Texto de David Swanson

Em um mundo além da guerra,… as mortes, ferimentos e traumas resultantes da violência seriam radicalmente reduzidos. O número de pessoas desabrigadas e de imigrantes movidos pelo medo seria amplamente reduzido. A destruição ambiental diminuiria consideravelmente, o sigilo governamental perderia a razão de existir, a intolerância sofreria um grande retrocesso, o mundo ganharia mais de 2 trilhões de dólares e os Estados Unidos, sozinhos, US$1,25 trilhão por ano. O mundo seria poupado da destruição de vários trilhões de dólares a cada ano, os governos ganhariam muito tempo e energia para investir em outra coisa, a concentração da riqueza e a corrupção das eleições apresentariam declínios significativos. Os filmes de Hollywood encontrariam novos consultores, enquanto os outdoors, carros de corrida e cerimônias de pré-jogo, novos patrocinadores. As bandeiras perderiam seu encanto, os tiroteios em massa e suicídios vivenciariam uma diminuição em seus índices e a polícia encontraria heróis diferentes. Se você quisesse agradecer a alguém por um serviço prestado, este teria que haver sido de fato um serviço. O Estado de direito poderia se tornar uma realidade global, governos violentos perderiam o direito de uso de armas de guerra internamente e o apoio de potências imperialistas fanáticas por guerra, como os EUA, que atualmente armam, financiam e/ou treinam a maioria dos governos no mundo, incluindo quase todos os piores deles (Cuba e Coreia do Norte, as duas exceções, são países muito valiosos como inimigos; e ninguém percebeu ou se importou com o fato de os EUA terem armado e financiado seu mais recente inimigo, a China).

Um mundo além da guerra pode nos levar à democracia, ou a democracia pode nos levar a um mundo além da guerra. É preciso aguardar para sabermos como chegaremos lá. Porém, o primeiro passo é nos darmos conta de onde estamos agora. Acabamos de realizar nossa conferência anual da organização chamada World BEYOND War (Mundo ALÉM da Guerra) e houve discussões excelentes. Uma delas foi sobre a democracia, na qual uma pessoa sugere que a democracia traria paz, e outra pessoa prova que isso é falso ao ressaltar como as democracias do mundo estão encantadas pela guerra. Esta discussão sempre me incomoda porque os governos nacionais na verdade não incluem democracia alguma. Economias capitalistas? Sim. As nações com McDonald’s travam guerras entre si? Sim. E há McDonald’s na Rússia, Ucrânia, China, Venezuela, Paquistão, Filipinas, Líbano e em bases americanas no Iraque e em Cuba. Mas,seriam democracias? Como diabos alguém poderia saber o que as democracias fariam?

Um mundo além da guerra poderia fazer um grande esforço para desacelerar o colapso do clima e dos ecossistemas. Um mundo que não conhece outro caminho além da guerra será parecido com o mundo em que estamos agora. Os cientistas veem o relógio do Juízo Final cada vez mais perto da meia-noite, o risco de uma guerra nuclear é maior do que nunca e a expectativa do que a guerra nuclear em qualquer país faria ao resto do planeta é a pior de todos os tempos. A Rússia diz que não se livrará de suas armas nucleares, enquanto os Estados Unidos estiverem ameaçando e dominando o mundo com armas não nucleares. Israel tem permissão para adquirir armas nucleares, mas finge que não as tem, e inúmeras outras nações, incluindo a Arábia Saudita, parecem ter a intenção de seguir esse caminho. Os Estados Unidos estão construindo muito mais armas nucleares e falando descaradamente sobre usá-las. Grande parte do mundo proibiu a posse de armas nucleares, e os ativistas americanos estão sonhando em conseguir que o chamado Departamento de Defesa simplesmente diga que não as usará primeiro. Isso levanta a questão sobre o que um “Departamento de Ataque” faria de diferente, além do porquê alguém acreditaria numa declaração do chamado Departamento de Defesa e que tipo de lunático usaria armas nucleares em segundo ou terceiro lugar. Nossa sorte em evitar o uso intencional ou acidental de armas nucleares não vai durar muito. E só nos livraremos das armas nucleares se nos livrarmos da guerra.

