{"id":922853,"date":"2019-09-21T09:48:27","date_gmt":"2019-09-21T08:48:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=922853"},"modified":"2019-09-21T09:48:27","modified_gmt":"2019-09-21T08:48:27","slug":"internet-liberdade-e-controle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2019\/09\/internet-liberdade-e-controle\/","title":{"rendered":"Internet: liberdade \u00e9 controle"},"content":{"rendered":"<p>Como a cren\u00e7a numa no\u00e7\u00e3o iluminista de ordena\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica, junto a neoliberalismo avesso \u00e0 regula\u00e7\u00e3o, produziram caos dominado pelo lucro, e transformaram a rede em instrumento de manipula\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia<\/p>\n<p>por <a title=\"Posts de Rafael Evangelista\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/rafael-evangelista\/\" rel=\"author\">Rafael Evangelista<\/a><\/p>\n<p>Duas palavras v\u00eam permeando o debate sobre o futuro \u2013 em grande medida, o presente \u2013 da democracia frente ao dom\u00ednio das grandes plataformas: desordem e desinforma\u00e7\u00e3o. Grandes conglomerados como Google\/Alphabet<a href=\"http:\/\/comciencia.br\/mentiras-lucrativas-modelos-de-negocio-da-web-exploram-radicalismos-e-ameacam-democracias\/#_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0e Facebook j\u00e1 extrapolaram, faz muito tempo, seu papel como simples empresas de tecnologia \u2013 ainda que isso nada tenha de simples. Tornaram-se gigantescos grupos de m\u00eddia, de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis maiores pelo acesso filtrado do globo ao sistema de not\u00edcias e de conhecimento, ao contato que temos com a realidade do mundo para al\u00e9m de nossas experi\u00eancias pessoais.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando pela primeira dessas palavras, o que significa dizer que vivemos um per\u00edodo de desordem informacional? Fica f\u00e1cil enunciar o que nos incomoda, o que tomamos como produto do desordenamento: movimento antivacinas, a cren\u00e7a de que a Terra \u00e9 plana, negacionismo clim\u00e1tico. Ou ent\u00e3o: novos nacionalismos xenof\u00f3bicos, homofobia, intoler\u00e2ncia. Esses seriam alguns dos efeitos negativos que costumamos atribuir a essa chamada desordem informacional.<\/p>\n<p>Mas o que seria, ent\u00e3o, a ordem? O pressuposto \u00e9 que, se tiv\u00e9ssemos uma boa organiza\u00e7\u00e3o do sistema informacional, os cidad\u00e3os estariam protegidos e imunes a essas ideias retr\u00f3gradas, anticient\u00edficas e, principalmente, antidemocr\u00e1ticas. A democracia, a civiliza\u00e7\u00e3o e talvez o planeta estariam protegidos por cidad\u00e3os conscientes, capazes de zelar por esses valores nobres, como o conhecimento cient\u00edfico racional, ainda que aberto a diferentes racionalidades, e a prote\u00e7\u00e3o da diversidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-922867\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FB_IMG_1563999847796-256x300.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FB_IMG_1563999847796-256x300.jpg 256w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FB_IMG_1563999847796-768x902.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FB_IMG_1563999847796-720x845.