Entrevista com Tim Wright, da Campanha internacional para abolição das armas nucleares

16.04.2013 - Tony Robinson

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Entrevista com Tim Wright, da Campanha internacional para abolição das armas nucleares

Pressenza aproveitou a oportunidade no último dia do fórum da sociedade civil sobre as consequências humanitárias das armas nucleares para entrevistar Tim Wright, 27, de Melbourne, Austrália, porta-voz da ICAN (campanha internacional para a abolição das armas nucleares) que organizou o evento em Oslo.

 

PRESSENZA: Qual a ideia por trás da conferência e como foi que surgiu a ideia de fazê-la? Como chegamos até aqui?

Tim Wright: A oportunidade de realizar a conferência surgiu quando o governo norueguês decidiu reunir outros governos para discutir os efeitos das armas nucleares, então sentimos que precisávamos de uma presença forte da sociedade civil naquele encontro governamental, e também reunir pessoas de antemão para aliar nossas estratégias e construir o impulso para um veto às armas nucleares, conectando a abordagem das consequências humanitárias catastróficas com a de proibir as armas nucleares. Sentimos que, a não ser que os governos possam ver que há um apoio popular forte e claro para a negociação de um veto, é pouco provável que eles busquem isso. Então reunir 500 pessoas de 70 países foi uma conquista que na minha opinião irá aumentar as expectativas para os próximos dias.

 

PR: Você sabe se muitos dos participantes da conferência intergovernamental têm prestado atenção ao que está acontecendo aqui?

TW: Um certo número de delegados governamentais veio até aqui, e o feedback que recebemos é que eles ficam quase surpresos com o nível de entusiasmo. Tem ficado bem claro, depois de ontem, que a sociedade civil quer um veto, e queremos isso o mais cedo possível; que não estamos felizes com a situação atual; que não vemos muita esperança nos fóruns tradicionais e no Tratado de Não-Proliferação e que sentimos que é necessária uma nova abordagem; que a ênfase na dimensão humanitária do problema é uma forma realmente importante de reformular o debate e exigir ações.

 

PR: Se há alguma coisa que é possível elencar em tudo isso, o que você gostaria de alcançar? O que gostaria de olhar para trás e dizer: “nós fizemos isso”?

TW: Eu acho que o mais importante para o fórum da sociedade civil é que as pessoas voltem para casa sentindo-se energizadas, inspiradas, e façam de tudo que está em seu poder para construir coalizões nacionais de organizações, aumentar a conscientização pública para os efeitos das armas nucleares e realmente construir o momentum em seu país para um veto às armas nucleares, porque precisamos de todo mundo ao redor do planeta fazendo a sua parte para construir uma massa crítica de governos que possam fazer isso acontecer, e todo governo nesse processo é importante. Não estamos falando de um processo que envolve apenas os países detentores de armas nucleares, estamos falando do processo que é guiado por toda a comunidade internacional.Espero que as pessoas não sintam que participar dessa conferência é a sua contribuição; participar dessa conferência é apenas o começo do que precisa ser feito.

 

PR: Falando da ICAN, a campanha opera em quantos países?

TW: Em torno de 70. Em alguns países temos times de campanha bem estabelecidos. Temos equipes remuneradas em mais ou menos uma dúzia de países e em outros lugares temos defensores da campanha que são ou voluntários ou empregados por nossas organizações parceiras para trabalhar na ICAN. Portanto, há muita diferença de país para país, mas a nossa ênfase, na nossa campanha, é que cada país importa. Trata-se de construir uma campanha global e de fato alguns dos países mais importantes nesse processo provavelmente serão Estados não-nucleares.

 

PR: A ICAN também está se desenvolvendo do Oriente Médio. O site de vocês também está em árabe, eu acho.

TW: Sim, e eles tem obtido um sucesso incrível em aumentar a consciência no mundo árabe e conseguiram um número significativo de “curtir” em sua página do Facebook, mais do que na página em inglês! Lá realmente tem um time dinâmico de defensores. Temos um defensor maravilhoso em Israel que tem feito muito para aumentar a conscientização sobre o programa de armamento nuclear de lá, mas também para realmente pressionar o governo israelense para não se envolver em nenhuma ação militar contra o programa nuclear do Irã, o que é obviamente algo que todos estamos preocupados em garantir que não aconteça.

 

PR: Caso as pessoas de deparem com a ICAN na Internet e não a encontrem em seu país, como podem se conectar a essa rede?

