Só o que for possível. Cap. VII

13.09.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Guido Mendes

Só o que for possível. Cap. VII
(Crédito da Imagem: Fernanda Nóbrega)
LIVRO

 

 

Maya

Tudo está passando muito rápido. Maio acabou e estamos a seis dias de junho, bem na metade do ano de 2020 e lá fora, distante das paredes que me guardam em segurança, o mundo segue num panorama caótico. O sistema político – financeiro abraça o caos e nele, tenta encontrar , de todas as formas, a sua salvação. Explodem manifestações pelo mundo. O estopim, o assassinato de um homem de pele preta, por um policial de pele branca, nos Estados Unidos da América, a terra dos sonhos e da liberdade, mas que camufla, debaixo de toda a opulência, o ovo da supremacia branca em pleno séc 21.

As manifestações ganham o mundo. A juventude, presa na quarentena durante quase três meses, assume a linha de frente dos protestos. Meninas e meninos, negros, brancos e pardos armados com seus celulares e máscaras criam uma espécie de barreira entre a força policial e a grande massa descontente. O vírus , a pandemia, deixaram de ser protagonistas e a indignação toma as ruas de várias cidades do mundo, tentando fazer uma espécie de resgate de uma dívida que vem desde o inicio da política expansionista da Europa sobre o resto do mundo. Uma expansão que se constitui de fato, no extermínio de povos nativos e a escravização dos negros. É surpreendente, que essa dívida venha ser cobrada, justamente agora, quando pobres pretos e brancos estão nas primeiras posições nas estatísticas de contaminação e morte pelo vírus da Covid-19 .

É assustador pensar no resultado de tudo isso, em números de contaminação e mortes, mas é mais assustador ainda, pensar que as forças do fascismo, que impuseram tantas mortes à humanidade estejam eclodindo e dominando territórios em várias partes do planeta.

Sigo a minha rotina de cuidados para não me deixar levar pelas informações distorcidas das redes sociais e do clima de pânico das telas da TV. É importante não se sentir um covarde, quando o tempo me chama para guerra, pois de guerra, eu não entendo nada, apenas flutuo entre o pensamento do que é real e necessário nesse tempo, e que vencer o medo da vida e da morte ainda segue sendo a minha verdadeira missão.

É quase impossível pensar que todos esses ingredientes – vírus, pandemia, manifestações, fascismo, recessão econômica, ameaças as liberdades individuais e direitos constituídos -, como numa teoria conspiratória, não sejam táticas para nos colocar no exato ponto, onde o poder central, a grande fera, que domina o mundo, queira que estejamos, para nos decapitar e roubar nosso coração em sacrifício do grande senhor das trevas. Meu peito dispara acionando todo o mecanismo de defesa que aprendi na luta da vida.

O coração humano é uma caverna escura e gélida, mas que guarda em seu interior a mais bela e rara das joias. Essa preciosidade não tem forma e nem quilates definidos e sofrem variação de pessoa para pessoa. Nos homens costuma se assemelhar a um caranguejo e   nas mulheres a uma linda rosa.

Em criança, escutava de minha avó materna, a sentença que mais me incomodava nos seus ensinamentos: – “Coração do homem é terra que ninguém mora” e nos meus pensamentos de moleque ficava buscando uma explicação para essa frase, centenas de vezes repetidas por minha avó. E, só consegui chegar a uma explicação mais ou menos lógica depois de sofrer algumas lições da vida.

Certa vez, bem próximo ao seu fim, a velha descendente de índios e negros, que eu tive o prazer de ter como minha avó, ainda num lampejo de consciência teve comigo um dos seus mais brilhantes diálogos. Já não se chamava Dalila, seu nome de batismo, mas Aricole. Seu olhar turvo pelo cansaço imprimido pelo tempo, ainda causava em mim uma admiração e fascínio, que eu não conseguia ver em nenhum dos grandes mestres que eu tive.

O coração da gente, meu fio, é uma espécie de caverna, muito profunda, mas não possui paredes e nem trilhas para guiar os viajantes. Ele é como o grande Cosmo – um buraco negro cheio de estrelas salpicadas, que não guiam aventureiros, apenas os verdadeiros guerreiros. Essas estrelas seguem o ritmo do calor que emana do centro do coração, onde uma grande fogueira está constantemente acesa. E dentro dessa fogueira guardada pelo fogo sagrado se encontra a mais bela das joias.

Ao contrário da mente, no coração, a racionalidade humana não entra, pois ele é protegido por sete chaves e, como a razão, geralmente é ignorante ela não consegue penetrar nesse solo sagrado que só o dono deve ter o poder de governar.

A primeira chave para quem busca o caminho do coração é a chave do medo. Todos nós que ambicionamos esse caminho precisamos no percurso enfrentar o medo da vida e da morte. Essa é a chave que nunca será conquistada pelos tolos, pois esses, desconhecem o sentido do verdadeiro caminhar na direção da grande joia. A segunda chave é a chave da coragem. Após vencer o medo, a primeira barreira é quebrada e não há mais como regressar. A coragem é o segundo passo na direção do centro do Eu. Aqui, coragem não deve estar associada à força e nem à estrategias de guerras tão comuns entre nós humanos. A coragem é o sentimento mais pacifico de um ser humano – um exercício de consciência que cada um de nós tem o poder de atingir.