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FB_IMG_1563999847796.jpg 1677w\" sizes=\"auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/p>\n<p>Cartum de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mimvenes\">Venes Caitano<\/a><\/p>\n<p>O que parece, na verdade, estar por tr\u00e1s disso \u00e9 a expectativa de uma esfera p\u00fablica funcional, organizada. Essa esfera p\u00fablica seria o espa\u00e7o discursivo em que diversos atores sociais, representantes de grupos de interesse, experts, intelectuais, grupos de defesa de direitos de minorias, debatem sobre os assuntos de interesse p\u00fablico. Desse confronto de ideias e argumentos livres emergiria um consenso racional. \u00c9 uma ideia profundamente iluminista sobre um poder pol\u00edtico que pode ser domado pela raz\u00e3o, que se desenvolve e se aperfei\u00e7oa pela argumenta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o herdeiros dessa perspectiva a respeito da esfera p\u00fablica todo o conjunto de regras sobre liberdade de opini\u00e3o, direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e de regula\u00e7\u00e3o para um funcionamento apropriado do sistema midi\u00e1tico. N\u00e3o seria poss\u00edvel ter um bom funcionamento da democracia sem alguns pr\u00e9-requisitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>As premissas sobre liberdades e direitos, quando n\u00e3o atendidas, j\u00e1 nos colocam um certo leque de problemas. Mas esses problemas s\u00e3o ainda mais graves no contexto de sociedades como a nossa, do Sul Global, em que as regras institucionais s\u00e3o fr\u00e1geis. De uma maneira geral, s\u00e3o sociedades que viveram hist\u00f3rias coloniais e de instabilidades pol\u00edticas relativamente recentes. Isso contribuiu decisivamente para uma implementa\u00e7\u00e3o muito t\u00eanue das regras democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos fez uma cr\u00edtica importante \u00e0 ideia geral de esfera p\u00fablica e especificamente de sua aplica\u00e7\u00e3o no contexto do Sul Global (Boaventura, 2012). Ele cita o car\u00e1ter euroc\u00eantrico do conceito, um tribalismo da burguesia europeia datado do in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII. O capitalismo e o colonialismo teriam convertido tal localismo em aspira\u00e7\u00e3o global e conceito te\u00f3rico universal. Ao mesmo tempo, uma divis\u00e3o abissal entre col\u00f4nia e metr\u00f3pole tornaria a esfera p\u00fablica impens\u00e1vel em sociedades coloniais. Impens\u00e1vel n\u00e3o porque teoricamente imposs\u00edvel e sim porque s\u00e3o sujeitas aos efeitos dessa diferen\u00e7a hist\u00f3rica e de poder entre metr\u00f3poles e col\u00f4nias. Justamente pelo apagamento, pelo esquecimento de que essas diferen\u00e7as est\u00e3o em a\u00e7\u00e3o e s\u00e3o reais, se formaria uma ideia contr\u00e1ria ao pr\u00f3prio universalismo. Assim, seria como se houvesse algo de errado com o Sul em si mesmo, eximindo-se de culpa as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas assim\u00e9tricas e o car\u00e1ter idealista e ut\u00f3pico do pr\u00f3prio projeto de esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe aqui discutir \u00e0 exaust\u00e3o essas cr\u00edticas de Boaventura. O que cabe identificar nela s\u00e3o dois elementos. O primeiro \u00e9 o quanto essa funcionalidade \u201csaud\u00e1vel\u201d da esfera p\u00fablica nunca ser\u00e1 perfeita, \u00e9 um projeto de busca constante e de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica necess\u00e1ria, porque parte de premissas idealizadas e de condi\u00e7\u00f5es de outros tempos e outras realidades. Assim sendo, a esfera p\u00fablica \u00e9 uma idealiza\u00e7\u00e3o que d\u00e1 origem a um projeto em constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. No Sul Global, esse \u00e9 o segundo ponto, trata-se de projeto com caracter\u00edsticas espec\u00edficas. A principal delas \u00e9 levar em conta, n\u00e3o esquecer, o passado colonial e as assimetrias de poder com o Norte Global e, principalmente, o car\u00e1ter particular e prec\u00e1rio das nossas institucionalidades. Toda a importa\u00e7\u00e3o acr\u00edtica de projetos democr\u00e1ticos tende ao fracasso.