Ginette Baudelet

O período confuso que atravessamos nos leva a relações curiosas, das quais convém sorrir, nem que seja para manter a moral em alta.

Qual é a relação entre essas três perspectivas com prazos e consequências opostas?

É evidente que a epidemia é resultado de uma gestão “meteorológica”, realizada por um governo rico em contradições. Simplificando, assim como os distúrbios meteorológicos persistem nesta temporada de verão, as medidas dos órgãos dirigentes em relação à epidemia flutuam alegremente, soprando ora quente, ora frio, sem parar.

A última decisão vai na direção de mais liberdade, tão almejada pela população cansada de andar por aí com uma focinheira no nariz. Com a chegada do bom tempo, essa generosidade do governo provavelmente o deixará sem fôlego; podemos, portanto, agora considerar que não somos mais contagiosos, uma vez fora de casa. Nada disso! Assim que entramos em um espaço fechado (transporte público, prédio, elevador, loja, etc.) nos contagiamos novamente. Então, trata-se de não sair dos trilhos; em caso de esquecimento, somos alertados por cartazes, alto-falantes, motoristas de ônibus, ou seguranças das lojas, de que a máscara é obrigatória. E, às vezes, em um tom de “fiscalização” de alguém que ainda ontem não tinha autoridade.

A palavra máscara é sinônimo, dentre outras, de comédia, uma peça de fantasia. De fato, representamos constante e coletivamente uma comédia. Queiramos ou não, nos tornamos assim, atores da nossa própria vida.

Outro deboche, esta obrigação em forma de troça, que deve ter feito o mundo inteiro rir. Ela autoriza a saída, desde que seja usada dentro de hora específica, informando os motivos e sem se esquecer da assinatura. Sob pena de receber uma multa de classe 4, no valor de 135 euros. Vamos continuar sorrindo e façamos as contas:

  • Levando em conta o número de obstinados e o tempo em que se recusaram a participar dessa comédia, quanto o Estado arrecadou, por cabeça-dura sem máscara, ao preço de 135 euros? Pois bem, por mais inebriante que seja o resultado, o que importa é que tenhamos o frasco (de álcool gel), que cada lojista precisa fornecer para que possamos desinfetar nossas algemas (contaminadas ou não) assim que entramos.

Não apertamos mais as mãos, batemos cotovelos; também não nos beijamos, mas ainda podemos dizer olá, desde que a distância seja mantida, pois nunca sabemos se o “outro” está contaminado; chega de abraços, adeus aos carinhos, ficamos desconfiados; Anaïs Nin já nos dava uma definição carregada de sabedoria, há mais de quarenta anos:

“Aprendi que a desconfiança está na origem das barreiras que separam os homens.”*

Hoje, os gestos de barreira – um nome criteriosamente escolhido – barram nossos gestos em direção a mais solidariedade, ajuda mútua, união, todos valores agregadores que animam alguns… coletes amarelos.

* Anaïs Nin (O que eu queria dizer a vocês Ed Stock 1980)


Traduzido do francês por Aline Arana/Revisado por Samila Matos