Chile e Venezuela

13.06.2017 - Redação São Paulo

Chile e Venezuela

Traduzido do original  por Vinícius B.C.

Nicolás Maduro não é Salvador Allende. Nem é Hugo Chávez. A Venezuela também não é o Chile. Até aí essas informações são de tal trivialidade que não mereceriam maior atenção. No entanto, o paralelismo entre a revolução bolivariana e o governo da Unidade Popular, comandado pelo inesquecível presidente e mártir, é gigantesco. E negá-lo, ou contorná-lo é a condição necessária para se desentender e contrariar um processo político contemporâneo sem a necessidade de recriar velhos amores que permanecem vigentes.

Me proponho a expor brevemente, dentro das limitações de minha formação, algumas chaves deste paralelismo. Porém não existem processos históricos e políticos idênticos em um sentido profundo, muito menos quando se operam em sociedades e tempos distintos.

Historicamente a Venezuela tem tido uma economia baseada na extração e comercialização de suas enormes reservas de petróleo. Chile, por sua vez, fundou sua economia durante décadas na exploração de salitre, desde o declínio deste material para o salitre sintético, e antes deste viveu literalmente da extração de cobre que, até o momento de ascender Salvador Allende a presidência, significava 75% das exportações chilenas e mais de 30% do dinheiro que vinha dos impostos. Ambas as economias são economias baseadas no setor extrativista, fortemente dependentes do preço internacional de um recurso natural preponderante.

Uma primeira grande semelhança entre o governo da UP e o projeto político inicialmente liderado por Hugo Chávez foi a vontade declarada de construir um caminho para o socialismo pela via democrática em um país de terceiro mundo, recorrendo a democracia e não usando armas. Este propósito comum de resolver de modo pacífico a contradição central do capitalismo em favor dos explorados mediante a construção de um Estado socialista pela via eleitoral, porém que não se tem comprovado sua viabilidade histórica em nenhum lugar do mundo. Não há precedentes.

Não é extraordinário, então, que os dois processos políticos teriam concentrado seu modus operandi socializante na redistribuirão da renda produzida pelo seu principal ativo econômico, nem se pode surpreender com a queda – forçada!- do preço internacional do cobre entre o ano de 1971 e o ano de 1973, para o Chile, e a queda do preço do barril de petróleo a partir do ano de 2014, para a Venezuela. tiveram fortes reverberações econômicas que trouxeram devastação econômica para ambos os países.

A crise econômica do Chile de Salvador Allende foi tão grave e tão patrocinada pelos americanos como a crise venezuelana. Desde que Allende obteve a presidência do Chile, os EUA, que era governado então por Richard Nixon e com o genocida Henry Kissinger a frente do Departamento de Estado Americano, tomou a decisão de orquestrar um plano, conhecido como FUBELT, para destruir a economia chilena e produzir um golpe de Estado que acabaria com o governo marxista que consideravam como uma grave ameaça aos seus interesses.

As provas só foram conhecidas 25 anos depois, quando fora possível ter acesso aos documentos, porém era evidente para qualquer observador que não fosse politicamente ingênuo ou cúmplice. Se o primeiro ano de Allende simbolizou uma melhoria significativa da capacidade de consumo da população, o crescimento econômico, a expansão dos direitos, impulsionada por políticas públicas avançadas, os anos seguintes – condicionados por uma guerra econômica interna e externa conduzida pelos EUA e executada pelos setores mais poderosos do Chile e seus meios afins, mais a bruta – e orquestrada – queda do preço internacional do cobre atrás da nacionalização de 1971, marcaram a derrocada da economia, dois anos seguidas da queda do PIB, fez com que o salário real desmanchasse frente a uma inflação galopante, que chegou nos últimos anos do governo de Allende a mais alto do mundo, superando os 600%.

A política de controle dos preços que aplicou o governo do Chile para conter a inflação é perfeitamente comparável a lei de preços justos venezuelana, e o poder econômico respondeu com a mesma moeda – com o desabastecimento e a estocagem dos produtos. Os chilenos deviam fazer filas de quarteirões para obter produtos básicos a preços controlados, ou pagar quantias exorbitantes no O mercado negro que escapava do controle estatal. Na Venezuela o mesmo acontece. E o desabastecimento induzido, a resposta do Estado venezuelano foi a mesma que a resposta do governo da UP – Allende criou as JAP – Juntas de Abastecimiento y Control de Precios, Juntas de abastecimento e controle dos preços – E Nicolás Maduro criou os CLAP – Comité Locales de Abastecimiento y Producción, Comitê local de abastecimento e produção –  que talvez funcionem mais do que as JAP, entre os motivos porque, evidentemente, as autoridades venezuelanas analisaram aquela experiência histórica e tem feito o possível para que diferentemente das JAP chilena, o CLAP venezuelano não sejam sabotados e perseguidos.

