O celular em seu bolso está te espionando? Com o uso de celulares cada vez mais comum, as agências de inteligência governamentais injetam cada vez mais recursos para hackeá-los, tirando a privacidade das pessoas em prol da segurança nacional. Hoje, há toda uma indústria, altamente lucrativa, de empresas de origem duvidosas, especializadas em desenvolver formas cada vez mais criativas de infectar os dispositivos com programa espião. Ativistas, jornalistas, defensores dos direitos humanos e divergentes têm sido monitorados e muitas vezes presos, torturados e mortos pelo mundo. Nesta semana, o Citzen Lab, uma organização que pesquisa sobre segurança de computadores, localizada na Universidde de Toronto, revelou a existência de uma falha chamada “zero-clique” (o usuário não precisa clicar em um link para o seu aparelho ser infectado), que expôs completamente 1,65 bilhões de IPhones e outros dispositivos Apple a um programa espião quase indetectável, conhecido como Pegasus, desenvolvido pela empresa privada NSO Group.

O programa espião Pegasus dá acesso ilimitado a todo o conteúdo do dispositivo infectado: mensagens, e-mails, ligações, permite controle do microfone e da câmera, e compartilha a localização do telefone em tempo real.

“A NSO Group é uma empresa mercenária de monitoração, localizada em Israel”, diz Ronald Deibert, diretor do Citizen Lab ao programa de TV Democracy Now! “A NSO Group nos chamou a atenção pela primeira vez em 2016, quando descobrimos que estava sendo usada pelos Emirados Árabes Unidos para monitorar um defensor dos direitos humanos chamado Ahmed Mansoor. Desde então, documentamos vários abusos desta empresa.”

Nas palavras do fundador da NSO Group, o software foi desenvolvido legalmente apenas para capturar criminosos, terroristas, pedófilos e afins. Não convencida, a Anistia Internacional e outras 155 organizações civis e peritas em tecnologia emitiram uma carta conjunta pedindo a moratória imediata da venda, transferência e uso da tecnologia de vigilância: “O programa espião da NSO Group é usado para facilitar a violação dos direitos humanos pelo mundo em escala massiva”, afirma a carta. “Fica claro que sua tecnologia facilita o abuso sistêmico… se as recentes alegações sobre o uso do Pegasus tiverem um mínimo de verdade, então cruzou-se a linha vermelha com total impunidade.”

Entre os casos citados pela Anistia está o de Cecilio Pineda Birto, jornalista mexicano morto a tiros em 02 de março de 2017. Ele vinha recebendo ameaças de morte, e justamente naquela manhã anunciou a publicação de um relatório sobre autoridades locais conspirando com figuras do crime organizado. Em 2021, o número de Pineda apareceu em uma lista vazada com cerca de 50.000 números de celulares pelo mundo, supostamente alvos do software Pegasus. Diversos jornalistas da ONG Forbidden Stories e do Citzen Lab divulgaram a lista vazada, que inclui centenas de jornalistas, ativistas e líderes mundiais.

“Se nada for feito para impedir a venda desta tecnologia, não serão apenas 50.000 alvos. Serão 50 milhões de alvos,” contou o delator da NSA, Edward Snowden, no mês passado ao jornal The Guardian. “E vai acontecer bem mais rápido do que se espera. Para interromper isso, é preciso parar a comercialização desta tecnologia.”

O Pegasus foi usado em telefones de membros da família de Jamal Kashoggi, o dissidente saudita e jornalista do Washington Post, antes e depois de seu assassinato por uma equipe de extermínio saudita dentro do consulado saudita em Istambul, em 2 de outubro de 2018.

Outra vítima do programa espião da NSO Group é Omar Radi, jornalista independente em Marrocos, há tempos acusado de corrupção, apropriação de terras e abusos de direitos humanos pelo governo marroquino. Em 2020, a Anistia Internacional emitiu um relatório com provas que o IPhone de Radi havia sido infectado pelo Pegasus.

“O Pegasus é um programa silencioso. Você não percebe”, contou Omar Radi ao programa de TV Democracy Now! em julho de 2020, duas semanas antes de ser preso pela polícia marroquina. “Ele consegue usar seu microfone, seu teclado, ver sua tela, e coletar qualquer informação armazenada em seu telefone. Não sei quanta informação roubou do meu telefone.” Omar Radi foi sentenciado há 6 anos de prisão recentemente.

“A NSO Group é apenas uma entre as várias empresas mercenárias de programas de espiãonagem que existem no mundo,” diz Ron Deibert, do Citzen Lab. “Governos com recursos conseguem comprar esse tipo de despotismo como um produto em uma prateleira. Nunca houve algo assim na história, a privatização deste tipo de espionagem digital.”

A Apple disponibilizou uma atualização de software que supostamente corrigiu o problema. Porém os hackers certamente encontrarão brechas nesses sistemas operacionais. Sem o banimento do Pegasus e programas de espionagem similares, defensores dos direitos humanos, jornalistas e outros continuarão sendo alvos, espionados, agredidos, presos e mortos.


Tradução do inglês por Fabricio Altran / Revisão por Larissa Dufner

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