Gênero: diversidade sem fim

29.06.2017 - Redação São Paulo

Gênero: diversidade sem fim

por Vinícius B.C.

A produção do gênero é algo que ocorre na esfera social. No âmbito da cultura. Portanto, quando pensamos em gêneros temos que nos desprender das concepções biológicas como apenas “homem ou mulher”. Que se definem pelo sexo de nascimento.

A produção do gênero é produzida e reproduzida de modo que há masculinidades e feminilidades. Gênero é algo, orientação sexual é outro coisa. Se perguntarmos para determinados indivíduos o que é ser homem e o que é ser mulher, diferentes respostas podem surgem. Do mesmo modo, homens podem ter diferentes orientações sexuais, como ser homossexuais, hetorossexuais ou terem outras orientações, como a bissexualidade, por exemplo.

Para começar a pensar o assunto também é importante salientar que as categorias sociais são objetos de dispusta com relação a sua definição. Há sempre uma querela entre grupos que querem firmar certas definições. Para nos ajudar a entender a riqueza do tema, faremos uma entrevista com Cláudia P. Costa 22 anos, Jornalista formada pela ESPM/SP e que se debruçou em seu TCC sobre o tema da assexualidade. Ela também mantém um blog.

Pressenza Brasil – Conta um pouco sobre você, sua história e suas experiências com o tema.

A primeira vez que ouvi falar em assexualidade foi lendo uma fanfic em que um dos personagens se identificava como assexual. Sempre fui muito ativa na comunidade LGBT por me identificar desde muito cedo como bissexual. Mas sabia que tinha algo de diferente comigo. Não me relacionava com a minha sexualidade como a maioria dos meus amigos fazia. Quando vi essa fanfic, decidi começar a procurar mais sobre o tema para entender melhor. O maior motivador foi a curiosidade mesmo em conhecer e entender melhor uma nova letra do movimento LGBT. Nessa leitura comecei a perceber que o que tinha de diferente em mim estava meio que explicado ali. A falta de atração sexual, a falta de necessidade e vontade em manter relações sexuais com as pessoas com quem me relacionava. Mas ao mesmo tempo não sabia que podia mesmo me identificar como assexual, porque teve uma pessoa na minha vida com quem me relacionei por quem eu senti atração sexual. Passaram-se mais dois anos antes de eu encontrar a subcategoria demissexualidade dentro do espectro da assexualidade e finalmente conseguir me identificar e aceitar que não havia nada de errado comigo e que eu era uma pessoa perfeitamente saudável e normal. Depois disso passei a me identificar como demissexual birromântica. A partir disso comecei a me envolver mais com a comunidade assexual e na hora de fazer meu TCC decidi dar voz a essa comunidade.

Pressenza Brasil – O que é assexualidade?

A assexualidade é uma orientação sexual. Ela se dá em um espectro, ou seja, existem algumas subcategorias nela (assim como orientação não-monossexuais). Se define assexualidade pela falta ou rara existência de atração sexual por outras pessoas.
Pessoas assexuais não sentem -ou sentem em raras exceções- atração sexual, e isso significa que um assexual não olha para alguém (desconhecido, conhecido, amigo ou parceiro) e pensa “nossa, seria legal transar com ele”.
Isso não impede que pessoas assexuais transem, seja porque querem agradar o parceiro e não se sentem mal por isso ou porque gostam da sensação que o ato sexual traz (já que assexuais podem -e tem- libido como qualquer pessoa de outra orientação sexual).
É importante lembrarmos as diferenças entre atração sexual, comportamento sexual e libido.
A libido é a reação química que acontece no seu corpo que causa a excitação. Ela pode ser ativada tanto por um estimulo externo (físico, visual ou auditivo) quando por motivos aleatórios (na puberdade é muito comum que pessoas com pênis e testosterona tenham ereções ao longo do dia sem nenhum tipo de estímulo, por exemplo. O mesmo pode acontecer na fase adulta com qualquer pessoa). A libido varia de pessoa para pessoa. Algumas pessoas tem uma libido alta, outras tem uma libido baixa e isso não tem relação com a orientação sexual de uma pessoa.
Atração sexual é quando o seu desejo e sua libido são direcionadas para uma ou mais pessoas especificas.
E comportamento sexual é a decisão individual de quando, como e com quem manter relações sexuais. Ela não tem influencia direta na orientação sexual de uma pessoa (quantas pessoas homossexuais já não tiveram relações com pessoas do outro gênero? Isso não faz delas menos homossexuais. Assim como pessoas heterossexuais que quiseram experimentar com o mesmo gênero não deixam de ser hetero por isso).
Assim uma pessoa assexual pode ou não ter um libido e pode ou não manter relações sexuais, o que define se alguém é ou assexual é a atração sexual que ela deixa de sentir (ou sente em raras exceções).

Pressenza Brasil – O que você propõe em seu livro?

