O Seaspiracy é um novo e formidável documentário lançado pelo Disrupt Studios, em 24 de março de 2021, na Netflix, que fala sobre o mundo perigoso e ingovernável da pesca industrial e do abuso e da exploração sem limites da vida, bem como do descaso por ela – práticas de revirar o estômago.

A primeira cena do documentário dá o tom da narrativa, com o plano geral de uma traineira isolada no mar e a voz de um ex-membro da tripulação de um navio pesqueiro, que escapou da escravidão forçada após 10 anos ininterruptos no mar, exclamando: “Quando os navios estão no meio do oceano, problemas acontecem. Eles podem atirar você para fora do barco, dentro do mar. É perigoso fazer esse documentário. Existem muitos riscos”. Um segundo fugitivo diz: “Se você está com medo de morrer, vá para casa”.

A zona de guerra

A guerra nivela o terreno e mata. Com base na história do Seaspiracy, a pesca comercial industrial se encaixa perfeitamente nessa descrição.

O filme retrata, acima de tudo, uma zona de guerra sangrenta e assustadora, com uma quantidade imensa de cascos de traineiras cadavéricas, com manchas de ferrugem avermelhadas e alaranjadas, espreitando, lançando redes gigantescas e devastando fundos marinhos inteiros. Nada escapa desse rastejar aterrorizante num mundo desconhecido e sombrio de embarcações pesqueiras vilanescas, sombrias, dignas de filmes de máfia, infestadas de escravos, que lançam redes de 16 quilômetros ou linhas de anzol suficientes para dar 500 voltas ao redor do planeta, diariamente. Nada sobrevive a esta zona de guerra.

De acordo com o Seaspiracy, o crime de pesca é o mesmo que o crime organizado transnacional. Os sindicatos que operam nos bastidores da pesca ilegal são os mesmos que estão por trás do narcotráfico e do tráfico de pessoas.

Os trabalhadores da pesca marinha estão envolvidos nos trabalhos mais perigosos do mundo, com cerca de 24.000 mortes por ano. Segundo o Seaspiracy, a escravidão, por exemplo, é comum. Há 51.000 barcos de pesca nas águas da Tailândia sob a bandeira tailandesa. Estes barcos são economicamente inviáveis sem mão de obra barata e gratuita. A equipe do Seaspiracy viajou para Bangkok para entrevistar escravos fugitivos de barcos de pesca: alguns passaram 10 anos ininterruptos no mar. Ninguém conseguia sair do navio devido à presença dos guardas, semelhantes aos infames supervisores do Deep South. Um entrevistado afirmou que o capitão do navio usava uma barra de ferro como arma para controlar os trabalhadores. Os cadáveres eram simplesmente jogados no mar.

Este documentário captura cenas horríveis de mortes sangrentas e violentas por trás da pesca comercial industrializada, que é retratada como o principal fator para a sobrevivência da população de peixes no planeta, com 2,7 trilhões de animais capturados por ano e cinco milhões mortos a cada minuto. As populações globais de peixes despencaram – 99% no caso do halibute, 86% do bacalhau, 97% do atum-rabilho e 99% da arinca. São números característicos de extinção, já que a pesca industrial não conhece limites. Se o ritmo atual permanecer, em 2048 os oceanos estarão vazios! A partir daí, os mares emitirão odores ácido e estranhos, à medida que a escuridão total os descolore e remove a cor vibrante e rica presente neles.

Os oceanos são o lar de 80% de toda a vida na Terra, número que diminui rapidamente a cada dia, à medida que 4.600.000 embarcações de pesca comercial trabalham livremente – muitas são éticas e honestas, mas um número muito maior viola regras e regulamentos internacionais, comete crimes em alto mar e assassina policiais e trabalhadores que atrapalham seus planos. Porém, numa perspectiva mais ampla, o que traz mais impacto é o massacre de toneladas de vida marinha e o extermínio de algumas espécies. Enquanto isso, o Seaspiracy busca respostas impossíveis para uma pergunta difícil: “O que é pesca sustentável”?

Fundamentalmente, o documentário descreve a zona de guerra da pesca como sintetizada pelo abate cruel de tubarões. Os tubarões matam 10 pessoas por ano. A indústria da pesca mata de 11.000 a 30.000 tubarões por hora. Sim, por hora. De forma alarmante, metade dessa matança é por “captura acidental”, posteriormente lançada ao mar como desperdício por frotas de pesca comercial. Anualmente, 50 milhões de tubarões são capturados em redes, junto com os frutos do mar favoritos de milhares de pessoas e lançados ao mar como lixo ou “captura acidental”.

