Algoritmo

21.02.2021 - Rio de Janeiro - RJ, Brasil - Clementino Junior

Algoritmo
(Crédito da Imagem: Massa Pronta — foto/smartphone — Clementino Junior — 2021)
OLHARES

 

 

Por Clementino Jr.

 

 

Don’t hate the player, hate the game
Niggas, sharpen your aim

Não odeie o jogador, odeie o jogo
Crioulo, mire no alvo
(Don’t hate the playa — Ice-T — 1999 — tradução livre)

Em um curso sobre afrofuturismo compartilhado com as amigas Glória Celeste de Brito e Lu Ain-Zaila, em 2019, pela primeira vez ouvi, da voz de Glória, uma explicação do significado do algoritmo através da metáfora da receita de bolo. Nunca fiz bolo, mas sempre gostei de fazer pães e pizzas e, mesmo com estas receitas, nunca fui disciplinado (sou pisciano, desculpa) para seguir fielmente as instruções. Talvez esse seja o motivo para eu estar mais ligado às artes do que à lógica, mas minha questão com disciplina não tira o “mérito” da digitalização de nossas intenções e emoções buscando “melhorar nossa experiência de navegação”. Alguns se beneficiam mais do que outros de nosso consumo de informação online, até porque informação é poder e quem vive da busca pelo poder sabe muito melhor disso do que nós, pessoas normais.

Sobre a receita de bolo e o algoritmo, posso dizer, de forma resumida, pois prefiro outra metáfora para aprofundar essa palavra, que é como você organiza os ingredientes, a forma do preparo, o que entra e o que não entra em cada etapa para partir de algo básico para, a fim de obter um resultado prático, querendo objetivar, atender às lógicas de consumo. Em suma, quais as regras e a hierarquia dessas regras para “resolver um problema” — no caso do bolo, a larica.

Há algumas décadas, um político, ao qual não darei crédito para não gerar audiência, mencionou: “falem mal… Mas falem de mim”. Ele ironizava como quanto mais detratores ele tinha, enquanto cria da ditadura que se consolidou numa linha populista e cheio de factoides, mais votos e gente conservadora obtinha. Hoje, ele está envolvido em inúmeros processos, mas a punição dele tem mais qualidade de vida do que 80% da população. Mesmo assim, sua frase tem mais prática na política do que as de Paulo Freire na educação… E não estou exagerando.

Podem me julgar sobre o que comentei, mas não precisam falar mal de mim por um fragmento, pois o bolo ainda não ficou pronto… Sigamos.

Sobre algoritmo, uma curiosidade fácil de achar na internet, mas que raramente procuramos, é que a palavra vem da alcunha do matemático persa Abū ‘Abd Allāh Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī.

Voltando para a receita do bolo, tenho uma hipótese, a qual defendo desde os tempos dos programas ditos de humor na TV brasileira. Seguindo a linha jornalística, escolhiam personalidades pitorescas para cobrir o vazio editorial de seus programas semanais: falar mal, mas falar da pessoa, é bom para quem fala e para quem é falado. Cria-se um ciclo de alimentação mal intencionada e espiralizada, que vai ampliando o seu arco e absorvendo para o seu núcleo todos os que emitem, compartilham e recebem essas mensagens mal intencionadas.

espiral me lembra muito uma peça usada em algumas casas para bater a massa do bolo manualmente, porque a batedeira, com seu efeito roda-moinho de mistura, quebra qualquer hierarquia de etapas e mistura tudo de maneira mecânica, deixando a massa mais uniforme, mas perdendo a riqueza do cuidado com cada etapa. Segundo confeiteiras mais puristas — alguns dirão que estou plantando um fake news nesta frase, por não apresentar fontes — tudo o que não se bate na mão fica aquém no sabor ao final. Quanto mais automático o processo, menos saboroso, dizem. Por um acaso automático, palavra que vem do grego, significa “espontâneo”, ou “que age por si”.

Introduzido esse conceito e largando o teclado por minutos para buscar um café, pois imaginei o cheiro do bolo pronto, penso que a internet não é do mal, mas a questão da automatização na qual ela opera faz com que o comportamento das pessoas e suas intenções quando estão online criem uma gota no mar que pode se transformar num tsunami se o cruzamento desses algoritmos, espontaneamente, criarem ambiente para tal. Irônico pensar que esta nova metáfora da onda, vista de lado, se abre e se fecha como uma espiral inversa e ninguém quer estar onde ela arrebenta. Mas surfar traz emoções para quem sabe se equilibrar. E como confiar em algo espontâneo se, por mais que você calcule pelo hábito a quebra dessa onda, ela pode, por vontade própria ou de outros elementos envolvidos, mudar seu arco e te pegar de surpresa? Importante entender como a onda se constrói e como o bolo cresce. Importante saber o processo de cada uma para poder optar em participar ou não deste algoritmo.

A prevenção da saúde da população está em jogo e o antijogo vem sendo praticado nas redes para sabotar e gerar mais mortes durante a pandemia. A maldade de quem planta uma notícia falsa é só um ingrediente trocado na receita e temos que saber como identificá-lo antes dele ser processado na massa.

O jogo mencionado nesta epígrafe popular nos states, cantada pelo gangsta roots Ice-T, diz muito sobre esse diálogo entre usuário e plataforma e o que é o algoritmo. Todo jogo, ou sistema, tem a sua regra. Só entre para brincar se for divertido ou saboroso para você. Ou, como se diz num ditado popular daqui do Brasil:

se não sabe brincar, não desce para o play.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Opinião
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