A proposta do meu livro é explicar um pouco o que é assexualidade dando voz as pessoas da comunidade. Ao mesmo tempo que trago definições de livros e monografias e entrevistas com profissionais, a maior parte das informações que são passadas foram fornecidas por pessoas da comunidade. Apesar de no livro em si aparecerem cerca de 14 personagens apenas, foram feitas quase 50 entrevistas e foi mais de um ano de acompanhamento ativo das comunidades no Facebook e fóruns de discussão sobre assexualidade. Desse modo a maior parte das informações do livro saíram de dentro da comunidade assexual e não da comunidade cientifica/acadêmica.
Caso queira entender e saber um pouco mais sobre o projeto, deixo o link do relatório final do livro: https://claudiapcosta.files.wordpress.com/2017/02/memorial-a-de-assexual.pdf
O livro em si está em fase de publicação, mas logo mais estará disponível tanto em impresso quanto em e-book.

Pressenza Brasil – O que você gostaria de falar para as pessoas que tem interesse no tema?

A assexualidade é um tema fascinante e complexo. Por ser algo que está em discussão a pouco tempo, existe pouco conteúdo e a maior parte desse conteúdo está em inglês. Os estudos acadêmicos e científicos sobre a assexualidade ainda são muito poucos, mas já temos o necessário para conseguirmos algumas pequenas vitórias: o DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria) já diz que a assexualidade não pode ser classificada como um transtorno mental (ainda que a forma que foi escrita não é ideal, pelo menos temos agora um respaldo para quando tratarem a assexualidade como doença. Não é).
Por conta disso tudo não é algo que um artigo ou uma passada na Wikipédia vá te dizer tudo. É preciso ler vários textos diferentes, de perspectivas diferentes e é sempre interessante buscar contato com pessoas que se identifiquem como assexuais.
Assim como acontece com todas as outras sexualidades, cada assexual se relaciona com a sua assexualidade de uma maneira diferente e não existe ninguém mais ou menos assexual ou um jeito certo de ser assexual. Pessoas vivenciam coisas de maneiras diferentes conforme o meio em que estão inseridas, e assexuais não são diferentes disso. Eu, felizmente, consegui me identificar relativamente cedo dentro da assexualidade. Existem outras pessoas que foram descobrir que eram assexuais só depois dos 30-40 anos, porque não sabiam que o que elas sentiam era normal e não um problema/doença. Então o convívio e a troca de conhecimento com pessoas assexuais é essencial pra se entender o assunto.
E assim como é necessário cautela na hora de entender outras sexualidades, é importante tomar cuidado com o modo com que a gente conversa com as pessoas.

Pressenza Brasil Gostaria de falar mais alguma coisa?

Acho que o mais importante eu já falei. Caso reste alguma dúvida, estou sempre a disposição pelo Facebook. Ainda que eu demore um pouco pra responder as vezes, estou aberta para conversar com qualquer um que realmente queira entender mais sobre assexualidade (e se, por algum motivo, eu ficar de te responder e não o fizer, pode dar um puxãozinho de orelha. As vezes o estresse do dia-a-dia me deixa meio esquecida. Mas pode cobrar sem problemas).

(imagem: Divulgação)

*Fim da Entrevista
Vamos trazer um pequeno glossário para o leitor poder entender um pouco da riqueza do mundo do gênero e sexualidade. Como vai poder compreender no final da leitura, existe uma gama de formas de se relacionar com as outras pessoas. Conhecer o tema é tomar conhecimento sobre as diferentes formas de vida existentes que a complexidade da natureza humana traz
Bissexual – que sente atração sexual pelo mesmo sexo e/o gênero e também pelo sexo e/ou gênero oposto.

Homossexual – sente atração pelo mesmo sexo ou gênero.

Hetessexual – sente atração pelo sexo/gênero oposto.

Pansexual – a atração ocorre independende do gênero.

Demisexual – atração sexual baseada em uma relação emocional. O afeto se é vital para rolar o sexo, sem o afeto, a aproximação emotiva, simplismente não acontece.

Alosseuxais – pessoas que sentem atração sexual baseada em características físicas de uma pessoa

Assexuais – pessoas que não sentem atração sexual.

Com relação ao gênero traremos definições contidas no site Dicionários de Gêneros, uma iniciativa importante de construção de verbetes que foram feitos a partir de respostas de usuários e organizados por uma lexicógrafa.

Agênero / Neutro

Agênero é a negação de um gênero; sentir-se sem gênero. Contudo, o neutro é uma afirmação de gênero – e não pode ser visto como sinônimo de agênero. Entre dois pólos, o gênero neutro se encontra no meio do espectro (se assemelhando mais ao andrógino do que agênero). Me sinto uma pessoa com gênero neutro, entre homem e mulher, e que não tem um pronome confortável… Nem “ele” nem “ela” representam o meio termo.  

por Amanda

Homem Cisgênero

Nos dias de hoje, ser Homem Cis é ter que se reinventar. É ter que sair da zona de conforto e reconhecer que a sociedade está inundada de machismo e patriarcalismo. É ter que pensar e agir diferente do “padrão” imposto, observando e aprendendo com os oprimidos. Como gênero “tradicional”, cabe a nós reconhecer e pregar o direito de liberdade que todos têm de ser o que quiser. Ser aquilo que é, de fato. Difundindo esse modus operandi, lutando contra todo tipo de discriminação, racismo e preconceito. Ser Homem Cis hoje, é não ser o Homem do passado.

