O Grande Divórcio do Século

19.02.2021 - EUA - David Andersson

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O Grande Divórcio do Século
Foto publicitária de Charlie Chaplin para o filme Tempos Modernos (1936) (Imagem: United Artists /CC)

A pandemia da COVID tem empurrado o estreito relacionamento entre trabalho e dinheiro a um amargo divórcio.

Milhões de pessoas perderam o dinheiro e o trabalho, algumas os conservaram e outras conseguiram ainda mais dinheiro, sem fazer muito esforço. Essa situação não começou com a pandemia, mas se tornou mais “escancarada” e gerou um desastre social com horas nas filas de distribuição de alimentos. 

Apenas nos Estados Unidos (EUA), 20 milhões de pessoas perderam seus empregos praticamente da noite para o dia. Se você trabalhava em um restaurante, uma instituição cultural, um clube ou no teatro, então ficou sem sorte, sem trabalho e sem renda. Entretanto, se você tinha um emprego que permitisse o trabalho remoto, era só seguir trabalhando que o dinheiro continuava chegando. Como se viu, muitas pessoas cujos empregos pagavam salários mais baixos perderam seus trabalhos, enquanto a maioria que ganhava salários mais altos os conservou e, em alguns casos, inclusive observou seu patrimônio aumentar durante a pandemia. Onde está a justiça nessa história? Nenhuma sociedade moderna deveria se desenvolver com esse tipo de estrutura. 

Além do mais, ainda temos um sistema absurdo no qual o seguro de saúde da maioria das pessoas está vinculado ao trabalho. Então, no meio de uma das piores crises de saúde do século, muitas das 20 milhões de pessoas que perderam seu trabalho também perderam o acesso à assistência médica.

Durante séculos, tem se reconhecido o trabalho como o principal distribuidor de riqueza, seja como compensação por tempo trabalhado ou através do pagamento por objetos produzidos. Contudo, está claro, atualmente, que o trabalho não possui o poder nem a capacidade de redistribuir realmente a crescente concentração de capital. A renda familiar só aumentou de forma muito modesta neste século e sua riqueza não retornou aos níveis pré-recessão. A desigualdade econômica, seja ela medida pelas brechas na renda ou na riqueza entre as famílias mais ricas e as mais pobres, continua a aumentar e está previsto que a economia pós-pandemia só irá exacerbar essa tendência (que está sendo descrita como em forma de K – a metade superior continuará aumentando enquanto a metade inferior tenderá a uma redução). Nas últimas décadas, o aumento da renda tem se direcionado regularmente para as famílias de maior renda: segundo a organização Oxfam, cerca de 82% da renda gerada em 2017 foi para a fatia 1% mais rica da população global; já a metade mais pobre não percebeu nenhum aumento. Aqui, nos EUA, a classe média, que já chegou a representar a grande maioria da população, está encolhendo rapidamente. 

Segundo nos dizem, a solução para esse problema é investir mais. Porém, durante a crise de 2008, milhões de pessoas que tinham trabalhado duro por décadas viram suas pensões e planos de aposentadoria desaparecerem de repente no mercado de ações. O trabalho havia sido feito, mas o dinheiro havia desaparecido.

Ainda assim, escute a qualquer político comum, seja do partido Democrata, Republicano ou até mesmo um independente e você perceberá o mantra “empregos, empregos, empregos”, como se isso fosse a solução para tudo. Mas é o que lhes permite, após serem eleitos, justificarem o aumento do gasto militar, as indústrias poluentes e os benefícios fiscais “indecentes” para as empresas, tudo em nome da “criação de empregos”. Essa tática está sendo utilizada para empurrar os nativos americanos para fora de sua terra sagrada, de maneira que possam construir oleodutos. E, apesar de toda a sua conversa sobre a importância do trabalho, esses políticos fazem muito pouco para defender os direitos dos trabalhadores, direitos que vêm sendo desgastados ano após ano e, com isso, permitem que as empresas tenham uma influência cada vez maior nas políticas dos locais de trabalho. 

Na verdade, a noção de trabalho tem a ver com controle. Sobre como controlar você e seu comportamento, o que é permitido fazer ou não, a que hora o trabalho deve começar e terminar, o que você pode vestir, quando você pode ter uma folga ou sair de férias. Em alguns lugares, a cada certo período de trabalho, espera-se que você se mude, pode ser de cidade ou de país. E, atualmente, nessa nova “gig economy” (economia freelance), você pode ser seu próprio chefe, sem capital, sem clientes e sem nenhuma estratégia, apenas um prestador de serviço a uma empresa vivendo o dia a dia – sem “ser empregado”.  

Em uma sociedade livre, as pessoas deveriam poder gastar seu tempo e energia fazendo algo importante para elas. Deveriam estar comprometidas em trabalhar juntas para criar o tipo de sociedade que todos queremos. Se você realmente estiver interessado em desenvolver nosso mundo, interessado em ajudar na evolução do ser humano, então esse é seu problema. Embora poucas pessoas desejem tocar nesse assunto, precisamos superar esta relação debilitante entre trabalho e dinheiro. Esse divórcio terá enormes repercussões nas nossas vidas e sociedade como um todo. Imagine não ter que passar 30 anos ou mais esperando pela aposentadoria até poder começar a viver. 

Necessitamos romper o requisito fundamental de nascimento, educação, trabalho e aposentadoria. Não há nenhuma lei natural que determine que o ciclo deve suceder dessa maneira. Nossa contribuição ao mundo começa no minuto em que nascemos, quando nos tornamos Ser Humano. Se quisermos que a nossa sociedade progresse, não podemos gastar a maior parte do nosso tempo, energia e emoções em coisas sem propósito. Deveríamos ser capazes de oferecer o que temos, desenvolver nossas melhores qualidades e estar abertos a aprender, amar, criar, descobrir, dividir e imaginar um mundo novo. 

Teremos que redefinir quase tudo. Qual é o significado da vida, o que é a liberdade, o que é a educação? Imagine passar 15 anos na escola aprendendo a responder a uma pergunta apenas: Qual é a contribuição que realmente quero dar a este mundo?

Deixarei você responder a esta pergunta e, por favor, não se preocupe muito com o dinheiro.


Traduzido do inglês para o português por Graça Pinheiro / Revisado por Laura Zanetti

Categorias: América do Norte, Humanismo e Espiritualidade, Opinião
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