O G20, um clube exclusivo de nações majoritariamente ricas, reuniu-se pouco antes da COP26 em Glasgow e, para preservar seu próprio domínio financeiro, deram pouco mais que um apoio de fachada aos principais problemas do mundo.

Por Sonali Kolhatkar

Pela primeira vez desde o início da pandemia COVID-19, os chefes de estado das nações mais ricas do mundo se reuniram pessoalmente na recente Cúpula do G20 em Roma, na Itália. O encontro de dois dias acabou em um grande jantar no Palácio do Quirinale, onde o cardápio da noite contou com salmão com endro, risoto de abóbora, filés de robalo,massa folhada com tomates e      aipo, e, para sobremesa, um “delicado” creme de tangerina no vapor. Os convidados se sentaram em torno de uma grande mesa de jantar formal em uma sala palaciana de teto alto com um impressionante lustre de cristal e cortinas vermelhas com franjas cobrindo as  janelas.

O jantar foi o equivalente moderno da frase  “que comam os brioches”, comumente ( e erroneamente) atribuída a Maria Antonieta, a última rainha da França antes da  Revolução Francesa, também vista como um símbolo do luxo frívolo ostentado pela classe dominante. Os líderes das nações do G20, que se reuniram sob a bandeira de “Povo, Planeta, Prosperidade“, parecem ter se concentrado desproporcionalmente no terceiro item de sua agenda e limitaram o debate  à prosperidade de elites como eles. Nas três questões críticas (as mudanças climáticas, a tributação corporativa global e as vacinas da COVID-19), as nações mais ricas do mundo se salvaram às custas do resto do mundo.

Ao contrário da Assembleia Geral das Nações Unidas, que representa todas as nações do mundo, o G20 é um clube privado e auto-elegido do alto escalão da riqueza global, apenas um degrau abaixo do mais exclusivo ainda  clube do G7. Seus membros são, em sua maioria, potências econômicas, com algumas exceções de nações em desenvolvimento, como a Índia, a China, a África do Sul, o México e a Argentina.

Anunciando orgulhosamente que as nações do G20 “representam mais de 80% do PIB mundial” e “75% do comércio global”, o clube estabelece as regras das finanças globais. O anfitrião da cúpula e primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, disse que a reunião de 2021 demonstrou que a tomada de decisões multilaterais é mais uma vez possível. Draghi declarou “Conseguimos, no sentido de manter nossos sonhos vivos”, sem mencionar o quão autossuficiente o clube exclusivo realmente é     .

Embora a 26ª reunião da Conferência das Partes das Nações Unidas (COP) em Glasgow, na Escócia, esteja atualmente gerando mais manchetes do que a cúpula do G20 deste ano, as nações ricas tomaram muitas de suas decisões preliminares sobre as mudanças climáticas na reunião do clube antes da conferência global do clima. Apesar de  eles chegarem a um acordo sobre algumas questões, como cortar o financiamento para usinas de carvão  e chegar a emissões “nulas” em algumas décadas, os defensores do clima consideraram as promessas como “o mínimo”. Draghi admitiu: “É fácil sugerir coisas difíceis. Mas é muito, muito difícil realizá-las “.

Eric LeCompte, diretor executivo da Jubilee USA Network, explicou em uma entrevista que os países em desenvolvimento estão sofrendo com o fato de que “seus recursos naturais foram levados durante o período de industrialização que ocorreu na Europa e nos Estados Unidos nos anos 1800 e 1900, alimentando a crise climática”.

Muitas dessas mesmas nações foram deixadas de fora das recentes discussões sobre o clima do  G20, pois são pobres demais para serem consideradas membros do clube exclusivo. Resta saber se esses países      conseguirão obter compromissos maiores na COP26.

LeCompte refletiu: “parece que agora há muito desespero entre os países em relação ao que será possível cumprir como, por exemplo, as promessas do financiamento de US $ 100 bilhões para ajudar as nações mais pobres a combater as mudanças climáticas. Aliás, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou no Twitter ao fim do evento: “Embora eu acolha o novo compromisso do G20 para soluções globais, deixo Roma com o sentimento de que minhas esperanças foram em vão”.

