A entrada para a Bolsa de Valores é o resultado de uma longa série de etapas.

No começo houve… a ‘petrolização’ da água.

Foi anunciado, proclamado desde a década de 1970. A “petrolização da água” (1) conduziu a maneira como imaginamos e vemos a água nas sociedades industrializadas e “desenvolvidas”. Assim, em 2020, o ouro negro (óleo) tem um companheiro “oficial”, o ouro azul (água).

A commodificação da água está no coração da “petrolização”. Assim como o óleo é uma commodity, a água tornou-se uma commodity. Óleo é uma fonte não renovável, a água é renovável, mas a tornamos uma fonte qualitativamente escassa e cada vez menor para o uso humano. (2) O valor econômico do óleo, o único que conta nesse caso, é determinado na Bolsa de Valores. A política energética da nossa sociedade não é primariamente decidida pelas autoridades públicas, mas pelo preço do petróleo bruto, estabelecido pelos mercados financeiros. Com sua inserção na Bolsa, o preço da água, cujo valor para vida vai muito além de sua utilidade econômica, em breve será um preço mundial. A política mundial da água, assim como nos níveis regional e “nacional”, será ditada pelos mercados financeiros (especulativos). A commodificação da água mineral tem sido até mais rápida e massiva. Em apenas algumas décadas, ela se tornou a commodity comercial mais popular para propaganda televisiva. As autoridades públicas se livraram de sua responsabilidade vendendo o gerenciamento do seu uso e conservação para grandes multinacionais como Nestlé, Danone, Coca-Cola, Pepsi-Cola…

Depois veio a privatização da água e sua monetização e financeirização (incluindo bancária).

As autoridades públicas não têm muito a declarar. Estão em uma posição subordinada em muitos países onde os poderes decisivos foram transferidos, seguindo a indústria de privatização dos serviços de água, para as mãos de companhias privadas para as quais a água é puramente um produto utilitário. Na União Europeia, com a adoção da Diretiva-Quadro da Água, em 2000, os reais poderes de decisão no assunto foram confiados aos stakeholders, (3) cujas escolhas, especialmente para as corporações multiserviços e, em qualquer caso, de companhias de água cotadas na Bolsa de Valores, são avaliadas e julgadas pelo mercado de ações.

Seu financiamento começou formalmente com a criação, em 2000, do primeiro fundo de investimento especializado em água, o fundo Pictet Water, o segundo banco privado mais antigo da Suíça. O fundo investe em companhias operantes nos setores relacionados à água, em particular, na área da qualidade. Desde então, os fundos de investimento “azul” multiplicaram, e com eles, os índices dos mercados de ações especializados. Em adição, um passo importante foi tomado pela atividade bancária relacionada à água, no contexto geral da nova tendência, em favor da natureza bancária defendida pela Rio+10 e, depois, aprovada pela Rio+20, em 2012.

A atividade bancária relacionada à água trata da suspensão da distribuição de água por determinados períodos, seja pelo direito de usá-la no futuro, ou de guardá-la para uso de terceiros em troca de pagamento ou entrega em espécie. Esses “bancos” têm sido bem difundidos nos Estados Unidos, particularmente na Califórnia e na Espanha, mas não produziram os resultados desejados. A questão foi assunto de um filme “militante” que foi bem recebido tanto pelo público quanto pelos críticos. Veja em https://en.wikipedia.org/wiki/Banking_Nature

Água na Bolsa de Valores: de fonte de vida e patrimônio da humanidade à fonte especulativa de lucro e ativo financeiro.

A financeirização plena da água foi realizada em 7 de dezembro, com o lançamento na Bolsa de valores de Chicago (o CME – Chicago Mercantile Exchange, a maior bolsa neste setor) nos primeiros “mercados futuros” de água. Nos mercados futuros, as contrapartes (comprador e vendedor) assinam um contrato a termo concordando na troca de uma commodity por um preço (chamado de ‘preço futuro’) em uma data fixada. Fazem parte dos então chamados «derivativos» “que abriram uma nova fase de especulação financeira em escala global.” A natureza especulativa desses produtos se reflete no fato de que os mercados futuros não envolvem e a entrega física da commodity. Assim, por exemplo, no caso do mercado futuro do petróleo, é possível que os preços da quantidade comprada/vendida do petróleo bruto variem incontáveis vezes sem que o produto mude fisicamente de mãos. Uma vez que as negociações futuras de água alcançarem um nível normal de operação, um milhão de m³ de água nigeriana, controlada por um banco suíço, administrado por um agente comercial holandês e destinado a uma companhia de produção agrícola da Califórnia, não terá apenas visto os proprietários e vendedores e, o mais importante, o preço variar muitas vezes, mas nunca terá saído da Nigéria até o vencimento do contrato.

