Prezado Embaixador, Senhor Ishikane Kimihiro, Representante Permanente do Japão na ONU,

Com profunda gratidão e respeito,

O senhor poderia transmitir esta mensagem ao Primeiro-Ministro, Suga Yoshihide, e aos Vice-Ministros Parlamentares da Defesa, Onishi Hrioyuki e Matsukawa Rui? Obrigado.

Por favor, perdoe-me, mas me lembro bem das centenas ou até mesmo milhares de seus cidadãos que vinham para Nova York nos anos 70 e marchavam conosco para protestar contra a corrida nuclear. Nas últimas décadas, seus cidadãos continuaram a vir, pedindo pelo fim daquela loucura. O apelo era tão intenso que podia ser visto em seus olhares e em suas mãos estendidas. Nós escutamos, agradecemos e abraçamos a ideia. E, por diversas vezes, o mundo chegou bem perto do desarmamento nuclear.

Nos anos 50, Norman Cousins ajudou a trazer diversas mulheres afetadas pela explosão (conhecidas como “Hibakusha Maidens”) para realizar cirurgia reconstrutiva em um local a poucas quadras de onde moro. Um dos meus amigos mais próximos perdeu seu pai, um querido major que liderou um ataque nas areias da ilha de Iwo Jima. Isso ocorreu há mais de 45 anos, mas meu amigo continua próximo de parentes de soldados tanto japoneses como estadunidenses que lutaram lá e que se reúnem para celebrar suas vidas e os laços de amizade e respeito que foram forjados desde então.

O Japão e os Estados Unidos seguem sendo aliados vitais e confiáveis. Ganhamos tanto que é difícil quantificar. Desde a nossa guerra, nós nos unimos e ganhamos muito nos aspectos cultural, artístico, intelectual e econômico. Mesmo com nossas imperfeições, investimos na melhoria das civilizações e aprendemos, juntos, lições de grande valor, muitas vezes dolorosas. Honramos nossos sacrifícios e nossa parceria continua sendo um exemplo a quem rotula o outro como “inimigo” e escolhe o caos, ao elevado custo do terror da guerra. Nós honramos sacrifícios.

Nossos povos conhecem bem os caminhos que levam à segurança, à paz e a uma vida melhor. Então, por que não escolhermos esse caminho agora, no 76º aniversário dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki? Temos uma grande oportunidade na nossa frente que não pode ser descartada.

Temos a lei internacional, o Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares (TPAN). Em nossas respectivas “democracias”, a maioria dos nossos cidadãos, aqueles que possuem conhecimento sobre o Tratado, quer que nossos governos assinem e ratifiquem a importância dele. Temos especialistas em todas as profissões existentes que se apresentam e testemunham em favor do TPAN, incluindo militares reformados das mais altas patentes.

Japão, de todos os países, você possui uma autoridade única no assunto. Há muitos anos, enquanto eu fazia lobby pelo desarmamento nuclear nos corredores do Congresso dos Estados Unidos, escutei inúmeras vezes que nossos aliados (você) queriam nossa tríade nuclear (bombardeiros nucleares, submarinos e mísseis balísticos) e dependiam dela. Você alçaria sua voz e lhes diria que não acredita que as armas nucleares manterão seu povo seguro? Diria que conhece uma maneira melhor de negociar com os atuais “adversários” em vez de ameaçá-los (e a nós mesmos) com sua destruição?

Se não fizer isso, é porque você, obviamente, é parte indispensável da indústria de armas nucleares. Você estimula tanto essa indústria quanto a atual e renovada corrida nuclear, que deveria ter acabado há muito tempo. Japão, você, que conhece as consequências mais que todos nós, está viabilizando um grande perigo para a vida terrestre.

Por muitos anos, assisti às cerimônias anuais em Hiroshima e Nagasaki. Vi seu Primeiro-Ministro e os membros do Gabinete, um por um, fazendo profundas reverências aos que foram assassinados. Vejo as oferendas de água para os Espíritos que ainda estão sedentos. Pensei bastante em por que existe tanta sede e que alimento espiritual essas almas (e os Hibakusha ao seu redor) buscam. Não seria uma forma de resolução? Para cicatrizar um pouco? Para dizer “nunca mais”? Não é essa a oferenda que eles pedem?

Japão, afirmo, de forma respeitosa, que as palavras proferidas pelos seus líderes de Estado soam superficiais e falsas SE você não agir a fim de frear com a insanidade que é a indústria de armas nucleares. A água purificada que certamente trará regozijo para todas essas almas está ao seu alcance. Você sabe o que significa e vai perceber a resposta imediata quando fizer a coisa certa.

Você pode dizer isso aos Estados Unidos. Eles são seus grandes amigos e prezamos muito essa amizade. Nós nos importamos com você. Poderia, por favor, começar o processo de libertar o mundo das armas nucleares? Pare com as antigas políticas do “NNão perguntem, não digam” para nossos navios e aeronaves repletos de armas nucleares em seu território. Você realmente acredita que, ao expandir o número de bases estadunidenses na região, a China dirá “Ok, já que eles estão construindo, vamos parar”?

Você poderia ajudar a educar os estadunidenses que ainda aprendem o mito de que a bomba atômica venceu a guerra, trouxe paz e salvou vidas?

Mesmo diante de uma pandemia, sua nação sediou de um dos maiores destaques não-comerciais da humanidade: atletas do mundo, cada um com diferentes histórias e sonhos, reunindo-se através do esporte e ajudando uns aos outros a continuar com objetivos ainda maiores. Para muitos de nós, em 2021, as Olimpíadas e as Paraolimpíadas precisam falar de quem vai ganhar o mais importante ouro olímpico: o ouro em prol do meio ambiente, para quem enfrente o desafio climático. Dessa vez, o maior número de medalhas de ouro vai para quem combater as piores ameaças da humanidade. Vai ser mesmo a China? Os Estados Unidos? Vai ter ouro para aqueles que contribuíram com graves ameaças de continuar dessangrando Fukushima? Neste ano, sugiro que o Japão leve o maior ouro.

Talvez seja preciso encarar alguns generais e capitães da indústria. Para isso, é preciso ter coragem, sabedoria e prudência, mas vocês contarão com o apoio incondicional do povo que busca um futuro melhor para a humanidade. Se a maioria dos membros do Conselho da cidade de Nova Iorque apoiar a resolução e pressionar os EUA a ratificarem esse Tratado de Proibição e a abandonarem a indústria, então o Governo do Japão também consegue. Por favor, em homenagem aos dias 6 e 9 de agosto, escute a maioria de seus cidadãos, especialmente os prefeitos de Nagasaki e Hiroshima, que solicitam a assinatura do TPAN. Eles são um grande farol que ilumina nosso caminho. Por favor, vão pelo ouro e façam suas oferendas.

Obrigado pela consideração. Gratidão,


Traduzido do inglês por Ana Raquel Romeu / Revisado por Graça Pinheiro

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