Portanto, podemos ter um mundo além da guerra ou não ter mundo algum.

Recentemente, escrevi um livro desmascarando conceitos errôneos sobre a Segunda Guerra Mundial, e uma grande parte do problema são as mentiras que justificam os atentados nucleares. Mas elas estão se enfraquecendo tão rápido que Malcom Gladwell acaba de publicar um livro substituindo o bombardeio incendiário de dezenas de cidades japonesas antes dos bombardeios nucleares como o suposto mal necessário que salvou vidas e trouxe paz e prosperidade ao mundo. Quando essa nova reviravolta na propaganda falhar será algo excepcional, porque se a mitologia em torno da Segunda Guerra Mundial desmoronar, o mesmo acontecerá com toda a máquina de guerra.

Então, como estamos nos comportando para chegar a um mundo além da guerra? O Congresso votou repetidas vezes para acabar com a guerra contra o Iêmen, até que Trump finalmente vetou todas elas. Desde então, não houve movimentação alguma. Não vimos uma única resolução implementada para realmente acabar com a guerra no Afeganistão ou com qualquer outra guerra, nem para fechar alguma base militar em algum lugar ou para acabar com os assassinatos promovidos por drones. Um novo presidente propôs um orçamento militar ainda maior, evitou intencionalmente o restabelecimento do acordo com o Irã, apoiou a saída de tratados ilegalmente renunciados por Trump, como o Tratado de Céus Abertos e o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, aumentou a hostilidade com a Coreia do Norte, duplicou as mentiras e insultos infantis contra a Rússia e propôs a Israel ainda mais dinheiro destinado a armas. Se um republicano tivesse tentado isso, haveria no mínimo um protesto nas ruas de Dallas, talvez até mesmo em Crawford. Se um republicano tivesse sido presidente quando recorreram a OVNIs como substituto pela falta de qualquer inimigo militar viável na Terra, alguém teria pelo menos rido da iniciativa.

O Irã despende1% e a Rússia 8% dos gastos militares dos Estados Unidos. Os gastos militares da China chegam a 14% em relação aos EUA e de seus aliados, além dos clientes de armas dos americanos (sem contar a Rússia ou a China). O aumento anual do orçamento militar dos EUA é maior que o total dos gastos da maioria de seus inimigos declarados. Há anos as pesquisas comprovam que a política do bombardeio pela paz está em apuros, haja vista os governos dos EUA serem vistos, em muitas partes do mundo, como a maior ameaça à paz. Portanto, bombardear criançasiemenitas e palestinas em busca da chamada Ordem Internacional Liberal pode ser necessário.

No entanto, alguns de nós temos procurado por essa ordem liberal e não encontramos em lugar algum. Os Estados Unidos participam de menos tratados de direitos humanos importantes do que quase qualquer outro país, são o maior adversário dos tribunais internacionais, o maior abusador dos vetos das Nações Unidas, o maior traficante de armas e o maior aprisionador. Também são, em muitos aspectos, o maior destruidor do meio ambiente e participam da maioria das guerras e assassinatos por mísseis. A ordem internacional liberal parece exigir o boicote às Olimpíadas chinesas devido à forma como a China fabrica seus produtos, apesar de comprá-los, armar e financiar os militares chineses e colaborar com os laboratórios de armas biológicas da nação chinesa. Sob o manto da ordem internacional liberal, é preciso salvar o Mar da China Meridional e armar a realeza saudita contra o Iêmen – e fazer as duas coisas em nome dos direitos humanos. Portanto, concluí que tal ordem é muito complexa para ser entendida fora da cabeça de Antony Blinken, e que a nossa obrigação parece ser a de ter que acender uma vela para o Departamento de Estado dos EUA e outra para o Partido Democrata.

