Medo tem, mas acabou

01.10.2018 - Redação São Paulo

Medo tem, mas acabou

por Ítala Isis

O ano é 2018, período de campanha para eleições presidenciais no Brasil. As primeiras depois de um Golpe jurídico-midiático que retirou Dilma Roussef, presidenta eleita, do poder. Um candidato com histórico de declarações racistas, homofóbicas, machistas, violentas, que votou a favor do Golpe contra Dilma em homenagem a um general torturador da época da ditadura militar, alcança o primeiro lugar nas pesquisas, com cerca de 28% das intenções de voto. A promessa de restauração da moral e da segurança para a “família tradicional brasileira” joga com o medo de parte da sociedade. Trata-se de um tipo de fascismo que se volta contra as pessoas do nosso próprio país. É medo do Outro que somos. Medo de ver e conviver com a diversidade que nos constitui enquanto sociedade. Medo branco, masculino, heterossexual, cisgênero; da onda negra, feminina, múltipla nas suas formas de existir, amar e constituir família que, nos últimos anos, conquistou visibilidade e presença em espaços políticos e de produção de pensamento.

A visibilidade da imagem e fala do candidato, chamado de “Mito” por alguns, e de “Coiso”, “Bolsognaro”, “Bolsobosta”, “inominável”… por outros e outras, torna-se um incentivo para que parte dos seus admiradores, a maioria homens, mostre nas redes sociais, sob o pretexto de expressar a opinião, posições racistas, machistas, LGBTfóbicas e violentas. E logo essas posições saem das redes e alcançam o espaço público, em situações pontuais de agressão verbal ou física a quem ouse contrariá-los. E o que é contrariá-los? Em alguns casos, é expressar veemente recusa pelo candidato “Coiso”, e tudo que ele representa. Em outros casos, é apenas tornar a própria existência visível. Essas situações, ocorridas no espaço público, voltam às redes sociais, ganhando repercussão e produzindo uma perversa propaganda a favor do medo. Medo de falar. Medo de existir. Medo também do que possa acontecer caso o “Coiso” de fato ganhe as eleições.

No dia 29 de setembro, milhares de pessoas se encontram em manifestações no Brasil e no exterior, para se mostrarem, se verem, se ouvirem e se reconhecerem nas suas diversidades. Para gritarem juntas que não serão governadas pelo tal “Coiso”, que #EleNão.

O protagonismo dessas manifestações é das mulheres. As brancas, as negras, as mestiças, as indígenas, as que têm boceta, as que não têm boceta, as sapatões, as bissexuais, as heterossexuais, as novas, as velhas, as de meia idade, as que estão dentro de certo padrão de beleza, as que não estão dentro de certo padrão de beleza, as mães, as que não querem ser mãe, as que não podem ser mãe, as que não se preocupam se serão ou não mãe, as de direita, as de esquerda, as anarquistas, as estadistas, as donas de casa, as putas, as religiosas, as ateias, as que enfrentam, todos os dias, o medo de estar presente e expressar sua existência no espaço público.

É fato que também existem mulheres, diversas, que apoiam o “Coiso”. Mas é igualmente fato que os retrocessos defendidos pelo tal candidato, afetam também as vidas dessas apoiadoras.

A mobilização começa nas redes sociais, numa página criada com a intenção reunir mulheres para pensar juntas em formas de impedir a eleição do “Coiso”. Nas primeiras 48 horas, a página já tem 6 mil integrantes. Quando chega à 2 milhões de integrantes, é atacada por hackers, tendo seu conteúdo completamente modificado em favor do candidato. Os crimes cibernéticos são denunciados e a página volta ao poder das 110 administradoras, com um número ainda maior de integrantes. Atualmente possui 4 milhões de perfis, todos de mulheres. É dessa página que surge a ideia de realizar manifestações em diversas cidades do país contra o “Coiso”.

A partir do evento promovido pelas mulheres nas redes sociais, vão aparecendo outros eventos, agregando outros grupos minoritários, categorias profissionais e muito humor. Porque alegria também é resistência. Rir também é uma forma de enfrentar o medo. Os preparativos para o grande dia são compartilhados nas redes sociais, entre cuidados, conselhos, confissões e produções estéticas.

No Rio de Janeiro, o evento é marcado para acontecer na Praça da Cinelândia, em frente à Câmara Municipal, espaço histórico de mobilização popular no centro da cidade. No mesmo dia, não por acaso, é marcado um ato na Orla de Copacabana, em favor do candidato.

Chega o dia da manifestação. Colocar o pé fora de casa com a camisa estampada “#EleNão” é o primeiro passo no enfrentamento do medo. Sair com a camisa na bolsa, para vestir quando chegar à Praça, se torna uma tática possível para algumas pessoas. Outras combinam de sair em grupo. Há ainda aquelas que preferem sair sem nenhuma estampa na blusa, contando com os adesivos que poderão receber durante o ato.

São 14:30 e a Praça da Cinelândia já está tomada por pessoas, a maioria mulheres, com barraquinhas, cartazes, adesivos e grandes faixas. Uma delas chama mais atenção, e logo encontrará uma gigantesca bandeira vermelha com o mesmo tema: Marielle Presente! A frase remete à Marielle Franco, mulher negra, nascida e criada no Complexo de Favelas da Maré, lésbica, mãe, socialista, quinta vereadora mais votada na cidade do Rio de Janeiro, assassinada em março, juntamente com seu motorista Anderson Gomes, quando voltava para casa de um evento acontecido no Bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Passados mais de seis meses do crime, as autoridades ainda não conseguem responder quem matou, quem mandou matar e o porquê.

São 17 horas e a Praça da Cinelândia está completamente lotada, colorida, cheia de faixas, cartazes, ações artísticas, estético-políticas, performáticas. A grande bandeira, com o rosto da vereadora assassinada, flameja no meio da multidão. Garantir o retorno da imagem de Marielle Franco numa manifestação promovida contra o “Coiso” e tudo que ele representa, é de certa forma, afirmar a coragem, apesar do medo, apesar de tudo. É também uma maneira de afirmar a coragem, a presença de tantas campanhas de mulheres que entram na política a partir das sementes que Marielle plantou.

São 18:20 e a multidão segue para a Praça XV, onde tem um palco montado para receber apresentações diversas contra o “Coiso”. Durante a caminhada até lá, a sensação é de que a rua é nossa. A cidade é nossa. O país é nosso. A cada esquina um grito, um coro, um canto, lembrando que #EleNão.

São 20 horas e ainda é possível ouvir, de longe, grupos fazendo coro contra o “Coiso”. Ver, nas redes sociais, outras Praças lotadas pelo país, fortalece a sensação de que precisamos nos encontrar mais, como sociedade, no espaço público, para nos reconhecermos nas nossas diferenças.

São 02:30. A confiança de que o “Coiso” será vencido, senão no primeiro, no segundo turno das eleições presidenciais, é compartilhada nas redes sociais. No entanto, quem é capaz de elegê-lo transita pelo mesmo chão que as manifestações do dia 29 transitaram. Duas frases parecem flutuar na madrugada. A primeira, uma pichação encontrada no percurso da Praça da Cinelândia até a Praça XV: “Nos tiraram tanto, que nos tiraram o medo”. A segunda, dita por Marielle Franco no último pronunciamento feito na Câmara Municipal do Rio de Janeiro: “Não serei interrompida”.

Ele não. Ela Sim. Nós sim.

ÍTALA ISIS é artista, educadora e pesquisadora. Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Artes da UERJ (PPGArtes – UERJ), na linha de pesquisa em Artes, Cognição e Cultura.

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