{"id":932,"date":"2009-08-12T00:00:00","date_gmt":"2009-08-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2009-09-30T15:01:03","modified_gmt":"2009-09-30T15:01:03","slug":"nxo-violxncia-em-um-mundo-violento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2009\/08\/nxo-violxncia-em-um-mundo-violento\/","title":{"rendered":"N\u00e3o viol\u00eancia em um mundo violento"},"content":{"rendered":"<p>O tema \u00e9 dif\u00edcil, pe\u00e7o em meu interior para que a inspira\u00e7\u00e3o envolva as palavras e nosso entendimento. <\/p>\n<p>Qual \u00e9 o problema? Se eu for atacado, se eu for humilhado, se estou sujeito a agress\u00f5es de todo tipo, como posso defender-me delas sem a viol\u00eancia? Como posso frear uma for\u00e7a sem contrapor outra for\u00e7a similar? Se um poder quer  me sufocar, ou a meu grupo e, al\u00e9m disso, esse poder me difama pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que outra op\u00e7\u00e3o me deixa que n\u00e3o seja a de deter essa viol\u00eancia de algum modo? O que pode fazer o d\u00e9bil para enfrentar-se \u00e0 viol\u00eancia do forte? <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m quer a viol\u00eancia, mas como a viol\u00eancia \u00e9 exercida sobre a gente, sua utiliza\u00e7\u00e3o fica sempre justificada. A viol\u00eancia para frear a viol\u00eancia tem um sabor de legitimidade. \u201cA N\u00e3o Viol\u00eancia est\u00e1 bem quando estamos entre gente civilizada, mas quando temos na frente uns trogloditas escutamos dizer: fique calado senhor n\u00e3o violento e nos deixe colocar ordem na desordem\u201d. Acho que este \u00e9 mais ou menos o tema em quest\u00e3o. Como ser n\u00e3o violento no meio de um mundo violento. <\/p>\n<p>A viol\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 algo a mais em nossa forma de vida da qual possamos prescindir assim t\u00e3o f\u00e1cil. \u00c9 um modo de a\u00e7\u00e3o social que vem de longe na hist\u00f3ria humana, \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o ao temor e ao medo bastante natural e bastante animal. A viol\u00eancia tem ra\u00edzes profundas em n\u00f3s e n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de erradic\u00e1-la por decreto. A organiza\u00e7\u00e3o social est\u00e1 baseada na viol\u00eancia. Viol\u00eancia monopolizada pelos estados e em \u00faltima inst\u00e2ncia pelos ex\u00e9rcitos. Quando a sociedade entra em p\u00e2nico os ex\u00e9rcitos reagem. Quando o temor se apodera da pessoa, tamb\u00e9m a viol\u00eancia se apodera dela. Podemos dizer de n\u00f3s somos gente boa e pac\u00edfica, mas se de repente algo p\u00f5e em perigo o que \u00e9 meu, o que me d\u00e1 estabilidade, se algu\u00e9m entra furtivamente para arrebat\u00e1-lo, a viol\u00eancia emerge desde as camadas tect\u00f4nicas da minha consci\u00eancia e um s\u00edmio violento me substitui e ocupa meu corpo e estar\u00e1 pronto para reagir. Se o que me ataca \u00e9 muito poderoso, ent\u00e3o contenho minha viol\u00eancia que transformada em ressentimento e em \u00f3dio buscar\u00e1 sua revanche. Ali espera a vingan\u00e7a aninhada culturalmente para se satisfazer quando a oportunidade se apresentar. <\/p>\n<p>\u00c9 que algum de n\u00f3s que vive imerso na sociedade violenta, pode dizer que est\u00e1 livre dela? Por acaso n\u00e3o exercemos viol\u00eancia? <\/p>\n<p>Nas origens da N\u00e3o Viol\u00eancia um senhor chamado Mahavira, contempor\u00e2neo do Buda, decidiu chegar at\u00e9 as \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias sem exercer a viol\u00eancia. Assim n\u00e3o podia caminhar para n\u00e3o pisar as formigas que poderia encontrar a seu passo, e assim em 30 anos alimentando-se mal e movimentando-se mal, obteve a ilumina\u00e7\u00e3o. Ainda hoje, alguns Jainistas, herdeiros das doutrinas de Mahavira, varrem o solo onde caminham antes de pis\u00e1-lo. <\/p>\n<p>Para n\u00e3o exercer viol\u00eancia no meio de um sistema violento, n\u00e3o dever\u00edamos pagar nem receber sal\u00e1rios, dever\u00edamos pular fora de toda regulamenta\u00e7\u00e3o estatal, n\u00e3o pagar impostos, porque com isso que os estados pagamos eles se armam at\u00e9 os dentes&#8230; Ter\u00edamos que isolar-nos totalmente da sociedade e, seguramente, em vez de chamar-nos m\u00edsticos nos encerrariam em seus hosp\u00edcios. <\/p>\n<p>A viol\u00eancia est\u00e1 em todas as partes. A explora\u00e7\u00e3o, a manipula\u00e7\u00e3o, a discrimina\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m