Em princípio, os mercados futuros surgiram para combater a volatilidade dos preços dos produtos financeiros. Na realidade, apenas contribuíram para aumentar a volatlidade em um processo perverso que o sistema não é mais capaz de parar por medo de transformar toda a situação em uma crise. Há alguns anos, o próprio Financial Times chamou os derivativos, especialmente os mercados futuros, de sanguessuga da economia.

Como é possível que, com balanço tão negativo, os líderes financeiros e econômicos passem pano para os sanguessugas, e os poderes políticos não façam nada para prevenir?

A realidade é que tanto os primeiros quanto os últimos não podem desistir, porque não querem, pois estão convencidos de que a financeirização da vida de todas as formas é um instrumento eficaz (!?) para racionalizar e padronizar, em uma escala global, a ‘governança’ das relações entre seres humanos, e a promoção das relações eficientes (!?) entre os seres humanos e outras espécies do planeta. Eles não mais acreditam em direitos universais à vida, sáude, água, comida, abrigo. Não acreditam em sabedoria coletiva, deveres e responsabilidades, em instituições democráticas, Estado, autoridades públicas, parlamentos eleitos, em gratuidade/caridade, no espírito comunitário da vida. Acreditam, acima de tudo, em valores financeiros, capitalização na Bolsa de Valores, agências classificadoras de risco, stakeholders, mercados, tecno-experts, gerentes, tecnologias que permitem transações financeiras em um milionésimo de segundo, na luz negra da especulação e dos paraísos fiscais.

A entrada da água na Bolsa de Valores é mais uma calamidade das últimas décadas infligida à história dos seres humanos na Terra pelos predadores da vida que se tornaram as grandes forças da tecnologia e das finanças. Conquistar tecnologia e dominar as finanças são as duas presas da pinça global que seguram e mantém a vida da Terra subjugada nas mãos de grupos sociais dominantes (no geral, menos que 15% da população mundial atual).

A água deve ser salva da tecnocracia financeira. A inserção no mercado de ações como matéria-prima não é só uma demonstração da falha do sistema econômico capitalista da sociedade utilitária, mas uma derrota para a humanidade. É o fim do principal bem público comum da vida junto com o ar. Aceitamos que a especulação pode enfraquecer o espírito da fonte da vida. Quando a última gota tiver seu maior valor financeiro, o que iremos beber, o que iremos cultivar?

Historicamente, cedo ou tarde, as pinças dominantes sempre colapsam. Não sabemos como e quando a atual pinça irá quebrar. É certo, no entanto, que se os habitantes da Terra se rebelarem e lutarem pela libertação da vida, o prazo pode ser encurtado e o colapso será mais rápido, resultando em uma reviravolta do mundo no interesse de 85% da população mundial que está, atualmente, excluída.


Notas

*Título de um artigo de James E. McWithney, em Água, a commodity final, Investopedia, Special Feature, ‘Investimento Verde’, 3 de novembro de 2010.

(1) Citei, pela primeira vez, a “petrolização” da água no livro Le manifeste de l’eau, edição Labor, Bruxelas, 1998, p.69. Veja a tradução em inglês, The Water Manifest, Zed Books, Londres e Nova Iorque, 2001, p. 54-55.

(2) Não foi à toa que entrou para a Bolsa de Valores. O próprio Whitney, citado no asterisco, explicou em 2010 por que os operadores financeiros sempre se interessaram pela água: “Como qualquer outra escassez, a falta da água – e hoje, estamos em um estado geral de escassez de água boa para uso humano – cria oportunidades de investimento“. Tanto para proteger e buscar a segurança hídrica para todos! Em nossa economia, o valor dado às coisas é atribuído a sua escassez e insegurança. (3) Tenho analisado o papel central assinado pela União Europeia para os stakeholders no Memorandum sur la politique européenne de l’eau, IERPE, Bruxelas, novembro, 2013, pp 89-97.

Riccardo Petrella, autor de O Manifesto da Água, 2001 (edição original em francês, Le manifeste de l’eau, 1998. O livro também foi publicado em alemão, italiano, holandês, espanhol, catalão, português, coreano… Promotor do Comitê Internacional sobre o Contrato Mundial da Água desde 1997.

 

Traduzido do inglês por Jenifer Cristina da Paz Araújo / Revisado por Luciana Leal