O governo dos EUA não tem um grande partido político que não seja um esquema catastrófico com uma boa parte do país mais ou menos enganada por ele. O Partido Republicano diz que a concentração de riqueza, o autoritarismo, a destruição ambiental, a intolerância e o ódio são bons para os seus cidadãos. Isso não é verdade. A plataforma do Partido Democrata, e até mesmo a do então candidato Joe Biden, fizeram muitas promessas. No lugar da maioria dessas promessas, as pessoas tiveram um espetáculo ao estilo Broadway, no qual o presidente e a maioria dos membros do Congresso representam o papel de estarem chateados por alguns de seus membros estarem supostamente atrapalhando tudo que eles realmente desejam fazer – se ao menos suas mãos não estivessem atadas. Trata-se de um teatro, e podemos comprovar isso por várias razões:

1) O Partido Democrata tem um longo histórico de preferir, em vez de sucessos, fracassos que podem ser atribuídos aos republicanos e que agradem a financiadores. Quando o público concedeu aos democratas o Congresso, em 2006, para encerrar a guerra no Iraque, Rahm Emanuel, atual candidato a embaixador no Japão, deixou claro que seu plano era manter a guerra em andamento para se posicionar contra ela novamente em 2008. Ele tinha razão. Rahm era um monstro genocida, mas o povo culpou os republicanos pela escolha dos democratas de agravar a guerra para a qual haviam sido eleitos para terminar, assim como o povo vai culpar o Irã pela escolha de Biden de não permitir a paz com a nação iraniana.

2) Quando os líderes do Partido querem algo, eles agem com base em um sistema de recompensas e punições. Nada do tipo foi implantado contra os senadores Manchin e Sinema.

3) O Senado poderia acabar com o obstrucionismo, se quisesse.

4) O Presidente Biden deixou claro sua prioridade máxima de trabalhar com republicanos, apesar da ausência dessa prioridade nas principais demandas do povo e na Plataforma do Partido Democrata.

5) Biden poderia escolher realizar muitas ações sem o Congresso e prefere tentar e fracassar no Capitólio.

6) Um pequeno número de democratas na Câmara dos ditos Deputados poderia mudar a política se recusando a aprovar uma lei, uma ação que não exigiria absolutamente nada do Senado ou do presidente – uma ação que poderia ser tomada exclusivamente pelos mais heroicos deputados progressistas, a extrema elite. Se os republicanos se opusessem a um projeto de lei de gastos militares por suas próprias razões loucas – porque o projeto se opõe ao estupro dentro das fileiras ou qualquer outra coisa, por exemplo – apenas cinco democratas poderiam votar “não” e impedir o projeto ou impor seus termos ao texto do projeto.

Eu sei que você pode fazer com que 100 membros da Câmara votem em uma proposta para reduzir os gastos militares que eles têm certeza de que não será aprovada, e para a qual o sistema de recompensas e punições não é aplicado pelas tais “lideranças partidárias”. Mas os votos que podem realmente concretizar algo são outra história. A chamada Bancada Progressiva só recentemente decidiu ter qualquer tipo de exigência para que alguém se filie a ela, e essas exigências não abrangem aderência alguma a nenhuma posição política em particular. Há até mesmo uma espécie de bancada de redução de gastos semissecreta chamada “Defesa”, que não exige que seus membros tentem evitar o aumento dos gastos militares.

Na semana passada, pensei que o copresidente da Bancada Progressiva, o deputado Mark Pocan, tinha tuitado que votaria contrário ao aumento dos gastos militares. Agradeci a ele no Twitter. Ele respondeu, xingando e me insultando por meio de tuítes. Oscilamos de tom em várias mensagens e ele ficou furioso por alguém sugerir que ele votasse contra algo que supostamente ele se opõe.

Em seguida, vi a congressista Rashida Tlaib tuitar que ela não votaria a favor dos gastos da guerra. Tuitei meus agradecimentos e minha esperança de que ela não começasse a me xingar como Pocan fez. Depois disso, Pocan me pediu desculpas e disse que votar contra os gastos militares volumosos era uma das abordagens possíveis que ele estava considerando. Ele não me disse quais são as outras abordagens, mas provavelmente elas envolvem votar a favor do aumento dos gastos militares.

