Juntamente com um forte aumento nas greves sindicais, as demissões em massa indicam uma profunda insatisfação dos trabalhadores em todo o país.

Por Sonali Kolhatkar

Em 14 de setembro, uma jovem na Louisiana, chamada Beth McGrath, postou um vídeo dela no Facebook enquanto estava trabalhando no Walmart. Sua linguagem corporal revela nervosismo enquanto ela cria coragem para anunciar sua demissão aos clientes, pelo alto falante da loja. “Todo mundo aqui está sobrecarregado e ganha pouco”, ela começa, antes de chamar pelo nome gerentes específicos que tiveram um comportamento impróprio e abusivo. “Espero que vocês não falem com suas famílias da maneira como falam conosco”, afirmou McGrath antes de terminar com “F ***-se este trabalho!”.

Talvez McGrath tenha se inspirado em Shana Ragland, de Lubbock, Texas, que há quase um ano pediu demissão publicamente, em um vídeo do TikTok, que ela postou da loja do Walmart onde trabalhava. As queixas de Ragland eram semelhantes às de McGrath, pois ela acusava os gerentes de constantemente desvalorizarem os funcionários. “Espero que você não fale com suas filhas do jeito que fala comigo”, disse Ragland, pelo alto falante da loja, antes de desligar com: “F ***m-se os gerentes, f***-se esta empresa”.

As demissões dessas duas jovens, com seus vídeos que se tornaram virais, estão marcando um ano de volatilidade para a força de trabalho estadunidense, um fenômeno que os economistas estão chamando de “A Grande Renúncia” (Great Resignation, em inglês). As mulheres, em particular, estão liderando essa tendência.

A gravidade da situação foi confirmada pelo último relatório da Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos (em inglês, Bureau of Labor Statistics), que revelou que um número recorde de 2,9 % da força de trabalho abandonou seus empregos em agosto, o que equivale a 4,3 milhões de demissões.

Se uma taxa tão alta de demissões assim estivesse ocorrendo em um período em que houvesse ofertas abundantes de emprego, isso poderia ser visto como sinal de uma economia em expansão, momento em que os trabalhadores podem escolher entre as ofertas de trabalho. Mas, o mesmo relatório de trabalho mostrou que as oportunidades de emprego também diminuíram, o que sugere que algo mais está acontecendo. Uma , feita com pessoas que estão empregadas, descobriu que mais da metade dos trabalhadores quer deixar seus empregos. Muitos citam empregadores negligentes e a falta de flexibilidade de horários como motivos para querer sair do emprego. Em outras palavras, milhões de trabalhadores estadunidenses simplesmente estão fartos da situação.

A turbulência no mercado de trabalho é tão séria que Jack Kelly, colaborador sênior da Forbes.com, revista pró-corporativa de negócios e economia, definiu a tendência como “uma espécie de revolução dos trabalhadores e um levante contra patrões ruins e contra empresas alienadas que se recusam a pagar bem, e que ainda por cima tiram proveito de sua equipe”. No que pode ser uma referência a vídeos que se tornaram virais, como os de McGrath e de Ragland, e também à tendência crescente de postagens com a hashtag #QuitMyJob (#, em tradução livre), Kelly ainda afirma: “Quem aderiu à tendência e deixou o emprego está fazendo uma declaração poderosa, positiva e ao dizer que não aceitará mais o comportamento abusivo”.

Ainda assim, alguns consultores sugerem combater a fúria do trabalhador com “exercícios para o fortalecimento do vínculo de equipe”, como “compartilhar gratidão” e participar de jogos. Outros sugerem aumentar a confiança entre trabalhadores e chefes ou “exercitar a curiosidade empática” com os funcionários. Mas essas abordagens superficiais perdem totalmente o foco.

As demissões devem ser vistas em conjunto com outra poderosa corrente que muitos economistas estão ignorando: uma crescente disposição dos trabalhadores sindicalizados para entrar em greve.

As equipes de filmagem podem interromper o trabalho em breve, pois 60.000 membros da Aliança Internacional de Funcionários do Palco Teatral (International Alliance of Theatrical Stage Employees, IATSE, em inglês) anunciaram uma greve nacional iminente. Cerca de 10.000 funcionários da empresa John Deere (líder mundial na fabricação de equipamentos agrícolas), representados pelo sindicato United Auto Workers, também estão se preparando para entrar em greve, após rejeitarem um novo contrato. O consórcio de gestão em saúde Kaiser Permanente está enfrentando uma potencial greve de 24.000 de seus profissionais de enfermagem e de outros profissionais de saúde na região oeste dos Estados Unidos, por causa dos baixos salários e das precárias condições de trabalho. Finalmente, cerca de 1.400 trabalhadores da Kellogg em Nebraska, Michigan, Pensilvânia e Tennessee já estão em greve por causa das baixas remunerações e dos escassos benefícios.

As greves anunciadas estão vindo como uma enxurrada, o que levou o ex-Secretário do Trabalho dos Estados Unidos, Robert Reich, a chamar a situação de “greve geral não oficial”.

Ainda assim, o nível de representação sindical nos Estados Unidos permanece extremamente baixo — resultado de décadas de esforços, orquestrados por , com o objetivo de minar o poder de barganha dos trabalhadores. Hoje, apenas cerca de 12% dos trabalhadores estão sindicalizados.

