Humanismo na empresa privada

16.04.2013 - Pía Figueroa

This post is also available in: Inglês, Espanhol, Francês, Italiano

Humanismo na empresa privada
(Crédito da Imagem: Foto: Iluminación LED Alfacom)

Entrevista a Roberto Blueh e Juan Aviñó

Tivemos oportunidade de conversar com os gerentes de uma empresa privada que tenta implementar um novo modelo nas relações entre capital e trabalho, assim como na gestão do seu negócio. Inspirados pelo Documento Humanista, estes dois chilenos levam vinte anos tentando por em prática a sua visão duma empresa que, enquanto se desenvolve e cresce alcançando os padrões mais positivos que lhe outorgam a maior competitividade no mercado nacional, não se endivida com bancos, reinveste suas utilidades no desenvolvimento da própria empresa, prioriza o melhor tratamento possível tanto ao pessoal interno quanto aos provedores e aos clientes, na permanente busca de um melhoramento coerente com seus princípios.

Roberto Blueh e Juan Aviñó criaram Alfacom Engenharia há vinte anos, procurando formar uma empresa que propiciasse a participação dos trabalhadores na tomada de decisões da empresa, baseada num trato amável que promova a criatividade das pessoas. Não queriam uma empresa autoritária, mas uma onde o pessoal se sentisse bem, que fizesse impecavelmente seu trabalho e estivesse contente, que pudesse se sentir à vontade durante as horas laborais.

 

PF: Em geral nas empresas são priorizadas as utilidades. São outras instituições as que se formam para melhorar o modo de viver das pessoas: as ONGs, as instituições de caridade, as igrejas, os clubes…

JA: “Nunca deixamos de ter interesse em que a empresa gere suas utilidades. Mas, quando o pessoal participa nas decisões da empresa, o conjunto se torna mais inteligente. A empresa se desenvolve melhor e a gente se sente melhor. Quando se é capaz de canalizar as ideias e os projetos dos empregados para melhorar a empresa, tudo avança. Temos fé nas pessoas, nos times humanos, na inteligência que as pessoas tem.

Mas acontece que, na maioria das empresas, cada trabalhador tem que realizar uma mesma coisas, ou uma série de funções que no final são as mesmas. Rotiniza-se o trabalho em prol da eficácia e com isso rotiniza-se a vida, a gente perde a capacidade de inovar, perde capacidade criativa, perde inteligência e tudo vai se mecanizando. Ninguém sente que se desenvolve, a menos que mude de função e vai se produzindo a rotação de pessoal nas empresas.

Nós levamos muitos anos trabalhando com as mesmas pessoas, mas procurando que cada um se desenvolva ao máximo e seja cada vez mais inteligente. Cada um pode ir desenvolvendo todas suas potencialidades e assim vão se cometendo menos erros. Porque a quantidade de erros que podem cometer os gerentes ao ter uma enorme quantidade de coisas que resolver, centralizadamente, são muito grandes. Nós descentralizamos o poder de decisão e, como empresa, erramos menos. Além do mais, em geral, os gerentes manejam muitos recursos. Se estes recursos se descentralizam e cada qual tem efetivamente poder de decisão a respeito duma parte dos recursos, as possibilidades de erro diminuem enquanto se ampliam as possibilidades de se ir melhorando.”

 

PF: Quer dizer, esta é uma empresa na qual o poder de decisão está descentralizado?

JA: “Muito descentralizado. Isto se percebe especialmente quando há momentos de crise, nos quais todo o conjunto humano vai dando resposta, ainda que se mantenha uma capacidade de gestão na gerência, sobretudo para temas mais estratégicos ou mudanças de direção. Mas, a margem disso, grande parte das resoluções vão se tomando pelos diferentes cargos, assumindo cada um a responsabilidade que lhe compete, de modo descentralizado e autônomo.”

 

PF: Como é a relação da empresa com o capital e, em particular, com os bancos?

RB: “Nós temos trabalhado durante vinte anos estando tranquilos, sem dívidas, com segurança laboral, estabilidade laboral para os trabalhadores e uma quantidade de horas de trabalho que são – no máximo – as horas legais exigidas. Não se abusa do empregado, se trata que cada um trabalhe o menos possível, não que tenha que passar horas extras na empresa. Procuramos que se trabalhe de forma autônoma e sem pressão. Sem chantagem, temor ou tensão.

Quanto à relação com os bancos, não temos dívida nenhuma, nem empréstimos. Porque quando queres que um banco te empreste dinheiro para injetá-lo na empresa, estás indo mais rápido do que és capaz de gerar, porque não tens conseguido gerar esses recursos com a tua empresa. Então colocas a tua empresa em uma situação forçada. Nós preferimos gerar o nosso próprio capital por crescimento e ir reinvestindo as utilidades no crescimento da empresa. Não especulamos com as nossas utilidades, as reinvestimos.

