{"id":988215,"date":"2019-12-05T12:24:07","date_gmt":"2019-12-05T12:24:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=988215"},"modified":"2019-12-05T12:43:56","modified_gmt":"2019-12-05T12:43:56","slug":"evo-morales-a-historia-o-absolvera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2019\/12\/evo-morales-a-historia-o-absolvera\/","title":{"rendered":"Evo Morales: a hist\u00f3ria o absolver\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"line-height: 1.5;\">Por<\/span><strong><span style=\"line-height: 1.5;\"> Boaventura de Sousa Santos<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5;\">Os acontecimentos dram\u00e1ticos ocorridos na Bol\u00edvia seguiram um gui\u00e3o imperial que os latino-americanos come\u00e7am a conhecer bem: preparar a mudan\u00e7a de regime de um governo considerado hostil aos interesses dos Estados Unidos (ou melhor das multinacionais norte-americanas). Fazem-no orquestrando um plano duplo: anular uma vit\u00f3ria eleitoral \u201cinimiga\u201d e consolidar rapidamente o novo regime que toma medidas que n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prias de um governo de transi\u00e7\u00e3o. Certamente que o que aconteceu nos surpreende, mas tamb\u00e9m o modo imediato como foi comentado, de modo majoritariamente desfavor\u00e1vel ao governo de Evo Morales a partir de quadrantes ideol\u00f3gicos supostamente opostos. Proponho-me contribuir para este debate pois vejo nos recentes acontecimentos na Bol\u00edvia as sementes de muito do que se passar\u00e1 no continente e no mundo nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<h4>Sucessos e conquistas do governo de Evo<\/h4>\n<p>No primeiro governo de Evo Morales (2006-2010), o mais avan\u00e7ado em termos de transforma\u00e7\u00f5es substantivas, destaca-se o cumprimento da chamada \u201cAgenda de Outubro\u201d, com duas medidas essenciais na Bol\u00edvia: a) a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos, produzida com grande simbolismo no 1\u00b0 de maio de 2006 (alguns cr\u00edticos sustentam que na realidade foi uma renegocia\u00e7\u00e3o de contratos com as petrol\u00edferas); e, b) a Assembleia Constituinte, que depois de um caminho dif\u00edcil conduziu \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o em referendo (janeiro de 2009) de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Estado Plurinacional.<\/p>\n<p>Com a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos e de empresas estrat\u00e9gicas como a de telecomunica\u00e7\u00f5es (Entel), que coincidiu com um per\u00edodo de bonan\u00e7a por efeito do aumento dos pre\u00e7os internacionais de mat\u00e9rias primas, o Estado boliviano saiu da sua condi\u00e7\u00e3o de mendigo (o \u201cEstado com buracos\u201d) e com Evo Morales avan\u00e7ou-se para um Estado forte com presen\u00e7a territorial. O investimento p\u00fablico converteu-se na principal fonte de um modelo de crescimento, estabilidade econ\u00f3mica e redistribui\u00e7\u00e3o elogiado por todos os organismos internacionais. Apesar das dificuldades e demoras, foram dados passos importantes para avan\u00e7ar na desejada industrializa\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos, assim como em outros grandes empreendimentos (produ\u00e7\u00e3o de electricidade, explora\u00e7\u00e3o do ferro, explora\u00e7\u00e3o das reservas de l\u00edtio).<\/p>\n<p>A nova Constitui\u00e7\u00e3o trouxe consigo avan\u00e7os e conquistas fundamentais no \u00e2mbito do novo modelo de Estado Plurinacional e com autonomias. Um acerto fundamental foi o reconhecimento constitucional do sujeito \u201cind\u00edgena origin\u00e1rio campon\u00eas\u201d e a sua inclus\u00e3o na estrutura estatal e no \u00e2mbito p\u00fablico-pol\u00edtico. A plurinacionalidade do Estado \u00e9 uma conquista em constru\u00e7\u00e3o cujo maior impulso \u00e9 obra do Pacto de Unidade que no momento certo unificou as organiza\u00e7\u00f5es matrizes. Tamb\u00e9m se avan\u00e7ou no caminho de longo prazo das autonomias em diferentes n\u00edveis territoriais, incluindo o autogoverno ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o podemos deixar de assinalar como uma conquista fundamental a redu\u00e7\u00e3o importante das brechas de desigualdade e, em especial, de pobreza. Durante