DANÇA

 

 

imaginar

imaginar

imaginaria

imaginaríamos

imagina

O medo do desemprego, da fome e da miséria assola o corpo utópico. Se vivemos uma realidade onde o prato de comida de grande parcela da população brasileira está em xeque, como tratar de futuro e ainda dos sonhos e do imaginário? O futuro é privilégio de quem possui comida para amanhã, para quem está isento da assombração do prato que pousará sobre a mesa hoje. Corpo, passado-presente-futuro, utopia, fome, sonho, imaginação distópica são prerrogativas que se juntam a mim, agora. A imaginação transporta-me ao privilégio da coabitação do presente, passado e futuro no horizonte da força utópica do imaginário. E, ainda, sob a pressão contínua do presencial em contraponto ao remoto, como (re)incidir na forma da realidade se a imersão nos coloca no espaço virtual das telas? Acrescento. Não tenho respostas, somente perguntas que se desdobram em outras que questionam o corpo como possibilidade de troca do presente ao futuro, esse mais do que nunca imponderável. Na minha condição, como branca de classe média assalariada, não sei o que é se ocupar com o prato de comida do jantar e fico atordoada de pensar sobre as famílias que permanentemente confrontam-se com esse horror.

Nada permanece no meu pensamento a não ser a garantia de um possível futuro como corpo de escuta diante de 140 mil mortos por Covid19 no Brasil. Não se trata de pensar sobre as utopias do corpo presente, mas as utopias do corpo passado coadunadas às utopias do corpo futuro frente a uma sociedade distópica por natureza. Insisto no corpo porque ele é meu veículo sempre. Da experiência sensível, extraio a imaginação incandescente, fértil por natureza, que me mantém viva diante de um tempo-espaço de catástrofe. O desejo incide em ficcionar o corpo ou um espaço qualquer.

Relembro, então, a pergunta que me fiz em maio deste ano, no início disso tudo, nas primeiras incursões de escrita em Pressenza na coluna – Desmorona e assopra. O futuro pode esperar: “Que futuro é esse que estamos falando? Em tempos de pandemia em que a noção de futuro se transmuta, privados de planos e da ideia de projeto, me pergunto qual seria o modo de ação. O que se faz sem relógio? Como evadir do progresso e se entregar a uma espécie de involução que refute os pressupostos ditados a nós?”

imagines

imagine

imaginemos

imagineis

imaginem

Sempre me faltam as palavras. A pandemia colocou-me a postos para a imaginação, aberta aos ares do pensamento. Os sonhos, agora mundialmente em ênfase, espécie de sintoma da época pandêmica, despertam-me as forças imaginativas como esperança de uma esfera possível acerca do corpo não palpável, artigo imprescindível dos meus estudos nos últimos anos (em torno da dança). Seria utopia o engajamento pela força da imaginação no estudo com o corpo em tempos atuais?

Em 2012, iniciei uma pesquisa de mestrado junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRJ, na interface da dança com as artes visuais onde a visão não era protagonista mas, sobretudo, a pele que, metaforicamente, funcionava como um grande olho. “A reflexão se inicia em uma exploração tátil do corpo, de natureza proprioceptiva a partir da emergência do movimento, dos acionamentos invisíveis que o preparam, na busca de uma dança de dentro, oculta, que percorre trajetos imaginários tendo a escuta como símbolo, dadas as suas características de receptividade e direcionalidade irrestritas”.

Buscava nas artes visuais justamente a problematização do visual, um paradoxo de partida. Ali, a estratégia era traçar sob|sobre um corpo imaginado impulsionada pela hipótese de uma imagem interna do movimento. Assim, o traçado dava-se com a pele imaginária que percorria o espaço dentro e fora do corpo e, contudo, a pele tornava-se espaço, conforme cunhado pelo filósofo José Gil. O espaço, percebo então, não é dado, ele surge à medida que o corpo avança, recua, sendo inventado a cada vez na/pela diferença imanente. A busca por uma cartografia do espaço interior revelou-se em um processo investigativo de inúmeras descobertas para além das notas agudas e para aquém das graves, o que me levou ao encantamento pela palavra e pela escrita. Desde então fui abduzida pelo encontro do movimento com a escrita poética em uma recondução do corpo dançante tornado corpo de texto.

imaginando

imaginado

imaginante

Em diálogo constante com os meus alunos dos Cursos de Dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2010, aprendo sobre como perceber o mundo sob outras perspectivas a partir de diferentes contextos, culturas e danças. A diversidade de corpos e corporeidades (precisaria de um outro texto para descrevê-las) incitam em mim provocações, proposições que me dão sempre frio na barriga. Agora em situação de aulas remotas, a pesquisa do corpo imaginado serve-me como um dispositivo necessário e urgente que coaduna a possibilidade ficcional sobre esses tantos corpos e expressões sem poder, contudo, tocá-los. Se a maquinaria do ensino remoto se revela como um imenso desafio, imagine isso no campo da dança em que a lida com práticas corporais e criativas parecia anteriormente impensável sem o toque das peles?

