Os oceanos, os animais não humanos e as plantas desempenham papéis fundamentais na manutenção do nosso ecossistema. Mas por que estamos tão dispostos a sabotar esse processo?

Gostaria de apresentar-lhes uma maneira alternativa de enxergarmos o planeta em que vivemos. Nós o chamamos de Terra, mas que na verdade, deveria ser chamado de “Oceano”. O que torna a vida possível neste planeta é um elemento muito importante: a água. Este é o planeta água. Ensinaram-nos que o oceano compreende o mar. Contudo, o oceano representa muito mais do que isso.

Por Capitão Paul Watson

A Terra é um planeta repleto de água que circula de forma contínua e que passa por muitas fases; cada uma delas intimamente ligada em todas as etapas do ciclo hidrológico. São as águas dos mares, dos lagos, dos rios e das correntes. São as águas que fluem no subsolo e bem no fundo, no interior do planeta, infiltradas nas rochas. São as águas na atmosfera ou envoltas em gelo.

E é a água que circula por toda célula viva de cada planta e de cada animal do planeta.

A água é vida, alimentada pelo sol, que a impulsiona do mar para a atmosfera, mas também para dentro e através de cada célula viva. A água é a vida que flui por nossos corpos, eliminando resíduos e fornecendo nutrientes. A água no meu corpo já esteve presa sob a forma de gelo. Já correu pelo subsolo alguma vez. Já esteve presente nas nuvens ou no mar. Até mesmo a ação gravitacional da lua age sobre a água em nossos corpos do mesmo modo que atua sobre a água no mar. A água é o elo comum entre todos os seres vivos do planeta, e, coletivamente, todas as suas formas e seus trajetos moldam o oceano da Terra. O oceano é o sistema que que garante a vida em todo o planeta. Nas profundezas dos mares, o fitoplâncton produz oxigênio enquanto se alimenta do nitrogênio e do ferro fornecidos pelas fezes de baleias e de outros animais marinhos. A água dos rios e dos lagos remove toxinas, sais e resíduos. Os estuários e os pântanos atuam como rins, removendo as toxinas restantes e despejando os sais minerais no mar. O calor do sol bombeia a água para a atmosfera, onde ela é purificada e devolvida à superfície do planeta. Ali, ela servirá de bebida para outros seres vivos, será absorvida e, em sequência, eliminada dos seus sistemas. É esse sistema circulatório global complexo que providencia tudo o que necessitamos para a alimentação, o saneamento e a regulação do clima. Resumindo, para a vida.

A água é vida e a vida é água. Os rios e os riachos são as artérias, as veias e os capilares da Terra; desempenham exatamente as mesmas funções que esses vasos exercem em nossos corpos: remover resíduos das células e transportar nutrientes a elas. Um rio represado pode ser comparado a um vaso sanguíneo cujo fluxo é bloqueado. Por exemplo, a grande Represa Alta de Assuã, no rio Nilo (Egito), acabou com a fertilidade das terras a jusante e fez com que água com rejeitos tóxicos se acumulasse a montante da represa.

Todo esse sistema interdependente é seu próprio sistema de suporte à vida. O livro “Gaia“, de James Lovelock, traz a hipótese de que todos os organismos vivos interagem com os substratos inorgânicos do seu entorno para formar um complexo sistema sinérgico e autorregulado que auxilia na manutenção e na perpetuação das condições de vida no planeta. Em outras palavras, a vida opera o próprio sistema de suporte à vida, em que nem todas as espécies são iguais. Algumas são essenciais e outras nem tanto, mas todas estão conectadas. Micróbios, fitoplâncton, insetos, plantas, vermes e fungos são seres fundamentais para esse sistema. Já os chamados “animais superiores” não são tão cruciais, e um deles, em especial — o ser humano, juntamente com os animais e as plantas domésticas —, é destrutivo de uma forma assustadora. Gosto de comparar a Terra a uma a nave espacial. Afinal, é isso o que o planeta é: uma enorme espaçonave que transporta o carregamento da vida numa jornada veloz e furiosa pela vasta Via Láctea. É uma viagem tão longa que são necessários 250 milhões de anos para completar uma única volta pela galáxia. De fato, desde que foi formado a partir da poeira de nossa estrela mais próxima, o planeta finalizou essa viagem apenas 18 vezes.

