Como a Fênix, Chernobyl renasce das cinzas.

Um recente… “Aumento de reações de fissão em uma câmara inacessível dentro do complexo” está alarmando os cientistas que monitoram as ruínas da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. (Fonte: Nuclear Reactions at Chernobyl are Spiking in an Inaccessible Chamber, NewScientist, 11 de maio de 2021).

Sabe-se que essa significante renovação da atividade de fissão está localizada na sala 305/2 do sub-reator, que contém uma grande quantidade de material físsil da primeira fusão. A explosão derrubou paredes da instalação entre toneladas de material físsil dentro do reator à medida que o calor extremo derreteu as paredes de concreto e metal combinadas com areia usada para controlar a explosão, formando uma substância intensamente radioativa semelhante à lava que escorreu para os pisos inferiores, por exemplo, a sala 305/2. A sala é tão radioativa que ficou inacessível por humanos ou robôs pelos últimos 35 anos.

Desde 2016, as emissões de nêutrons da sala aumentaram cerca de 40% nos últimos cinco anos. O que aponta para uma reação crescente de cisão nuclear no ambiente. De acordo com Neil Hyatt / Universidade de Sheffield – Reino Unido: “Nossa estimativa de material físsil na sala significa que podemos confiar que não haverá uma liberação tão rápida de energia nuclear a ponto de ter uma explosão. Porém, não temos certeza… é motivo de preocupação, mas não de alarme”, ibidem.

Se uma intervenção for considerada necessária, será preciso perfurar roboticamente a sala 305/2 e pulverizar a bolha radioativa com um fluido que contém nitrato de gadolínio, que deve absorver o excesso de nêutrons e sufocar a reação de fissão. Enquanto isso, o tempo dirá se o monstro das profundezas da sala 305/2 se instala sozinho ou requer interação humana através dos olhos e braços de um robô, que pode não sobreviver à intensa radioatividade. E depois?

Por enquanto, um enorme sarcófago de aço, um abrigo de confinamento protetor de $1,8 bilhão, o Novo Confinamento Seguro (NCS) foi construído em 2019 para, com esperança, evitar a contaminação radioativa. O NCS é o maior objeto terrestre já movido, entregue por 2.500 caminhões e 18 navios após nove anos de construção na Itália. Espera-se que dure 100 anos. A partir daí, quem sabe?

No entanto, de acordo com profissionais do setor nuclear, a questão é saber se a atividade recente de fissão irá se estabilizar ou se será necessária uma intervenção perigosamente difícil para, de alguma forma, impedir uma reação nuclear descontrolada.

De forma inevitável, uma vez fora de controle, o veneno da energia nuclear permanece fora de controle, para sempre, além do tempo da humanidade. Infelizmente, um acidente nuclear é equivalente a inúmeros, provavelmente milhares, de acidentes não-nucleares.

“Arrastamo-nos assim para uma catástrofe sem paralelo.”(Albert Einstein)

O relógio do juízo final

Acompanhando esses eventos, o mundialmente famoso Relógio do Juízo Final, a princípio baseado na ameaça de uma guerra nuclear, mede a proximidade da humanidade da aniquilação total: O Boletim dos Cientistas Atômicos (BAS), uma organização mundial de especialistas em ciência e política marcou o relógio em 100 segundos para a meia noite: “A má notícia é que estamos ainda mais perto da meia noite do que já alguma vez estivemos desde que o relógio foi apresentado há mais de 60 anos por causa de: (1) má gestão geral da pandemia da COVID-19 nas nações do mundo todo, (2) pouco progresso na eliminação das armas nucleares, (3) mitigação insuficiente da mudança climática destrutiva e (4) ameaças à segurança nacional por extremistas de direita. Por esses motivos, o BAS decidiu manter o relógio no presente horário perturbador como um aviso e um sinal de despertar. (Fonte: Do0msday Clock Stands at 100 Seconds to Midnight, LiveScience)

O perigo de o relógio estar tão próximo da meia noite é justificado em vários aspectos, por exemplo, a COVID puxou a cortina do feiticeiro, revelando uma figura cartunista de irresponsabilidade dos governos de todo o mundo para lidar com emergências: “Um alerta histórico de que os governos estão despreparados de forma lamentável para lidar com pandemias”, ibidem.