o per\u00edodo de Governo de Evo, segundo dados oficiais, a pobreza reduziu-se de 59,9 por cento para 34,6 por cento, enquanto que a pobreza extrema baixou de 38,2 para 15,2 por cento. Para isso contribu\u00edram diversas bonifica\u00e7\u00f5es destinadas a sectores vulner\u00e1veis (Renda Dignidade para adultos idosos, Bono Juancito Pinto para crian\u00e7as em idade escolar, Bono Juana Azurduy para mulheres gr\u00e1vidas). Diferentes estudos de organismos internacionais como o PNUD, destacam tamb\u00e9m como realiza\u00e7\u00e3o do Governo de Evo Morales a inclus\u00e3o social da nova classe m\u00e9dia (\u201cemergente\u201d), como resultado do facto de que as pessoas com rendimentos m\u00e9dios terem passado de 3,3 milh\u00f5es (2005) para sete milh\u00f5es (2018).<\/p>\n<p>No Governo de Morales s\u00e3o tamb\u00e9m destac\u00e1veis, como resultado do novo enquadramento constitucional e normativo, os importantes avan\u00e7os em mat\u00e9ria de equidade de g\u00e9nero, igualdade de oportunidades entre mulheres e homens e, em especial, a presen\u00e7a parit\u00e1ria de mulheres eleitas nos \u00f3rg\u00e3os legislativos de todos os n\u00edveis (Assembleia Legislativa Plurinacional, assembleias departamentais, concelhos municipais). Isto foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao impulso permanente das organiza\u00e7\u00f5es de mulheres.<\/p>\n<div id=\"attachment_988226\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-988226\" class=\"size-large wp-image-988226\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales2-Oruro-dic2016-ABI-720x481.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"481\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales2-Oruro-dic2016-ABI-720x481.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales2-Oruro-dic2016-ABI-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales2-Oruro-dic2016-ABI-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales2-Oruro-dic2016-ABI.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-988226\" class=\"wp-caption-text\">Oruro, Dezembro 2016. Foto de arquivo ABI<\/p><\/div>\n<p>Existem outras conquistas evidentes em mat\u00e9ria de redu\u00e7\u00e3o de desigualdades, inclus\u00e3o social, redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do analfabetismo, indicadores macroecon\u00f3micos favor\u00e1veis (a Bol\u00edvia liderou nos \u00faltimos anos o crescimento econ\u00f3mico na Am\u00e9rica do Sul), redu\u00e7\u00e3o para metade da taxa de desemprego (de 8,1 a 4,2%), aumento continuado do sal\u00e1rio m\u00ednimo, aumento da expectativa de vida, investimento p\u00fablico not\u00e1vel nas infraestruturas (em especial estradas e milhares de obras nas prov\u00edncias e \u00e1rea rural), entre outros. Em todo o caso, uma realiza\u00e7\u00e3o substantiva, que n\u00e3o pode medir-se com indicadores, tem que ver com a reafirma\u00e7\u00e3o da dignidade e soberania da Bol\u00edvia no contexto internacional.<\/p>\n<h4>Erros e fracassos do Governo de Evo<\/h4>\n<p>Do mesmo modo que existiram \u00eaxitos ineg\u00e1veis no decurso do Governo de Evo Morales, tamb\u00e9m ocorreram fracassos e erros. No processo p\u00f3s-constituinte houve debilidade da parte do Governo para implementar alguns grandes princ\u00edpios da Constitui\u00e7\u00e3o, em especial quanto ao exerc\u00edcio de direitos. H\u00e1 que mencionar tamb\u00e9m os equ\u00edvocos de gest\u00e3o governamental como a ruptura com os ind\u00edgenas da Amaz\u00f3nia devido ao mencionado af\u00e3 de construir uma auto-estrada atrav\u00e9s do TIPNIS (2011), a persistente aposta num modelo desenvolvimentista assente em megaprojetos e empreendimentos extractivistas, o desrespeito pela consulta pr\u00e9via e outras pol\u00edticas em beneficio da alian\u00e7a oficial com o sector agroindustrial cruzenho.