Também o endividamento com os bancos gera uma dependência que, em qualquer momento de crise, resulta nefasta para a empresa. Agindo como fazemos pode ser muito mais devagar, demora vinte anos em lugar de cinco, quiçá. Mas se você aponta a crescer velozmente em base a dívidas, vives na intranquilidade, tanto para o trabalho como para o capital. Por isso temos optado pelo lento mas seguro, não nos endividar mas nos fortalecer em base ao que geramos nós mesmos, sem ir por atalhos. Nós temos crescido graças à poupança.”

 

PF: O que fazem com a poupança?

RB: “Ano a ano vamos reinvestindo. Compramos todas as propriedades onde está instalada Alfacom, o inventário que temos é próprio, reinvestimos a poupança em equipamentos, em capacitação, no desenvolvimento pessoal dos trabalhadores: aulas de inglês, viagens ao exterior para ampliar a própria experiência, visitas à Feiras, capacitação tecnológica. Também nos certificamos em diversos aspectos. Preferimos diversificar dentro da empresa, que especular com o capital poupado.”

 

JA: “Vamos nos diversificando em quanto aos serviços e aos produtos que oferecemos, também atendendo aos requerimentos que o mercado vai sinalizando. Essas novas necessidades são detectadas pelos vendedores, pelo pessoal; não surgem desde a gerência, mas de requerimentos concretos aos que atendemos e nisso vamos reinvestindo.”

 

PF: A empresa tem vinte anos, começou com vocês dois. Atualmente quantas pessoas formam parte de Alfacom?

JA: “Cinquenta pessoas.”

 

PF: Com quanto capital começaram?

RB: “Com o capital necessário para comprar dois computadores… hoje seriam dois mil dólares.”

 

PF: Atualmente, quanto capital tem?

RB: “Ao redor de dois milhões de dólares.”

 

PF: Quer dizer que em vinte anos conseguiram dar trabalho a cinquenta pessoas e produzir esse capital de dois milhões de dólares, vivendo tranquilos e com um estilo de trabalho que procura o desenvolvimento mais pleno de cada uma das pessoas.

RB: “Nossa intenção é que o pessoal tenha estabilidade laboral. Aspiramos que os que são contratados por Alfacom fiquem na empresa a maior quantidade de tempo possível e por isso também os salários da nossa empresa são superiores aos do mercado. A cultura da nossa empresa é o apoio recíproco, compartilhamos conhecimentos, ajudamo-nos reciprocamente. Sendo que aspiramos a transcorrer o maior tempo possível com os mesmos empregados, o trato é muito importante, o trato cálido, a compreensão das dificuldades de cada um e apostar que pode ir sendo superadas. A solidariedade, a reciprocidade, o desenvolvimento da inteligência como forma de resolver os problemas.”

“O valor central desta empresa é uma construção muito querida, que se move por intenções humanas sem por o dinheiro como o primário, mas o aprendizado, os projetos que somos capazes de empreender, os novos produtos e serviços que podemos desenvolver. A empresa é uma construção.”

 

JA: “Começamos com um cliente e hoje temos mil. Muitos de nosso clientes tem se fidelizado, tem clientes que estão há uns 15 anos ou mais conosco e não é só porque oferecemos um serviço impecável, não é unicamente pelos produtos, mas fundamentalmente pelo trato que damos. Os provedores nossos também tem longa permanência no tempo, pagamos-lhes o mais cedo possível, os atendemos o melhor que podemos. Assim como mais da metade dos empregados da Alfacom tem mais de cinco anos na empresa.”

 

PF: Como definiriam a cultura e os valores da Alfacom?

RB: “Vemos a empresa como um processo, no qual o trabalhador e o cliente também se sentem cada vez melhor; é uma empresa solidária que aponta ao desenvolvimento conjunto do trabalho e do capital, compartilhando a gestão, assegurando a continuidade e a estabilidade do trabalho e nos desenvolvendo como empresa, reinvestindo as utilidades no próprio crescimento, nos antecipado para aumentar os salários antes que ninguém os solicite, procurando que todos estejamos melhor.

Como base está o respeito real pela outra pessoa. Valorizamos muito a diversidade, as diferentes funções são todas chave, entre todas se constrói a empresa e portanto o trato tremendamente respeitoso é muito importante. Nesse bom trato ficam, também, incluídos os familiares dos empregados, vai se formando um mundo de vínculos entre as pessoas.”

Categorias: Ámérica do Sul, Economia, Entrevista

Boletim diário

Indique o seu e-mail para subscrever o nosso serviço diário de notícias.


Documentário 'RBUI, o nosso direito de viver'

O Princípio do fim das armas nucleares

2a Marcha Mundial da Paz e da Não-violência

Milagro Sala

Canale youtube

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

Arquivo

Except where otherwise note, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license.