<\/p>\n<h4>Boas regras no papel, bandalheira eleitoral e darwinismo social<\/h4>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>Podemos pensar as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es brasileiras. Nelas, em geral um bom conjunto geral de novas regras foi incorporado, sendo o melhor exemplo a proibi\u00e7\u00e3o do financiamento empresarial de campanhas, regra em sintonia com boa parte das boas democracias do mundo. J\u00e1 antes das novas regras o sistema continua podendo ser considerado bastante transparente, com todas as doa\u00e7\u00f5es identificadas. A falha, contudo, est\u00e1 na institucionalidade. As regras acabam sendo para \u201cingl\u00eas ver\u201d, haja vista o tradicional caixa 2 e, agora, o flagrante financiamento empresarial para a publicidade microdirecionada em aplicativos de mensagem. A lentid\u00e3o, desinteresse e inefici\u00eancia na investiga\u00e7\u00e3o dessas den\u00fancias impactam a legitimidade do processo.<\/p>\n<p>Na dificuldade de regula\u00e7\u00e3o da desordem informacional do Sul Global h\u00e1 ainda outros complicadores. S\u00e3o de ordem geral, ainda que experimentados e dosados localmente. Um deles \u00e9 o neoliberalismo, que o soci\u00f3logo David Harvey (2008) define como sendo, em primeiro lugar, \u201cuma teoria das pr\u00e1ticas pol\u00edtico-econ\u00f4micas que prop\u00f5e que o bem-estar humano pode ser melhor promovido liberando-se as liberdades e capacidades empreendedoras individuais no \u00e2mbito de uma estrutura institucional caracterizada por s\u00f3lidos direitos \u00e0 propriedade privada, livres mercados e livre com\u00e9rcio\u201d. Mas, progressivamente, a ideia de neoliberalismo foi ganhando cores mais radicais. E com efeitos muito mais perversos em sociedades como a nossa, que nunca conseguiram implementar um Estado de bem-estar social. No Sul, o neoliberalismo virou um novo tipo de darwinismo social, em que indiv\u00edduos e empresas competem \u00e0 exaust\u00e3o, como se dali fosse emergir um novo ser mais forte e mais adaptado \u00e0 realidade do mercado. Virou legitima\u00e7\u00e3o ou institucionaliza\u00e7\u00e3o de uma economia clandestina.<\/p>\n<p>O neoliberalismo \u00e9 uma teoria mas tornou-se tamb\u00e9m uma atitude com rela\u00e7\u00e3o ao mundo. Diz Harvey que \u201cnenhum modo de pensamento se torna dominante sem propor um aparato conceitual que mobilize nossas sensa\u00e7\u00f5es e nossos instintos, nossos valores e nossos desejos, assim como as possibilidades inerentes ao mundo social que habitamos\u201d. Nesse sentido, a ordem que o neoliberalismo almeja na verdade \u00e9 uma utopia sobre uma esp\u00e9cie de organiza\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica surgida do caos. Autom\u00e1tica \u00e9 uma palavra importante aqui porque fala tanto de esperar que os conflitos se resolvam sozinhos, automaticamente, como de delegar o consequente ordenamento, a resolu\u00e7\u00e3o do conflito, a sistemas autorregulados, de certa forma abdicando da interven\u00e7\u00e3o externa e da medi\u00e7\u00e3o direta. Um desfecho tecnol\u00f3gico de uma premissa neoliberal.<\/p>\n<p>Mas a frase que cito de Harvey nos permite falar ainda sobre um outro obst\u00e1culo ao ordenamento, \u00e0 regula\u00e7\u00e3o do sistema informacional, um impedimento agora mais espec\u00edfico \u00e0 \u00e1rea de tecnologia. Richard Barbrook (2009) define o que ele chama de ideologia californiana como uma conflu\u00eancia de ideais hippies herdados da contracultura com certas condi\u00e7\u00f5es privilegiadas de emprego na regi\u00e3o do Vale do Sil\u00edcio, na Calif\u00f3rnia, que teriam dado origem a uma vis\u00e3o otimista do potencial emancipat\u00f3rio das novas tecnologias, fundindo ideais libert\u00e1rios com o empreendedorismo individualista dos anos 1990. Seria basicamente o neoliberalismo aplicado \u00e0 internet, que formula uma posi\u00e7\u00e3o sempre avessa \u00e0s tentativas de regula\u00e7\u00e3o da rede, pois qualquer regula\u00e7\u00e3o tiraria a pujan\u00e7a inovadora das empresas e atentaria contra a liberdade. \u00c9 um discurso simplista, mas com grande efeito nos debates p\u00fablicos at\u00e9 muito recentemente.