma grande liberdade no tratamento da cor, por vezes saturadas, com combinações ou dissonâncias cromáticas, mas sempre construindo novos direcionamentos.

Sued busca harmonizar coisas que não se harmonizam; cores que não se irmanam. O artista parece estar sempre provocando novas situações, assim como as dissonâncias musicais, sendo um ouvinte da música de Arnold Schönberg, Alban Berg, Anton Webern, a famosa segunda escola de Viena, que trabalhavam no sentido da dissolução do sistema tonal, conhecidos pela nova organização sonora, como uma consequência da inevitável desagregação do sistema tonal — o dodecafonismo, escrita musical em que nenhum dos 12 sons da escala cromática tem maior importância do que os outros.

Eduardo Sued_2006 Grafite e recorte sobre papel 110x80cm Assinado e datado no verso – Crédito: Jaime Acioli

O que significa romper com um sistema ou situação estabelecida. Nas numerosas visitas que realizei ao ateliê do artista, havia sempre uma música tocando, muitas vezes dissonante. Sued mencionava que a distância entre um acorde e outro conseguia entrever a presença de um contraponto na pintura, nos valores de claro/escuro e luminosidades. Afirmou em uma entrevista:

Ao ouvir música, vejo-me ligado aos seus intervalos, acordes e dissonâncias, aos seus contrapontos e harmonias. Tento promover em mim essa mesma vivência através das cores, em suas diferenças de luminosidades, saturações e silêncios. Os silêncios cromáticos, por exemplo, se referem às séries branca, cinza e preta. Acho que existem presenças distintas de silêncio e, portanto, um conceito de silêncio. Fico a ver estruturas musicais consistentes em Webern, Hindemith, Alban Berg, Thelonius Monk, Mozart e Bach.

Em 1998, período em que eu era diretora do Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, convidei Eduardo Sued para realizar uma exposição individual, com curadoria de Paulo Sergio Duarte. Essa mostra reuniu cerca de 40 obras, perfazendo vinte anos de trabalho e algumas pinturas recentes. O artista apresentou uma instalação intitulada “Objetos”, em homenagem ao pianista e compositor de jazz Thelonious Monk. São as intituladas réguas, objetos tridimensionais de madeira pintada, geralmente agrupadas e encostadas ou presas na parede.

A obra de Paul Klee teve uma enorme importância para o seu trabalho e é considerado um ponto seminal para o desenvolvimento das colagens, que passam a estar presentes em seus trabalhos a partir dos anos 1970. Recebeu do amigo Ângelo de Sá, que estudava na Alemanha com Heidegger, um álbum de reproduções de Klee. Ao folhear o livro, as reproduções eram áreas cobertas de pigmentos prateados e purpurinados, que escorriam pelas páginas do álbum. As telas de superfícies prateadas advêm da identificação de Sued com a memória das imagens retidas nesse livro de Klee. Eduardo Sued realizou uma exposição com esses novos trabalhos na Galeria Prisma, no Rio de Janeiro, em 1970. Os seus desenhos e pinturas passam a apresentar pedaços de madeira, recortes de papel e/ou sobreposições de camadas cromáticas, que dinamizam a superfície planar da tela, evidenciando o uso da colagem, agora incorporada ao seu pensamento. Na estrutura cromática de suas telas, permeada por audaciosos contrastes, passam a habitar também perfurações, metais e outras colagens, que evidenciam a sua nova investigação relativa às questões da luminosidade e da cor. As colagens derivam diretamente das referências cubistas e da influência dos trabalhos de Klee que permitiu que eu pudesse usar qualquer coisa, qualquer objeto, qualquer ferramenta. Desde que você esteja dentro da criação, você pode usar o que você quiser: régua, compasso, qualquer cor. Tudo está a seu alcance, qualquer coisa, colagem, colar papel é livre. Em 1974, realizou uma exposição na Galeria Luiz Buarque de Hollanda e Paulo Bittencourt, no Rio de Janeiro, com trabalhos em que as colagens estavam presentes e grandes áreas de cor, agora de visualidade plena: “Não mais anexa coadjuvante de um espetáculo estrutural, mas como uma das partes formativas essenciais da obra”.

