Artistas negros se unem em cordel impactante para cobrar justiça pela morte do menino Miguel

08.07.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Redação Rio de Janeiro

Artistas negros se unem em cordel impactante para cobrar justiça pela morte do menino Miguel
Cena de "A dor em Cordel.. para o menino Miguel". Captura de vídeo.

Por Lillian Bento

“Do seu lar negra saiu
E não tendo alternativa
Levando a cria bem viva
Com o erê se dirigiu
Mas o seu mundo caiu
A negra ficou sem chão
Desabou seu coração
Lá da torre do castelo
Esmalte verde e amarelo
Sinhá queria na mão (…)”

Os versos acima integram o cordel de autoria do poeta Victor Alvim e contam a triste e trágica história do menino Miguel, que aos cinco anos, morreu em consequência de uma negligência. Não de qualquer falta de atenção, mas do descaso de uma patroa rica e branca para com a vida do filho da empregada, negro, pobre e periférico.  Ele só tinha cinco anos. O trabalho de Victor Lobisomen pode ser visto em um  impactante vídeo divulgado nesta semana pelo Cultne – maior acervo de cultura negra da América Latina.

“Ao escrever sobre esses temas tão tristes, tão revoltantes, tem horas que me faltam as palavras, falta inspiração para novos versos, tão repetitivos são os fatos”, afirma  o cordelista, que também integra a Academia Brasileira de Literatura de Cordel.  “É uma narrativa muito forte. O coração da gente fica massacrado e o que a gente sente é só uma fração muito pequena do que a mãe do Miguel sentiu e vai continuar sentindo. Que esse trabalho contribua para que essa história não seja esquecida”, conclui.

No último domingo, esse sentimento de revolta diante da tragédia se tornou ainda maior com a entrevista de Sarí Corte Real. A mulher, que é acusada do ato criminoso que ocasionou a morte de Miguel, concedeu uma entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, e afirmou que fez “tudo que podia” pela criança. Será?

Na mesma reportagem, Mirtes Renata, a mãe de Miguel afirma que sua única razão de viver agora é a busca por justiça diante da morte do filho, ocorrida no dia 02 de junho. De um lado, uma dor que rasga o peito de uma mãe  negra e periférica, que perdeu o único filho. De outro, a frieza da patroa, mulher branca, mãe de dois filhos saudáveis e que se preocupava naquele momento mais com o embelezamento das unhas do que com a vida de Miguel.

Para o jornalista, documentarista e produtor cultural Asfilófio de Oliveira Filho, o Filó, um dos idealizadores do Cultne e produtor do vídeo, o caso de Miguel chamou a atenção, em especial,  por ter ocorrido fora de seu “ambiente natural” – as favelas e as periferias. “O caso Miguel representa mais um corpo na estatística em que jovens negros no Brasil morrem a cada 23 minutos vítimas de vários tipos de violência, entre elas a violência policial. A mesma volência policial que matou George Floyd nos Estados Unidos. No caso Miguel, foi na casa de uma  madame da alta sociedade, que não teve o mínimo cuidado para preservar a vida dele”, avalia Filó.

Ilustrações de Vitor Vanes

Para a atriz Cyda Moreno, que participa do teledrama, a história é um exemplo de como nossas histórias seguem entrecruzadas com um passado escravocrata muito recente. “Miguel representa o filho da escrava que tinha que abandonar o seu filho, pra cuidar do filho da sinhá. Que tinha que abrir mão de amamentar o seu filho, para amamentar o filho da sinhá. Por que a vida do povo negro não importa? Só tem/tinha algum valor quando se trata de mão de obra barata para lhes servir. A morte do Miguel desperta em nossa comunidade negra o desejo de lutar por Justiça.”

Cyda questiona ainda: “Por que esta madame, Sari, não conseguiu enxergar que diante dela estava uma vida, uma criança, um anjo? Tão puro e inocente como o seu filho.” São questionamentos contundentes que no vídeo ganham força para questionar porque esse ódio ao povo negro segue ceifando vidas.

O trabalho coletivo da Cultne conta ainda com as ilustrações  do artista visual Vitor Vanes, que também é cartunista aqui na Pressenza.  Para ele, esse posicionamento de artistas negros diante de fatos como a morte de Miguel é fundamental na luta antirracista do Brasil atual, que enfrenta o avanço do fascismo e do racismo. “Quando uma mulher branca, classe média, esposa de um prefeito, diz não estar arrependida diante de fatos que levaram à morte de uma criança negra, nos vemos diante de uma total falta de empatia. Trata-se de uma nova investida na escravização de corpos negros que tem sido naturalizada em nossa sociedade”, avalia Vanes.

Vale lembrar que Sari Corte Real é esposa do prefeito de Tamandaré (PE), cidade a 100 km de Recife, e esta semana foi indiciada por abandono de incapaz e pode ser condenada a 12 anos de prisão. Além de pagar fiança de 20 mil reais para estar em liberdade, a defesa trabalha para livrá-la da acusação. Enquanto isso, o movimento negro segue forte com trabalhos como o do Cultne para pedir justiça por Miguel.

Ilustrações de Vitor Vanes

Saiba mais

O que é a Cultne?

A Cultne é considerado o maior acervo de cultura negra da América Latina e busca estabelecer uma comunicação afrocentrada, propondo novas perspectivas para o registro histórico e reorientando esses acervos à matriz africana. “Acreditamos em uma nova forma de ver e experienciar o mundo, sob o viés da história e da cultura afro-brasileiras”, afirma Filó Filho, um de seus idealizadores.  Em parceria com atrizes negras e atores negros, o coletivo tem realizado durante a pandemia remotamente ensaios de teledramaturgia, abordando as tensões presentes na luta contra o racismo. Foi assim no episódio do brutal racismo praticado por alunos brancos do Colégio Franco-Brasileiro diante da aluna  e agora no caso Miguel.

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