<\/p>\n<p>Talvez o erro mais grave tenha sido a convocat\u00f3ria e o posterior desconhecimento do resultado vinculante do referendo sobre a reelei\u00e7\u00e3o (fevereiro de 2016), no qual pouco mais de 51% da popula\u00e7\u00e3o rejeitou a reforma do artigo 168 da Constitui\u00e7\u00e3o que impede a possibilidade da candidatura de Evo Morales a um novo mandato. Entretanto, o processo de mudan\u00e7a teve dificuldades em renovar as lideran\u00e7as e tornou-se \u201cEvo-dependente\u201d. Apesar do impulso inicial, houve entraves e m\u00faltiplos requisitos para a conforma\u00e7\u00e3o das autonomias ind\u00edgenas origin\u00e1rias camponesas, nas quais o Governo parecia n\u00e3o acreditar. Foi tamb\u00e9m um erro a subordina\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a ind\u00edgena \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, apesar do reconhecimento constitucional, em sentido forte, do pluralismo jur\u00eddico. E o principio fundamental do Vivir Bien, assumido pelas na\u00e7\u00f5es e povos ind\u00edgenas como alternativa ao desenvolvimento, foi-se diluindo na j\u00e1 mencionada aposta do governo de Evo numa agenda nacional-popular expressa na Agenda Patri\u00f3tica del Bicentenario 2025.<\/p>\n<h4>A queda de Evo: o golpe imperial e das elites locais<\/h4>\n<p>Se os erros se sobrepusessem aos \u00eaxitos, o mais natural em democracia seria que Evo Morales perdesse as elei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foi isso que aconteceu. A queda de Evo resultou de um golpe de Estado. A direita e alguma esquerda interna e a direita internacional questionaram a ideia de golpe. Defenderam que n\u00e3o houve golpe, mas uma \u201cfraude monumental\u201d, concentrando o olhar nos protestos, essencialmente urbanos e da classe m\u00e9dia tradicional, que esteve 21 dias em greve c\u00edvica contra o resultado dos com\u00edcios, que Evo voltou a ganhar (como foi reconhecido at\u00e9 mesmo pela OEA-Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos). Ao questionar em 2019 a candidatura de Evo face ao resultado do referendo constitucional de fevereiro de 2016, mostraram que n\u00e3o participaram de boa f\u00e9 nas elei\u00e7\u00f5es. Defraudaram a democracia ao preparar-se exclusivamente para o cen\u00e1rio de fraude eleitoral. Assim, pretenderam mostrar que a ren\u00fancia de Evo se deveu exclusivamente \u00e0 \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica\u201d da cidadania pelo respeito ao voto e rejeitando elei\u00e7\u00f5es \u201cfraudulentas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi assim. Os factos mostram que na Bol\u00edvia se activou h\u00e1 algum tempo um plano golpista, com diversos componentes bem sincronizados entre as elites locais e o imperialismo norte-americano. De facto, o discurso de \u201cfraude\u201d foi cimentado semanas antes das elei\u00e7\u00f5es. E consagrou-se em v\u00e1rios governos regionais que anteciparam o desconhecimento da vota\u00e7\u00e3o caso Evo vencesse. Este discurso fortaleceu-se por erros grosseiros do Tribunal Supremo Eleitoral. Assim, o protesto dos opositores passou da exig\u00eancia de novas elei\u00e7\u00f5es para a exig\u00eancia, com um ultimato de 48 horas, da ren\u00fancia do presidente. Rapidamente seguiu-se um motim da pol\u00edcia, que abdicou das suas fun\u00e7\u00f5es de garante da seguran\u00e7a e da ordem p\u00fablica. Operou tamb\u00e9m, de maneira torpe, um \u201crelat\u00f3rio preliminar\u201d da auditoria da OEA, que falava de \u201cirregularidades\u201d. O golpe imperial e das elites pol\u00edticas, constituiu uma interrup\u00e7\u00e3o abrupta de um mandato constitucional, e atingiu o seu ponto alto com a interven\u00e7\u00e3o directa das For\u00e7as Armadas, que \u201csugeriram\u201d a ren\u00fancia do presidente. Seguiram-se ac\u00e7\u00f5es violentas contra autoridades e dirigentes do MAS, for\u00e7ando a sua demiss\u00e3o. Se bem que ap\u00f3s a ren\u00fancia de Evo e do seu asilo no M\u00e9xico n\u00e3o se tenha instalado um governo militar, procurou-se uma fachada democr\u00e1tica com a autoproclama\u00e7\u00e3o como presidenta, alegando sucess\u00e3o constitucional, da segunda vice-presidenta do Senado (cujo partido obteve apenas 4% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es). Com o apoio da Pol\u00edcia e das For\u00e7as Armadas assumiu um mandato carregado de s\u00edmbolos religiosos conservadores e de revanchismo racista.