Parte da população, desesperada pela imunização contra a Covid-19, se preocupa em culpar os “caçadores de vacinas”, enquanto as empresas que se recusam a compartilhar a sua propriedade intelectual financiada com dinheiro público e os governos que lhes permitem escapar impunes são os verdadeiros culpados.

Por Sonali Kolhatkar

Recentemente, numa reunião virtual de pais e professores da escola em que meus filhos estudam, uma das mães presentes, que é professora e, portanto, elegível para receber uma das vacinas contra a Covid-19, mencionou que havia tomado a sua primeira dose da vacina da Pfizer numa farmácia local, e que, ao perguntar sobre doses remanescentes para aplicação em seu marido, em vez do descarte, tiveram sorte em consegui-la. O resto de nós, pais, anotou ansiosamente os dados da referida farmácia para, após a reunião, buscar informações sobre as sobras. A nossa lógica foi que as vacinas seriam melhor utilizadas se fossem distribuídas para nós do que se fossem jogadas fora. O farmacêutico, porém, talvez já sobrecarregado pela procura de doses extras, nos informou que não mais as distribuiriam, se não para aqueles que fossem elegíveis no momento.

São os “Jogos Vorazes” pelas vacinas; ou, como o criador de um grupo no Facebook chamado Minneapolis Vaccine Hunter disse ao New York Times: “É como comprar ingressos para o show do Bruce Springsteen”.

Já num outro grupo privado no Facebook chamado Los Angeles Vaccine Hunter, no qual realizei uma sondagem por alguns dias, tanto como um membro genuíno quanto como jornalista, presenciei os californianos do Sul do estado compartilhando dicas sobre como obter as doses remanescentes da Kedren Community Health Center, uma clínica particular, localizada na região sul de Los Angeles, que atende a uma comunidade carente. Eles se alertavam sobre a importância de uma abordagem educada e da atenção à comunidade, a qual obviamente não pertenciam, e alguns afirmaram até mesmo terem feito doações, após receberem suas aplicações. A obtenção de doses remanescentes exige a espera em filas, às vezes por horas, sem garantia alguma de um possível sucesso. Muitos, ainda, temem serem julgados.

As pessoas estão constantemente expostas à vergonha e à culpa; há acusações de que os mais privilegiados estão passando à frente dos outros; existe frustração e injustiça. Em janeiro, jornalistas, assim como eu, foram incluídos num dos grupos inicialmente elegíveis para tomarem a vacina na Califórnia, classificados como trabalhadores essenciais em “Comunicações e TI”. Como apresentadora de programas diários de televisão e rádio, inevitavelmente tenho contato com pelo menos um membro da equipe diariamente. A divulgação de notícias não pode parar. E, no entanto, em fevereiro, com a reconfiguração dos grupos prioritários no condado de Los Angeles, não estávamos mais entre os grupos elegíveis.

Enquanto isso, meu marido, um cientista trabalhando remotamente de casa, classificado como “educador”, já que é funcionário de uma universidade, e outros em situação similar são elegíveis para tomar a vacina, mesmo que o retorno às aulas presenciais em muitos campi não aconteça antes do início do outono, em setembro, simplesmente porque as autoridades assim decidiram. Como um “caçador de vacinas” questionou no Facebook: por que estamos “permitindo que o governo dite quem vai viver ou morrer e que rotule quem é essencial ou não para a sociedade”?

Mesmo para aqueles que são elegíveis, conseguir tomar a vacina se tornou uma missão difícil. O jornal conservador Wall Street Journal recomenda que os idosos norte-americanos pouco familiarizados com tecnologia “encontrem um jovem universitário com competência e paciência nessa área”, para que os ajudem a navegar em meio ao “confuso mundo dos portais online, numa situação de oferta limitada de vacinas”.

Na Califórnia, até o momento, a maioria dos que precisam ser vacinados ainda não receberam a sua dose. Segundo a agência de notícias Associated Press, “os afro-americanos receberam 3% das doses já aplicadas da vacina, enquanto representam 6% da população do estado. Os latinos, que representam 39% do estado, receberam 17% das doses”. Enquanto isso, estados liderados pelos republicanos, como Texas e Mississipi, estão encerrando a quarentena e as outras medidas de proteção bem antes que as taxas de vacinação alcancem níveis seguros.