A insatisfação popular venezuelana dos últimos anos e o chileno da época de Allende trabalhado por uma guerra econômica e com suas duras conseqüências sobre a vida cotidiana dos chilenos, também é comparável. E as eleições parlamentares de 1973, a Confederação para a Democracia (CODE, a versão chilena da atual Mesa de Unidade Democrática que agrupa a direita venezuelana) obteve 56% dos votos contra 43% que obteve a Unidade Popular de Salvador Allende, acabando com a maioria do parlamento, com resultados singularmente parecidos com a eleição para o Congresso que o chavismo perdeu em meio a uma crise idêntica, porque em 2015 a MUD venezuelana obteve 56% dos votos contra 41% do Partido Socialista da Venezuela.

O que fez Allende com um Congresso opositor? A oposição chilena agrupada na CODE queria dois terços do poder para acusar e, eventualmente destituir Allende como fizeram há pouco tempo com Dilma, e como queriam fazer com maduro. Eles não vieram por acaso. Mas controlam o congresso e a oposição chilena tentou usar utilizar a sua maioria para promover uma reforma constitucional com um projeto conhecido como Hamilton – Fuentealba que tentava interromper as políticas de estatização e socialistas de Allende. Allende vetou o projeto e por fim, foi acusado de ir contra a legalidade e passar por cima do poder legislativo. Foi acusado em termos parecidos com os quais Nicolás Maduro e o ódio político das classes médias e altas se expressou nas ruas, com protestos cada vez mais duros e também maciços, onde também houve a participação de estudantes universitários – não foram apenas os caminhoneiros – e setores sociais emergentes, entre os quais os médios e os profissionais, como médicos, advogados, dentistas e comerciantes. A Allende aqueceram as ruas e não havia 60 mortos, havia mais de 100, e o acusaram de assassinato, de tirania, de todo. Tantas mentiras, os setores ligados a burguesia e que estavam promovendo o golpe, se concentravam nas portas dos quartéis e participavam da conspiração. Sim  nestes dias o ministério público venezuelano – La Fiscalía General de Venezuela – se tem dobrado frente a oposição, também se dobrou a procuradoria geral da república no Chile quando acusaram Allende de desconhecer a constituição por vetar o projeto dos opositores de direita, que se proponha a impedir a expropriação das terras e a intervenção no comércio e a categoria dos trabalhadores do setor de transporte.

Por que muitos crêem que o Salvador Allende era um homem democrático e pacífico e seu governo um exemplo único e, ao mesmo tempo, se permitem  aborrecer o defensor dos bolivarianos? Não é uma contradicão? Por agora, a grande diferença é o resultado. Salvador Allende foi vítima de um golpe de Estado militar ao qual resistiu com a sua vida e o governo venezuelano não foi derrotado ainda, nem sequer por um golpe de estado, que tentaram. A Venezuela se defende como pode. Hugo Chavez disse – a diferença da chilena com a nossa revolução, é que a nossa não é uma revolução desarmada. Fidel se antecipou com relação a Salvador Allende em seu discurso de despedida no Estádio Nacional, depois ter percorrido o território chileno por três semanas, em dezembro de 1971. Logo de ver a experiência, única na história da construção do socialismo por via pacífica, e advertiu o povo do Chile de que a violência era inevitável, porque a direita a iria impor – volto a Cuba mais revolucionário do que vim! Regresso a Cuba mais rádical do que vim! Voltou a Cuba mais extremista do que vim!

O que está acontecendo na Venezuela não é extraordinário na história da America Latina. Nem a atitude do OEA. Nem a violência. Nem a crise. Nem os mortos. Nem a guerra econômica. Nem as mentiras dos meios de comunicação. Nem a intervenção da mão negra dos Estados Unidos. Nem o desabastecimento orquestrado. Nem a estocagem de insumos criminal. Nem as filas gigantescas. Nem a inflação astronômica. Nem o mercado negro. Nem o controle do preço. nem os CLAP. Nem as derrotas eleitorais em meio a de crises tecidas, nem a queda brusca dos preços de seu recurso econômico mais importante, nem as manifestações das classes altas e médias. Nem as acusações de inconstitucionalidade. Nem as acusações de despotismo e tirania. Porque o que está acontecendo vem organizado do mesmo lado e com o mesmo objetivo que há quarenta anos atrás. E contra os mesmos. Somente tem transformado seus métodos, porque como também disse Fidel Castro no dia em que esteve no Estádio Nacional do Chile, a direita aprende antes que o povo humilde. Mas o povo humilde também aprende. E como agora está mais difícil que apareça um Pinochet na Venezuela, então pedem a intervenção internacional. Também o Chile se antecipa a uma guerra civil. Disso que se falava em 1973. Para mim, nada é substancialmente distinto. Tão pouco são distintos os que vão abrir mão da revolução venezuelana. Nem é distinta a direita que se opõe. Que saiam de novo os cristais dos óculos de Salvador Allende.

por Leandro Grille
Caras y Caretas (Uruguay)

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No vídeo a seguir temos as últimas palavras de Salvador Allende.

Categorias: Ámérica do Sul, Opinião, Política
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