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o quest\u00f5es que nos d\u00e3o um quadro geral dos dilemas em torno do ordenamento de que hoje sentimos falta. Por um lado, o ordenamento \u00e9 condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para criar as condi\u00e7\u00f5es em que um debate pol\u00edtico racional, uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica human\u00edstica poderia prosperar. Por outro, h\u00e1 a fraqueza regulat\u00f3ria de um Estado perif\u00e9rico de institui\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis. Um Estado que se fragiliza ainda mais a partir das press\u00f5es de atores sociais que acham que a liberaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 rem\u00e9dio para tudo.<\/p>\n<h4>Desinforma\u00e7\u00e3o que vira lucro<\/h4>\n<p>No in\u00edcio do texto, apontei ainda uma segunda palavra como constantemente citada nos debates sobre democracia e plataformas: desinforma\u00e7\u00e3o. Essa palavra est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 ideia de desordem, \u00e9 a desordem informacional que leva \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 interessante o contraste com o seu falso cognato em ingl\u00eas: <em>disinformation<\/em><a href=\"http:\/\/comciencia.br\/mentiras-lucrativas-modelos-de-negocio-da-web-exploram-radicalismos-e-ameacam-democracias\/#_ftn2\">[2]<\/a>. Na verdade, desinforma\u00e7\u00e3o, em portugu\u00eas, estava muito mais ligada a um equ\u00edvoco do que a uma perversidade. O desinformado \u00e9 aquele que n\u00e3o tem informa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o mal informado \u00e9 aquele que tem a informa\u00e7\u00e3o errada. A palavra em ingl\u00eas,\u00a0<em>disinformation<\/em>, est\u00e1 ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o deliberadamente falsa, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o de m\u00e1 qualidade. Em portugu\u00eas, originalmente desinforma\u00e7\u00e3o estava ligada a uma aus\u00eancia, uma falta ou um equ\u00edvoco por parte do receptor.<\/p>\n<p>Os dois efeitos, a desinforma\u00e7\u00e3o e a m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o um problema. Mas precisamos distingui-los porque para cada um precisamos de uma a\u00e7\u00e3o \u2013 e, nesse sentido, uma regula\u00e7\u00e3o, um ordenamento \u2013 diferente. Hoje, a m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um acidente, ela \u00e9 um subproduto que retroalimenta a for\u00e7a das plataformas numa sociedade interconectada. Pode n\u00e3o ter sido algo desejado a princ\u00edpio, mas se tornou parte importante da economia das plataformas. A m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais popular, mais sensacional, gera mais cliques, mais rea\u00e7\u00f5es emocionais, entretenimento e engajamento do que a informa\u00e7\u00e3o verdadeira. E a rea\u00e7\u00e3o das plataformas, at\u00e9 mesmo por esses motivos, tem sido estruturalmente agn\u00f3stica, ou seja, de incorpora\u00e7\u00e3o do desvio como se fosse parte da normalidade. A m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o se tornou um neg\u00f3cio, tanto do ponto de vista pol\u00edtico quanto do ponto de vista financeiro, que se alimenta e possivelmente faz melhor uso de todos os est\u00edmulos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado em vig\u00eancia no momento. A frase \u201cn\u00e3o \u00e9 <em>bug<\/em>, \u00e9 <em>feature<\/em>\u201d [\u201cn\u00e3o \u00e9 falha, \u00e9 planejado\u201d, se formos aportuguesar] se aplica muito bem aqui, porque a m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o \u00e9 incorporada e usufrui do sistema de recompensas hoje institu\u00eddo.