O número de greves e de trabalhadores em greve poderia ser muito maior se mais trabalhadores estivessem sindicalizados. Trabalhadores não sindicalizados, como McGrath e Ragland, contratados por empresas historicamente , como o Walmart, poderiam ter sido capazes de se organizar com seus colegas de trabalho, em vez de recorrer a demissões individuais. Embora as postagens virais dessas demissões tenham um impacto sobre a discussão que envolve a insatisfação do trabalhador, elas têm pouca influência direta na vida dos funcionários e dos colegas que ficaram para trás.

Um exemplo de como a organização sindical marca uma diferença concreta nas condições de trabalho é um novo acordo que acabou de ser ratificado por 7.000 funcionários das drogarias Rite Aid e CVS, localizadas em Los Angeles. O sindicato United Food & Commercial Workers (União Alimentícia e dos Trabalhadores Comerciais/UFCW), Local 770, negociou um aumento salarial de quase 10% para os trabalhadores, bem como maiores benefícios e melhores condições de segurança do trabalho.

E quando as empresas não cumprem um acordo, em vez de negociarem apenas de maneira individual, os trabalhadores têm mais poder de barganha se atuarem como unidade coletiva. Veja, por exemplo, o caso dos trabalhadores da Nabisco que entraram em greve em cinco estados no último mês de agosto. A Mondelez International, empresa controladora da Nabisco, teve lucros recordes durante a pandemia, gerados pelas vendas crescentes de seus salgadinhos e demais produtos. A empresa estava com tanto dinheiro sobrando que recompensou seu CEO com uma remuneração anual no valor colossal de USD 16,8 milhões e gastou USD 1,5 bilhão em recompras de ações no início deste ano. Enquanto isso, o salário médio dos trabalhadores era de USD 31.000 por ano, um valor baixíssimo. Além disso, muitos postos de trabalho da Nabisco foram transferidos para o México, onde a empresa conseguia reduzir ainda mais os custos com a mão de obra.

Depois de semanas de piquete, os trabalhadores em greve da Nabisco, representados pelo sindicato dos trabalhadores da indústria de processamento de alimentos (Bakery, Confectionery, Tobacco Workers & Grain Millers International Union), retornaram ao trabalho após conseguirem modestos aumentos retroativos de 2,25%, bônus de USD 5.000 e maiores contribuições do empregador para os planos de aposentadoria. A empresa, que relatou um aumento de 12% na receita no início deste ano, tem condições de arcar com esse custo e muito mais.

Juntamente com as demissões em massa, essas greves de trabalhadores revelam uma profunda insatisfação com a essência do mercado de trabalho estadunidense, algo que vem se desenvolvendo há décadas. A América corporativa tem desfrutado de um forte controle político, na medida em que gasta seus lucros fazendo lobby junto ao governo e, com isso, garante lucros ainda maiores à custa dos direitos dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o poder dos sindicatos diminuiu — uma tendência diretamente ligada ao aumento da desigualdade econômica.

Mas, agora, com os trabalhadores exercitando seu poder, a América corporativa está ficando preocupada.

Como consequência dessas greves e demissões, os legisladores estão trabalhando ativamente para fortalecer as leis trabalhistas federais existentes. Grupos empresariais estão pressionando os Democratas para enfraquecerem as medidas pró-trabalhistas incluídas no projeto de lei “Build Back Better” (Reconstruir para Melhor, em tradução livre), que está sendo debatido no Congresso.

Atualmente, os empregadores corporativos podem violar as leis trabalhistas sem sofrer grandes consequências, já que o Conselho Nacional de Relações do Trabalho (National Labor Relations Board, NLRB, em inglês) não tem autoridade para multar os infratores. Mas os democratas querem dar ao NLRB autoridade para impor multas de USD 50.000 a USD 100.000 contra empresas que violem as leis trabalhistas federais. Também está incluído no pacote de ajuda econômica “Build Back Better” um aumento nas multas contra empregadores que violem as normas da Administração de Segurança e Saúde Ocupacional (Occupational Safety and Health Administration, OSHA, em inglês).

A Coalizão por um Local de Trabalho Democrático (Coalition for a Democratic Workplace, em inglês), um grupo de lobby empresarial que deseja tudo menos democracia no local de trabalho, está profundamente preocupada com as mudanças propostas e enviou uma carta aos legisladores nesse sentido.

Resta saber se, desta vez, os lobistas corporativos conseguirão manter as leis trabalhistas como instrumentos ineficazes. O problema é que, à medida que os trabalhadores continuem a pedir demissão e que haja mais greves dos trabalhadores sindicalizados, os empregadores que ignorarem estes alertas de fúria e de frustração estarão arcando com as consequências por sua conta e risco.


Este artigo foi produzido por Economy for All, um projeto do Independent Media Institute.

Sonali Kolhatkar é a fundadora, apresentadora e produtora executiva de “Rising Up With Sonali”, um programa de televisão e rádio que vai ao ar nas estações Free Speech TV e Pacifica. Ela é redatora do projeto Economia para Todos no Independent Media Institute.

 

Traduzido do inglês por Adriana Heery / Revisado por Graça Pinheiro