Todos pagamos o déficit das armas

01.01.2009 - Buenos Aires - Iván Novotny

A crise econômica global que dá as boas-vindas a 2009 se encontra intimamente ligada ao desenvolvimento do armamentismo, pelo menos isso é o que explica o economista Guillermo Sullings: “o mundo inteiro paga o déficit dos Estados Unidos, que destinam fundos para comprar as armas com as quais ameaça esse mesmo mundo que o financia, para que não passe pela cabeça deixar de fazer isso.” Diante desse cenário, Sullings apresenta um dado surpreendente: se fossem destinados 10 % do investido em armamentos hoje, seria resolvido o problema da fome no mundo. “Imaginem o que se poderia fazer com o restante” completa o economista, representante do Novo Humanismo na Argentina e presidente da Fundação Mundo Sem Guerras nesse país, a qual se dedica a organizar uma multitudinária Marcha Mundial pela Paz e pela Não-Violência neste ano que está começando.

Sullings vaticina para 2009 que a crise golpeará mais fortemente os países centrais como Estados Unidos e os integrantes da União Européia, ainda que se os governos latino-americanos não tomarem as medidas necessárias, os efeitos colaterais impactarão em cheio as economias nacionais. Igualmente, todos terão que fortalecer os vínculos solidários e de reciprocidade, não apenas entre Estados pertencentes a uma mesma região, mas também entre a população, para que desse modo a crise não afete ainda mais a situação.

**Quem são os principais responsáveis pela crise econômica mundial?**

Os maiores “piratas” são os especuladores do mercado financeiro, que agora apostaram no mercado hipotecário, mas também fizeram com as commoditties, com a bolsa e vão gerando bolhas por todos os lados, para inflar ativos, com o obejtivo de obter créditos ou dividir lucros fictícios e continuar com esse carrossel financeiro até que exploda a bolha. Mas a questão é que são os governos que lhes outorgaram “patente de corsário” a estes depredadores, e isto é grave, porque ao invés de proteger os interesses da população, protegem os interesses dos especuladores. E os governos dos Estados Unidos e do denominado “Primeiro Mundo” são os principais responsáveis por deixar a especulação atuar livremente. E o governo dos Estados Unidos muito mais, porque é o principal responsável, já que ao contar com a máquina de imprimir divisas, fará que todo o mundo pague seus planos de salvamento dos bancos privados, como já vem pagando o alto déficit fiscal.

**Que papel desempenha a indústria armamentista nesta conjuntura?**

Claro que o déficit aumenta a medida que os Estados Unidos mais investem em armamentos. A indústria armamentista, além de pressionar para que os conflictos armados nunca terminem e continuem aumentando – porque esse é seu negócio – também são funcionais para a estratégia de dominação dos Estados Unidos, que é o principal consumidor dessa indústria, para poder seguir ameaçando a todo aquele que se oponha. Ou seja que definitivamente, o mundo inteiro paga o déficit dos Estados Unidos, que é usado para financiar a comprar de armas com as quais ameaça a esse mesmo mundo que o financia, para que não passe pela cabeça deixar de fazer isso.

**É possível que continue em 2009 o fervor bélico e nuclear potencializado pelos poderes econômicos?**

Estamos em um sistema perverso no qual o Primeiro Mundo, e em particular os Estados Unidos pressionam com todos os meios ao resto dos países para continuar ditando as regras do jogo globalmente de forma que os favoreçam. E uma forma de pressionar é através dos poder militar. A atual crise econômica, assim como ocorreu com a de 1929, ao debilitar a economia do Primeiro Mundo, gerará revoltas e agudizará conflitos já existentes. Claro que o fator econômico não é o único determinante; há muitos conflitos nos quais se mistura o racismo, a intolerância, as ânsias pelo poder, e também o dinheiro. Mas no meio de uma crise como a atua, tudo pode se alterar mais, e com a proliferação nuclear que hoje existe, não é de se descartar que alguém apele a essas mortíferas armas como último recurso. O mundo está cheio de loucos, alguns são chamados de terroristas, e outros são chamados governantes.

**Quais medidas econômicas tomaria para que a economía possa favorecer a Paz no mundo?**

Seria muito demorado aqui explicar os tópicos de uma “Economia Mixta”, que proponho como humanista, como alternativa ao capitalismo e ao comunismo que demonstraram seu fracasso. Um de seus paradigmas é tornar realidade o velho sonho de iguais oportunidades para todos os habitantes de um país e para todos os países do mundo. Mas se me perguntam que medida concreta imediata tomaria para que a economia contribua para a paz, muito fácil: começar a destinar o orçamento que hoje se destina aos armamentos, para resolver os problemas de desenvolvimento dos países menos favorecidos. Se levarmos em conta que apenas com 10 % desse orçamento seria possível resolver o problema da fome no mundo, imagine o que se poderia fazer com o resto. Esta medida pacificaria ao mundo duplamente, primero porque teria menor capacidade destrutiva, e segundo, teriam menos conflitos que geram guerras. Podem dizer que não é fácil que as potências militares façam isto. Bom, pode ser que não queiram, mas que é possível, isso sim.

