Como o escritor Ernest Hemingway realmente reagiu à gripe espanhola

20.01.2021 - The Conversation

Como o escritor Ernest Hemingway realmente reagiu à gripe espanhola
Ernest Hemingway, julho de 1918, Hospital Americano da Cruz Vermelha, Milão, Itália. Buckley, Peter, Ernest, Dial Press, Nova York, 1978

No início do ano passado, enquanto o mundo lidava com o surgimento da pandemia do novo coronavírus, uma carta, a qual deixava a entender ter sido escrita por F. Scott Fitzgerald durante a pandemia da gripe espanhola de 1918, levou a internet à loucura. Foi, certamente, uma paródia escrita em um site de humor que se utilizou do estilo do autor, inclusive com notas ao seu amigo, Ernest Hemingway. A carta, a menos que a pessoa seja especialista de Fitzgerald, era bastante convincente:

Agora, parece muito pungente evitar todos os espaços públicos. Até mesmo os bares, como eu disse ao Hemingway, mas ele me deu um soco no estômago ao que perguntei se ele tinha lavado as mãos. Ele não tinha. Ele é negacionista. Considera que o vírus é só gripe. Estou curioso para saber quais são suas fontes.

O verdadeiro autor, Nick Farriella, sabiamente, camuflou preocupações contemporâneas do século XXI dentro do tom de linguagem de Fitzgerald, além de acrescentar à narrativa uma pitada da imagem clichê que tanto conhecemos do personagem “Hemingway”: o machão chato, brigão e mentiroso.

Trata-se de uma pessoa lamentável, embora, muitas vezes, mereça o título (vim a conhecê-lo melhor enquanto fazia pesquisas para um novo livro e examinava o período sombrio, em partes, ignorado, quando Hemingway estava na Europa antes e depois do Dia D).

Esse foi um período que, certamente, definiu sua vida e carreira – quando ele era, talvez, o escritor vivo mais conhecido do mundo, uma verdadeira marca de comércio internacional propiciada por um só homem. Inclusive, descobri que, quando estava em companhia de espiões disfarçados e autores célebres (como seu amigo, Roald Dahl), Hemingway podia ser ora pensativo, amável, brilhante e corajoso, ora inconveniente, abusivo e até desagradável.

Para alguns, o tom de paródia da carta pandêmica foi um breve momento de entretenimento, um retorno à versão cômica e caricata de Hemingway, como vimos no filme “Meia Noite em Paris, de Woody Allen. Já para os que o conheciam, a carta foi apenas mais uma simples tentativa de manchar ainda mais o complexo legado do escritor, em outras palavras, tratava-se de fake news.

Hemingway e os fatos

De fato, a resposta de Hemingway à pandemia de 1918-19 – e a acontecimentos posteriores – também foi muito diferente da apresentada na paródia. A verdade é muito mais estranha e enigmática do que qualquer ficção. Naturalmente, Hemingway era responsável por exagerar ao defender o seu ponto de vista de que a ficção poderia ser mais verdadeira do que a verdade. Porém, não significava que ele havia mudado os seus princípios sobre os fatos científicos e o mundo natural.

Afinal, ele era o filho zeloso de um médico de Oak Park, em Illinois, EUA, e testemunhou o trabalho de seu pai em primeira mão, inclusive, mais tarde, usou as práticas observadas em seus trabalhos ficcionais. A pesquisadora de Hemingway, Susan Beegel, mostrou que doenças graves, enfermidades, morte súbita ou prolongada não eram novidades para ele. Ele era consciente sobre as fragilidades da vida, tanto no que se referia aos humanos quanto aos animais.

Como o escritor Ernest Hemingway realmente reagiu à gripe espanhola

Uma foto antiga de Ernest Hemingway com sua família em 1905.  Ernest está em pé, à direita. Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, Boston – Mass

O filho do clínico geral, mais tarde, teve suas próprias experiências terríveis quando trabalhou como voluntário da Cruz Vermelha na Primeira Guerra Mundial. Hemingway tinha problemas de visão, isso por si só seria suficiente para impedi-lo de servir, mas, determinado, usou a Cruz Vermelha para chegar à linha de frente italiana.

Assim que chegou à Itália, ele foi encarregado de limpar os corpos das vítimas de bombardeio, experiência essa recontada em seu conto polêmico “História Natural dos Mortos“. Vivência que tanto o fascinou quanto o horrorizou. Algumas semanas depois, viu-se obrigado a se retirar do campo de batalha: um naufrágio sangrento e um Hemingway mais morto do que vivo com 228 pedaços de estilhaços incrustados em suas pernas. Seguiram-se dias longos e noites dolorosas de recuperação em estado crítico.

Susan Watson on Twitter: "Happy Birthday Hemingway, a 19 year old assigned to #RedCross #WWI ambulance service in Italy. Wounded working on the front line… https://t.co/V8d2F0ZRnw"Ernest Hemingway se recupera dos ferimentos na cidade de Milão, 1918. Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, Boston – Mass

Porém, depois de assistido pelas enfermeiras da Cruz Vermelha, Hemingway escreveu sobre o pior tipo de morte que ele presenciou. Não era morte por bomba ou chumbo: “A única morte natural que presenciei foi a da gripe espanhola. A pessoa se afoga em muco, engasga, e sabemos que o paciente está morto quando no final ele defeca na cama”.