Privados do contato direto, pele a pele, veículo deflagrador do nosso campo de conhecimento, reinventamos o sentido do tato apesar da pele, dirigindo-nos para aquém e para além dela na tentativa de uma esfera possível de interação. A escuta aberta e o olhar atento propiciam vacâncias experimentais sobre os tons das ondas vibracionais que nos comportam nesse não-lugar da experiência virtual, atual. No dia a dia presencial somos pele a pele de corpos estrangeiros, advindos de estruturas sócio-culturais adversas e a heterogeneidade nos dá acesso a um dos princípios mais caros da dança contemporânea que é a possibilidade de expressar o singular, sob a custódia de um toque (metáfora que englobaria os 5 sentidos) que age como gesto de permissão, acolhimento, entendimento, instrumentalização do diálogo entre corpos e suas adversidades. O comum que há entre nós alarga os horizontes de nossos pontos de vista e gesta a promessa de um amanhã pervertido pela ausência de ontem e pela presença ausente de hoje.

Agora penso: O futuro não pode esperar pois o presente grita e o passado desencanta! Assim, passado, presente e futuro só podem existir sob outra lógica que não a do tempo cronológico. O sonho clama por um espaço outro exorcizando esse tal de futuro que ainda nos assombra para, então, pinçar estratégias de sobrevivência do que não se sabe, e isso é incessante. De uma forma geral, o meu exercício como professora e artista da dança se dá pela entrega e escuta irrestrita às demandas do presente, pela atenção ao lastro histórico que me cerca, em consonância com o que nos coloca ali, na primeira universidade pública deste país, gratuita e de qualidade. Por fim, para onde e como aponto o conteúdo de práticas e estudos em questão, hesito sobre a forma de tratar cada um destes conteúdos e busco privilegiar os caminhos às cartilhas (prontas), que incluem seus desvios e frustrações, suas magias e desencantos.

O gesto imaginativo pode atuar de forma contundente na dança. A bailarina Denise Stutz incita a imaginação como motivação em seu instigante trabalho Entre ver de 2015. Entre ver afirma a dança sem colocá-la como presença tampouco como ausência, o que, paradoxalmente, a artista chama de um convite ao imaginário (através da dança e com o corpo que dança). Stutz exercita incessantemente a descrição e a memória se dá como gatilho nesse processo que garante a criação feita pelo espectador ao longo da apresentação, uma vez que a cena acontece no imaginário de cada um, guiada pela labiríntica construção rítmica de sua fala.

Denise Stutz. Foto de Maurício Pokemon

Denise Stutz convida-nos inicialmente a um “tempo do teatro”, ao tempo do espaço imaginário. O enlace entre história e vida, presença e ausência, pulso e passo, perturba qualquer possibilidade de controle do autor (no caso da própria Denise) sobre sua obra. O espaço não é dado, mais uma vez. O tempo é tempo descrito. A bailarina refere-se ao próprio trabalho como uma criação com o espectador e não para ele. O espectador constrói assim a sua própria obra. Entre ver é parte de uma trilogia junto de DeCor e Finita que, como conjunto de peças, resgata o processo de memória, história e presença, reposicionando o público como cocriador de sua obra através de um percurso imaginativo que de alguma maneira se (re)constrói a cada vez, por cada um, imbuídos da trajetória de vida de Denise. A arquitetura sugerida por ela viaja desde os passos de uma dança clássica porvir que já passou, por casas onde morou, músicas e sonoridades que perpassam seus trajetos ao longo de sua vida, até traços marcantes de seus familiares e suas idiossincrasias notáveis. A costura de Entre ver utiliza uma linha maleável que tece a vida à arte e vice-versa. A cena abre com o palco, grande e vazio, com uma luz que, embora tênue, ilumina todo o espaço da cena que promete ali acontecer. A luz apaga. A dança começa.

Imaginando

topografias do pensamento-movimento

Por dentro da fala de Denise Stutz transportamo-nos às cores, formas, sabores e cheiros de uma dança-história imaginada que correlaciono à certa geometria da imaginação presente na obra do artista Marcel Duchamp. Duchamp refere-se ao calor deixado em um assento recentemente ocupado ou ao som do veludo das calças que roçam umas nas outras de modo a tratar uma noção fulcral em sua obra, o Inframince. Considerado o pai da arte contemporânea, Duchamp inaugura com o conceito de Inframince o pensamento sobre uma realidade ligada a pequenas nuances surgidas entre as coisas enquanto qualidade do sensível pelo devir, uma espécie de método da imaginação calcado na espacialidade quadridimensional. Do que é visível resta o sensível, “a luz fica mais clara e a valsa é brilhante” (diz Denise Stutz em sua fala-dança), o tremor do espaço decorre de uma ocupação repentina de tanto som que perturba as tábuas de madeira do palco vazio, e cheio de tanta história. Um chão calcado, recalcado de história.

Assim, imbuída de pensar que o futuro não vai ser melhor do que o presente, como o pessimismo alegre mencionado por Eduardo Viveiros de Castro ao referir-se à fala dos indígenas, busco um tempo que acelera o futuro na direção do passado ou ralenta o presente para imaginar o que nunca aconteceu. Apesar de tudo, o futuro ainda é sobre o prato de comida do jantar. Não posso esquecer, não consigo esquecer! Termino com a voz de Denise Stutz cantando no meu ouvido um trecho de Baden Powell: “Se não tivesse o amor, se não tivesse essa dor…”