É claro que, nos anos anteriores, várias dezenas de membros do Congresso se comprometeram a votar contra o financiamento da guerra e depois voltaram atrás e votaram a favor, mas agora você não pode nem mesmo fazer com que eles afirmem que votarão contra.

Nina Turner, que copresidiu a campanha de Bernie Sanders, está concorrendo ao Congresso, em Ohio. Ela compreende os problemas dos gastos militares e da guerra. Mas ela tem um site de campanha que, como a maioria, não faz menção alguma à política externa, guerra, paz, tratados, bases, gastos militares, orçamento global, ou a existência de 96% da humanidade. Ontem, por telefone, seu coordenador de campanha me explicou que a política externa estava em sua “plataforma interna”, que a plataforma pública abordava tópicos que preocupam e impactam as pessoas no 11º distrito de Ohio (como se a Senadora Nina acreditasse que os gastos militares não impactam as pessoas em seu distrito), que Nina ainda não foi eleita (como se os sites de campanha devessem ser desenvolvidos após as eleições) e que simplesmente não havia espaço (como se a internet tivesse aplicado um limite às páginas). O coordenador de campanha negou qualquer outra motivação e alegou que eles poderiam, algum dia, acrescentar o tema política externa à sua página. Essa foi umatroca de camisas mais rápida e muito mais decepcionante do que a mudança drástica do Senador Raphael Warnock sobre os direitos dos palestinos. Essas pessoas vivem outra realidade e não ouvem as vozes de Washington, mas as de consultores que estão, às vezes, do outro lado do mundo.

Algumas pessoas dizem que o mundo vai acabar em fogo, outras que vai acabar em gelo. Algumas apostam num apocalipse nuclear e outras acreditam em um fim mais lento, provocado pelo colapso ambiental. As duas hipóteses estão intimamente ligadas. As guerras são movidas pelo desejo de dominar os lucros da energia suja e as pessoas. As guerras e seus preparativos são enormes contribuintes para a destruição do clima e do meio ambiente. O dinheiro que poderia ser usado para atender às necessidades ambientais está indo para as tóxicas forças armadas, que devastam até mesmo as nações que supostamente estão defendendo. Em Charlottesville, minha cidade, aprovamos o desinvestimento de dinheiro público em armas e combustíveis fósseis de uma vez só. O World BEYOND War tem um curso de seis semanas sobre Guerra e Meio Ambiente. Se ainda houver vagas, é possível reservar uma em: https://worldbeyondwar.org

Também temos uma petiçãoonline em https://worldbeyondwar.org/online que exige o fim da prática de excluir o militarismo dos tratados e acordos climáticos. Uma oportunidade de fazer essa reivindicação básica se fortalecer pode vir com a Cúpula do Clima planejada para novembro deste ano, em Glasgow.

A infraestrutura está na pauta em Washington atualmente, pelo menos para o teatro político, mas sem conversão e desmilitarização. O financiamento está em pauta, mas sem movimentação nos fundos do militarismo. Várias nações retiraram fundos do militarismo de forma expressiva para enfrentar a pandemia do Coronavírus. Outras dobraram o investimento militar. O perde-ganha é obsceno. Saúde, nutrição e energia verde poderiam ser transformadas de forma global e radicalcom uma fração dos gastos militares dos EUA. Talvez não devesse dizer isso,como uma forma de apelo ao Texas, mas a pecuária também poderia ser transformada.

Os únicos posicionamentos que me entusiasmam na política dos EUA são os que os republicanos fingem que os democratas defendem. E o da carne vermelha não é exceção.

Ultimamente, os republicanos têm fingido não apenas que os democratas querem o conjunto natural de coisas que eu gostaria que alguém realmente tomasse iniciativa para instituir (uma renda garantida, um salário-mínimo decente, um sistema único de saúde, um Green New Deal (um Novo Acordo de reconstrução, à la Segunda Guerra Mundial, só que dessa vez Verde), uma grande mudança para a tributação progressiva, um desinvestimento no militarismo, a implementação da gratuidade para o ensino superior etc.) – CUIDADO COM O HORROR QUE ESSAS IDEIAS REPRESENTAM! – mas também que Biden vai de alguma forma proibir o consumo de mais do que um pouquinho de carne bovina.