s\u00e3o formas de viol\u00eancia que se acumulam em quem as sofre at\u00e9 essa pessoa explodir fisicamente. A taxa de juros dos credi\u00e1rios para a sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e moradia, tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de viol\u00eancia. Quando ocorrem os desbordes nos est\u00e1dios de futebol, com as etnias religiosas na China ou na Amaz\u00f4nia peruana, isto nos surpreende porque n\u00e3o vemos a acumula\u00e7\u00e3o dessas outras formas de viol\u00eancia \u00e0s que as povoa\u00e7\u00f5es est\u00e3o submetidas. Todo bando contr\u00e1rio \u00e9 sempre o violento e o bando da gente \u00e9 o justo que foi obrigado a utiliz\u00e1-la. <\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de mudar, \u00e9 uma cren\u00e7a que est\u00e1 muito enraizada. Intu\u00edmos que a viol\u00eancia n\u00e3o se corresponde com o humano. Mesmo que suspeitemos que a viol\u00eancia seja algo que ele arrasta desde seu antepassado homin\u00eddeo, n\u00e3o vemos possibilidade de sair dela. Al\u00e9m disso, qual seria o motivo para sair dela, j\u00e1 que a humanidade chegou at\u00e9 aqui e n\u00e3o tem sido necess\u00e1rio erradicar a viol\u00eancia. Foi poss\u00edvel controla-la, dirigir os impulsos violentos, se estabeleceu at\u00e9 um sistema de justi\u00e7a para us\u00e1-la com certa racionalidade. Alguns morrem quando a viol\u00eancia sai de controle, mas todos morreremos algum dia, por uma raz\u00e3o ou outra. Deveria haver um motivo muito poderoso para mudar essa dire\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. <\/p>\n<p>Algumas vezes essa crosta de sofrimento e dor que cobre nossa vida \u00e9 atravessada por raios que iluminam espa\u00e7os de liberdade, de amor, de amizade, de solidariedade, de tu, tu que importas muito, \u00e1s vezes, muito mais do que muito. <\/p>\n<p>Algumas vezes um mundo novo aparece ante meus olhos e me vejo a mim mesmo e me desconhe\u00e7o, parecesse que n\u00e3o sou eu, mas a felicidade me invade e isso me faz pensar que n\u00e3o tudo \u00e9 medo, n\u00e3o tudo \u00e9 sofrer, n\u00e3o tudo \u00e9 viol\u00eancia. Se t\u00e3o s\u00f3 esse raio que \u00e0s vezes me atravessa pudesse alargar o buraco da crosta que me apanha e que nos apanha, se isso fora poss\u00edvel, tudo seria muito diferente. Se isso fora poss\u00edvel, a vida teria um sentido para ser vivida. <\/p>\n<p>Estamos falando dos temas fundamentais da vida humana. A reflex\u00e3o em torno ao tema da viol\u00eancia nos enfrenta ao sem-sentido da vida, e se minha vida n\u00e3o tem sentido e se tudo termina com a morte, n\u00e3o haver\u00e1 energia suficiente para tentar um salto humano. <\/p>\n<p>Silo, que \u00e9 muito importante na formula\u00e7\u00e3o atual deste problema, iniciou sua mensagem em 1969 explicando que um manto de viol\u00eancia tinha se estendido na humanidade e que n\u00e3o havia forma de sair dela. Que a viol\u00eancia est\u00e1 na pr\u00f3pria consci\u00eancia, que sua raiz \u00e9 o sofrimento e que se sofre pelo temor \u00e0 solid\u00e3o, o temor \u00e0 doen\u00e7a e o temor \u00e0 morte. Que esse temor tratamos de resolv\u00ea-lo por meio de nossos desejos, nossas ilus\u00f5es e esperan\u00e7as, e que enquanto mais desproporcionados s\u00e3o nossos desejos, mais aumenta nosso sofrimento e nossa viol\u00eancia. Assim iniciava Silo seu ensinamento e depois exporia a par\u00e1bola do carro do desejo, de suas rodas chamadas de \u2018prazer\u2019 e \u2018dor\u2019 e de um cavalo, chamado \u2018Necessidade\u2019, que ficava esgotado quando o carro do desejo estava muito carregado. Com o passar dos anos, estas frases encontrar\u00e3o um extenso desenvolvimento em uma filosofia, uma psicologia e em uma m\u00edstica. <\/p>\n<p>O medo ao nada e \u00e0 morte \u00e9 a subst\u00e2ncia da viol\u00eancia, \u00e9 do que ela \u00e9 feita. Mas n\u00e3o \u00e9 o medo o que fundamenta o humano. N\u00e3o \u00e9 a morte o que lhe d\u00e1 significado, mas a necessidade de imortalidade e de transcend\u00eancia. Se a fa\u00edsca da imortalidade estivesse guardada no fundo do cora\u00e7\u00e3o humano, como uma brasa adormecida que necessita de um sopro para acender-se, e se esse sopro de repente a acendesse e quisesse sair de seu mundo distante para tingir o mundo humano; <\/p>\n<p>Se n\u00e3o desse o mesmo uma a\u00e7\u00e3o que outra, porque certas a\u00e7\u00f5es acendem o fogo interno e outras a\u00e7\u00f5es o apagam. Se