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, a queda de Evo n\u00e3o resultou de um acto democr\u00e1tico validado no \u201cvoto castigo\u201d da cidadania pelo af\u00e3 reelecionista do presidente: foi orquestrada com a execu\u00e7\u00e3o de um plano golpista. E hoje busca um dif\u00edcil, prec\u00e1rio e pouco cred\u00edvel caminho de retorno \u00e0 \u201cnormalidade\u201d democr\u00e1tica nas urnas, enquanto prossegue a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Um retorno que passa pela inabilita\u00e7\u00e3o de Evo Morales e de \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera, e por um governo de transi\u00e7\u00e3o que se prop\u00f5e anular compromissos internacionais (como a sa\u00edda da ALBA e da UNASUR), privatizar empresas estrat\u00e9gicas, ampliar ainda mais a fronteira agr\u00edcola, liberalizar a economia com entrega de recursos naturais segundo a receita neoliberal, mudar massivamente o corpo diplom\u00e1tico, substituir os vogais do Tribunal Supremo Eleitoral, antes justamente acusado de estar subordinado ao oficialismo, por vogais pr\u00f3ximos ao novo oficialismo e, sobretudo, eliminar do horizonte pol\u00edtico o sujeito colectivo ind\u00edgena e nacional-popular, e todas as demandas originadas nas lutas dos povos ind\u00edgenas (o Buen Vivir, a plurinacionalidade, os direitos colectivos, a democracia comunit\u00e1ria, o respeito pela Terra M\u00e3e).<\/p>\n<div id=\"attachment_988254\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-988254\" class=\"size-large wp-image-988254\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales4-Oruro-dic2016-ABI-720x481.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"481\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales4-Oruro-dic2016-ABI-720x481.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales4-Oruro-dic2016-ABI-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales4-Oruro-dic2016-ABI-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales4-Oruro-dic2016-ABI.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-988254\" class=\"wp-caption-text\">Oruro, Dezembro 2016. Foto de arquivo ABI<\/p><\/div>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o imperial aproveitou os erros internos para neutralizar em mais um pa\u00eds (depois do Brasil e Equador) a influ\u00eancia da China no continente. A rivalidade entre os dois imp\u00e9rios (um decadente e outro ascendente) n\u00e3o conhece regras democr\u00e1ticas. Est\u00e1 em jogo o comando da nova onda de globaliza\u00e7\u00e3o baseada na intelig\u00eancia artificial e na tecnologia 5G. A China parece por agora melhor posicionada para comand\u00e1-la e por isso avan\u00e7a internacionalmente com medidas de incentivo positivo (a nova rota da seda), enquanto os EUA interv\u00eam com medidas punitivas (embargos, san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, mudan\u00e7as de regime, contra-insurg\u00eancia). A fachada multilateral \u00e9 proporcionada pela OEA, que opera na regi\u00e3o como minist\u00e9rio dos assuntos internos dos EUA. Recentemente, o governo de Evo Morales subscreveu um contrato com a China para a constru\u00e7\u00e3o de uma empresa que fabrique l\u00edtio met\u00e1lico com base nas enormes jazidas de l\u00edtio na Bol\u00edvia, um mineral estrat\u00e9gico para a nova ordem tecnol\u00f3gica. Havia que neutralizar esta rebeldia \u00e0 sempre vigente Doutrina Monroe (o subcontinente como quintal dos Estados Unidos).<\/p>\n<p>Assim, o imperialismo norte-americano aplicou um gui\u00e3o conhecido de mudan\u00e7a de regime para garantir o acesso aos recursos naturais estrat\u00e9gicos de um pa\u00eds na sua zona de influ\u00eancia. A Bol\u00edvia, tal como ocorreu antes com o Brasil, funcionou como laborat\u00f3rio do que est\u00e1 para vir. No caso da Bol\u00edvia, \u00e9 poss\u00edvel dizer que nunca um governo anti-imperialista se rendeu t\u00e3o rapidamente (em claro contraste com a Venezuela). Mas o imperialismo e as elites sabem que h\u00e1 l\u00edderes que, apesar de todos os seus erros, conseguem tocar o cora\u00e7\u00e3o das classes mais empobrecidas, mais humilhadas, mais esquecidas. E que, apesar de todos os seus erros, existe o perigo de que possam regressar. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio mobilizar o aparelho repressivo e o sistema judicial para acus\u00e1-los de crimes que os inabilitem politicamente para sempre. Foi o que se passou com Rafael Correa, com Lula da Silva e com Cristina Kirchner (neste caso, sem \u00eaxito por agora). Passar-se-\u00e1 o mesmo com Evo.