{"id":917409,"date":"2019-09-14T08:48:02","date_gmt":"2019-09-14T07:48:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=917409"},"modified":"2019-09-14T08:48:02","modified_gmt":"2019-09-14T07:48:02","slug":"aos-super-ricos-os-super-genes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2019\/09\/aos-super-ricos-os-super-genes\/","title":{"rendered":"Aos super ricos, os super genes?"},"content":{"rendered":"<p>Bi\u00f3logos de todo o mundo participam de uma corrida rumo \u00e0 edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u2014 que permitir\u00e1 curar doen\u00e7as e \u201caprimorar\u201d a natureza e o ser humano. Mas quais as consequ\u00eancias, num mundo hoje marcado por desigualdades e preconceitos?<\/p>\n<p><a title=\"Posts de Walter Isaacson\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/walterisaacson\/\" rel=\"author\">Por <strong>Walter Isaacson<\/strong> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Gabriela Leite<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>QUEBEC<\/strong><\/p>\n<p>Biologia \u00e9 a nova tecnologia. Fui a uma confer\u00eancia na cidade de Quebec sobre <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/CRISPR\">CRISPR<\/a> [sigla em ingl\u00eas para \u201cConjunto de Repeti\u00e7\u00f5es Palindr\u00f4micas Curtas Regularmente Espa\u00e7adas\u201d], a ferramenta molecular projetada para editar genes, e senti a mesma energia das reuni\u00f5es que o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Homebrew_Computer_Club\"><em>Homebrew Computer Club<\/em><\/a> [grupo de entusiastas de computadores que se reunia nos EUA nos anos 1970 e 80] fazia na Feira de Computadores nos anos 1970.\u00a0 Exceto que os jovens inovadores agora est\u00e3o programando com c\u00f3digo\u2026 gen\u00e9tico. Agora que as escolas est\u00e3o finalmente percebendo que toda crian\u00e7a deveria aprender a programar, elas ter\u00e3o que passar a ensinar, no lugar do 0101, o AGCT, as quatro bases do DNA.<\/p>\n<p>Muitos dos cientistas pioneiros estavam l\u00e1, incluindo Jennifer Doudna, da universidade de Berkley, EUA, uma das pessoas que descobriu, em 2012, como combinar dois trechos de RNA com uma enzima para fazer uma tesoura que poderia cortar o DNA em uma localiza\u00e7\u00e3o precisa; e Feng Zhang, do Broad Institute, EUA, que concorreu com ela para mostrar como a ferramenta poderia editar genes em seres humanos, e est\u00e1 agora em uma batalha com ela pelas patentes da tecnologia.<\/p>\n<p>A atmosfera \u00e9 carregada com a combina\u00e7\u00e3o catalisadora de competi\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o remanescente de quando Bill Gates e Steve Jobs frequentaram os primeiro encontros de computadores pessoais. As grandes not\u00edcias envolvem <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Transpos%C3%A3o\">transpos\u00f5es<\/a>, conhecidos como \u201cgenes que saltam\u201d, que na natureza podem pular de um lugar para outro em cromossomos. Sam Sternberg, um jovem bioqu\u00edmico brilhante que estudou para <a href=\"http:\/\/doudnalab.org\/\">Doudna<\/a>, acabara de publicar seu primeiro paper inovador, que descreve como criar um sistema parecido com o CRISPR que insere um gene de salto personalizado no local desejado no DNA. Mas, para a surpresa de Sternberg, Feng Zhang conseguiu escrever um paper similar de sua autoria em uma publica\u00e7\u00e3o, alguns dias antes. \u201cExiste algum campo t\u00e3o degolador e competitivo quanto a pesquisa biol\u00f3gica?\u201d, me pergunta Sternberg.<\/p>\n<p><strong>O gene que salta<\/strong><\/p>\n<p>Bem, sim: eu penso que na verdade qualquer \u00e1rea pode ser assim, desde neg\u00f3cios, passando por jornalismo, at\u00e9 o campeonato de baseball. O que realmente distingue as pesquisas sobre biologia \u00e9 a colabora\u00e7\u00e3o que a entrela\u00e7a. A camaradagem de serem guerreiros rivais em uma busca comum enche a confer\u00eancia. O desejo de ganhar pr\u00eamios e patentes tende a criar competi\u00e7\u00e3o \u2014 o que estimula o ritmo das descobertas \u2014 mas \u00e9 igualmente motivante. Acredito que \u00e9 a paix\u00e3o de descobrir o que Leonardo da Vinci chamou de \u201ctrabalho infinito da natureza\u201d, especialmente quando diz respeito a algo que \u00e9 t\u00e3o absurdamente lindo quanto os mecanismos internos de uma c\u00e9lula viva. \u201cAs descobertas sobre o gene que salta mostram o quanto a biologia \u00e9 divertida\u201d, diz Doudna.