Bravatas nucleares no Nordeste da Ásia: será possível domar o Godzilla?

19.03.2013 - Alyn Ware

This post is also available in: Inglês, Francês

Bravatas nucleares no Nordeste da Ásia: será possível domar o Godzilla?
(Crédito da Imagem: Godzilla by Ron Guyatt)

Godzilla, um monstro gigante que sofreu mutação por causa da radiação nuclear, apareceu pela primeira vez em um filme japonês homônimo de 1954, devastando o Japão num alerta simbólico para os riscos das armas nucleares. Por duas décadas, Godzilla foi bastante popular, aparecendo em mais de 28 filmes e em muitos videogames, romances, quadrinhos e uma série de televisão. Depois, com um arrefecimento leve se desenvolvendo na região, Godzilla afundou sob as ondas do Oceano Pacífico.

Nos últimos dias, Godzilla ergueu sua cabeça novamente – ameaçando uma conflagração nuclear. As tensões no Nordeste da Ásia subiram até um ponto de quase ebulição. A Coreia do Norte testou outra arma nuclear e também um míssil balístico que poderia ser usado para lançar tal arma. A Coreia do Norte também ameaçou um ataque preventivo aos Estados Unidos e anulou o armistício que colocava um fim temporário à Guerra da Coreia dos anos 1950.

Em resposta, as Nações Unidas aumentaram as sanções contra a Coreia do Norte. A Coreia do Sul, o Japão e os Estados Unidos iniciaram exercícios militares para praticar um ataque contra a Coreia do Norte. No último movimento olho-por-olho, a Coreia do Norte cortou a comunicação do telefone de emergência entre as duas Coreias, inserindo a península em uma crise que lembrava a Crise dos Mísseis em Cuba, de 1962, que quase terminou em uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Então será que um jogo de diplomacia arriscada irá forçar a Coreia do Norte a recuar? Ou será que irá levá-la a uma ação ainda mais bélica que conduzirá a um confronto militar? Haverá formas melhores de dispersar a situação e atingir uma paz mais segura e sustentável com a Coreia do Norte? A fim de responder a essas questões, deve-se olhar para além da retórica do regime autocrático norte-coreano – que, como um pavão orgulhoso, se exibe mais procurando impressionar do que revelar a realidade – para as razões fundamentais por trás de suas ações.

Pela perspectiva da Coreia do Norte, a dissuasão nuclear se tornou uma resposta lógica à sua posição de país isolado cercado por forças inimigas, e ameaçado em particular pelo poderio militar combinado do Japão, da Coreia do Sul e dos Estados Unidos. Isso inclui ameaças veladas de “mudança de regime” e a possibilidade de um ataque nuclear que parta primeiro desses países.

A anulação do armistício pela Coreia do Norte foi divulgada como um ato de ameaça. Porém, ela surgiu da frustração norte-coreana com o fato de que os EUA, o Japão e a Coreia do Sul rejeitaram repetidamente seus pedidos por um acordo de paz que terminasse oficialmente com a Guerra da Coreia de 1950-53.

A decisão da Coreia do Norte de se retirar do Tratado de Não Proliferação (TNP) e adquirir força de dissuasão nuclear não foi feita sem motivo. Na verdade, foi tomada depois da invasão ao Iraque comandada pelos EUA. A Coréia do Norte concluiu que foi a eliminação das armas de destruição em massa do Iraque que removeu sua dissuasão, permitindo assim uma invasão norte-americana. A Coreia do Norte anunciou que eles então precisavam desenvolver sua própria dissuasão nuclear para prevenir uma invasão similar dos Estados Unidos.

Nesse contexto, encurralar a Coreia do Norte irá apenas levá-la a ainda mais ações para que demonstre sua capacidade de prevenir um ataque contra seu Estado. A última ameaça de ataque preventivo contra os Estados Unidos provém diretamente da doutrina militar dos EUA de lançar ataques preventivos contra países que podem insurgir como ameaças.

É claro que nada disso justifica o comportamento bélico da Coreia do Norte. A Coreia do Norte não está “certa” no que faz, mas também não está certa a hipocrisia do Conselho de Segurança da ONU em impor sanções aos desenvolvimentos iranianos e norte-coreanos enquanto ignora os programas nucleares plenamente desenvolvidos de seus cinco membros permanentes (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) e faz vista relativamente grossa aos programas de armamento nuclear dos Estados que não são membros do TNP (Índia, Israel e Paquistão).

A resposta para lidar com a Coreia do Norte não é aceitar suas bravatas, mas entendê-las, e encontrar uma abordagem que se direcione às suas preocupações relativas à segurança e ao mesmo tempo às dos países ameaçados por ela.

Tal abordagem foi proposta por um grupo transpartidário de parlamentares do Japão e da Coreia do Sul. Eles pedem pelo estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Nordeste da Ásia – similar a outras zonas que cobrem a Antártica, a América Latina e o Caribe, o Sul do Pacífico, o Sudeste da Ásia, a Ásia Central e a África.

Um projeto de tratado divulgado por Katsuya Okada (ex-Ministro das Relações Exteriores do Japão) propõe que a Coreia do Norte desista de suas armas nucleares e se submeta à verificação, mas não unilateralmente. Sob o tratado, os outros cinco países: Coreia do Sul, Japão, Rússia, China e Estados Unidos, também teriam que diminuir o papel das armas nucleares em suas doutrinas de segurança. Especificamente,

· O Japão e a Coreia do Sul se comprometeriam a não permitir armas nucleares em seus territórios e a não ameaçar a Coreia do Norte com o uso de armas nucleares pelos Estados Unidos em suas “defesas”;

· Os EUA, a China e a Rússia se comprometeriam a não posicionar armas nucleares nos territórios do Japão, Coreia do Sul ou Coreia do Norte;

· Os EUA, a China e a Rússia também se comprometeriam a não usar ou ameaçar usar armas nucleares contra o Japão, a Coreia do Sul ou a Coreia do Norte.

Essa proposta cria uma abordagem em que todos ganham, o que fortalece a segurança de todos os Estados da região. A Coreia do Norte receberia garantias vinculativas, particularmente por parte dos EUA, de que armas nucleares não seriam usadas contra eles. O Japão e a Coreia do Sul receberiam também garantias vinculativas, particularmente da China e da Rússia, de que armas nucleares não seriam usadas contra eles. A proposta fornece a abordagem mais realista para persuadir a Coreia do Norte a desistir de suas armas nucleares e recuar do jogo de diplomacia arriscada que está fazendo.

Zonas livres de armas nucleares tem obtido sucesso em eliminar a ameaça nuclear em um grande número de regiões. Uma ZLAN no Nordeste da Ásia oferece a melhor possibilidade para dominar Godzilla e passar para uma paz sustentável no Nordeste da Ásia.

Traduzido por Thayná Moreira

Categorias: Asia, Assuntos internacionais, Internacional, Opinião, Paz e Desarmamento
Tags:

Boletim diário

Indique o seu e-mail para subscrever o nosso serviço diário de notícias.


2a Marcha Mundial da Paz e da Não-violência

Milagro Sala

Canale youtube

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

Arquivo

Except where otherwise note, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license.