<\/p>\n<h4>Dois exemplos pr\u00e1ticos, um internacional e outro brasileiro<\/h4>\n<p>O instituto Data &amp; Society, dos Estados Unidos, publicou no final do ano passado um relat\u00f3rio com o t\u00edtulo \u201cAlternative influence: broadcasting the reactionary right on YouTube\u201d. O estudo, de autoria de Rebecca Lewis (2018), mapeia o que chama de \u201crede de influ\u00eancia alternativa\u201d, um sistema paralelo de m\u00eddia que adota as t\u00e9cnicas dos chamados<em>\u00a0influencers<\/em>\u00a0para ganhar audi\u00eancia e repassar uma ideologia pol\u00edtica. Essa rede envolve um espectro ampliado de comentaristas de m\u00eddia, acad\u00eamicos e celebridades de internet, um leque que vai das vers\u00f5es mais tradicionais do conservadorismo at\u00e9 chegar ao neonazismo. O estudo mostra como esses agentes atuam em rede de forma a compartilhar popularidade entre eles. Por exemplo, um membro mais moderado do grupo convida um membro mais radical para uma participa\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo. Embora o mais moderado diga n\u00e3o concordar com as posi\u00e7\u00f5es do extremista, a audi\u00eancia do moderado se excita pelo conte\u00fado pol\u00eamico e os f\u00e3s do extremista contribuem com alguma visualiza\u00e7\u00e3o. O extremista se torna mais popular e os dois se beneficiam. O relat\u00f3rio aponta tamb\u00e9m para os incentivos financeiros recebidos. Diversos estudos j\u00e1 vinham apontando como o algoritmo do YouTube prioriza v\u00eddeos mais radicais nas suas indica\u00e7\u00f5es, um espanto e indigna\u00e7\u00e3o que gera mais engajamento e na outra ponta recompensa as produ\u00e7\u00f5es mais ultrajantes. Mas mesmo quando o benef\u00edcio financeiro n\u00e3o vem da pr\u00f3pria plataforma, em recompensa por visualiza\u00e7\u00f5es, esses ide\u00f3logos da extrema direita lucram com contribui\u00e7\u00f5es diretas da audi\u00eancia. Na verdade, em geral a plataforma bane aqueles que j\u00e1 se tornaram mais populares e vis\u00edveis ao grande p\u00fablico, os quais t\u00eam mais capacidade de conseguir fundos por canais alternativos e que conseguem passar para seu p\u00fablico a imagem de perseguidos pelo sistema.<\/p>\n<p>No momento n\u00e3o h\u00e1 dados definitivos sobre isso, mas h\u00e1 v\u00e1rias indica\u00e7\u00f5es de que esquemas semelhantes de articula\u00e7\u00e3o de extremistas v\u00eam ocorrendo no Brasil. No nosso caso, isso se torna mais grave dado o perfil mais concentrado em termos de propriedade e pouco plural politicamente da m\u00eddia tradicional. Uma hip\u00f3tese \u00e9 que h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o mais forte entre comentaristas da m\u00eddia tradicional brasileira e a rede extremista nacional, o que ajuda a dar uma sensa\u00e7\u00e3o de legitimidade para os radicalismos.<\/p>\n<p>Um lugar interessante de observa\u00e7\u00e3o sobre m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os grupos de pol\u00edtica do WhatsApp. H\u00e1 um bom material sobre eles que j\u00e1 foi apurado pela imprensa, por soci\u00f3logos e cientistas da computa\u00e7\u00e3o interessados na din\u00e2mica e no fluxo de informa\u00e7\u00f5es falsas em grupos de mensagens, e a esses trabalhos adiciono aqui algumas observa\u00e7\u00f5es de cunho etnogr\u00e1fico que venho acumulando desde meados do ano passado. Esse tr\u00e2nsito entre material da imprensa tradicional e os grupos de WhatsApp, por exemplo, \u00e9 algo que venho notando. Em geral, o conte\u00fado da m\u00eddia tradicional, principalmente r\u00e1dios e TVs, aparece para legitimar an\u00e1lises parciais ou informa\u00e7\u00f5es evidentemente erradas.