Além disso, a fase 2 do abate de tubarões é composta pela “shark-finning”, uma operação dirigida por mafiosos, que envia as barbatanas para a Ásia, predominantemente para a China, para servirem de ingrediente na sopa de barbatanas de tubarão, um símbolo de status sem valor nutricional e sem nenhum sabor especial, mas que pode custar até 100 dólares a porção. Hong Kong, conhecida como A Cidade das Barbatanas de Tubarão, repele categoricamente as câmeras de vídeo do Seaspiracy, indo além das ameaças descabidas. 

Os tubarões estão no topo da cadeia alimentar e são conhecidos como “superpredadores”. A diminuição no número desses animais derruba toda a cadeia alimentar marinha, de cima para baixo. Eles são tão importantes quanto os golfinhos e as baleias para a sobrevivência dos mares: mantêm os oceanos e as populações de peixes saudáveis e evitam que os oceanos transformem-se em pântanos. 

De acordo com os cálculos realizados pela equipe do Seaspiracy, o número de tubarões nos mares está caindo: o de tubarões-raposa, em 80%; o de tubarões-touro, em 86%; o de tubarões-martelo, em 86%. No geral, a população total de tubarões caiu de 80 a 99%. Esses são números perturbadores e que indicam um processo de extinção. Podemos compará-los ao Permiano-Triássico, o pior evento de extinção do planeta, que aconteceu há 250 milhões de anos e foi responsável pela destruição de 95% da vida marinha. Assim, estamos nos aproximando rapidamente da última etapa na “extinção dos mares”. Obviamente, a questão mais importante é: por quanto tempo a humanidade suportará essa situação?

As mortes excessivas de tubarões trazem consigo a morte de quase todas as outras espécies marítimas. Por exemplo, a abundância de aves marinhas diminuiu em 70%. Por quê? Os predadores marinhos, como os tubarões, conduzem os peixes para perto da superfície, onde as aves marinhas mergulham e se alimentam. Sem predadores, não há peixes próximos à superfície para que as aves marinhas possam se alimentar.

Como exposto no documentário, vários problemas podem levar à dizimação total ou ao comprometimento absoluto dos oceanos. De fato, as pessoas veem, confortavelmente sentadas em casa, notícias de baleias encalhadas em praias ou de tartarugas e pássaros estrangulados em redes ou com os estômagos cheios de plástico. Redes de pesca são a maior causa de morte marinha não intencional devido à pesca industrializada, já que as traineiras perdem quilômetros delas. Um total de 46% da notória Grande Mancha de Lixo no Oceano Pacífico consiste em redes de pesca comercial perdidas.

Conforme explicado no Seaspiracy, as baleias e os golfinhos se afogam quando capturados em redes de pesca. E eles são parte fundamental da sobrevivência do oceano. Quando emergem para respirar, as substâncias excretadas por eles fertilizam minúsculas plantas marinhas chamadas fitoplâncton, que, a cada ano, absorvem quatro vezes a quantidade de dióxido de carbono absorvida pelas florestas tropicais, o que mantém os oceanos vivos e serve como uma das principais fontes de oxigênio para o planeta. Infelizmente, segundo o filme, “nossos oceanos se transformaram em uma sopa de plástico tóxico”.

Ao longo do caminho, a equipe do Seaspiracy descobriu um problema duplo para as baleias, à medida que o Japão retomou a caça comercial, com rumo para a Antártica, apesar da proibição mundial desde 1986. Não apenas o Japão, mas vários países também têm matado baleias de forma velada. A Comissão Baleeira Internacional proibiu a caça comercial de baleias em 1986 devido ao “esgotamento extremo da maioria das populações de baleias”. No entanto, o Japão e a Islândia as caçam sob o pretexto de “caça científica”.

O Seaspiracy descobriu que a obsessão nacional do Japão em baleias e golfinhos se estende ao abate em massa em Taiji, no sul do país, onde golfinhos e pequenas baleias são cercados e abatidos, anualmente. O governo do Japão tenta encobrir esse massacre de golfinhos ou essa guerra contra eles. Ao chegar em Taiji, a equipe do documentário encontrou resistência da polícia, que, usando câmeras, monitorava pessoas estranhas.

No abate anual de golfinhos em Taiji, os pescadores batem com as varas contra os cascos dos barcos para conduzir os golfinhos até uma enseada onde eles são abatidos, todos os dias durante essa celebração sangrenta. Tudo sob o pretexto de “controle de pragas”. Os golfinhos, que são mamíferos muito espertos, são considerados “concorrência” para a indústria pesqueira. Há anos, o Japão aponta os animais como “os culpados pela pesca excessiva”. Sim, acredite se quiser, é verdade.