Para que a nave funcione, o sistema de suporte à vida deve ser bem executado e comandado por uma equipe experiente e habilidosa. Essa equipe é quem produz os gases atmosféricos, sobretudo o oxigênio, o nitrogênio e o dióxido de carbono, e que sequestra o excesso de outros gases, em especial, o carbono e o metano. A equipe também purifica o ar, recicla os resíduos e ajuda na circulação da água. Além de fornecer alimento — direta e indiretamente, por meio da polinização —, essa equipe ainda remove toxinas do solo e o mantém úmido e fértil. As plantas servem aos animais assim como os animais servem às plantas. As plantas se alimentam do solo e servem de alimento aos animais, que, por sua vez, concedem nutrientes ao solo.

Algumas espécies, sobretudo os chamados “animais superiores” (na sua grande maioria, os grandes mamíferos), são principalmente passageiros. Alguns desses passageiros contribuem muito para a manutenção da maquinaria do sistema de suporte à vida, embora não sejam tão vitais quanto as espécies que atuam como engenheiras incansáveis do sistema. Entretanto, existe uma espécie passageira que, há muito tempo, decidiu se rebelar contra a equipe e seguir seu próprio caminho, contente de passar os dias se divertindo e cuidando apenas do próprio bem-estar. Essa espécie é a Homo sapiens.

Existem outras espécies de animais e plantas que escravizamos devido a nossos propósitos egoístas. As espécies de plantas domésticas tomam o lugar das selvagens que ajudam no funcionamento do sistema. Já os animais domésticos são escravizados para nos fornecer carne, ovos e leite, ou então nos servem de diversão, conseguida por meio de abusos, torturas e massacres.

À medida que o número de animais escravizados aumenta, os animais selvagens vão desaparecendo devido a extermínios ou à destruição de seus hábitats. As plantas que domesticamos devem ser “protegidas” com fertilizantes químicos letais e com sementes geneticamente modificadas, juntamente com outros venenos químicos, tais como herbicidas, fungicidas e bactericidas.

Estamos roubando a capacidade de carga de ecossistemas de outras espécies para aumentar o número de seres humanos e de animais domésticos. A lei dos recursos finitos dita que esse sistema entrará em colapso. É simplesmente insustentável.

Por causa de nossas habilidades em tecnologia, os humanos evoluíram para desempenhar uma função muito importante: caso um asteroide avassalador, como aquele que dizimou nossos amigos dinossauros há 60 milhões de anos, resolva nos fazer uma visita, temos a capacidade de proteger todo o planeta de ser atingido. Ainda assim, eu me pergunto se realmente somos capazes de conseguir esse feito, considerando a falta de solidariedade dentro de nossa própria espécie. Também temos capacidade e inteligência e podemos decidir tomar o caminho dessas virtudes para enfrentarmos a mudança climática, um problema pelo qual somos os responsáveis diretos. Mas será que um dia tomaremos essa decisão?

Esse trecho foi retirado de Urgent! Save Our Ocean to Survive Climate Change, por Capitão Paul Watson (GroundSwell Books, 2021). Esta adaptação foi produzida por GroundSwell Books em parceira com Earth | Food | Life, um projeto do Independent Media Institute.


O Capitão Paul Watson é um ativista canadense-estadunidense que trabalha em prol da conservação marinha e que fundou o grupo de ação direta Sea Shepherd Conservation Society, em 1977. Mais recentemente estrelou a série “Whale Wars” e um documentário sobre sua vida, “Watson“, ambos no canal televisivo Animal Planet. A missão do Sea Shepherd é proteger toda a vida marinha nos oceanos. Watson é autor e coautor de dezenas de livros, incluindo Death of a Whale (2021), Urgent! (2021), Orcapedia (2020), Dealing with Climate Change and Stress (2020), The Haunted Mariner (2019), and Captain Paul Watson: Interview with a Pirate (2013).


Traduzido do inglês por André Zambolli / Revisado por Graça Pinheiro