<\/p>\n<h4>As avalia\u00e7\u00f5es cr\u00edticas<\/h4>\n<p>Depois da queda do seu governo, as cr\u00edticas mais contundentes a Evo provieram n\u00e3o apenas da direita, como seria de esperar, mas tamb\u00e9m de sectores de esquerda e de feministas brancas e mesti\u00e7as latino-americanas. Este facto causou alguma perplexidade e tamb\u00e9m provocou revolta em outros sectores da esquerda e do feminismo, sobretudo de movimentos de mulheres ind\u00edgenas. No calor dos acontecimentos recentes, pensar que depois de 32 mortos e 700 feridos; depois do proclamado triunfo da supremacia branca em vers\u00e3o crioulo-mesti\u00e7a e da b\u00edblia evang\u00e9lica frente ao \u201cpaganismo sat\u00e2nico\u201d da Pachamama; depois da queima da wiphala (bandeira ind\u00edgena) e de mandar os \u00edndios voltar aos seus remotos lugares de invisibilidade (tal como os batust\u00f5es na \u00c1frica do Sul do apartheid); pensar depois de tudo isto que haja boas (ou inclusive melhores) condi\u00e7\u00f5es para construir a democracia ind\u00edgena de base, parece-me um del\u00edrio.<\/p>\n<p>Certamente as cr\u00edticas de alguns sectores de esquerda, em vers\u00e3o explicitamente feminista ou n\u00e3o, merecem uma reflex\u00e3o mais profunda. Afirmei muitas vezes que a verdadeira renova\u00e7\u00e3o da luta por uma sociedade mais justa e por uma pol\u00edtica de liberta\u00e7\u00e3o para o novo s\u00e9culo tem nas lutas das mulheres uma das bases mais consistentes. Argentina, Venezuela e Chile oferecem provas contundentes disto. Mas n\u00e3o restam d\u00favidas que depois da queda do governo de Evo Morales a pol\u00e9mica subiu de tom e o feminismo latino-americano parece hoje profundamente dividido. Deve notar-se que ao longo da \u00faltima d\u00e9cada muitas activistas ind\u00edgenas fizeram cr\u00edticas aos seus governos e fizeram-no sempre de uma perspectiva construtiva. Para me limitar apenas \u00e0s grandes l\u00edderes com que trabalhei, recordo Nina Pacari, Blanca Chancoso e Mar\u00eda Eugenia Choque, hoje presa e com a sa\u00fade em perigo por ter presidido ao tribunal eleitoral e nessa qualidade ser respons\u00e1vel por suposta fraude eleitoral. Muitas delas mantiveram alguma dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos feminismos, e recusaram mesmo considerar-se feministas por pensar que essa era uma designa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de mulheres brancas e mesti\u00e7as. Mas o importante foi que estiveram juntas em muitas lutas.<\/p>\n<p>Tenho defendido que as tr\u00eas grandes domina\u00e7\u00f5es do nosso tempo (desde o s\u00e9culo XVII) s\u00e3o o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado. As tr\u00eas est\u00e3o presentes hoje com grande virul\u00eancia e actuam articuladamente porque o trabalho livre pr\u00f3prio do capitalismo n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel sem o trabalho escravo, altamente desvalorizado ou n\u00e3o pago. Estas \u00faltimas formas de trabalho s\u00e3o alimentadas por popula\u00e7\u00f5es racializadas e sexualizadas, consideradas sub-humanas: popula\u00e7\u00f5es de matriz africana, povos ind\u00edgenas, mulheres, povos roma, castas inferiores, etc. O drama do nosso tempo \u00e9 que enquanto a domina\u00e7\u00e3o actua articuladamente, a resist\u00eancia f\u00e1-lo de forma fragmentada. Quantos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es anticapitalistas n\u00e3o foram racistas e sexistas? Quantos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es anti-racistas n\u00e3o foram sexistas e pro-capitalistas? E quantos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es feministas n\u00e3o foram racistas e pro-capitalistas? Na medida em que se mantenha esta assimetria entre domina\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sair do inferno capitalista, colonialista e heteropatriarcal em que nos encontramos. Nesta assimetria talvez encontremos pistas para explicar o mal-estar causado por algumas cr\u00edticas. Tal como foram formuladas, muitas das cr\u00edticas contribu\u00edram para aprofundar ainda mais a fragmenta\u00e7\u00e3o das resist\u00eancias ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcado no continente.