OLHARES

Por Clementino Jr.

“Respeito é pra quem tem.” (Sabotage)

Uma das atividades que mantive e até propus com mais frequência durante o isolamento social foi o cineclubismo. Toquei dois cineclubes desde abril de 2020: o CAN (Cineclube Atlântico Negro) e o seu fruto mais estimado, o CineGEASur, atividade de extensão criada no grupo de estudos do qual faço parte, o GEASur.

As sessões do CineGEASur são planejadas em formato diferente do CAN. Nós divulgamos o link na semana anterior ao debate e o público participante adapta o momento de assistir ao filme, acompanhando e participando dos debates por chat ao vivo, nas segundas-feiras, a cada quinze dias. No dia 26/07, dia de Nanã no Candomblé, quando também comemorado o Dia dos Avós, exibimos o curta-metragem baiano “Distopia”, da cineasta Lilih Cury. No entanto, este texto não é uma resenha sobre o potente curta que aborda a pedofilia, mas sobre os gatilhos que ele dispara, sem qualquer metáfora ou trocadilho bélico, ainda que faça sentido que se leia como tal.

O nome deste texto é “sentido”, inspirado no título original do projeto do curta-metragem mencionado, e se propõe a buscar um sentido para tudo o que vem acontecendo nos olhares daqueles que, em sua função, dizem essa palavra ao menos uma vez ao dia, todo o dia.

SENTIDO!

Na tradição militar, quando se profere, diante de uma tropa, a palavra “sentido”, se impõe o respeito, imediatamente, em corpos disciplinados, que enrijecem suas posturas e causam ruídos ao juntar os pés e as mãos. Isso se entendermos obediência sistematizada como respeito.

Não devemos pensar que todo aquele que “faz sentido” tem respeito, assim como também não devemos julgar que “quem não faz sentido” não respeita o próximo. Afinal, seria o mesmo que achar que, por trás de uniformes, não existem sujeitos com suas particularidades. Por mais que se leia Foucault ou que se tenha servido às forças armadas, a palavra uniforme não torna todos parte de um todo, sem exceções à regra. Por isso creio que o pária da tropa, que agora divide todas as tropas entre quem está ou não está com ele, mostra muito sobre o que a sociedade, fardada ou não, se tornou. A sociedade não é uniforme, cada oficial que dita o comando “sentido” não é igual ao outro. Mas o pária — essa exceção à regra — pode alimentar as diferenças que lhe trazem algum conforto, sem precisar “fazer sentido”, batendo continência ou não.

Continência, fora das forças armadas, se refere às ações que, em conjunto, são harmônicas, seja como evidência de um crime ou de interesse das partes. A continência faz sentido assim, pois são elementos que se reconhecem diferentes, mas que têm algo em comum. A diferença nos sentidos dessas palavras talvez esteja no poder que é conferido às relações ditas de respeito.

Sem mais delongas, ou buscando novos sentidos para o “sentido”, pergunto: se dá respeito à toda sociedade que não está nesta hierarquia? Como isso se manifesta hoje? Há diálogo e transparência ou devemos também “fazer sentido” para demonstrar respeito?

A tropa não tem comando e, aparentemente, nem se vê como uma tropa, mas como várias. E só estão em continência sobre o silêncio de quem aguarda. Ou de quem continua aguardando.

A experiência sem liberdade vivida intensamente pela sociedade, há meio século, comprova a máxima de que figurinha repetida não completa o álbum. E de que, onde se supõe que estamos em continência, na verdade, estamos em retrocesso. Marchando para trás, sem olhar onde pisamos, sem fazer parte da tropa, só obedecendo por medo. Quando o pária diz à tropa “descansar”, não faz mais sentido. E haverá um momento em que não haverá mais quem obedeça.

Espero que a solução não precise ser como a que o protagonista do filme “Distopia”, outrora “Sentido”, pensa para resolver a sua questão pessoal. Mas o sol da liberdade, tão cantado no hino, só vai brilhar quando o respeito, para garantir o trocadilho, fizer sentido.

“Finda a tempestade, o sol nascerá” (Cartola)

Texto dedicado à Lilih Curi, Gleice Máira e a Leonardo, Sonia e Brendah, parceiros de cineclube. Contou com a revisão crítica de Tayna Arruda.