O Seaspiracy se uniu a uma das poucas ONGs do mundo que tenta policiar o comércio internacional de pesca ilegal, chamada Sea Shepard, um grupo de conservação marinha sem fins lucrativos que trabalha com os governos para rastrear e prender embarcações de pesca ilegal, como ocorre na Libéria, por exemplo. Segundo Stefano Tricanico, membro da organização: “Temos frotas majoritariamente internacionais vindas de países que já esgotaram as populações locais. Elas têm se esforçado cada vez mais para tentar compensar isso e usado tecnologia cada vez mais sofisticada para aumentar o número de capturas. São ações ilegais e que causam a captura de grandes quantidades de animais”.

A equipe do Seaspiracy testemunhou a Sea Shepherd e a Guarda Costeira rastrearem embarcações ilegais, que são praticamente matadouros flutuantes, deixando a água toda ensanguentada. Em águas liberianas, eles embarcaram em uma traineira chinesa com enormes quantidades de peixes capturados ilegalmente e armazenados no porão. O navio foi detido e multado.

A Sea Shepherd viaja pelo mundo fiscalizando os infratores das regras internacionais. De modo geral, mais de 100 regulamentos de pesca não são aplicados. Algumas descobertas chocantes aconteceram, como quando o Seaspiracy descobriu, por exemplo, que 10.000 golfinhos são mortos a cada ano como “captura acidental” apenas no mar da França. Foi demonstrado que a maior ameaça para as baleias e golfinhos é a pesca comercial. Mais de 300.000 desses animais são mortos anualmente como “captura acidental” e jogados no mar.

Embora muitas companhias de pesca defendam o movimento “atum sem risco para golfinhos”, as autoridades capturaram 2 barcos de atum que haviam matado 45 golfinhos (jogados fora por serem “captura acidental”) por cada 8 atuns mantidos e ainda se declararam a favor do movimento. O navio estava trabalhando para o “Dolphin Safe canned tuna” (Atum Enlatado Seguro para Golfinhos, em tradução livre). O instituto Earth Island, por sua vez, está por trás dos rótulos Dolphin-safe. Quando a equipe do Seaspiracy encontrou e entrevistou funcionários do Earth Island, constatou, consternada, que ninguém realmente vai ao mar para testemunhar se a segurança dos golfinhos é uma realidade. O instituto admitiu a falha e, também, que, quando eles enviam observadores, estes podem ser “subornados” para concordar em rotular a captura como “segura para os golfinhos”.

O Earth Island, um observador sem fins lucrativos de captura marinha que representa o interesse público, é pago para licenciar o rótulo de “seguro para os golfinhos” pela indústria pesqueira. Ao longo do caminho, eles geralmente aceitam a palavra do capitão do navio de que a captura é feita da maneira correta, o que significa que “nenhum golfinho foi morto durante a captura”. Essa é uma mentira descarada que engana consumidores em todo o mundo.

Com base em entrevistas de pessoas conhecedoras do assunto, o rótulo dolphin-free, reconhecido internacionalmente, é uma invenção, sem garantias, de acordo com um porta-voz do Earth Island.

Enquanto isso, há, na natureza, menos de 3% restantes do atum-rabilho do Pacífico, peixe mais glorioso do mar, considerado a rainha do mar, um poderoso nadador que atravessa o Oceano Pacífico em 55 dias. Isso é resultado da pesca excessiva, que coloca a indústria do atum, de 42 bilhões de dólares, em risco de colapso iminente. Devido ao declínio acentuado da espécie, o Monterey Bay Aquarium, na Califórnia, recomenda que os consumidores digam “não, obrigado” aos restaurantes que ousam servir atum-rabilho do Pacífico.

De acordo com uma investigação promovida pelo Seaspiracy, a Marine Stewardship Council (MSC), uma organização sem fins lucrativos cujo rótulo é encontrado em latas de peixe nas prateleiras dos supermercados, certifica companhias de pesca que infelizmente produzem níveis surpreendentes de “captura acidental”. A MSC recusou uma entrevista para discutir a “pesca sustentável”. A Unilever (proprietária de um varejista de frutos do mar) é fundadora da MSC, que é a maior promotora mundial da “pesca sustentável”. Na verdade, 80% da renda anual da MSC é proveniente do licenciamento do imprimatur em frutos do mar como “captura sustentável”. Porém, seguindo o questionamento da equipe do Seaspiracy: como uma pesca comercial que inclui 40% de “captura acidental” pode levar o rótulo de sustentável?

A pesca sustentável existe?