Além disso, “as emissões globais de carbono, um dos principais motores da mudança climática causada pelo homem, caiu temporariamente cerca de 17% por causa da pandemia, mas, em boa parte, voltou ao normal… ainda assim, os impactos da mudança climática crescente levou os cientistas da NASA a declarar 2020 como o ano mais quente da história”, de acordo com Susan Solomon, uma professora de estudos ambientais do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e membro do BAS Science e do Corpo de Segurança, ibidem.

De acordo com o professor de políticas públicas na Universidade de Maryland, Steve Fetter, o mais preocupante é que a ameaça nuclear permanece “inaceitavelmente alta”, com os EUA alocando mais de um trilhão de dólares para modernizar seus programas de armas nucleares, à medida que China, Índia, Coreia do Norte e Paquistão expandem os arsenais. A Coreia e o Paquistão expandem arsenais. “Pelas nossas estimativas, a possibilidade do mundo tropeçar em uma guerra nuclear — um perigo que sempre esteve presente nos últimos 75 anos — aumentou em 2020”, ibidem.

Em especial, o impulso na proximidade do relógio para a meia-noite ocorreu recentemente com o advento da presidência de Trump. Em 2018, marcou dois minutos para a meia noite. O único momento em que ficou tão perto foi em 1953 quando os EUA e a Rússia conduziram a detonação de suas primeiras bombas de hidrogênio com 6 meses de diferença entre elas.

O relógio do apocalipse permaneceu parado em 2019, mas em 2020 avançou novamente para refletir a humanidade enfrentando a “verdadeira emergência — um estado absolutamente inaceitável de assuntos mundiais que eliminou qualquer margem de erro ou mais atrasos”, ibidem.

Assim, o mundo corre risco em múltiplas áreas nunca antes vistas ao longo da história do Relógio do Juízo final (est.1947) que a princípio marcava sete minutos para a meia noite, quando as armas nucleares eram a maior ameaça da humanidade. Agora, a guerra nuclear compartilha esse bastão formidável em uma maratona perigosa com: (1) mudança climática, (2) governos inaptos e (3) uso generalizado de redes sociais que espalham desinformação que corroem a confiança na mídia e na ciência pelo mundo.

Além disso, de acordo com o BAS, a expansão do movimento conservador ameaça a segurança nacional dos EUA: “Esses extremistas representam um perigo ímpar devido a sua predominância em instituições federais, como a militar, e à potencial infiltração em instalações nucleares, onde podem acessar informações sigilosas e materiais nucleares”, afirmam representantes da BAS. “As autoridades precisam agir de maneira decisiva para melhor compreender e mitigar essa ameaça”, ibidem.

Ao longo da história, os partidos políticos que se baseiam em mentiras e subjugam a sociedade com destruição perversa, como por exemplo, a queda de Roma no século V d.C.: “No tempo de Agostinho (354-430 d.C.), o Império Romano se tornou um Império de mentiras. Fingia defender o estado de direito, proteger as pessoas de invasores bárbaros e manter a ordem social. Porém tudo isso virou uma piada ruim para os cidadãos de um império então reduzido a nada mais que uma máquina militar gigante dedicada a oprimir o pobre a fim de manter os privilégios do rico. O próprio Império se tornou uma mentira: que existia pela graça dos deuses que recompensaram os romanos por causa de suas virtudes morais. Ninguém conseguia acreditar mais naquilo: foi o colapso da base da sociedade; a perda daquilo que os antigos chamavam de auctoritas, a confiança que os cidadãos tinham em seus líderes e instituições do estado”. (Fonte: Cassandra’s Legacy, The Empire of Lies, February 8, 2016)


Traduzido do inglês para o português por Jenifer Araújo / Revisado por Larissa Dufner