Documento do Centro Mundial de Estudos Humanistas sobre a pandemia COVID-19

12.05.2020 - Centro Mundial de Estudios Humanistas

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Documento do Centro Mundial de Estudos Humanistas sobre a pandemia COVID-19
(Crédito da Imagem: fotospublicas)

“À primeira vista dá a impressão de que, quando o ser humano ou, inclusivamente, os seus antepassados chegaram a um beco sem saída, aconteceu como se do céu tivesse descido uma aura de iluminação… e, de repente, encontraram-se saídas inesperadas”.

Akop Nazaretián

“… aliás, este é um momento de alguma perturbação, mas, desde logo, não por aquilo que comentem os jornais, a televisão ou os “opinadores”, pois que os destinos se jogam nos céus. Em que Céus? Pouco a pouco o iremos entendendo e pouco a pouco iremos batendo às portas a que há que bater. Para terminar, não se vá acreditar que o mundo está em perigo. É uma desproporção acreditar que uns petardinhos infantis e outras delícias possam deter a vida e a inteligência deste planeta. São, simplesmente, sarampos de crescimento de uma espécie infantil, sem manejo de si mesma”

“Sursum corda”, elevai os vossos corações…
Silo

Introdução:

No final de 2019 aparece um novo coronavírus, o SARS-CoV-2, com uma letalidade estimada inferior a outros vírus recentes, mas de alta transmissibilidade numa longa fase assintomática inicial. No início de 2020 já se qualifica esta doença, chamada Covid-19, como pandemia, o que faz prever o colapso das estruturas sanitárias a nível mundial. Não há inicialmente um tratamento eficaz conhecido e o possível desenvolvimento de alguma vacina tomará previsivelmente mais de um ano ainda, de modo que somente o distanciamento físico e as medidas de restrição do movimento humano permitem atenuar o impacto sobre os recursos de saúde dos Estados. Isto implica a cessação ou a diminuição significativa das atividades sociais e económicas, não consideradas essenciais para a sobrevivência do conjunto social. Até que apareça um tratamento eficaz ou uma vacina, o caminho biológico até à aquisição de uma imunidade de grupo pode demorar muito tempo, à custa de um altíssimo número de vítimas diretas e indiretas. Estabelece-se o dilema entre o necessário cuidado da saúde, tal como era entendida até este momento, ou a manutenção da economia. Este dilema produz forte tensão na sociedade no momento desta análise, quando grande parte da população ainda se encontra confinada nos seus domicílios, mas as consequências materiais previsíveis ameaçam ser devastadoras. Neste momento de grandes incertezas, em que não há previsões fiáveis e em que a Ciência está ainda à procura de soluções, fazemos este intento coletivo de extrair algumas conclusões, do ponto de vista do Novo Humanismo.

1. A situação atual

1.1 Vivências pessoais

Devido ao confinamento e ao silêncio físico que hoje rodeia grande parte da população, as perceções internas ocupam maior espaço mental e damo-nos conta de anseios e desejos postergados, aparecendo às vezes muita criatividade e, também às vezes, contradição e violência.

Perante a proximidade da morte, emergem como prioridades a vida e a saúde individual, assim como a de outros. Torna-se evidente a importância do conjunto, através do cuidado e da solidariedade, e tudo isto está a fazer retroceder o individualismo.

É na presença da finitude que se derrubam as crenças. Sucedem coisas que nunca julgámos que poderiam suceder e aparece certo vazio que faz com que possamos ver a realidade de outra maneira.

Por outro lado, já não podemos viver como se a morte não existisse. Quebrou-se essa ilusão que nos costumava acompanhar permanentemente. E ainda que isto implique uma sensação de instabilidade, de grande incerteza e temor perante o futuro, por outro lado ajuda-nos a viver com mais intensidade o momento presente.

O futuro, que se tornou imprevisível, convida-nos a elaborar novas respostas, abandonando a perspetiva linear do passado.

As imagens escuras sobre o futuro sucedem-se diariamente, mas aparece a oportunidade de produzir mudanças significativas na própria vida.

A consciência do ser humano, que se desestruturou parcialmente, que não encontra dados de memória que poderiam oferecer soluções, obriga-se a imaginar novas alternativas, abrindo a possibilidade de uma nova configuração num nível superior.

Muitos experimentam uma forte necessidade de orientação, mas este vazio poderia ser preenchido por mais irracionalidade e obscurantismo.

No entanto, a bandeira pela preservação da vida levanta-se pela primeira vez em todo o mundo de maneira simultânea. Há um anseio de rebelião contra a morte e contra o absurdo niilismo que ela representa.

O que nos dá certa esperança é que hoje a humanidade se perceciona mais unida. Aumentou a coesão entre as consciências individuais e isto acrescenta a consciência de unidade do conjunto. Poder-se-ia dizer que a humanidade se deu conta da sua própria identidade.

A anterior visão de curto alcance deu passagem a uma representação universal, onde tudo encaixa. De repente, cada um existe e é importante para os outros. “Salvamo-nos juntos ou não se salva ninguém”. O tempo de confinamento demonstrou que outro tipo de vida é possível, abrindo espaço para a reflexão. A necessidade de um mundo melhor instalou-se no conjunto humano.

1.2 A situação social

No plano social encontramo-nos com uma paisagem nunca antes vista, que hoje é vista por todos.

A máquina infernal que era este sistema, aparentemente invencível, começa a rachar. As engrenagens da economia bloqueiam-se e o sistema de relações sociais e económicas vê-se ameaçado. Abre-se a oportunidade de uma mudança, uma janela para um novo amanhecer.

Como antes, mas agora mais fortemente, evidenciam-se duas direções mentais: uma é solidária e coloca o ser humano como valor central; a outra continua a ser individualista e coloca a economia – o lucro – como primário.

