Chegado a certo ponto, todo o movimento deve fazer-se uma pergunta difícil: continua a existir como uma força viva na história ou converteu-se pouco a pouco, na memória da sua própria inspiração?
Para aqueles que foram formados, direta ou indiretamente, por Silo, essa pergunta já não se pode adiar. O mundo não se aproximou da superação da violência. Pelo contrário, a violência tornou-se mais normalizada, mais difusa, mais mediada tecnologicamente e mais profundamente incrustada nas estruturas económicas e políticas que organizam a vida quotidiana. Continuamos a gerar riqueza sem sentido, informação sem sabedoria e poder sem direção. Ao mesmo tempo, a própria Terra está a ser empurrada para o esgotamento por uma civilização cujo princípio organizador é a acumulação e não a humanização.
E, no entanto, a necessidade que deu origem ao Movimento Humanista não desapareceu. Aliás, tornou-se mais urgente.
A dupla exigência inicial
O impulso original nunca foi meramente político nem meramente espiritual. Foi uma tentativa de unir a transformação pessoal e a transformação social num só projeto. Compreendia que nenhuma mudança duradoura podia provir somente de uma reestruturação externa se o ser humano continuava internamente dividido, violento, temeroso e alienado. Mas compreendia também que um trabalho interior desligado da história, desligado da injustiça e desligado do sofrimento dos outros, tornar-se-ia estéril, fechado sobre si mesmo e, em última instância, cúmplice do mundo tal como é.
Esa doble exigencia sigue siendo decisiva. Puede que sea una de las aportaciones más valiosas del movimiento: la insistencia en que el ser humano debe transformarse tanto interiormente como exteriormente, y en que ninguna de esas dos dimensiones puede abandonarse sin falsear el conjunto.
Essa dupla exigência continua a ser decisiva. Pode ser um dos contributos mais valiosos do movimento: a insistência em que o ser humano se deve transformar tanto internamente como exteriormente, e em que nenhuma dessas duas dimensões se pode abandonar sem falsear o todo.
Por essa razão, seria demasiado simples dizer que o movimento fracassou. Talvez seja mais exato dizer que, no momento em que escrevo estas linhas, não conseguiu converter-se numa resposta histórica suficientemente forte face à crise da civilização. Porém, isso não é o mesmo que dizer que as suas verdades eram falsas ou que as sementes que lançou ao mundo não germinaram.
O que já foi posto em marcha
O que já foi posto em marcha pode ser mais significativo do que às vezes se reconhece. O labor inspirado por Silo conduziu à formação de cerca de 3.000 Mestres em quatro disciplinas diferentes, todas elas orientadas para abrir o acesso aos estados profundos e inspirados de consciência, bem como a uma crença na imortalidade e à certeza da transcendência.
Não se trata de um legado menor. Significa que o movimento não deixou para trás somente livros, recordações ou um sentimento. Deixou práticas, pessoas formadas e lugares. Deixou um corpo, por parcial que seja, através do qual poderia nascer ainda um novo momento histórico.
A questão, então, não é se há algo a partir do qual se possa construir. A questão é se o que já existe pode voltar a tornar-se historicamente fértil.
Isso depende, antes do mais, de recusar-se a confundir herança com renovação. Preservar um ensinamento, um método, uma disciplina ou um lugar sagrado, já é algo importante. Mas a preservação por si só não gera um movimento. A renovação começa quando o recebido se torna transmissível para as novas gerações numa linguagem que possam compreender, mediante práticas em que possam entrar e com relação com as crises concretas do seu tempo.
O verdadeiro problema é a transmissão
Isto significa colocar algumas perguntar incómodas, mas necessárias. Pode um jovem sem nenhuma conexão prévia com o movimento encontrar-se com este e compreender rápida e claramente para que existe? Podem apresentar-se as disciplinas como métodos vivos e não como feitos esotéricos? Podem os Parques converter-se em centros geradores de prática, diálogo, serviço e reconciliação em vez de serem sobretudo lugares de peregrinação para os já convencidos? Pode o núcleo já qualificado atuar não como guardião de um passado concluído, mas sim como servidor de um futuro possível?
Estas perguntas são decisivas porque o problema central não é a ausência de inspiração. É o problema da transmissão.