<\/p>\n<p>Um dos melhores mapeamentos dos grupos sobre pol\u00edtica no WhatsApp vem sendo feito pelo grupo de cientistas da computa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) liderado pelo professor Fabr\u00edcio Benevenuto, que criou o Monitor de WhatsApp (Melo\u00a0<em>et al<\/em>, 2019). No per\u00edodo eleitoral e durante a greve dos caminhoneiros, eles monitoraram o tr\u00e1fego de mais de 300 grupos de discuss\u00e3o, procurando entender a dissemina\u00e7\u00e3o do que chamam de\u00a0<em>(mis)information<\/em>, ou seja, informa\u00e7\u00e3o equivocada, que pode ou n\u00e3o ter sido produzida maliciosamente, e muitas vezes \u00e9 transmitida inadvertidamente pelas pessoas. Eles analisaram as estruturas de rede que emergem das intera\u00e7\u00f5es, dentro dos grupos e entre os grupos, buscando mais especificamente identificar o tr\u00e2nsito de conte\u00fados com informa\u00e7\u00f5es comprovadamente falsas (Resende\u00a0<em>et al<\/em>, 2019).<\/p>\n<p>O que esses pesquisadores descobriram \u00e9 que grupos aparentemente desconexos na verdade est\u00e3o ligados. Alguns membros atuam em diversos grupos, alguns grupos formam aglomerados com muitos membros em comum. Esses membros formam entre si uma estrutura paralela, articulada. Essa estrutura \u00e9 impercept\u00edvel, invis\u00edvel para o membro isolado de algum desses grupos. Ou seja, dada essa invisibilidade, o que se tem s\u00e3o estruturas de vigil\u00e2ncia de usu\u00e1rios atuando sobre os grupos. Uma das conclus\u00f5es dos pesquisadores \u00e9 que o WhatsApp, nesse contexto, passa a ter um funcionamento semelhante ao de uma rede social. Outro dado importante que identificaram \u00e9 que as imagens contendo informa\u00e7\u00e3o comprovadamente falsa circularam oito vezes mais do que as outras.<\/p>\n<p>A essa an\u00e1lise acho importante adicionar as revela\u00e7\u00f5es trazidas principalmente pela\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0sobre os disparos de WhatsApp feitos nas elei\u00e7\u00f5es. O jornal conseguiu apurar que empres\u00e1rios fizeram contratos de at\u00e9 US$ 3 milh\u00f5es com ag\u00eancias especializadas no disparo automatizado de mensagens. O mais famoso desses empres\u00e1rios acusados atua no setor de varejo, o que indica a possibilidade de repeti\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos de marketing de sua empresa para o \u00e2mbito pol\u00edtico. Doa\u00e7\u00f5es diretas por empresas foram vetadas nesse pleito. Os empres\u00e1rios teriam adquirido bases de usu\u00e1rios vendidas por ag\u00eancias, o que como pr\u00e1tica de campanha \u00e9 ilegal \u2013 e algo que refor\u00e7a a ideia de que pr\u00e1ticas de marketing comercial foram incorporadas ao marketing eleitoral. Diversas reportagens, al\u00e9m das da\u00a0<em>Folha<\/em>, apontam um conjunto de empresas e um mercado que oscila entre o formal e o informal, dedicado ao envio de mensagens direcionadas usando o aplicativo.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0denunciou ainda que as ag\u00eancias conseguem gerar n\u00fameros internacionais usados por funcion\u00e1rios para driblarem restri\u00e7\u00f5es contra spam e para administrarem ou participarem de grupos. Isso indica que, al\u00e9m do envio de mensagens individualizadas, a estrat\u00e9gia envolveu o gerenciamento an\u00f4nimo de grupos. Esse gerenciamento, como j\u00e1 apontei, \u00e9 invis\u00edvel. O grupo de WhatsApp aparenta ser espont\u00e2neo, ter uma din\u00e2mica natural, mas na verdade \u00e9 administrado por funcion\u00e1rios envolvidos na campanha de um candidato.