De posse dessa consciência, o caminhante nem vai perceber que rompeu a terceira porta e está agora , no mais difícil degrau de sua acensão – os domínios de Maya. É nesse portal que nos damos conta de todas as nossas ilusões – as do passado, do presente e do futuro. É nesse degrau que vamos enfrentar as nossas mais resistentes limitações e os nossos mais animalescos instintos. Maya é como a lua que se acende nas noites escuras para atrair viajantes indecisos. Seu encanto é uma oferenda de felicidade e sono tranquilo, além da realização dos nossos desejos mais íntimos. É possível ser feliz em Maya. É onde vive grande parte da humanidade. Maya no entanto, como a lua, tem fases, e às vezes, a luz diminui ou se consome totalmente, deixando o viajante completamente perdido e navegando no descontentamento.

Nesse ponto da trilha, quem consegue resistir as ilusões de Maya, avista o quarto portal. Agora é hora do viajante tomar decisões, voltar, permanecer na ilusão ou seguir em frente. Se regressamos estamos tatuados com a covardia ou podemos nos perder em algum ponto da caverna. Uma grande parte da humanidade parou ou regressou e são essas atitudes que nos possibilitam compreender o porquê, de alguns não entenderem o verdadeiro sentido da caminhada- a isso chamamos nível de consciência.

Já estamos no meio do caminho-rompemos com o medo, adquirimos coragem para vencer Maya e nos preparar para seguir viagem.

O quarto portal nos indica que é necessário cada vez mais cuidado, mesmo estando mais próximo do objetivo ainda não sabemos ao certo o que nos reserva o resto do caminho. Cuidado não significa medo de prosseguir, mas percepção apurada de quem somos, de onde estamos e de nossos companheiros de jornada, pois os monstros da mente estão o tempo todo a nos rodear.

Ficamos consciente de quem somos, quando não mais nos prendemos aos limites, ou seja, deixamos de enxergar o caminho e passamos a ser a própria estrada. Daqui para frente não haverá mais portas e as barreiras até o nosso objetivo serão cada vez mais sutis. Por esta razão precisaremos estar cada vez mais ligados à nossa intuição. Esse é o maior presente da criação e não se pode explica-lo pela ciência ou outras correntes de pensamento. O recebemos pelo esforço individual na nossa peregrinação através do tempo. Com a chave da intuição, perdemos a consciência do medo, das ilusões e porque não, da própria coragem. Esses sentimentos agora, fazem parte de uma outra realidade e quando intuímos isso, rompemos a quinta barreira, passando de estrada a caminho. E, como caminho, nos obrigamos a desenvolver qualidades, que até então não nos eram cobradas. Segurança, equilíbrio, caráter, compaixão, honestidade e amor. Estamos no tempo do discernimento , a um passo do sexto portal do coração. -” o homem que aprende a discernir não tropeça e segue sempre em direção à vida”.

E o homem que segue a vida caminha com a justiça, a nossa sexta chave. Ser justo não é ser cego ou saber o peso exato nos dois pratos da balança. Justiça é alimento para o homem que se encontra consigo. Os justos não jogam com os seus sentimentos e nem com os dos seus próximos. Ele está no centro do seu tempo, praticamente a um passo do sétimo e último portal. Quando chega a esse ponto da viagem passa-se a viver com o pulsar do coração. De engrenagem da vida passamos ao controle da essência de nossa criação. Assim, abrimos a ´porta que faltava e contemplamos a mais bela das joias já vista pelos olhos de um mortal: a verdade de cada um. Como já disse, ela pode ter várias formas. Seja qual forma tiver a sua verdade, ela é a sua joia mais rara, e uma conquista que pode até não ser reconhecida por outras pessoas, mas sempre será por você. Valorize-a a cada pulsar de vida e faça sagrado o seu coração, pois “ele é terra onde ninguém faz morada” – é a sua morada.

Sangra olho…até as ultimas consequências
até o preto ficar vermelho, perder a cor, empalidecer
ficar transparente
para que o visto, seja visto
Sangra olho até a palavra ser ouvida…sem ruídos…sem pecados
Sangra olho até o permitido, o possível – até perder o medo de sangrar
…de se contaminar
Sangra mil vezes olho…até ser maldito e desencarnar
Reflete olho escarlate
…até ser espelho
sangra…até a infelicidade de perder o brilho, a luz
sangra divino olho…até perder a tez
até a lágrima branca enrubescer de vergonha
e…fugir de ti feito uma hemorragia
sangra e seca o pranto …até não ter mais ponto
Tornar-se leito, virar o próximo…o Cristo
e, enfim, morrer para multiplicar.


*  A história, dividida em capítulos, não segue uma linearidade de tempo que se constrói seguindo a lógica de um relógio, mas se insere acerca de um período imensurável de uma quarentena, durante uma pandemia mundial. As crônicas são narradas na primeira pessoa, mas usam personagens e lembranças do narrador para criar um ambiente de comunicação entre vários mundos em diversos tempos.
Só o que for possível conta com as ilustrações da artista plástica, Fernanda Nóbrega, numa técnica mista de carvão e nanquim.
O conjunto de 12 capítulos será disponibilizado aos leitores de Pressenza ao longo de alguns meses. A cada 15 dias será publicado um capítulo com uma ilustração. Acesse nesse link os capítulos já publicados.
Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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