Jamais suspeitei que houvesse alguma verdade nessa história. Na verdade, acho que a ouvi pela primeira vez como uma desmistificação de uma história falsa. No entanto, gostaria que fosse verdade. E transformar a promessa real de Biden de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em uma proibição de comer hambúrgueres faz mais sentido do que pode parecer à primeira vista para todos os consumidores de McDonald’s.

A conversão de sistemas de energia e transporte para energia verde é extremamente importante, em combinação com a redução do consumo. Mas isso leva muito tempo e investimento, e depois o retorno equivale apenas à parte do que você precisava para ontem.

Deixar de consumir animais (ou laticínios) – se houvesse a vontade de fazê-lo – poderia ser algo rápido, e – de acordo com alguns estudos – o dano causado pelo metano e pelo óxido nitroso é pior do que o do CO2, e os benefícios de reduzi-los podem ser aproveitados mais rapidamente.

Uma porcentagem significativa das emissões de gases de efeito estufa vem da pecuária – talvez um quarto. Mas isso parece ser apenas uma parte da história. A pecuária utiliza a grande maioria do consumo de água dos EUA e quase metade da terra nos 48 estados adjacentes. Seus resíduos estão matando os oceanos e seu crescimento está desmatando a Amazônia.

Mas até isso parece ser apenas uma parte minúscula, quase irrelevante da história. O fato é que as plantações criadas para alimentar animais e as pessoas poderiam alimentar muito mais pessoas, se os animais fossem removidos da equação. As pessoas estão morrendo de fome para que o alimento que poderia tê-los alimentado dez vezes possa ser dado às vacas, para fazer hambúrgueres, que podem ser anunciados na mídia em um contexto em que, se alguém restringir o consumo de carne,isso pode ser considerado uma piada terrível.

E mesmo isso parece ser apenas uma parte do problema. A outra parte é o abuso brutal e a matança de todos os milhões de animais (e o fato de tratá-los um pouco menos brutalmente significaria usar mais terra e mais tempo para alimentar ainda menos pessoas). Não concordo com Tolstoi de que não se possa acabar com a guerra sem acabar com a matança de animais, mas eu quero acabar com ambos e acho que qualquer um deles por si só pode condenar a humanidade.

Às vezes, o pretexto dos republicanos de que os democratas favorecem algo é um bom presságio, e décadas mais tarde, é possível encontrar democratas de verdade que apoiam o que foi dito. Outras vezes, a propaganda republicana serve para marginalizar de forma mais permanente as boas ideias. O que precisamos é de um mecanismo para comunicar amplamente que queremos – na verdade, precisamos urgentemente – aquilo que os republicanos estão se manifestando fortemente contra.

Infelizmente, o que o verdadeiro Joe Biden valoriza muito acima do futuro do planeta é a amizade e a boa vontade dos republicanos – matérias tão fictícias quanto a proibição de Biden em relação à carne. Desafortunadamente, também, a agricultura é quase tão tabu para os grupos ambientalistas quanto a destruição ambiental causada pelos militares. Não há nada nesse momento que impeça os democratas de reservarem uma parte de seus discursos de campanha para a promessa apaixonada de nunca proibir a carne bovina, assim como suas negações de acusações de que eles querem proibir as armas. Não nos resta muito tempo para mudar isso.

Outro tópico que se tornou popular, de repente, na mídia corporativa é o dos laboratórios de armas biológicas. Já perceberam que muitos escritores sobre artigos científicos têm dito recentemente que estavam perfeitamente certos um ano atrás em zombar e condenar apenas a hipótese de um vazamento laboratorial ter dado origem ao Coronavírus, mas agora é perfeitamente adequado admitir que o vírus pode muito bem ter vindo de um laboratório? Parece ser, em grande parte, uma questão de moda. Não se usa a roupa errada muito cedo na estação, ou se explora a ideia epidemiológica errada quando a Casa Branca é reivindicada por um partido ou por outro.

