Lucía Topolansky: “O Uruguai está impedindo que o Mercosul acabe”.

29.07.2016 - Montevidéu, Uruguai - Calle2

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Lucía Topolansky: “O Uruguai está impedindo que o Mercosul acabe”.
(Crédito da Imagem: Vinícius Mendes)

Para senadora uruguaia Lucía Topolansky, mulher de Pepe Mujica, crises nos principais países do bloco atrapalham a integração latina, e a situação está ‘complexa’.

Por Vinícius Mendes para Calle2

O silêncio matutino nas plantações de hortaliças no bairro de Rincón del Cerro, nos arredores de Montevidéu (Uruguai), parece ser uma extensão clandestina do estado de espírito de dois famosos moradores da região. A pequena chácara próxima à estrada O’Higgins, nome de um dos libertadores da América, onde vivem a senadora Lucía Topolansky, 71, e seu marido, o também senador e ex-presidente Jose “Pepe” Mujica, 81, resiste como um bunker solitário da ideia de integrar todos os países da América Latina em um único bloco econômico e político.

Mujica e Lucía, no entanto, compartilham a mesma solidão que o lugar em que escolheram viver: mergulhado em uma crise política, o Mercosul corre o risco de acabar, deixando todos os seus membros novamente sozinhos.

No final deste mês, o Uruguai precisa transferir a presidência temporária do Mercosul ao governo da Venezuela, mantendo o acordo de rotação semestral de poder do bloco. A crise política e econômica venezuelana, no entanto, fez com que Brasil e Paraguai pedissem ao presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, que continuasse no comando até agosto. Em julho, o chanceler brasileiro, José Serra, chegou a viajar a Montevidéu para interpelar Vázquez pessoalmente.

O presidente da Argentina, Maurício Macri, já reiterou diversas vezes seu repúdio à forma como a Venezuela está sendo governada, e o Paraguai parece não ter superado a entrada do país caribenho no bloco durante o período em que foi suspenso, em 2012. Assim, apenas o Uruguai – que está exercendo a presidência neste momento – parece disposto a seguir a regra e entregar a presidência a Maduro, ato que pode gerar um desconforto ainda maior entre os governos.

A crise, ainda que não pareça abalar os ideais de Topolansky, preocupa até mesmo quem já chegou a entendê-la como iminente. “Temos que cuidar dele como se fosse ouro, porque é uma ferramenta de construção de futuro”, diz ela a Calle2 enquanto aquece a pequena lareira de sua biblioteca, minutos depois de se despedir de Pepe, naquele dia envolvido em reuniões políticas. Lá fora, o silêncio dos cachorros e gatos soltos pela chácara parecem completar o clima frio da capital uruguaia e da relação entre os países sul-americanos naquela manhã.

O governo uruguaio reconheceu a alguns dias que a América Latina enfrenta dificuldades no projeto de integração. A senhora e o seu marido foram, nos últimos anos, as vozes políticas mais ativas nesse sentido. Por que a nossa integração está em segundo plano hoje?

Somos daqueles que acreditam que, em algum momento, a América vai conseguir construir a Pátria Grande, porque existem mais coisas nos unindo do que separando. A nossa história gerou vários países com fronteiras arbitrárias, fruto da conquista ibérica e dos processos de independência, mas ainda estamos no mesmo barco. É por isso que apoiamos o Mercosul, a Unasul, a Celac, organismos que tendem a integrar. O Mercosul nasceu como um acordo comercial, mas acreditamos que evoluiu para uma espécie de integração também.

Acreditamos que o Mercosul pode se tornar uma região de livre-trânsito de pessoas e de mercadorias, porque o mundo hoje se movimenta em blocos. Atualmente, por uma série de razões políticas que são circunstanciais, não de perspectiva, a situação no bloco está apenas mais complexa.

Por causa da transferência da presidência temporária ao governo venezuelano?

Sim. Muitas nações estão se inserindo nesse problema ferindo a soberania e a autodeterminação do povo venezuelano, assim como a Organização dos Estados Americanos (OEA). Eles tiveram uma eleição há sete meses que foi reconhecida por todos os organismos nacionais e internacionais. O que acontece é que o novo parlamento está em uma direção diferente em relação ao Executivo, o que faz com que qualquer país trave. É o que está acontecendo também na Argentina e no Brasil. Essas são algumas das debilidades da democracia que esperamos um dia solucionar.

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Categorias: Ámérica do Sul, Entrevista, Política
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