<\/p>\n<p>Outros dois factores s\u00e3o igualmente importantes. Por um lado, h\u00e1 que distinguir entre lutas importantes e lutas urgentes. As lutas anticapitalistas, anticolonialistas e antipatriarcais s\u00e3o todas igualmente importantes, mas, dependendo do contexto, umas podem ser mais urgentes que outras. Perante o golpe brutal do imperialismo na Bol\u00edvia contra Evo, qual seria a luta mais urgente, defender as solu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas propostas por Evo ou demoniz\u00e1-lo como se fosse o \u00fanico culpado da sua desgra\u00e7a pol\u00edtica? Num contexto de grande agressividade imperial, n\u00e3o seria mais urgente mostrar que as alternativas de esquerda devem ser encontradas democraticamente dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds e de maneira nenhuma ser funcionais ao imperialismo?<\/p>\n<div id=\"attachment_988217\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-988217\" class=\"size-large wp-image-988217\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales3-Oruro-dic2016-ABI-720x481.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"481\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales3-Oruro-dic2016-ABI-720x481.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales3-Oruro-dic2016-ABI-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales3-Oruro-dic2016-ABI-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Evo-Morales3-Oruro-dic2016-ABI.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-988217\" class=\"wp-caption-text\">Oruro, Dezembro 2016. Foto de arquivo ABI<\/p><\/div>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 que distinguir o kairos, os tempos e as oportunidades. N\u00e3o se trata de silenciar as cr\u00edticas, mas de encontrar o tom que n\u00e3o ofere\u00e7a \u00e0 direita nacional e internacional raz\u00f5es para aumentar a sua agressividade. Por exemplo, as cr\u00edticas justas ao neo-extractivismo de Evo poderiam ser feitas num tempo e num estilo que n\u00e3o favorecesse uma solu\u00e7\u00e3o ainda mais neo-extractivista, com menos soberania nacional e muito menos preocupa\u00e7\u00e3o pela redistribui\u00e7\u00e3o social. O crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 branquear ou n\u00e3o erros graves de potenciais aliados, mas analisar o momento e o contexto; e ter claro que as cr\u00edticas fortalecem ou, pelo menos, n\u00e3o debilitam as resist\u00eancias anticapitalistas, anticolonialistas e antipatriarcais. Os e as de baixo que hoje choram a morte da sua gente nos massacres de Sacaba e de Senkata (depois de treze anos em que os militares n\u00e3o haviam disparado contra o povo, coisa in\u00e9dita na Bol\u00edvia), ficaram mais s\u00f3s com as cr\u00edticas de esquerda e feministas ao processo pol\u00edtico em que confiaram.<\/p>\n<h4>Desafios<\/h4>\n<p>O Estado de que Evo Morales foi presidente n\u00e3o chegou a ser plurinacional. Foi um Estado obviamente muito mais ben\u00e9volo com o bem-estar das popula\u00e7\u00f5es flageladas pelas viola\u00e7\u00f5es, a discrimina\u00e7\u00e3o, o esquecimento e a humilha\u00e7\u00e3o, mas operou a partir de uma matriz institucional e cultural colonial, centralista e autorit\u00e1ria. A in\u00e9rcia da hist\u00f3ria pesa igualmente nos que mais sofrem com ela, mesmo quando procuram combat\u00ea-la. Mas a paci\u00eancia e a resist\u00eancia ind\u00edgenas v\u00eam de h\u00e1 muitos s\u00e9culos. Um pa\u00eds como a Bol\u00edvia s\u00f3 ser\u00e1 plenamente democr\u00e1tico quando for governado por ind\u00edgenas e segundo as cosmovis\u00f5es ind\u00edgenas. O poder do Estado s\u00f3 tem sentido se a governa\u00e7\u00e3o estiver orientada para transform\u00e1-lo. O poder do Estado deve ser utilizado para iniciar uma longa transi\u00e7\u00e3o para um Estado verdadeiramente plurinacional, anticapitalista, anticolonialista e antipatriarcal. Tal como antes Benito Ju\u00e1rez, Evo Morales foi um \u00edndio fora do lugar A aprendizagem come\u00e7ou com eles e n\u00e3o termina com eles. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 apenas um come\u00e7o. No caso de Evo Morales, depois de 500 anos de aus\u00eancia pol\u00edtica, um come\u00e7o de 13 anos teve que ser for\u00e7osamente confuso e at\u00e9 contradit\u00f3rio. 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