Por alisson

Fluido

Desde sempre, eu acho, nunca me senti completamente garota (meu gênero de nascimento) mas também não me sentia um garoto, mas não sabia que isso era, vamos dizer real, não sei…e então descobri sobre gênero fluido e eu me encaixei, tem dias que me sinto uma garota, dias que me sinto um garoto, e dias que me sinto ambos, não me importo com o pronome, algumas amigas usam os pronomes masculinos ao se referirem a mim, gosto muito de ser assim porque me sinto livre!!!

por Nicole

Homem Transgênero

Sou homem. Com ou sem barba. Com ou sem pênis. Com ou sem peitoral definido. Com voz fina ou grossa. Características físicas não definem necessariamente o que eu sou interiormente. Não se prenda a padrões estéticos. Ser homem (ou mulher) vai além disso. Sou homem e fim.

por Lorenzo

Mulher Cisgênero

Ser mulher é ser forte, ser líder, ser intuitiva, ser independente e livre de esteriótipos. É ter em seu interior a ambição que constrói a posição de mulher. É se arrepiar com um novo desafio e enfrentá-lo mesmo que não tenha sido apresentada uma oportunidade. Ser mulher é erguer a cabeça, não baixar a guarda, abrir caminhos e brilhar. Ser mulher é crescer quando tentam te oprimir. Ser mulher é ser gente grande.

          por débora

Mulher Transgênero

Mulher é o que sou. Com Pênis ou Vagina, com Buço ou sem Buço. Com Mamas Pequenas ou Grandes. Com voz Grave ou Aguda. NÃO IMPORTA! Característica física não define obrigatoriamente o que eu sou. Não se prenda a padrões. Ser mulher, vai muito além disso. Não se nasce mulher, se torna uma..

por lexie

Não-Binário

Cada pessoa tem (ou não) o(s) seu(s) gênero(s) e o mesmo nome pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. A definição mais abrangente que conheço de pessoas não binárias é não ser exclusivamente homem ou mulher. É negar ter que necessariamente e/ou unicamente entrar nessa binariedade de gênero ou deixar ela te restringir.

por Oliver

Andrógino

Até onde eu sei, andrógino é uma pessoa que desperta curiosidade nas demais. Não se define como mulher ou homem, nao se importa quando se referem a Ele como Ela, eu posso dizer que me defino assim. Quando me perguntam “como tu gosta de ser chamado? Como devo te chamar?” Eu sempre respondo: “Como tu preferir, eu sou quem eu quero ser e mudo constantemente, então não faz diferença” ser chamado de Ele ou Ela já não dói mais. Eu escolhi ser o que quiser quando acordar, me sinto bem assim. Não são roupas, cabelos ou a forma com que me chamam que eu vou deixar de ser quem eu acordei querendo ser. =]

por lucas

Pangênero

Se identificar como pangênero pode e deve estar ligado com um lugar trans, múltiplo e acima de tudo livre. A própria definição de pangênero é colocada a partir de experiências muito particulares; algumas pessoas não querem se definir ou entendem que não precisam e acharam no pangênero esse lugar, outras são binarias e se identificam com ambos gêneros normativos e há ainda quem se veja de forma mais híbrida, mais cheias de possibilidades e multiplicidades mesmo, colocando seu corpo num lugar maior que só uma identidade, mas num lugar de performace, de apropriação e de empoderamento! Eu por exemplo tenho algumas identidades: trans ñ binária, homem-gay, monstra, cougar etc e etc… E amo não me entender como algo único, concreto, careta! 🙂

por Lucas

Transexual

“Homens trans”, “mulheres trans”, “pessoas trans”. Somos a primeira e a ultima palavra que dissermos. Homem cis e homem trans. Já me afetou muito. As vezes parecem coisas muito distintas, mas não sei se me impressiona. Existe “homem magro” e “homem gordo”, “homem feio” e “homem bonito”, e mesmo isso sendo estúpido, sempre chegamos ao ponto “homem”.

por Noah

Travesti

Ser uma travesti pra mim é bem mais que usar vestimentas, roupas ou maquiagem . A sensação de se sentir feminina está ligada a sua forma de ser, ver e se sentir uma mulher diariamente. Uma mulher trans que não mudou o sexo, como algumas mulheres transexuais. Ou seja, é o contrário de uma transformista que se monta para fazer uma performance. Nem todas as travestis atuam como uma profissional do sexo que usará peruca,roupas femininas por umas determinadas horas, mas no entanto não possui feminidade e muito menos se sente uma mulher.

por lauramendes

Categorias: Ámérica do Sul, Entrevista
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