<\/p>\n<p>Segundo o jornal apurou junto a ex-funcion\u00e1rios e clientes dessas ag\u00eancias, os administradores usam algoritmos que segmentam os membros dos grupos entre apoiadores, detratores e neutros, e assim definem o tipo de conte\u00fado que enviam. Os apoiadores mais ativos do candidato seriam ainda contatados para criarem mais grupos em favor do candidato. Em outro artigo, o jornal apontou como alguns desses grupos simulam uma organiza\u00e7\u00e3o militar, auto-identificando-se como um \u201cex\u00e9rcito virtual\u201d em favor de um candidato. De acordo com o jornal, os grupos s\u00e3o divididos em \u201cbrigadas\u201d, \u201ccomandos\u201d e \u201cbatalh\u00f5es\u201d, reunindo principalmente jovens, alguns com menos de 18 anos de idade.<\/p>\n<h4>Adeus \u00e0s ilus\u00f5es<\/h4>\n<p>Pois bem, o que se tira desse exemplo brasileiro e que pontes podem ser feitas com o exemplo internacional, do YouTube? Que desordem informacional \u00e9 essa que emerge e que estimula a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas? Acredito que h\u00e1 aqui dois fatores.<\/p>\n<p>O primeiro tem a ver com essa esfera p\u00fablica idealizada, que segundo Boaventura foi transformada em aspira\u00e7\u00e3o global, mas que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil de ser institu\u00edda devido a press\u00f5es variadas em favor de um liberalismo irreal que desconsidera as assimetrias de poder entre os atores sociais. Em contextos como os do Sul Global, esse quadro se torna ainda mais dif\u00edcil. Falando especificamente do Brasil, a desordem informacional \u00e9 precedida por uma grande concentra\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imaginamos, n\u00e3o faz muito, que a internet poderia ser um atalho para se resolver esse problema da concentra\u00e7\u00e3o sem se perturbar demais os poderes constitu\u00eddos. Seria a democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o por meio da tecnologia. Contudo, o mercado da internet evolui de forma a recompensar o fluxo indistinto de dados, o capitalismo de vigil\u00e2ncia e a captura da aten\u00e7\u00e3o. Esse mercado vem criando est\u00edmulos ao engajamento cont\u00ednuo, explorando as emo\u00e7\u00f5es extremadas e capazes de mobilizar ao m\u00e1ximo os sujeitos. A l\u00f3gica desse processo fica muito longe da ideia de exposi\u00e7\u00e3o de argumentos racionais para o entendimento m\u00fatuo. Os algoritmos v\u00e3o progressivamente radicalizando suas sugest\u00f5es, instigando e fascinando com conspira\u00e7\u00f5es e revanchismo. Abaixo das plataformas surge o empreendedorismo do \u00f3dio:\u00a0<em>youtubers<\/em>\u00a0radicais,<em>\u00a0influencers<\/em>\u00a0fascistas, comunicadores pr\u00f3-interven\u00e7\u00e3o militar. E junto com eles, pequenos neg\u00f3cios, como aqueles especializados em marketing via WhatsApp, que mistura o eleitoral com o comercial.<\/p>\n<p>Em algum momento se sonhou com uma \u00e1gora digital democr\u00e1tica, capaz de conectar a humanidade, fazendo com que dela emergisse o que h\u00e1 de melhor. Apostou-se que bastava manter o que seria uma \u201cnatureza\u201d original da internet, livre e aberta, que os benef\u00edcios positivos seriam uma consequ\u00eancia l\u00f3gica. O que assistimos, no entanto, foi a constru\u00e7\u00e3o de modelos de neg\u00f3cio predat\u00f3rios da aten\u00e7\u00e3o, do esc\u00e2ndalo e do menor denominador comum. Sem interven\u00e7\u00e3o humana, racional, participativa e justa, corremos o risco de v\u00ea-los solaparem a pr\u00f3pria democracia.<strong><em><br \/>\n<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a cren\u00e7a numa no\u00e7\u00e3o iluminista de ordena\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica, junto a neoliberalismo avesso \u00e0 regula\u00e7\u00e3o, produziram caos dominado pelo lucro, e transformaram a rede em instrumento de manipula\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia por Rafael Evangelista Duas palavras v\u00eam permeando 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