COMUNIDADES

 

 

Promover a transformação social por meio da arte e da cultura, fortalecendo o empoderamento e o empreendedorismo social, gerando oportunidades e renda. Esses são os objetivos do Centro Cultural Lá da Favelinha, localizado na Vila Novo São Lucas, no Aglomerado da Serra, a maior favela de Minas Gerais e a terceira maior do Brasil. O Aglomerado é composto por oito vilas, com cerca de 50 mil habitantes.

Em atividade desde janeiro de 2015, o Lá da Favelinha surgiu como uma oficina de rap e uma biblioteca comunitária, mantida através de doações. Com a crescente demanda da comunidade por mais atividades culturais, tornou-se um espaço de formação profissional, voltado principalmente para crianças e jovens da comunidade.

De acordo com Kdu dos Anjos, artista, fundador e coordenador do Lá da Favelinha, o projeto é um case de sucesso, especialmente o financeiro. “A gente tornou o projeto viável à partir da economia criativa e solidária, fabricando e vendendo nossas roupas, produzindo artistas da comunidade, realizando eventos. Isso foi muito inspirador para o cenário cultural da cidade em geral, e mais ainda para outras iniciativas de periferia, para vermos que somos capazes de fazer uma autogestão pelos moradores e artistas da comunidade”, diz.

Foto @lentesdelua

A reinvenção em meio à Pandemia

Até o início do isolamento social, o Lá da Favelinha oferecia diversas oficinas gratuitas como teatro, dança espanhola, vogue, capoeira, comunicação, espanhol, pilates, Rap – Ritmo e poesia, entre outras. Com a quarentena, as oficinas foram suspensas e contratos cancelados ou adiados, gerando uma perda de 40 mil reais.

“Eu fiquei preocupado principalmente por conta dos colaboradores, dançarinos e dançarinas, costureiros, DJs, porque essas pessoas em determinado momento da vida saíram do mercado formal para dedicar sua atenção para o Lá da Favelinha, e do nada vem a pandemia e joga esses sonhos por água abaixo”.

Kdu conta que passou por dois dias de “luto”, que impulsionaram a reinvenção das ações da Favelinha. “Surgiu inicialmente a ideia de fazer as aulas de passinho em um ambiente virtual, a mídia mineira adorou e saímos nos principais veículos. Na sequência veio a produção voluntária de jalecos para profissionais da saúde. Então começamos com a confecção de máscaras, que tomaram uma proporção também muito legal. Fizemos umas fotos com uma agência internacional, que saíram no The New York Times, no The Guardian, na BBC, saiu também na live que a Lady Gaga participou com Elton John”, diz.

Segundo Kdu, essa visibilidade trouxe muita força para a comunidade. Apesar do preço acessível das máscaras, as costureiras dobraram a sua renda. Foram produzidas máscaras transparentes para a inclusão de pessoas com deficiência auditiva. Itens como artesanatos, pochetes e mochilas da marca sustentável do projeto, o Remexe Favelinha, estão à venda online.

Foto @pedrovilelai7

Com apoio do instituto Unibanco foram distribuídas, nos últimos 40 dias, 6 mil cestas básicas e 2 mil marmitas por dia, gerando 75 empregos diretos e mais de 500 indiretos. “Esta é uma maneira de fazer a economia circular dentro do Aglomerado da Serra, porque as verduras, os alimentos, os descartáveis, são todos comprados no local”, avaliou.

Desde o início de junho, o projeto lançou um financiamento coletivo para manter as atividades e fortalecer artistas locais. As doações podem ser feitas nesse link.

Lançamento de disco e filme

Além das iniciativas desenvolvidas pelo centro cultural, o coordenador produziu um disco, “Quanto tempo, hein, Kdu”, com lançamento previsto para 26 de junho. O álbum conta com parcerias e produção de diversos artistas locais. Como uma prévia do disco, Kdu lançou um filme, produzido durante a quarentena e disponível na plataforma Youtube.

Ele conta que, ao criar o Lá da Favelinha, foi preciso deixar a música em segundo plano. “Eu tinha que convencer os artistas que era interessante fazermos arte, e não só sobrar o subemprego para periferia, como sempre foi – repositora, diarista, traficante – nada contra essas profissões, mas será que era esse o nosso sonho, ou nosso sonho era ser o que a gente quisesse ser?”, questiona.

Cinco anos à frente do projeto, Kdu conta que aprendeu a delegar funções e descentralizar o poder de decisão, aumentando seu tempo livre para a criação artística e elaboração do disco. Musicalmente o álbum passeia por brasilidades, como o funk, o rap mineiro e algumas batidas de grooves do jazz.

“É um disco bem versátil, tem música de corno, de arrastar o chifre no asfalto, mas também tem uma pegada espiritual bem forte, e uma pegada racial, como na música “Thiaguinho”, que fala sobre o assassinato de um jovem negro, envolvido conosco. Virá um clipe contando essa história, feito com cenas de uma série de TV gravada na comunidade, com atores daqui. Tem réplicas de arma, em um cenário de uma criança que estava envolvida com a cultura e com o crime, e teve um final trágico”.

Medidas de não-aglomeração em um Aglomerado

Para Kdu, parte do Aglomerado da Serra está começando a se adaptar a um cenário de pandemia. “Eu acredito que quem for envolvido com a economia criativa vai estar um passo à frente. A nossa tropa, nossa gangue da Favelinha, é muito imersa nisso, então acredito que o trabalho está dando certo por esse motivo. No pós-pandemia acho também que vamos estar um passo à frente, por já termos nos preparado nesse momento delicado”.

“A principal recomendação é não aglomerar, e nós moramos no Aglomerado, isso é bem delicado. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto que esse trabalho está fazendo a comunidade repensar nessas novas formas, tanto solidárias, quanto de sobrevivência, de novos empregos, de novas formas de lidar com tudo isso”, diz.


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