Além de suas promessas climáticas insuficientes e vergonhosas, os líderes do G20 se parabenizaram por abordar a questão da evasão fiscal corporativa. O grande acordo ao qual  eles chegaram foi uma taxa mínima de 15% de imposto para as empresas ricas. Elogiado como um acordo  histórico, o objetivo era garantir receitas fiscais confiáveis às grandes corporações, que correm atrás dos paraísos fiscais que lhes oferecem condições lucrativas. A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, declarou que o acordo “acabaria com a corrida prejudicial ao fundo da tributação corporativa”.

O diretor ainda comentou que a taxa mínima de 15% foi “certamente um progresso, mas está aquém das exigências mais ambiciosas do governo Biden que antes eram de 27 a 28%”. E, surpreendentemente, o acordo isenta as empresas de tecnologia digital em grande parte situadas nos EUA, como Google, Facebook, Amazon e Apple, de estarem sujeitas a essa taxa simples. Os EUA pressionaram o G20 em nome dessas grandes empresas para abrir uma brecha.

LeCompte explicou que “esse acordo realmente só apoia e ajuda os países ricos”. Apesar de os Estados Unidos arrecadarem um adicional de US$ 60 bilhões    em receita se o acordo for realmente adotado, as nações em desenvolvimento não verão  um aumento muito maior nas receitas e serão particularmente  impactadas pelas isenções fiscais às empresas de tecnologia digital. Até o Wall Street Journal admitiu que o acordo fiscal do G20 “faz dos países ricos os grandes vencedores”.

As nações do G20 também são beneficiárias desproporcionais da tecnologia das vacinas contra a COVID-19. Draghi abriu os trabalhos da cúpula reconhecendo que as nações mais ricas do mundo têm taxas de vacinação de cerca de 70%, enquanto apenas 3% dos residentes nas nações pobres foram vacinados. Ele chamou essa lacuna de “moralmente inaceitável”.

Sem dúvidas, LeCompte compartilhou que “a crise em muitos países em desenvolvimento é horrível”, e “a maioria dos países está  enfrentando perdas econômicas por não terem acesso às vacinas”. Antes da cúpula, ele esperava que o G20 oferecesse um plano concreto para financiar e distribuir vacinas para as nações mais pobres do mundo. E, ainda assim, na cúpula, “eles não fizeram isso”, disse LeCompte. Em vez disso, ele afirma que “eles apresentaram um processo para fazê-lo”.

Esse processo foi essencialmente para criar uma força-tarefa, que, segundo uma declaração assinada pelos líderes do G20, visa “melhorar o diálogo e a cooperação global em questões relacionadas à prevenção, preparação e resposta à  pandemia”. O  grupo de advocacia Global Citizen, descartou tais demonstrações de apoio de fachada, dizendo: “Não é mais o momento para declarações de intenções. Agora é a hora de nossos líderes agirem.”

Entre as únicas conquistas relacionadas à pandemia no G20 estava um acordo que os EUA providenciaram para que a União Africana comprasse 33 milhões de doses da vacina Moderna originalmente destinadas à venda para os EUA — um  parâmetro vergonhosamente baixo para o sucesso na equidade da vacina.

Enquanto os líderes do G20 e seus cônjuges desfrutavam  de sua fina experiência gastronômica no final de sua reunião de dois dias, ficou claro que a cúpula era pouco mais do que um exercício de grandes pontificações do multilateralismo. Como os mais altos escalões da sociedade francesa pré-revolucionária, as nações ricas do mundo permanecem fora de contato com a realidade.


Esse artigo foi produzido pela  Economy for all, um projeto do Independent Media Institute.

Sonali Kolhatkar é o fundadora, apresentadora e produtora executiva do “Rising Up With Sonali”, um programa de televisão e rádio que vai ao ar nas estações Free Speech TV e Pacifica. Ela é escritora do projeto Economy for All no Independent Media Institute.

 

Traduzido do inglês por: Doralice Silva/ Revisão por: Paula Nishizima.