A última chance de salvar Julian Assange

21.02.2020 - São Paulo, Brasil - Outras Palavras

A última chance de salvar Julian Assange

Neste sábado, Londres fará manifestação em sua defesa. Dois dias depois, um juiz britânico poderá despachar, ao canto mais sombrio do inferno prisional norte-americano, o jornalista que expôs as mentiras e horrores da “democracia” imperial

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Neste sábado, em Londres, haverá uma marcha da Australia House à Praça do Parlamento, o centro da democracia britânica. Os manifestantes levarão fotos do editor e jornalista australiano Julian Assange. No próximo 24 de fevereiro [segunda-feira de Carnaval], ele estará diante de um juiz, que decidirá. se deve ou não ser extraditado para os Estados Unidos, para morrer em vida.

Conheço bem a Australia House. Como sou australiano, costumava frequentar o local para ler os jornais da minha terra, na época em que havia acabado de chegar a Londres. Inaugurada pelo rei George V há mais de um século, a abundância de mármores, pedras, lustres e retratos solenes, importados da Austrália enquanto soldados australianos morriam no massacre da Primeira Guerra Mundial, garantiu sua fama de “marco imperial de monumental servidão”.

Sendo uma das “missões diplomáticas” mais antigas no Reino Unido, esta relíquia do império fornece agradáveis sinecuras aos políticos australianos e neozelandeses. Lá, os “companheiros” são recompensados e os encrenqueiros, exilados.

Conhecido como Alto Comissário, cargo equivalente ao de um embaixador, o atual beneficiário é George Brandis. Como procurador-geral tentou sabotar a Lei Contra Discriminação Racial na Austrália e aprovou ataque aos denunciantes que revelaram a verdade sobre a espionagem ilegal da Austrália em Timor-Leste, durante as negociações para apoderar-se do petróleo e gás daquele precário país.

Isso levou os denunciantes, Bernard Collaery e “Testemunha K”, a serem processados sob acusações. Como Julian Assange, eles devem ser silenciados num julgamento kafkiano e, depois, esquecidos. A Australia House é o ponto de partida ideal para a marcha de sábado.

Servindo o Grande Jogo

Lord Curzon, vice-rei da Índia em 1898, escreveu: “Confesso que os países são peças em um tabuleiro de xadrez, sobre o qual está sendo disputado um grande jogo pela dominação do mundo”. Nós, australianos, temos servido o Grande Jogo por muito tempo. Tendo devastado nossos povos indígenas, por meio de invasões, guerras e atritos que até hoje não cessaram, derramamos sangue por nossos senhores imperiais na China, Rússia, Oriente Médio, Europa e Ásia. Nenhuma aventura imperial contra aqueles contra quem não temos nenhuma desavença deixou de ter nossa dedicação.

A decepção tem sido uma característica. Quando o primeiro-ministro Robert Menzies enviou soldados australianos para o Vietnã, nos anos 1960, ele os descreveu como uma equipe de treinamento, solicitada por um governo sitiado em Saigon. Era mentira. Um alto funcionário do Departamento de Relações Exteriores escreveu secretamente que, “embora tenhamos enfatizado publicamente que nossa assistência foi prestada em resposta a um convite do governo de Vietnã do Sul”, a ordem veio de Washington.

Duas versões. A mentira para nós, a verdade para eles. Cerca de quatro milhões de pessoas morreram na guerra do Vietnã.

Quando a Indonésia invadiu Timor-Leste em 1975, o embaixador australiano, Richard Woolcott, encorajou o governo do país a “agir de modo a que que o impacto público na Austrália fosse reduzido, e a demonstrar privadamente, junto à Indonésia, compreensão”. Em outras palavras, a mentir. Ele fez alusão às jazidas de petróleo e gás no mar de Timor que, como ostentou Gareth Evans, ministro de Relações Exteriores, valiam “zilhões”.

No genocídio que se seguiu, pelo menos 200 mil timorenses morreram. A Austrália afirmou, praticamente sozinha, a legitimidade da ocupação.

Quando o primeiro-ministro John Howard enviou forças especiais australianas para invadir o Iraque junto com os EUA e a Grã-Bretanha em 2003, ele — assim como George W. Bush e Tony Blair — mentiu ao dizer que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Mais de um milhão de pessoas morreu no Iraque. O WikiLeaks não foi o primeiro a chamar a atenção para o padrão de criminalidade das democracias — que permanece tão voraz quanto nos tempos de Lord Curzon. O grande feito da organização editorial fundada por Julian Assange foi oferecer as provas.