Devido à grande dificuldade para conseguir a vacina, os incentivos por parte do governo para “que os elegíveis tomem as suas doses” e deixem de lado qualquer sentimento de culpa relacionado a quem, de fato, deve ter acesso a elas e quem está, na realidade, furando a fila, acabam ignorando o verdadeiro problema: vivemos num país onde a assistência médica é considerada um privilégio individual ligado ao vínculo empregatício, não um direito. Nos Estados Unidos, o sistema de saúde é entendido como uma indústria, na qual os lucros têm prioridade sobre a assistência médica.

No centro dessa busca desesperada para obter as vacinas, se encontra um dilema claro: não há vacinas suficientes para acompanhar a evolução da Covid-19. Variantes do vírus estão se desenvolvendo mais rapidamente do que a capacidade de vacinação dos países, e as taxas de infecção nos EUA, que estavam em queda, se estabilizaram.

Parte do problema está ligado ao fato de que o ex-presidente Donald Trump, quem, há pouco tempo, foi discretamente vacinado e quer todos os créditos pelo desenvolvimento da vacina, perdeu a chance de comprar doses adicionais da vacina da Pfizer no ano passado, além das 100 milhões de unidades adquiridas inicialmente. Após o presidente Joe Biden ameaçar recorrer a Lei da Produção para a Defesa (Defense Production Act), forçando Pfizer e Moderna a produzir mais vacinas, estas concordaram em vender mais doses do que havia sido estabelecido previamente.

Numa outra demonstração de que os governos podem, de fato, forçar empresas privadas a fazerem o que for necessário, Biden, mais recentemente, negociou um acordo com a farmacêutica Merck para a produção de doses extras de uma nova vacina desenvolvida pela Johnson & Johnson. A empresa receberá a generosa quantia de 268 milhões de dólares, os quais advêm integralmente do pagamento de impostos. Ao invocar a Lei da Produção para a Defesa, Biden também pretendia ajudar a Merck a obter os suprimentos necessários. Se Trump tivesse utilizado todo o poderio do governo norte-americano contra essas corporações privadas no ano passado, talvez hoje não estaríamos batalhando para negociar mais doses.

As empresas farmacêuticas, cujas vacinas foram amplamente financiadas por investimentos públicos, ainda se recusam a compartilhar a sua propriedade intelectual com o resto do mundo. O Open COVID Pledge, uma coalizão internacional criada por um grupo de acadêmicos e cientistas para disponibilizar gratuitamente tecnologia relacionada ao vírus, exorta as empresas a priorizarem a saúde pública em detrimento do lucro. Entretanto, notavelmente, estão fora da lista de signatários dessa coalizão a Pfizer, a BioNTech, a Moderna, a Johnson & Johnson ou a Merck.

Os Estados Unidos e outros países onde essas companhias farmacêuticas estão localizadas podem forçá-las a compartilhar as informações com potencial de salvar vidas, especialmente porque isso está relacionado com o bem coletivo. A não ser que países interrompam todas as viagens internacionais, reter tecnologia de vacinas do resto do mundo não ajuda ninguém. O velho ditado “ninguém está seguro, a menos que todos estejam seguros” se aplica especialmente bem no contexto desta pandemia.

Jornalistas ligados a Associated Press afirmam ter encontrado três fábricas, em três diferentes continentes, que poderiam começar a produzir “centenas de milhões de doses das vacinas contra o Covid-19, já no curto prazo, se tivessem acesso aos planos e ao conhecimento técnico necessários”.

Em vez de culpar uns aos outros pela frustrante indisponibilidade da vacina e pela disputa individual para obtê-la, os norte-americanos deveriam voltar seu foco para as empresas que as estão fabricando. A Pfizer e a Moderna alcançaram um status quase mítico com as suas vacinas capazes de salvar vidas, mas cabe a nós advertir que essas entidades privadas foram muito bem remuneradas para fazer o seu trabalho, e não podem ter a humanidade como refém de seus lucros.

Este artigo foi produzido pela Economy for All, um projeto do Independent Media Institute.


Sonali Kolhatkar é a fundadora, apresentadora e produtora executiva do programa de rádio e televisão “Rising Up With Sonali”, que vai ao ar nas estações Pacífica e na Free Speech TV. Ela escreve para o Economy for All, um projeto do Independent Media Institute.


Traduzido do inglês para o português por Samuel Francisco / Revisado por Larissa Dufner