Carta aberta ao povo catalão

03.12.2015 - Paulo Genovese

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Carta aberta ao povo catalão

Escrevo desde Madrid e o faço em castelhano. Gostaria de escrever em vossa língua mas infelizmente não a falo, ainda que gostaria de poder fazê-lo.

Comento também que nasci por casualidade em um lugar que chamam de Espanha e em uma família, que tão pouco escolhi, mas que me abriu caminhos para participar do mundo, a outros modos de viver, a respeitar a diversidade dos distintos povos e solidarizar-me com as causas justas… reconhecer-me no oprimido e sentir-me como cidadã do mundo, ao mesmo tempo.

Assim que compreendo e me uno à vossa indignação pela permanente humilhação histórica e falta de reconhecimento de vossa diversidade e reivindicações.

Também posso reconhecer-me no ressentimento que talvez viva em seus corações porque, em alguns momentos, eu também me ressinto por diferentes razões, especialmente quando me fazem sentir que não existo ou não me têm em conta, impondo-me condições que produzem dor e sofrimento em mim e em pessoas que me são queridas… mas isso não é bom para mim nem para quem me rodeia.

Também me reconheço em vocês porque, além das suas reivindicações concretas como povo, sofro as mesmas violências que sofre a grande maioria de vocês.

Vivo cada dia, como muitos de vocês, a violência econômica. A duras penas chego ao fim do mês condicionada a um trabalho que cada dia me escraviza mas que me permite comer. E desde essa posição “privilegiada” por contar com um emprego, trato de compreender aqueles que não tem, seu fechamento de futuro, seu temor permanente, sua tensão constante nas vísceras, sua contração no coração e sua insônia por não sentir-se capaz de melhorar sua situação.

Me reconheço em muitos de vocês quando não posso pagar a casa em que vivo ou a conta de luz.

Me reconheço em muitos de vocês quando tenho que esperar melhores tempos para trocar as lentes dos óculos porque a prioridade é comer, ou quando preciso esperar para fazer um exame médico vital porque há uma longa lista de espera.

Me reconheço na grande maioria de vocês quando me vejo afetada pelos recortes na educação, e necessito do apoio dos mais próximos para conseguir livros para meus filhos ou para que estudem na universidade.

Me reconheço na maioria de vocês quando não sei como combinar o cuidar de meus pais com o trabalho e todas as tarefas que me aguardam ao longo do dia, enquanto espero certas “ajudas” que nunca chegam.

Vivo cada dia, como muitas de vocês, a violência pelo fato de ser mulher: quando minha jornada de trabalho é de dezoito horas por dia entre o trabalho fora e dentro de casa, ou quando me pagam menos que a companheiros homens pelo mesmo trabalho, ou quando tenho que demonstrar permanentemente meu valor por ser mulher, ou quando se espera de mim que sirva aos demais sem reclamar…

Me reconheço em muitos de vocês quando sou degradada por defender meu ideal de paz e não violência.

Me reconheço em vocês quando rechaçam um modelo político que vem de séculos, absolutamente anacrônico. Outra coisa que não se fala intencionadamente.

Me reconheço em vocês quando se indignam ante tanta corrupção, ante a mescla que se faz de lei e democracia – como se fora o mesmo necessariamente – ou ante tanta mentira repetida pelos grandes meios de comunicação.

Me reconheço em vocês quando não respeitam suas decisões …

E pelo fato de me reconhecer em vocês e me sentir uma de vocês, é que quero pedir que pensem nisso de levantar mais “muros” que nos separem. Esses muros que chamam fronteiras e que somente são utilizados pelos poderosos para dividir a grande maioria da população e que nada afetam a eles. Eles movem o dinheiro que nos roubam de um paraíso fiscal a outro e se trasladam de um país a outro sem dificuldades. Não necessitam papéis, não necessitam apresentação. As leis têm sido criadas por e para eles e sua carta de apresentação é o dinheiro que tiram do que é de todos, para seu particular benefício.

Eles, esses poucos personagens, ladrões de colarinho branco e criminosos indiretos, servidores do grande capital e responsáveis de milhares de suicídios por despejos ou mortes por falta de atenção médica ou alimentação adequada… eles que parecem representar a bandos distintos, mas que tão bem se entendem em cenas de mesma ação depredadora contra a população.

Conseguem se dar conta que eles nos mantém entretidos enquanto seguem com seus negócios e tratam de salvar unicamente seus interesses?

Não percebem que o desastre que vivem, a cada dia, uma parte grande de vocês, é responsabilidade da maioria dos que hoje querem nos conduzir a separar?

Não percebem que, na dinâmica em que estamos, existe também uma grande divisão entre vocês?

Proponho que trabalhemos juntos pela reconciliação histórica de nossos povos, para que nossas feridas sejam sanadas.

Proponho que trabalhemos juntos para eliminar a violência econômica, de gênero, ideológica… É tanto o que nos une e tão pouco o que nos separa!

Exijamos um processo constituinte, que nos leve a construir leis mais justas e igualitárias.

Juntos seremos mais fortes. Trabalhemos para manter-nos unidos e buscar o que nos aproxima de todos os povos da Europa. Vivemos os mesmos desastres das decisões imorais de uns poucos.

Denunciemos e não apoiemos a quem nos oprime, nos violenta e nos divide fazendo-nos crer que somos inimigos.

Superemos o ressentimento, e vamos à reconciliação.

E recorda, somos o 99%! Não sejamos servos do outro 1%.

Mas… se decides “independizaros”, o respeitarei profundamente. De todos os modos, estarei esperando com os braços abertos para construir um futuro comum e melhor para todos.

Irmãos catalães… (permite-me convidar também nossos irmãos franceses, italianos, alemães, russos, norte-americanos, sul-americanos, africanos, asiáticos, etc)… vamos abrir as fronteiras físicas e psicológicas, eliminá-las, e trabalhar juntos para ir caminhando rumo à uma Nação Humana Universal.

Traduzido por Erica Naomi

Categorias: Direitos Humanos, Europa, Humanismo e Espiritualidade, Não violência, Opinião
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