Mentiras Verdadeiras Expostas

O WikiLeaks nos mostrou como são fabricadas as guerras ilegais, como governos são derrubados com violência usada em nosso nome, como somos espionados através de nossos telefones e telas. As mentiras reais de presidentes, embaixadores, candidatos, generais, procuradores e fraudadores políticos foram expostas. Um a um, esses pseudo-imperadores foram percebendo que estavam nus.

Foi um serviço público sem precedentes; mas, acima de tudo, foi jornalismo autêntico, cujo valor pode ser julgado pelo nível de apoplexia dos corruptos e de seus defensores.

Em 2016, por exemplo, o WikiLeaks publicou os e-mails vazados de John Podesta, diretor da campanha de Hillary Clinton, que revelaram uma ligação direta entre ela, a fundação que controla com o marido e o financiamento do jihadismo organizado no Oriente Médio — também conhecido como terrorismo.

Um e-mail revelava que o Estado Islâmico (ISIS) era financiado pelos governos da Arábia Saudita e do Qatar, de quem Hillary aceitou enormes “doações”. Além disso, como secretária de Estado dos EUA, ela aprovou a maior venda de armas do mundo para seus apoiadores sauditas, no valor de mais de 80 bilhões de dólares. Graças à Hillary, as vendas de armas dos EUA para o mundo – usadas para devastar países, como o Iêmen — dobraram.

Revelados pelo WikiLeaks e publicados no New York Times, os e-mails de Podesta desencadearam uma campanha de censura desprovida de evidências contra o editor-chefe Julian Assange. Ele seria um “agente russo trabalhando na eleição de Trump”; a isso se seguiu o estapafúrdio “Russiagate”. O fato do WikiLeaks também ter publicado mais de 800 mil documentos, que frequentemente condenavam a Rússia, foi completamente ignorado.

Em 2017, num programa da Australian Broadcasting Corporation, chamado “Four Corners”, Hillary foi entrevistada por Sarah Ferguson, que começou: “Ninguém poderia deixar de se emocionar com a dor no seu rosto [no momento da posse de Donald Trump]… Você se lembra de quão visceral isso foi para você?”

Tendo estabelecido o sofrimento visceral de Hillary, a bajuladora Ferguson descreveu o “papel da Rússia” e o “dano causado pessoalmente a você” por Julian Assange. Hillary respondeu, “ele [Assange] é claramente uma ferramenta da inteligência russa. E ele cumpriu as ordens deles”.

Ferguson disse a Hillary, “muitas pessoas, inclusive na Austrália, pensam em Assange como um mártir da liberdade de expressão e da informação livre. Como você o descreveria?” Novamente, a ex-secretária de Estado teve a oportunidade de difamar Assange como “um niilista a serviço de ditadores”, enquanto Ferguson garantia à entrevistada que ela era “um ícone da sua geração”.

Nem se mencionou outro documento vazado, revelado pelo WikiLeaks, cujo nome era Libya Tick Tock. Preparado para Hillary Clinton, o documento a descrevia como a líder central na destruição do Estado líbio, em 2011 — que resultou em 40 mil mortes, na chegada do ISIS à África do Norte e na crise europeia de refugiados e imigrantes.

O único crime em julgamento

A meu ver, o episódio da entrevista a Hillary (assim como muitos outros exemplos), ilustra fielmente a diferença entre o jornalismo falso e o verdadeiro. No dia 24 de fevereiro, quando Julian Assange pisar na Corte de Woolwich Crown, o único crime a ser julgado será o do jornalismo verdadeiro.

Às vezes me perguntam o porquê de eu defender o Assange. Por um motivo: eu gosto dele e o admiro. Ele é um amigo com uma coragem estonteante, e tem um senso de humor sofisticadamente aguçado e perverso. Ele é o extremo oposto do personagem inventado, e depois assassinado, por seus inimigos.