As sociedades modernas são profundamente distintas daquelas em que muitos movimentos anteriores se formaram. A atenção está fragmentada. A confiança institucional está quebrada. A vida económica esgota as pessoas. O sentimento político fica amiúde reduzido ao espetáculo. Muitos têm fome espiritual, mas desconfiam da autoridade; estão moralmente preocupados, mas não conseguem sustentar a ação coletiva; estão conectados digitalmente, mas socialmente isolados. Um renovado Movimento Humanista não pode simplesmente repetir formas antigas e esperar que o presente as receba. Deve aprender a tornar-se legível dentro de um mundo marcado pela distração, a fadiga, a solidão, a ansiedade ecológica e a normalização da violência.
Isto não significa abandonar a profundidade. Pelo contrário, a profundidade é precisamente o que falta no presente. Porém, a profundidade deve unir-se à acessibilidade, e a inspiração à forma.
Formas pequenas, densidade real
Se a renovação há de chegar, provavelmente não começará mediante grandes declarações nem grandes mobilizações públicas. Começará com formas mais pequenas e densas: círculos de prática, reflexão e apoio mútuo; espaços em que o trabalho interno e o compromisso social se liguem conscientemente; comunidades que as pessoas formem não apenas para compreender intelectualmente a não-violência, mas sim para a encarnar nas relações, no trabalho, no conflito e na ação pública.
Isto pode parecer modesto face à crise planetária. Porém, quase tudo o que é duradouro começa com formas que parecem demasiado pequenas para a época.
Um movimento renovado necessitaria também de um centro moral que pudesse exprimir de maneira simples e sem jargão: que a vida humana é sagrada; que a violência deve ser superada em todas as suas formas; que a Terra deve ser humanizada e não explorada; e que a transformação pessoal e a social são inseparáveis. Se estas verdades não se puderem dizer com clareza, não podem viajar. E se não puderem viajar, não podem converter-se em força histórica.
Contudo, a clareza de propósito não basta por si só. O movimento deve aprender também dos fracassos que acompanham todo o esforço espiritual, ético e político na história. Uma das tragédias permanentes da experiência humana é que as instituições formadas em torno da libertação são capturadas repetidamente pelo prestígio, o ego, a hierarquia oculta, o interesse económico e o desejo de controlo. Nenhum movimiento está isento deste perigo.
Portanto, um renovado Movimento Humanista necessitaria de estruturas desenhadas conscientemente para resistir a isso: transparência em torno do dinheiro, rotatividade de responsabilidades, liderança distribuída, proteção face à dependência de indivíduos excecionais e uma insistência cultural em que a profundidade de qualquer experiência ou consecução só tem valor na medida em que se põe ao serviço dos outros.
A questão para os Mestres
Neste ponto a questão para os Mestres ganha especial importância. Se a mestria se entende como culminação, como uma espécie de condição alcançada, o movimento tenderá ao encerramento. Converter-se-á num círculo daqueles que sabem, recordam ou alcançaram algo. Mas se a mestria se entende como serviço, como a responsabilidade de acompanhar, despertar, formar e transmitir, então os Mestres que permanecem poderiam converter-se no núcleo da renovação.
Nesse caso, o acumulado não seria um capital simbólico, mas sim uma reserva de experiência vivida que se pode pôr à disposição de um novo momento histórico.
A mesma coisa pode dizer-se dos Parques. Num mundo desenraizado, os lugares importam. Um Parque de Estudo e Reflexão não é simplesmente um sítio belo ou significativo. Pode converter-se num contra-sítio[1] face à civilização dominante: um lugar em que se encarne outro ritmo, outra escala, outra imagem do ser humano. Um lugar onde o silêncio não seja vazio, onde a reflexão não seja removida, onde a reconciliação não seja debilidade e onde o estudo não seja acumulação de informação, mas sim um método de aprofundamento da consciência.
Se forem bem utilizados, os Parques não são refúgios da história. São laboratórios de outro futuro possível. Porém, precisamente por isso, não podem continuar a ser apenas destinos de peregrinação para os já convencidos. Devem converter-se em lugares a partir dos quais a ação humanizadora regresse ao mundo.
As disciplinas e a crise do sentido
Da mesma forma, as quatro disciplinas podem ser um dos maiores legados do movimento. Se permitem realmente aceder a estados profundos e inspirados de consciência e se abrem realmente a certeza da transcendência, então respondem a uma das crises mais profundas da presente época: o niilismo.