o ser humano fosse a yesca em que aninha a fa\u00edsca divina e sua a\u00e7\u00e3o fosse a pedra que a acende, se esse fogo interior fora t\u00e3o intenso que iluminasse o mundo que olho; Se tudo estivesse banhado por um fogo de Ess\u00eancia e Sentido e se isso me preenchesse dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, n\u00e3o quereria apag\u00e1-lo nunca. O ato moral \u00e9 tal porque acende a fa\u00edsca divina no interior do ser. <\/p>\n<p>A N\u00e3o viol\u00eancia \u00e9 um estilo de vida, uma busca do sagrado, a manifesta\u00e7\u00e3o do que \u00e9 verdadeiramente humano. N\u00e3o \u00e9 simplesmente um ato pol\u00edtico, \u00e9, sobretudo, um ato moral, \u00e9 a busca de um novo ser humano, \u00e9 a presen\u00e7a do futuro, \u00e9 o encontro com um ser que ainda n\u00e3o \u00e9. A N\u00e3o Viol\u00eancia \u00e9 a for\u00e7a que transformar\u00e1 ao mundo porque faz com que me transforme a mim mesmo para n\u00e3o converter-me naquilo com o que luto. <\/p>\n<p>Cada vez me resulta mais dif\u00edcil esclarecer o tema, que posso dizer que seja sincero. N\u00e3o posso dar uma c\u00e1tedra, n\u00e3o sei como eu agiria, posto em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um dogma, n\u00e3o posso exigir ao outro que atue como a mim parece, s\u00f3 posso decidir pela minha forma de atuar. <\/p>\n<p>Sinto-me obrigado e pressionado a tomar bandos todos os dias, a tomar posi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o gosto; cada decis\u00e3o, cada a\u00e7\u00e3o \u00e9 uma refer\u00eancia para algum outro que est\u00e1 perto de mim, e para aqueles que me observam, minha decis\u00e3o \u00e9 importante. N\u00e3o posso julgar o que far\u00e1 o outro, eu n\u00e3o tenho nenhuma certeza de ter a raz\u00e3o, nem do que \u00e9 melhor para os demais e para a sociedade. Busco outra coisa, h\u00e1 algo a mais e quero que esse algo a mais se expresse em minha a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o quero exercer a viol\u00eancia, n\u00e3o quero ser parte dos grupos que a exercem e tento encontrar o caminho, mesmo que muitas vezes me veja apanhado em um bando. Quero que em meu atuar se expresse algo novo, algo diferente, os melhores sentimentos. N\u00e3o quero colaborar com o conhecimento que leva \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, quero saltar sobre meu ressentimento e quero que sejam os sentimentos mais formosos os que se expressem quando estou com outros. <\/p>\n<p>N\u00e3o quero impor minhas verdades, mas quero sentir-me livre para poder atuar de acordo com elas. Na situa\u00e7\u00e3o de press\u00e3o na qual vivo cotidianamente, quero encontrar a liberdade interna para atuar como ser humano, para reconhecer o ser humano nos demais. E, atrav\u00e9s da minha a\u00e7\u00e3o cham\u00e1-lo, fazer com que apare\u00e7a, e se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo aparecer no presente, deixar a pegada de uma a\u00e7\u00e3o que possa ser reconhecida no futuro, uma a\u00e7\u00e3o que diga que o humano \u00e9 poss\u00edvel de ser expressado.  <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o posso escolher por ti, assim como n\u00e3o podes escolher por mim. Assim como n\u00e3o posso escolher por ti tamb\u00e9m n\u00e3o te posso julgar, mas n\u00e3o pe\u00e7a que te acompanhe, n\u00e3o pe\u00e7a que te ap\u00f3ie, farei minha escolha e farei vazio ao poder, melhorarei a mim mesmo para que o poder deixe de interessar-me. Superarei meus desejos de poder, aprenderei a retroceder e tratarei que minha a\u00e7\u00e3o mostre algo que ainda n\u00e3o existe, mas que existir\u00e1 no futuro. Minha a\u00e7\u00e3o anunciar\u00e1 o mundo por vir, o ser humano do futuro. <\/p>\n<p>Apenas ou\u00e7o os passos da Marcha da Paz e a N\u00e3o viol\u00eancia, s\u00e3o suaves, n\u00e3o retumbam como tambores de guerra, s\u00e3o soldados que a ningu\u00e9m vencer\u00e3o, mas ali reconhe\u00e7o o eco do procurado, o almejado, algo pelo que vale a pena viver. <\/p>\n<p>Obrigado amigos. <\/p>\n<p>*[Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol para o portugu\u00eas de Cristina Obredor]*<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta palestra foi dada o 18 de julio deste ano. Aprofunda nas respostas n\u00e3o violentas  como um estilo de vida, uma busca do sagrado, a manifesta\u00e7\u00e3o do que \u00e9 verdadeiramente humano. \u00c9 sobretudo, um ato moral. 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