Como repórter de diversos lugares do mundo em turbulência, aprendi a cotejar as evidências do que eu testemunhava com as palavras e ações daqueles que detêm o poder. Dessa forma, é possível ter uma noção de como nosso mundo é controlado, dividido e manipulado, como nossa linguagem e os debates são distorcidos para gerar propaganda e falsa consciência. Quando nos referimos a ditaduras, chamamos este processo de lavagem cerebral: a conquista das mentes. É uma verdade que raramente aplicamos às nossas próprias sociedades, apesar do rastro de sangue que aponta de volta para nós mesmos e que nunca seca.

O WikiLeaks revelou isso. É por isso que Assange encontra-se hoje numa prisão de segurança máxima em Londres, enfrentando acusações políticas inventadas nos Estados Unidos, e por que ele envergonhou tantos daqueles que são pagos para manter a narrativa. Repare nesses jornalistas que agora procuram cobertura, quando começam a perceber que os fascistas norte americanos que perseguiram Assange podem ir atrás deles também. Inclusive aqueles jornalistas do The Guardian que colaboraram com o WikiLeaks e que ganharam prêmios e se garantiram com livros e contratos lucrativos com Hollywood antes de se voltarem contra Assange.

Em 2011, David Leigh, “editor de investigações” do Guardian, declarou aos estudantes de jornalismo da City University de Londres que Assange estava “bastante demente”. Quando um estudante intrigado perguntou por quê, Leigh disse: “porque ele não compreende os parâmetros do jornalismo convencional”.

Mas é precisamente por ele ter entendido que os “parâmetros” da mídia frequentemente protegiam interesses políticos ocultos, e não tinham nada a ver com transparência, é que a ideia do WikiLeaks foi tão atraente para tantas pessoas — especialmente para os jovens, legitimamente céticos com relação ao mainstream.

Leigh ainda zombou da própria ideia de que, se extraditado, Assange acabaria “usando um macacão laranja” (roupa usada pelos presos, nos EUA). Ele disse que essas eram coisas “que ele e seu advogado falam para alimentar sua paranóia”.

As acusações atuais dos EUA sobre Assange centram-se nas revelações sobre o Afeganistão e o Iraque, que foram publicados pelo Guardian e trabalhados por Leigh; e no vídeo Collateral Murder (“Assassinato Colateral”), que mostrava a tripulação norte-americana de um helicóptero, atirando em civis e celebrando o crime. Por este jornalismo, Assange enfrenta 17 acusações de “espionagem” que podem resultar em sentenças de prisão totalizando 175 anos

Independentemente de o uniforme da prisão ser ou não um “macacão laranja”, os arquivos judiciais dos EUA verificados pelos advogados de Assange revelam que, uma vez extraditado, ele estará sujeito a medidas administrativas especiais, conhecidas como SAMS. Um relatório feito em 2017 pela Faculdade de Direito da Universidade de Yale e pelo Centro de Direitos Constitucionais, descrevia o SAMS como “o rincão mais sombrio do sistema penitenciário federal dos EUA”, combinando “a brutalidade e o isolamento das unidades de segurança máxima com restrições adicionais que negam aos indivíduos quase qualquer conexão com o mundo humano… O objetivo final é ocultar essa forma de tortura de qualquer verificação pública real”.

Finalmente, está começando a ficar claro para todos aqueles que engoliram os boatos que buscavam difamar Assange, que, na verdade, ele sempre esteve certo — e que o plano dos EUA de levá-lo para a Suécia não passou de uma fraude para destruí-lo. Nils Melzer, Relator de Tortura da ONU, afirmou recentemente: “Falo sueco fluentemente e tive a oportunidade de ler os documentos originais inteiros. Eu não conseguia acreditar no que os meus olhos viam. De acordo com o depoimento da mulher em questão, jamais houve estupro. E não só isso, como também: o depoimento da mulher foi posteriormente alterado pela polícia de Estocolmo, sem o envolvimento dela, para que de alguma forma parecesse um possível estupro. Tenho todos esses documentos em meu poder, os e-mails, as mensagens de texto”.

Keir Starmer concorre atualmente à eleição para líder do Partido Trabalhista britânico. Entre 2008 e 2013, foi Diretor do Ministério Público e responsável pelo Ministério Público da Coroa. De acordo com a pesquisa da jornalista italiana Stefania Maurizi sobre liberdade de informação, a Suécia tentou suspender o caso de Assange em 2011, mas um oficial do Ministério Público da Coroa, em Londres, pediu à promotora sueca que não tratasse o caso como “apenas outra extradição”.