Avançam novos padrões nas relações diplomáticas e a Organização Mundial de Saúde (OMS) converte-se em referência mundial. Observa-se uma trégua em conflitos armados em diferentes áreas do planeta, assim como a suspensão e revisão de importantes manobras militares.

Em países governados pela direita, propôs-se inicialmente evitar medidas de isolamento social para não parar a economia e que “cada um decida o que fazer perante a epidemia”. Propôs-se esta “saída” de claro recorte individualista, mas a avalancha subsequente de contágios e mortes tornou claro que não tinham cabimento saídas individuais. Tiveram que retroceder e regressar ao velho Estado que até há muito pouco pretendiam desmantelar.

A pandemia pôs em evidência que esse desmantelamento estatal teve como resultado a deterioração dos sistemas públicos de saúde. A população ficou indefesa, coisa que não deveríamos esquecer quando consigamos sair desta crise

Analisando o amplo período de tempo durante o qual se produziu o desenvolvimento da vida no planeta, diversos investigadores chegaram à conclusão de que, precisamente neste século, estamos a chegar a uma “singularidade”, depois da qual nada voltará a ser como antes. Os quatro mil milhões de anos de evolução da vida hão-de resolver-se nos próximos decénios, para bem ou para mal, e a resposta da espécie já não depende da biologia, mas sim do desenvolvimento da consciência. Ao longo da evolução da vida nota-se uma tendência para ganhar cada vez mais autonomia, expressada na auto-organização distintiva dos seres vivos. É uma tendência para a liberdade, que atinge na humanidade a sua forma mais desenvolvida, abandonando o mecanismo da natureza e fazendo da intencionalidade a sua “flecha evolutiva”.

Uma mudança é possível, mas queremos voltar à normalidade de antes? Poderemos distinguir entre evolução e involução?…

2. Olhando para o futuro

O que sucederá depois de se deter a pandemia?

Certamente, haverá uma pugna entre aqueles que querem conseguir uma mudança de sistema e as elites que tratarão de manter os seus privilégios. Os humanistas estão entre os primeiros. Aspiramos a uma Nação Humana Universal.

O projeto da Nação Humana Universal poderá concretizar-se na medida em que o ser humano se constitua como valor central. Esta é uma mudança que deve produzir-se na consciência de extensas camadas da população, de maneira que as diferenças étnicas, nacionais, ideológicas, confessionais, de classe social, etc., se convertam em fatores secundários face à essencial igualdade que pertencer à espécie humana pressupõe.

Julgamos que os eventos que estão a ocorrer nestes dias favorecem o processo de mudança mencionado, pois, por um lado, paralisam as urgências de todos os dias, possibilitando um estado de reflexão e, por outro lado, põem em evidência que se trata de uma experiência e uma ameaça comum para todos os seres humanos, independentemente das diferenças que possam existir entre uns e outros.

Abre-se a possibilidade de uma mudança com direção humanizadora. É a possibilidade de nos reconhecermos como espécie e de produzir um salto no nível de consciência. Se considerarmos a “humanidade” como um “ser em desenvolvimento”, veremos que se trata de um ser emergente e em etapa de integração, em etapa de complementação crescente. Para alcançar a beleza da Nação Humana Universal necessita de “despertar” e eliminar as suas contradições internas, quer dizer, as guerras, a fome, as migrações massivas, a incrível desigualdade económica e, em geral, todas as formas de violência. Isto só será possível com um salto massivo no nível de consciência.

A situação atual ajuda nesse sentido, pois além de acrescentar a perceção da humanidade sobre si mesma, tem produzido um forte crescimento do valor da solidariedade. Recordemos que a solidariedade vinha a retroceder constantemente durante a ascensão do neoliberalismo. Subitamente, começou a reverter-se essa tendência e muitos compreenderam que “dar é melhor do que receber”. O momento exige esse olhar integral e comunitário. Há que favorecer o intercâmbio, os apoios mútuos, os espaços convergentes. O melhor do ser humano sairá à luz do dia quando se estenda a Regra de Ouro como referência: “Trata os outros como queres ser tratado”.

Enquanto isso, podemos assinalar algumas propostas concretas que podem servir como passos intermédios para se avançar para a Nação Humana Universal: saúde e educação públicas e gratuitas; rendimento básico universal; redução do armamentismo e redefinição do papel das forças armadas; redução drástica dos gases com efeito estufa e desenvolvimento de energias renováveis não convencionais (eólica, solar, etc.); respeito crescente pelos Direitos Humanos; maior protagonismo dos organismos de coordenação mundial e transformação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Em geral, teremos que priorizar o “crescimento” das pessoas (saúde, educação e qualidade de vida) em relação ao crescimento das “coisas”.

Como princípios orientadores da transformação social, a médio e longo prazo, propomos: 1) reformulação da relação capital-trabalho; 2) transformação da atual democracia formal em democracia real; 3) descentralização do poder político, económico e administrativo; 4) estabelecimento de uma relação harmoniosa com a natureza.

Tratemos de ver um pouco para além do momento atual… abrindo o futuro. Como já comentámos, múltiplas evidências assinalam que o processo evolutivo que nos trouxe até aqui está a chegar ao seu fim. Como resultado deste processo, um novo ser humano deve emergir, com outros valores, outra sensibilidade e outro nível de consciência.

É este novo ser humano que haverá de se dirigir às estelas. Levará dentro de si os esforços, anseios, temores e esperanças de milhares de milhões de precursores, que elevaram o seu olhar para o céu desde os longínquos alvores da pré-história. Quando isto suceder, teremos cumprido a nossa parte. Uma nova espécie abrir-se-á ao Cosmo, em ressonância viva com a insondável intenção evolutiva universal.

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