Vivemos num tempo em que muitas pessoas estão intelectualmente ultraestimuladas e espiritualmente desnutridas. Têm informação, mas não centro de gravidade. Têm estímulos, mas não sentido. Têm identidades, mas não centro interior. Um movimento que possa oferecer não apenas análises, mas sim experiência; não apenas crítica, mas sim acesso à dimensão sagrada da existência, pode possuir algo de imensa importância histórica.
E, no entanto, também aqui o desafio é decisivo. A experiência espiritual por si só não cria movimento. Muitas tradições possuem métodos genuínos de profundidade e, contudo, continuam a ser marginais porque não conseguem conectar essas experiências com uma ética, uma forma social e uma missão histórica a que as pessoas comuns possam aceder. A questão não é somente se as disciplinas funcionam. A questão é se os frutos dessas disciplinas podem converter-se em cultura: se podem moldar maneiras de falar, atuar, organizar, cuidar, educar e lutar; se podem nutrir as pessoas não apenas em momentos excecionais, mas sim na vida diária.
Por isso, continua a ser tão central a necessidade de unir a transformação interior com a exterior. Se o movimento se reduzisse à procura de estados inspirados, atraiçoaria uma metade da sua verdade original. Se se reduzisse ao ativismo ou à doutrina sem uma profunda base interior, atraiçoaria a outra metade. Toda a aposta do Movimento Humanista foi que estas duas dimensões podiam e deviam convergir. Essa aposta continua a ser uma das coisas mais importantes que tem para oferecer.
Devemos esperar por outro místico?
Devemos esperar, então, por outro místico que assinale o caminho?
É possível que figuras singulares desempenhem sempre um papel na abertura de novos momentos históricos. A história humana está cheia dessas figuras e não se deve desvalorizar o poder da consciência inspirada quando aparece incorporada numa pessoa. Porém, um movimento maduro não pode depender da espera passiva da salvação sob a forma de outro fundador. Se o já recebido não pode incorporado, transmitido, aprofundado e reativado historicamente por seres humanos comuns, então o movimento ainda não resolveu o problema da sua própria continuidade.
O que agora se necessita talvez não seja outro revelador singular, mas sim um despertar distribuído: muitas pessoas, em muitos lugares, levando a cabo um centro comum com coerência, humildade e perseverança. Não a desaparição da inspiração, mas sim a sua difusão. Não a abolição da liderança, mas sim a sua transformação em serviço. Não a repetição de um momento fundacional, mas sim o descobrimento de como uma verdade fundacional pode gerar novas formas sem deixar de ser ela mesma.
Esta pode ser a verdadeira tarefa que têm diante de si aqueles que continuam vinculados, de uma maneira ou de outra, ao siloísmo[2]: não tanto preservar cinzas, mas sim proteger e transmitir o fogo. Não tanto perguntar-se com nostalgia se o passado pode voltar, mas sim perguntar-se se as sementes já semeadas podem encontrar um novo solo na crise atual da humanidade.
Um resquício ou um começo?
O mundo não padece de falta de informação. Padece de falta de direção, de falta de sentido e de falta de formas capazes de resistir à violência sem se tornarem elas próprias violentas. Num mundo assim, mesmo um núcleo pequeno, mas real, de prática humanizadora pode importar imensamente.
Então, talvez esta seja a pergunta que deveríamos fazer agora: não se o Movimento Humanista fracassou, mas sim se as sementes que plantou – as disciplinas, os Parques, os Mestres, a memória viva de uma transformação pessoal e social simultânea – podem converter-se no ponto de partida de um novo ciclo.
Se puderem, então o que agora aparece a muitos como um resquício, poderia revelar-se ainda como um começo.
E se não puderem, não será porque a necessidade haja desparecido, nem porque o ser humano já não aspire a reconciliação, sentido, transcendência e um mundo verdadeiramente humano. Será porque aqueles que herdaram o fogo não encontraram o modo de colocá-lo, uma vez mais, ao serviço do ser humano.
[1] N.T. “Counter-site” no original em inglês constitui um neologismo que se optou por traduzir literalmente.
[2] N.T. Doutrina inspirada no pensamento e obra literária de Silo, pseudónimo de Mario Luis Rodriguez Cobos (1938-2010).







