Estamos perante um possível “despertar” do ser humano?

23.03.2020 - Madrid, España - Juana Pérez Montero

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Estamos perante um possível “despertar” do ser humano?
(Crédito da Imagem: Rafael Edwards)

Uma porta se abriu e vale a pena trabalhar em um novo impulso pela humanização do mundo.  Se pudermos ignorar este afastamento talvez avancemos até o despertar do ser humano, até a chegada do Leão Alado.

Hoje se fazem evidentes os grandes temores que acompanha o ser humano ao largo de sua existência;   os temores da solidão, da velhice, da enfermidade e da morte, temores que moveram, em grande medida, nossa ação compensatória neste mundo.

Estes medos deixaram de atuar na copresença individual e coletiva para fazerem-se presente nas circunstâncias excepcionais que vivemos.  Um vírus provoca nosso afastamento físico e a solidão psicológica se soma para tratar de evitar o contágio e, como consequência, a enfermidade e a morte.  Para que falar de temor a velhice quando constatamos que os anciões são precisamente o coletivo mais vulnerável nesta crise planetária que recém começa.  Uma solidão acrescentada pelo individualismo selvagem que foi a estrutura de nossas relações e,  hoje, cobra sua fatura.

Neste afastamento obrigatório faz com que nos abram alguns caminhos, como:  o caminho da desesperança, de falta de fé em nós mesmos e no futuro, no caminho das tensões, da violência, do sem sentido, da contradição e da loucura (manifestações  já  presentes na forma de pobreza extrema, de desequilíbrio psicológico e social, etc.) o caminho da fuga, enquanto possamos mantê-los e permiti-lo na forma de ocupar o tempo com jogos, tv, etc., ou, então, nos fixemos na possibilidade de revisar, desde outra perspectiva, o momento atual e as prioridades que nos trouxeram até aqui.

Talvez possamos reconhecer que o dinheiro, o poder e o prestígio, valores que moveram esta recém etapa da humanidade, não nos protegeram de um vírus que se grudou em nossas vidas quase sem nos darmos conta.

Oxalá, ao estarmos sozinhos, em algum momento, nos perguntemos em que mundo queremos viver, que faremos com esse mundo, que acontece depois da morte…qual é o sentido de tudo que existe?

Pode acontecer que tenhamos que percorrer, como humanidade, todo um processo, que vivamos um desastre psicossocial que vai acabar quando a crise sanitária termine e comecemos a sentir um grande fracasso, o fracasso desta cultura que nos está conduzindo a destruição e a morte, não só do corpo, como também do espírito.  E será, então, talvez, que aconteçam experiências transcendentais que só o silêncio externo e interno permite que se manifestem.

É possível que estejamos diante do término de uma etapa como humanidade e nesse término possamos ver essa paisagem de formação¹ que nos moveu nos últimos milhares de anos.  É possível que nesta solidão a consciência individual e coletivas se observem e se atrevam a focar nesses temores.

Estaríamos então diante da possibilidade de sairmos de uma repetição sofredora não eleita e de começar a caminhar pelas enormes avenidas da liberdade, da liberação da dor e do sofrimento.

Para isso necessitamos, nesta solidão imposta e convulsionada, parar, aceitar este momento,  não colocar obstáculos a ele e buscar as raízes do problemas sociais e pessoais que vivemos e que se passa o mesmo com todos.  É fundamental que nesta adversidade nos adentremos um pouco em nós mesmos, nos tranquilizemos, atendamos e observemos, sem culpas, o estilo de vida que nos trouxe até este ponto.

E então, se muitos nos somarmos a ele, é possível que possamos observar o devaneio de nossos temores e um clamor individual e coletivo ocupem este espaço, um clamor em forma de pedido verdadeiro para retomar o sentido mais profundo de nossa existência, por tornar-se em fé profunda em nós e no processo humano, por experimentarmos que a morte não detém o futuro, por deixar de sofrer, etc.  Então, oxalá, possamos viver tudo isso e compreender que necessitamos, e podemos, reconstruir o tecido social, e a nós mesmos, e alegremente nos entreguemos a humanizar este mundo “tratando os demais como queremos ser tratados”².  UM pedido que anuncie a chegada do Leão Alado.³


¹ Auto Liberação, Paisagem de Formação.  (Epílogo)  Luís A. Ammann, página 232.
² Se refere ao princípio universal, base de todo humanismo, que Silo explicitou em seu livro:  O Olhar Interno e, incluiu, no livro Mensagem de Silo (2002) como por ex:  “Se tratas os demais como queres que te tratem te liberas”.
³ O dia do Leão Alado. ( Silo).

Categorias: Humanismo e Espiritualidade, Opinião
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