Em 2012, ela recebeu um e-mail do Ministério Público da Coroa dizendo: “Não ouse voltar atrás!!!”. Outros e-mails do mesmo ministério foram eliminados ou editados. Por que? Keir Starmer precisa responder.

Na linha de frente da marcha deste sábado, estará John Shipton, pai de Julian, cujo incansável apoio ao seu filho é a antítese da conspiração e da crueldade do governo australiano.

O salão da vergonha começa pelo nome de Julia Gillard, a primeira-ministra do Partido Trabalhista Australiano que em 2010 quis criminalizar o WikiLeaks, prender Assange e cancelar o seu passaporte — até a Polícia Federal australiana apontar que nenhuma lei permitia isso e que Assange não havia cometido crime algum.

Embora afirmasse falsamente dar a Assange assistência consular em Londres, foi o revoltante abandono do governo de Gillard que levou o Equador a conceder asilo político ao jornalista em sua embaixada em Londres.

Posteriormente, em um discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, Gillard, uma das favoritas da embaixada dos EUA em Canberra, quebrou recordes de bajulação (de acordo com o site Honest History) ao falar repetidamente da fidelidade dos “companheiros estadunidenses à Austrália e à Nova Zelândia”.

Hoje, enquanto Assange espera em sua cela, Gillard viaja pelo mundo, promovendo-se como uma “feminista” engajada com os “direitos humanos”, muitas vezes fazendo dupla com aquela outra “feminista” em voga, Hillary Clinton.

A verdade é que a Austrália poderia ter resgatado Julian Assange e ainda pode fazê-lo. Em 2010, consegui me reunir com Malcolm Turnbull, um importante membro Liberal (Conservador) do Parlamento. Na década de 1980, quando era um jovem advogado, Turnbull lutou com sucesso contra as tentativas do governo britânico de impedir a publicação do livro Spycatcher, de Peter Wright, um espião que expôs as redes secretas e ocultas do poder — também conhecidas como “estado profundo” — da Grã-Bretanha.

Conversamos sobre sua famosa vitória pela liberdade de expressão e de publicação. Eu descrevi o erro judiciário do caso de Assange — a fraude de sua prisão na Suécia e sua conexão com uma acusação americana que rasgou a Constituição dos EUA e o Estado de Direito Internacional.

Turnbull mostrou-se genuinamente interessado e um assessor fez anotações extensas. Pedi a ele que entregasse ao governo australiano uma carta de Gareth Peirce, o renomado advogado britânico de direitos humanos que representa Assange.

Na carta, Peirce escreveu:

“Dada a extensão da discussão pública, frequentemente baseada em suposições inteiramente falsas… é muito difícil tentar preservar para [Julian Assange] qualquer presunção de inocência. Sobre o Sr. Assange agora pairam duas espadas de Dâmocles: da potencial extradição para duas jurisdições diferentes — por sua vez, por dois supostos crimes diferentes, que não representam crimes em seu próprio país — e da sua segurança pessoal estar sob risco, em circunstâncias altamente carregadas de viés político.”

Turnbull prometeu entregar a carta, fazer o acompanhamento e me manter informado. Já escrevi várias vezes para ele, esperei e não obtive nenhuma resposta.

Em 2018, John Shipton escreveu uma carta profundamente comovente para o então primeiro-ministro da Austrália, pedindo-lhe para exercer o poder diplomático de que dispõe seu governo e levar Julian de volta a casa. Ele escreveu temer que, se Assange não fosse resgatado, ocorreria uma tragédia e seu filho morreria na prisão. Não obteve resposta. O primeiro-ministro era Malcolm Turnbull.

No ano passado, quando Scott Morrison, primeiro-ministro atual e antigo Relações Públicas, foi questionado sobre Assange, ele respondeu de seu jeito corriqueiro “ele deveria encarar a música!”.

Quando a marcha de sábado chegar às casas do Parlamento britânico, conhecido como a “Mãe dos Parlamentos”, Morrison, Gillard, Turnbull e todos aqueles que traíram Julian Assange serão chamados; a história e a decência não se esquecerão deles, nem daqueles que permanecem calados.

E se ainda resta algum senso de justiça no reino da Magna Carta, a farsa que é o caso contra esse heroico australiano deve ser descartada. Ou tenhamos cuidado, todos nós.

Categorias: Assuntos internacionais, Direitos Humanos, Internacional, Opinião
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