Em março de 2020, escrevi em meu blog sobre como os artigos que denunciavam a possibilidade da pandemia do Coronavírus ter se originado com um vazamento de um laboratório de armas biológicas às vezes admitiam fatos básicos que faziam tal origem parecer provável. O primeiro surto relatado foi extremamente próximo a um dos poucos lugares na Terra que experimentava o Coronavírus como arma, mas a uma enorme distância da suposta fonte de morcegos. Não apenas vários laboratórios tinham apresentado vazamentos antes, mas cientistas haviam alertado recentemente sobre o perigo de vazamentos do laboratório em Wuhan.

Havia uma teoria sobre um mercado de frutos do mar, e o fato de que essa teoria desmoronou parece não ter entrado na consciência do público tanto quanto o falso fato de que supostamente refutava a teoria do vazamento de laboratório.

Em março de 2020, estava muito acostumado com a questão do relógio parado. Assim como até mesmo um relógio parado acerta duas vezes por dia, um bando de adoradores do Trump e haters da China poderiam estar certos sobre a origem da pandemia. Certamente, seus delírios não forneceram ajuda alguma que comprovem as alegações de que poderiam, de fato, estarem corretas – assim como o fato de Trump ter sido retratado como contrário à OTAN não me motivou a amar tal organização.

Não pensei que a possibilidade de vazamento no laboratório pudesse fornecer qualquer bom motivo para realmente odiar a China. Sabíamos que Anthony Fauci e o governo dos Estados Unidos investiram no laboratório em Wuhan. Se os riscos incrivelmente injustificáveis assumidos por esse laboratório fossem uma desculpa para odiar qualquer coisa, os objetos desse ódio não poderiam ser limitados à China. E se a China é uma ameaça militar, por que financiar suas pesquisas sobre armas biológicas?

Eu também estava muito acostumado com a censura em torno de todo o tema das armas biológicas. Acho que não se deva falar sobre a esmagadora evidência de que a disseminação da doença de Lyme foi graças a um laboratório americano de armas biológicas, ou a probabilidade de que a opinião do governo dos EUA esteja correta de que os ataques com antraz, de 2001, tiveram origem em material de um laboratório americano de armas biológicas. Portanto, não aceitei a censura até mesmo para considerar a teoria de vazamento do Coronavírus como merecedora de obediência. Na verdade, o estigma associado à teoria do vazamento de laboratório me fez suspeitar que estava certa, ou pelo menos que os fabricantes de armas biológicas queriam esconder o fato de que um vazamento de laboratório fosse bastante plausível. Na minha opinião, a plausibilidade de um vazamento de laboratório, mesmo que nunca provada, seria um novo bom motivo para encerrar as atividades de todos os laboratórios de armas biológicas do mundo.

Fiquei satisfeito em ver Sam Husseini e muito poucos outros que prosseguem com a questão com a mente aberta. Os veículos de mídia corporativa não fizeram tal coisa. Assim como alguém não pode se opor a uma guerra iminente ou sair dos limites prescritos do debate sobre inúmeros tópicos, também não poderia, por um ano ou mais, dizer certas coisas sobre o Coronavírus na mídia corporativa dos EUA. Agora, os articulistas nos dizem que a impossibilidade de uma origem de laboratório teria sido a sua “reação automática”. Mas, em primeiro lugar, por que uma reação automática deveria ter importância? E, em segundo lugar, o pensamento coletivo não depende realmente da reação automática de alguém, mesmo que essa memória seja precisa. Depende da imposição de proibições por parte dos editores.

Agora, esses articulistas nos dizem que preferiram acreditar nos cientistas em vez de levar em conta o que diziam os apoiadores de Trump. Mas a realidade também é que eles escolheram acreditar na CIA e em agências correlatas, em vez de nos apoiadores de Trump – apesar da suspeita científica de acreditar nas declarações de profissionais mentirosos. A realidade também é que eles optaram por obedecer a decretos publicados em revistas especializadas, sem sequer questionar as motivações dos seus autores.