Essa cena horrível era comum em meio a uma pandemia global que se afirmava em dezembro de 1919 e matou pelo menos 50 milhões de pessoas. Como viríamos a saber, não havia nenhuma pesquisa coordenada em âmbito nacional ou internacional, nenhum tratamento eficaz e, certamente, nenhuma vacina a caminho. Soldados e voluntários como Hemingway estavam literalmente nadando no vírus.

Escapa-se da doença

No entanto, Hemingway escapou de surtos da pandemia de 1918-19 por semanas, às vezes dias, enquanto se recuperava na Itália e quando retornou aos Estados Unidos. Quando chegou em casa, descobriu que a família e os amigos haviam padecido da doença. Apesar de toda a despreocupação juvenil, esses acontecimentos o assustavam. Sem contar que aquele soldado que sobreviveu na Itália nunca saía da sua mente.

De acordo com o grande biógrafo de Hemingway, Michael Reynolds, a superstição do escritor sobre a morte significava que “a menor possibilidade de gripe fazia-o, muitas vezes, correr atrás de hábitos mais saudáveis, pois ele tinha um horror particular de se afogar em seus próprios fluidos”. Consequentemente, em 1926 e agora vivendo em Paris, quando seu filho Jack, apelidado de “Bumby”, desenvolveu uma tosse seca, Hemingway imediatamente o mandou com sua esposa, Hadley, para o ar puro e o sol da Riviera para se recuperar, enquanto ele foi sozinho à Espanha para trabalhar.

Verrückte Geschichte on Twitter: "1922: Ernest Hemingways Frau Hadley vergisst ihren Koffer im Zug. Inhalt: Alles, was ihr Mann bis dahin geschrieben hat. Quelle: https://t.co/J2GKVVlBss… https://t.co/EprY4sJ68Y"

Ernest, Hadley e Bumby Hemingway, em 1926. Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, Boston – Mass

Hadley e Bumby Hemingway chegaram a Antibes em 26 de maio de 1926, e a criança foi imediatamente diagnosticada com a doença infecciosa – e potencialmente fatal – coqueluche. Era necessário submeter ambos à quarentena, por isso foram acolhidos por seus anfitriões – os sempre generosos patronos de artes, Sara e Gerald Murphy – em uma pequena pensão de 14 quartos perto da casa deles, na Villa America, na Riviera francesa.

Uma semana depois, ainda sob quarentena, eles foram levados às pressas a outra locação, a Villa Paquita, em Juan les Pins, anteriormente ocupada por Scott e Zelda Fitzgerald, que haviam se mudado por segurança para outro retiro costeiro. Para complicar ainda mais, a amante de Hemingway, Pauline Pfeiffer, uma refinada editora da Revista Vogue radicada em Paris, juntou-se ao grupo em menos de 48 horas após a chegada de Hemingway de Madri, trama essa cuja figura central de uma cena peculiar era o próprio Hemingway.

Por um tempo, a quarentena foi bem divertida. Durante o dia, Hemingway se dedicava a editar correções para o que viria a ser o seu próximo best-seller, “O Sol Também Se Levanta. À noite, mantendo distanciamento social, todos se reuniam para beber com os Murphys e Fitzgeralds, que ficavam do outro lado da cerca do jardim. As garrafas vazias, secas e escorridas eram colocadas de cabeça para baixo na cerca pontiaguda. Cada um deles marcava um novo dia em quarentena para o menino Hemingway.

Funcionava, de certa forma.

A quarentena terminou quando o filho melhorou, embora, por precaução, ele e a babá ficaram alojados nas proximidades. Já Hemingway ficou hospedado em um bom hotel com as duas mulheres. Ele fingia estar feliz, mas, inevitavelmente, o esquema pós-lockdown escorregou para uma anarquia emocional. Hadley Hemingway e ele discutiam, enquanto Pfeiffer entregava-se na conquista do que ela mais queria: Hemingway. Assim permaneceram até que todos se descamparam da Riviera para Pamplona, na Espanha, para a fiesta anual.

Um ano após aquele verão em quarentena, os Hemingways estavam divorciados.

Ernest and Pauline Hemingway, Paris, 1927.jpg

Ernest e Pauline Hemingway, Paris, 1927. Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, Boston – Mass

Em 1937, 11 anos depois, apesar de estarem confinados em quarentena, o filho de 16 anos dos Murphys, Patrick, morria de tuberculose na Vila de Saranac Lake, no estado de Nova York.

Hemingway levantou-se na madrugada do dia 2 de julho de 1961, em Idaho, e tirou a própria vida.

A criança que teve coqueluche em 1926, Jack “Bumby” Hemingway, teve um destino mais feliz do que a maioria da família. Tornou-se um veterano condecorado da Segunda Guerra Mundial por ter sobrevivido à captura e à prisão após saltar de paraquedas para dentro da Alemanha nazista. Morreu em paz no ano 2000.


Traduzido do inglês por Rubia Gomes / Revisado por Heloísa De Nadai Dalcy

Categorias: Cultura e Mídia, Saúde
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