 

Eduardo Sued_1982 Oléo sobre tela 85x300cm Assinado e datado no verso – Crédito: Jaime Acioli

 

Até os anos 1980, o comportamento do pincel não aparecia na estrutura das telas, que apresentavam diversas tonalidades de cor, com modulações bem ordenadas, porém lisas. Em 1982, na exposição de Eduardo Sued no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, foram apresentadas diversas telas com novas soluções, agora uma palheta com intensas vibrações coloridas e pinceladas oblíquas; na opinião do crítico de arte Wilson Coutinho: “Uma pintura de pequenos escândalos”. Sued passa a ativar a superfície do plano, ao libertar as pinceladas com outros movimentos, alterando a textura e contrariando a lisura praticada nas superfícies uniformes até então. A estrutura da superfície pictórica apresenta uma perturbação, uma nova visibilidade de sua gestualidade, uma espécie de distúrbio, em contraste com a sua habitual regularidade.

Na década de 1990 suas obras apresentam outros dilemas, com as pinceladas espessas e descontínuas, uma nova oposição à superfície planar, adquirindo maior complexidade com o acréscimo de recortes de madeira e elementos tridimensionais, como um questionamento dos limites da pintura, contrapostos aos acúmulos de matéria. Sued chama de pintura-relevo, onde existe a junção da tela com tocos de madeira e afirma:

Era um desejo de pular um pouco para o espaço […] eu fui levado para a terceira dimensão. Mas continua sendo muito pintura. Basicamente pictórico, eu lido com o espaço de três dimensões como se fosse um plano, o resultado é este, uma coisa muito mesclada, um bloco com planos, uma peça espacial. Apesar de haver presenças ou elementos escultóricos, eu sou pictórico.

Até então, tinha uma fatura quase imperceptível, lisa, e a superfície da tela começa a se agitar, com uma aparência mais perturbada e encrespada. Sua técnica passa a adquirir maior espessura, mais densidade e as pinceladas tornam-se mais largas, descontínuas e mais evidentes. As pequenas perfurações aparecem em algumas telas, criando uma espécie de descontinuidade na superfície. As telas luminosas e prateadas passam a dinamizar a superfície das telas, numa tensão vibrante de campos monocromáticos.

Eduardo Sued_2003 Óleo sobre telas coladas em madeira 56x55cm Assinado e datado no verso – Crédito Jaime Acioli

O prata é o vazio, mas um vazio que é o lugar de alguma coisa e contém a presença do invisível. O vazio vitalizado representa as coisas sem gravidade e sem peso, e foi se estendendo como uma potência na tela. É como se eu estivesse lidando com entes invisíveis e ausentes. Por repudiar algumas cores e conservar outras, o prateado — um autista muito exigente — instaura a ordem na tela.

Em 2004, realizamos uma mostra individual intitulada “Eduardo Sued: a experiência da pintura”, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma curadoria em parceria com Ronaldo Brito. A exposição deu ênfase a trabalhos, agora em formatos de grande escala, nos quais Sued agrega à sua pintura sarrafos de madeira pintada nas bordas, exaltando uma condição pública para os seus trabalhos; houve também uma sala especial, com obras mais antigas, consideradas exemplares, sendo eleita a exposição do ano.

Sued tem uma produção contínua e incessante, pois mantém uma rotina. Trabalha diariamente em seu ateliê, projeto arquitetônico de seu amigo Luiz Paulo Conde (1934-2015), situado em um condomínio em Jacarepaguá́, no Rio de Janeiro. Considera o lugar da criação, o lugar onde as coisas são geradas. Ele declarou que o próprio ateliê tem o seu mundo. “Os objetos que estão dentro desse espaço e pertencem a você. Por essa razão, Miró e Giacometti, também, gostavam de ter o ateliê repleto de trabalhos. É aqui nesse lugar que o artista resolve fazer alguma coisa.” Sued mantém há muitos anos a mesma rotina: acordar cedo e ir para o seu ateliê, dizendo sempre que nasceu com essa vitalidade, que o trabalho é fundamental, uma necessidade interior de estar sempre se desenvolvendo, e que sai diariamente, exaurido do ateliê. Nas suas palavras:

“Eu acho importante estar no ateliê, com regularidade. Porque eu me aconteço no ateliê. Se estou em outro lugar eu levo comigo o meu ateliê, eu fico pensando, a gente está sempre remoendo alguma coisa. Venho todos os dias, mas eu não sou obrigado a produzir todo dia, não existe obrigação, se pintar este toque, tudo bem, se não pintar, tudo bem, não há problema. A coisa tem que vir naturalmente, silenciosamente, na ausência do nada. Quando sua cabeça está vazia é que acontecem as coisas, relaxa, entra no nada, ali vão surgir as coisas, ali dentro é que surgem as coisas. Não tem que forcar coisa nenhuma. Por isso que eu gosto de dizer que: as portas do céu só́ abrem para fora”. Essa última frase é uma referência a Sören Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX, sempre citado pelo artista.