Uma “carta” super séria publicada pela The Lancet disse: “Estamos juntos para condenar veementemente as teorias conspiratórias que sugerem que a COVID-19 não tem uma origem natural”. Não refutar, não discordar, não oferecer evidências contra, mas “condenar” – e não apenas condenar, mas estigmatizar como maldosas e irracionais as “teorias da conspiração”. Mas o organizador dessa carta, Peter Daszak, havia financiado justamente a pesquisa que poderia ter resultado na pandemia, no laboratório de Wuhan. Esse enorme conflito de interesses não foi problema algum para a The Lancet, ou para os principais veículos de comunicação. A The Lancet até mesmo colocou Daszak em uma comissão para estudar a questão da origem, assim como a Organização Mundial da Saúde.

Não sei a origem da pandemia, assim como não sei quem matou John F. Kennedy naquela rua em Dallas, mas sei que ninguém teria colocado o Allen Dulles em uma comissão para estudar o caso de Kennedy mesmo se ele parecesse ter a descoberta da verdade como prioridade máxima, e sei que Daszak, investigando a si próprio e se achando absolutamente inocente,ah, isso é motivo de suspeita, não de confiança.

E, não, eu não quero que a CIA investigue isso ou qualquer outra coisa. Qualquer investigação desse tipo tem 100% de chance de ser feita de má-fé e 50% de chance de chegar à conclusão acertada.

Que diferença faz de onde veio esta pandemia? Bem, se ela veio dos pequenos remanescentes da natureza selvagem deixados na terra, uma solução possível seria cessar a destruição e o desmatamento, talvez até mesmo abolir a pecuária e restaurar enormes áreas de terra para a natureza. Mas uma outra solução possível, e que seria perseguida com fervor na ausência de uma resistência significativa, seria pesquisar, investigar, experimentar – em outras palavras, investir ainda mais em laboratórios de armamento para evitar novos ataques contra a pequena e inocente humanidade.

Se, por outro lado, for provado que a origem é um laboratório de armas – e alguém poderia ter esse argumento com base apenas na possibilidade – então, a solução seria fechar os malditos laboratórios. O grande desvio de recursos para o militarismo é uma das principais causas da destruição ambiental, a razão do risco de apocalipse nuclear e, possivelmente, a razão não apenas para o baixo investimento em preparação médica, mas também diretamente para a doença que devastou o mundo durante esse último ano. Pode haver uma base maior para questionar a loucura do militarismo.

Independentemente do que conseguimos aprender mais sobre a origem da pandemia do Coronavírus, sabemos que questionar a mídia corporativa é adequado. Se a reportagem “objetiva” sobre temas envolvendo “ciência” está basicamente sujeita às tendências da moda, quanta fé você deve depositar em declarações sobre economia ou diplomacia? É claro que a mídia pode instruí-lo a não pensar em algo que também seja completamente falso. Mas,no seu lugar, manteria meus olhos atentos a imposições impacientes sobre o que não pensar. Muitas vezes eles dirão exatamente o que alguém possa querer investigar.

Uma coisa em que não se deve pensar é que a guerra seja um conceito questionável. A ACLU está atualmente pressionando para que mulheres jovens sejam obrigadas a matar e morrer pelos lucros com armas. A injustiça com as mulheres de obrigar apenas os rapazes a se inscreverem é um problema. A guerra é uma característica normal e inevitável da ordem internacional liberal.

O que precisamos fazer é tornar a guerra como algo questionável. Uma maneira de fazer isso foi definida pelo admirável trabalho do movimento Vidas Negras Importam. Pegue os vídeos das vítimas. Faça protestos perturbadores. Force para que os vídeos sejam usados pela mídia corporativa. Exija ação.

Vamos trabalhar juntos nisso.

O artigo original pode ser encontrado no site do nosso parceiro aqui


Traduzido do inglês por Marcella Santiago / Revisado por José Luiz Corrêa