O Seaspiracy conversou com o Capitão Paul Watson, ex-Diretor Nacional da Sierra Club (associação que desistiu da entrevista porque “não queria se manifestar contra a pesca e a caça por pensar que perderia o apoio de seus membros”). De acordo com Paul: “Bem, antes de mais nada, isso não existe. É impossível. Não existe pesca sustentável. Simplesmente não existe peixe suficiente para justificar isso. Não é sustentável, é apenas uma frase de marketing, nada mais”.

O Oceana é o maior grupo de preservação marinha do mundo e defende a pesca sustentável. Porém, os membros do grupo não puderam definir o termo “sustentável” quando questionados pelo Seaspiracy. Eles são, entretanto, um dos maiores defensores da bandeira “coma peixes sustentáveis”.

Além de saber se a “pesca sustentável” é mesmo uma realidade, outra questão muito séria é o impacto da pesca de arrasto, uma vez que as embarcações lançam redes de mais de 16 quilômetros para recolher tudo o que está ao alcance delas. A equipe do Seaspiracy entrevistou Richard Oppenlander, que informou: “a pesca de arrasto por grandes barcos de pesca elimina 3,9 bilhões de acres de formas de vida submarina a cada ano. Isso equivale à destruição da área terrestre da Groenlândia, Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Itália, Turquia, Irã, Tailândia e Austrália juntos, todos os anos”. As plantas marinhas, por acre, armazenam 20 vezes mais carbono do que as florestas terrestres. A maior parte do CO2 do planeta é armazenada com a ajuda da vegetação marinha, algas e corais.

As embarcações de pesca são máquinas mortíferas que limpam a base de toda a cadeia alimentar marinha, o que também remove uma fonte de nutrientes para os recifes de coral, que se alimentam de excrementos de peixe. Acontece que a pesca comercial se tornou uma grande ameaça para os recifes de coral ao redor do mundo. Por exemplo, 90% dos grandes peixes que prosperaram nos recifes de coral do Caribe nos últimos mil anos já não existem mais.

O Seaspiracy, em busca de uma sensação de alívio, decidiu olhar para a piscicultura com sua reputação satisfatória, do ponto vista da ecologia. Afinal, 50% dos frutos do mar do mundo vêm agora de criações de peixes. A Escócia é um dos líderes mundiais na produção de salmão de viveiro. Alguns problemas foram descobertos no documentário. A piscicultura requer enormes quantidades de óleo e farinha de peixe que vem de peixes selvagens. Portanto, a piscicultura vive da captura de peixes silvestres. A equipe do Seaspiracy encontrou-se com Dan Staniford, um denunciante que expôs o problema de graves infestações de piolhos do mar nas fazendas de criação de peixes. A equipe filmou salmões sendo comidos vivos pelos parasitas, o que, segundo Dan, é comum em pisciculturas em todo o mundo. Além disso, é meio nojento considerar que cada piscicultura escocesa produz resíduos orgânicos iguais a uma cidade de 10-20.000 pessoas. Assim, o salmão contido em pisciculturas confinadas nada nas próprias fezes.

Dan ainda informou que 50% dos salmões nas pisciculturas morrem de anemia, infestação de piolhos, clamídia ou doença cardíaca. “A salmonicultura é um desperdício de recursos”. Como explicado por ele, o salmão de viveiro sem colorantes adicionados à ração seria completamente cinza. A coloração rosada é artificial.

Depois de descobrir tantos problemas sérios com a indústria comercial, o Seaspiracy decidiu verificar as áreas marinhas protegidas. Um especialista no assunto informou que sim, existem áreas de proteção oceânica. Atualmente, 5% dos oceanos são áreas marinhas protegidas, mas isso é ilusório. Mais de 90% dessas áreas protegidas ainda permitem a pesca de forma sustentável. Na realidade, menos de 1% dos oceanos estão sendo regulamentados por meio de áreas marinhas protegidas.

A equipe do Seaspiracy ainda entrevistou a Dra. Sylvia Earl, fundadora do Mission Blue e do Deep Ocean Exploration and Research. Segundo ela, com base nas atuais atividades de pesca comercial, “até meados deste século, a pesca comercial deixará de existir porque não haverá peixe suficiente para capturar”.

Em apoio à declaração da Dra. Sylvia, no meio do Mar do Norte, em meados do século 19, um típico barco de pesca (uma embarcação) pescaria de uma a duas toneladas de halibute por dia. Hoje, toda a frota pesqueira do mesmo local pesca duas toneladas de halibute por ano.


 Traduzido do inglês para o português por Marcella Santiago / Revisado por Felipe Balduino