“Se levarmos em conta que apenas com 10 % do orçamento gasto com armas seria possível resolver o problema da foem no mundo, imagine o que se poderia fazer com o resto.”

**Acredita que é possível repetir a conduta suicida dos países centrais na década de ’30, que desembocou na Segunda Guerra Mundial?**

Eu gostaria de pensar que depois de duas guerras mundiais, o mundo deveria estar um pouco mais cauto, sobretudo com a existência de armas nucleares. Eu tenderia a acreditar que os atuais governantes são um pouco mais civilizados que os dos anos 30, sobretudo agora que Bush está se retirando, mas nunca se sabe o que pode passar aos povos e aos governantes se a crise se torna mais aguda. As pessoas “educadas” às vezes se tornam mais racistas, mais intolerantes, mais violentas, e nos dá surpresas ingratas. Esperemos que não tenham essa conduta suicida, mas se pudermos fazer algo para impedir, muito melhor.

**Diante do cenário de Crise Econômica Mundial, que desenlace pode prever para 2009?**

Ninguém sabe bem o que vai acontecer, e até que não se chegue ao fundo do poço, não se sabe ao certo que outra parte do teto vai cair por cima deles. Se a isso agregamos que o capital especulativo está novamente apostando em manipular o valor das commoditties (agora para baixa, para em seguida, comprar barato), portanto não se sabe qual será o valor real do petróleo, do trigo, do cobre, por isso a incerteza vai aumentando. O único seguro é que essa enorme massa de dinheiro que evaporou das mãos dos poupadores e foi para as mãos dos especuladores, continuará gerando uma retração do crédito e do consumo, e portanto uma formidável recessão.

“Às vezes pode parecer para alguns países que há que se apoiar entre vizinhos quando a época é ruim. Então, há males que vêm para o bem. Mas é melhor que a crise dure pouco e que também nos integremos.”

**Acredita que a crise econômica global pode ajudar na direção de criar uma nova ordem econômica, em alternativa ao capitalismo financeiro?**

É uma boa oportunidade para que o sistema financeiro passe em sua totalidade à esfera do Estado, já que não se pude continuar permitindo que a circulação do dinheiro, indispensável para que se movimente a economia produtiva, esteja nas mãos dos irresponsáveis especuladores. Isto significa, criar um sistema bancário estatal sem fins lucrativos, que substitua em boa parte ao sistema privado, e através disso garanta que não falte fluxo financeiro para o investimento no sistema produtivo e para o consumo racional. Enquanto hoje os instrumentos financeiros são usados para a especulação e a usura. E se além disso as pessoas compreendessem, que este fenômeno do sistema financeiro especulativo que tantos danos causou, não vem de Júpiter, mas que é um filho mimado do capitalismo liberal, então talvez os povos se animem a exigir dos governos ir ainda mais longe com as reformas, e mudar o sistema capitalista atual, por uma Economia Mixta.

**Caso a crise se prolongue por muitos anos, considera que será afetado o incipiente processo de união e integração latino-americana?**

Em qualquer cenário que nos deparemos com esta crise, sempre será melhor estar cada vez mais integrados. Por bem ou por mal. Às vezes pode parecer para alguns países que há que se apoiar entre vizinhos quando a época é ruim. Então, há males que vêm para o bem. Mas é melhor que a crise dure pouco e que também nos integremos. Em todo caso o que sim é seguro, que se a crise é duradoura e não nos integramos, passaremos muito mal.

**O que acredita que poderiam fazer as pessoas comuns, o comerciante, o trabalhador, o estudante, o desempregado para dar uma resposta a sua situação sócio-econômica?**

Temos que aprender com os latino-americanos. Quando têm que se ajustar, mais do que nunca são importantes as redes familiares e sociais, compartilhar as casas, ajudar-se, associar-se. Isso não costuma acontecer no Primeiro Mundo, onde os vínculos estão muito cortados, e quem perde seu trabalho fica literalmente na rua; por isso a paranóia diante de uma recessão é muito maior e as pessoas enlouquecem e fazem coisas estranhas. Isso para se adequar, mas também há coisas que podem ser feitas para que o impacto da crise não se sinta tanto, e para sair quanto antes dela. Nesse sentido, os povos têm que pressionar aos governos para que implementem políticas ativas na economia. E mais do que nunca agora é importante a justa distribuição da riqueza, para evitar que os pobres caiam mais para baixo, e para reativar o consumo e a produção. Claro que esta é uma decisão governamental, mas as pessoas comuns devem pressionar para que seja implementada

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