A natureza diversa das cores e suas oposições cromáticas e contrastes, sua busca permanente pelos tons baixos e opacos e o seu controle da forma e da luminosidade são esclarecidos pelo próprio artista. Sued menciona que introduziu o branco devido a um artigo de Jean-Paul Sartre no “Temps Modernes”, que fala das centelhas do branco.

Menciona, também, a forte impressão causada pela tela “Artemisia”, de Rembrandt, de 1634, que ele observou no Museu do Prado; nessa obra a superfície branca, intensa e luminosa, não permite a penetração do olhar. Sued usava o cinza colorido, mas hoje está mais presente o cinza neutro, utilizado por Matisse. Aqui presenciamos também um produtivo diálogo com Giorgio Morandi, um contraste sutil com as tonalidades mais baixas, talvez um repouso interior segundo o artista. Passa a utilizar as cores prateadas e as exuberâncias douradas quase bizantinas, em extensões coloridas, que aparenta uma identidade cromática própria, com o seu valor luminoso.

Nas suas vibrações cromáticas, considera o pigmento preto uma presença, e o negro, a transparência. “O amarelo é voluntarioso, um autista, um marginal”. A respeito do leque de cores que estão presentes em seus trabalhos, ganha uma melhor definição em uma importante declaração do artista, na entrevista dada ao jornalista Antônio Gonçalves Filho, em matéria publicada em O Estado de S. Paulo, em 1999:

“Basicamente utilizo magenta, vermelho de cádmio claro, vermelho púrpura, ocre vermelho, terra de siena queimada, vermelho de veneza; amarelo de cádmio, laranja, ocre amarelo, verde-esmeralda, verde veronese, azul ultramar claro, azul cobalto claro, azul-turquesa, azul da prússia, violeta cobalto claro, preto marfim, preto de marte, branco titânio e branco de zinco. Esse conjunto, selecionado a partir do mostruário de cores vendidas pelo comércio, constitui o que chamo paleta física do artista. A paleta real é, porém, indefinida. É o conjunto de suas cores, obtidas a partir daquelas. Essas novas cores não têm nome.”

Apesar da proximidade com Iberê Camargo, esclarece que, apesar da admiração, não usa o pigmento preto da mesma forma que foi utilizado por Iberê. E faz uma ampla e esclarecedora distinção:

O negro é uma alta saturação de preto. O preto que tem uma grande energia negra é o negro. Há uma escala do preto do negro com diversas saturações. Em quase todo quadro onde saturações e luminosidades criam fortes planos e contrastes. Estas diversas saturações de preto e negro criam diversos fundos reais, que são elementos, formas da pintura. Um quadro preto e negro tem diversos planos devido às saturações e luminosidades, um é mais luminoso, que o outro. A presença de uma cor neste contexto, qualquer cor, inclusive o branco, pode saturar a cor vizinha.

A imersão nos negros e as pinceladas com toques mais espessos passam a ocupar todas as áreas, com distintos tratamentos. As pinturas que trazem a orquestração de negros empolgantes e densas pinceladas dialogam com a plasticidade presente nas obras de Diego Velázquez, Francisco Goya, Édouard Manet. Frequentemente exclama, durante as muitas visitas ao seu ateliê: “Há qualquer coisa espanhola nessas pinturas. É a Espanha!! É Goya!! É o Mediterrâneo!!” Em uma de suas viagens, a sua potência poética pode ser transcrita através dos reflexos luminosos nas águas do Guaíba, no Rio Grande Sul, que criaram uma identificação sua com o pensamento de Cézanne: “A cor é o lugar onde o Universo e o nosso cérebro se encontram”.

Duas exposições brotam simultaneamente junto com a materialidade das cores de Eduardo Sued, na Danielian Galeria e na Cassia Bomeny Galeria. Ambas apresentam diversos trabalhos que revelam seus procedimentos e estratégias que apontam para as resoluções na prática pictórica do seu universo plástico. Permitem um olhar amplo, retrospectivo e reflexivo sobre a trajetória desse grande artista, um pensador e o maior colorista do cenário artístico nacional. Um turbilhão de formas e de cores. Na sua afirmativa: “Tudo é cor, pode haver sonatas, sinfonias …”

Vanda Klabin é historiadora e curadora de arte. Nasceu, vive e trabalha no Rio de Janeiro.