TW: Isso depende de quanto tempo eles podem dedicar à campanha, mas sempre há coisas que se pode fazer. Temos uma semana global de ação programada para julho deste ano, então apenas reunir algumas pessoas para uma ação nas ruas já é uma contribuição que as pessoas podem fazer e que podemos publicar no nosso site, e quando você pode ver que pessoas em diversos países estão fazendo alguma coisa, mesmo que pequena, isso inspira; tem um efeito que flui ao redor do mundo. Portanto, ninguém deve sentir que sua contribuição não é significante o suficiente para para ganhar divulgação e ser valiosa. Acho que todos temos que pensar em quem podemos influenciar. Sejam nossos familiares, nossos amigos, na universidade ou no trabalho, e encontrar maneiras de passar a mensagem da ICAN por essas vias.

 

PR: O que vem depois dessa conferência? Você mencionou a semana de ação em julho. Quais são os marcos que vocês tem para o próximo ano?

TW: Bem, em alguma medida isso depende do que acontecer nos próximos dois dias. Não sabemos se haverá uma conferência de acompanhamento a ser anunciada, mas certamente, se isso acontecer, irá ajudar a moldar o que será feito durante o próximo ano, porque sentimos que essa abordagem humanitária é a que tem mais chance de alcançar resultados. Então é nisso que vamos focar nossas energias. Vamos continuar a nos engajar até certo ponto com o processo do TNP também, porque sentimos que precisamos espalhar naquele fórum a mensagem de que um veto às armas nucleares é necessário, mas estamos torcendo para trazê-la em parte para fora de lá e colocar nosso foco em outro lugar, então as coisas ainda estão um pouco no ar, mas espero que tenhamos uma imagem mais clara em alguns dias.

 

PR: No que diz respeito à conferência que acontecerá na segunda e na terça-feira, você irá participar? E quais são suas expectativas para essa conferência? Qual pode ser o resultado? Podemos passar imediatamente a negociar um tratado?

TW: Sim, eu participarei. Esperamos que seja uma discussão séria baseada em evidências das consequências humanitárias catastróficas das armas nucleares e da incapacidade de fornecer qualquer resposta humanitária adequada no caso de um ataque nuclear, e que essa discussão forneça uma base racional clara e convincente para iniciar as negociações a respeito de um veto. Esperamos que isso dê aos governos o incentivo para começar as negociações por um veto às armas nucleares; que eles possam ver que não há apenas a necessidade humanitária de banir as armas nucleares, mas também o forte apoio da sociedade civil e de outros governos para perseguir esse objetivo. Então tudo isso é muito sobre a evidência, mas também sobre construir o apoio entre os governos.

 

PR: Vocês estão preocupados com a falta de participação do P5 nessa fase?

TW: Nós encorajamos todos os governos a participar, e os defensores da nossa campanha nos países do P5 puseram bastante pressão em seus governos, então é um tanto decepcionante que eles não participem. Mas não devemos ver isso de maneira nenhuma como uma diminuição da importância da conferência, e de fato eu acredito que a falta deles enfatiza o quanto essa conferência é importante. Se eles a achassem sem importância, provavelmente estariam lá.

 

PR: Apenas para terminar, qual tem sido sua inspiração? O que te levou pessoalmente à abolição nuclear? Como você, Tim, chegou até aqui?

TW: Aprendi sobre os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki quando eu era bem jovem, com uns 7 ou 8 anos na escola primária. Aprendemos japonês básico. Na Austrália, era bem comum que as línguas asiáticas fossem ensinadas na escola. Então isso fez parte da minha educação primária, e eu me lembro de ter ficado bem horrorizado com o sofrimento que foi causado às pessoas dessas cidades, e mandávamos 1000 grous de papel todo ano para Hiroshima, portanto isso foi acho que o meu primeiro ativismo, ao refletir. Eu tenho me interessado realmente por questões sobre paz e desarmamento desde então, e principalmente quando entrei na universidade e me tornei muito mais ativamente envolvido, ajudando a iniciar a ICAN em 2006. Então, para mim tem sido bastante recompensador ver como a campanha deslanchou ao redor do mundo e nos últimos dois dias, ver que há muito momentum para essa ideia de um veto, e acho que estamos fazendo progresso real, e estou encorajado por outros defensores que tem feito coisas maravilhosas. Martin Sheen é uma pessoa muito inspiradora também, que está engajada em muito ativismo e acho que, como ele disse à noite passada, quando ouvimos o que os outros estão fazendo não é difícil achar inspiração. Há muitas pessoas fazendo coisas incríveis.

Tradução de Thayná Moreira

Categorias: Entrevista, Paz e Desarmamento

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