<\/p>\n<p>Alguns de n\u00f3s jantamos em um restaurante inventivo chamado Chez Boulay, que servia bolinhos crocantes de foca, enormes vieiras cruas, salm\u00e3o do \u00c1rtico, bis\u00e3o grelhado, gin e vinho produzidos no Quebec. O papo ia de ci\u00eancia a quest\u00f5es \u00e9ticas que pairam sobre o CRISPR. Feng Zhang e outro dos cientistas pioneiros, Erik Sonthemeier, falam sobre a necessidade de uma morat\u00f3ria para interromper edi\u00e7\u00f5es que podem ser herdadas. Mas os genes j\u00e1 podem estar fora da garrafa. Em novembro, um m\u00e9dico chin\u00eas fez o an\u00fancio explosivo de que havia editado dois embri\u00f5es para tentar faz\u00ea-los imunes ao HIV, e um m\u00e9dico russo est\u00e1 divulgando seus planos de editar embri\u00f5es para tentar curar a surdez cong\u00eanita.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma concord\u00e2ncia geral entre os cientistas no jantar que, quando for seguro e pr\u00e1tico, edi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas deveriam ser usadas para curar muta\u00e7\u00f5es malignas de um \u00fanico gene, como a doen\u00e7a de Huntington e anemia falciforme. Mas ficam com o p\u00e9 atr\u00e1s com a ideia de usar edi\u00e7\u00e3o de genes para aprimoramentos humanos, como tentar dar aos filhos mais massa muscular ou altura, ou quem sabe um QI mais alto e habilidades cognitivas. O problema \u00e9 que a distin\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de ser definida \u2014 prevenir a obesidade \u00e9 uma cura ou um aprimoramento? \u2014 e ainda mais dif\u00edcil de ser aplicada. \u201cVeja o que os pais s\u00e3o capazes de fazer para p\u00f4r seus filhos na faculdade\u201d, diz Feng Zhang. \u201cAlgumas pessoas certamente pagar\u00e3o para aprimoramento gen\u00e9tico.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUm grande problema com o aprimoramento \u00e9 o acesso igualit\u00e1rio\u201d, complementa Sonthemeier. \u201cSer\u00e1 que pessoas ricas devem poder comprar os melhores genes que conseguirem pagar?\u201d Isso levaria \u00e0 distopia descrita por Aldous Huxley em seu romance de 1932 <em>Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/em>, em que a modifica\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es produz um sistema de castas que divide l\u00edderes de intelig\u00eancia aprimorada e trabalhadores bra\u00e7ais atrofiados. Nosso mundo j\u00e1 sofre demais com a diferen\u00e7a cada vez maior de riqueza e oportunidade, e um livre mercado para melhorias gen\u00e9ticas pode produzir um salto qu\u00e2ntico nessas desigualdades. E tamb\u00e9m codific\u00e1-las permanentemente. \u201cEm um mundo no qual h\u00e1 pessoas que n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00f3culos\u201d, diz Feng Zhang, \u201c\u00e9 dif\u00edcil imaginar como encontraremos uma maneira de oferecer acesso igualit\u00e1rio ao aprimoramento gen\u00e9tico. Pense no que isso far\u00e1 \u00e0 nossa esp\u00e9cie.\u201d<\/p>\n<p>CIDADE DE ASPEN<\/p>\n<p>Falando de desigualdade financeira, viajei de Quebec a Aspen, no estado norte-americano do Colorado, para entrevistar alguns dos principais formuladores de pol\u00edticas do mundo, que est\u00e3o lutando com o desafio de regular o uso de CRISPR: Duanqing Pei, um charmoso bi\u00f3logo celular chin\u00eas que dirige o Instituto de Biomedicina de Cant\u00e3o; Victor Dzau, um refugiado chin\u00eas que \u00e9 presidente da Academia Nacional de Medicina dos EUA; e minha amiga Peggy Hamburg, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Americana para o Avan\u00e7o da Ci\u00eancia e ex-comiss\u00e1ria da Administra\u00e7\u00e3o de Alimentos e Medicamentos, que foi nomeada copresidente do comit\u00ea consultivo da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) sobre edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Pei e Dzau estavam em Hong Kong em novembro do ano passado, quando o cientista chin\u00eas Jiankui He fez sua revela\u00e7\u00e3o espantosa de que tinha editado o DNA de duas g\u00eameas rec\u00e9m-nascidas quando ainda eram embri\u00f5es em est\u00e1gio inicial. Pei soube do an\u00fancio iminente a partir de Jennifer Doudna, quando chegou ao sagu\u00e3o do hotel de Hong Kong. \u201cFoi dif\u00edcil acreditar\u201d, ele diz. \u201cEst\u00e1vamos todos parados l\u00e1 tentando entender o que isso poderia significar.\u201d Ficou horrorizado, disse, porque h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o na China a tais experimentos, e ele assegurou a pesquisadores globais que isso n\u00e3o aconteceria. Ent\u00e3o, como Hamburg e Dzau, ele agora percebe que ser\u00e1 quase imposs\u00edvel para a OMS, ou quem quer que seja, trazer uma pol\u00edtica global que possa se fazer cumprir em qualquer lugar.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe uma estrutura \u00fanica que vai servir para todos os pa\u00edses\u201d, diz Hamburg. \u201cCada um tem uma atitude diferente e seus padr\u00f5es regulat\u00f3rios, como j\u00e1 acontece com a modifica\u00e7\u00e3o de alimentos.\u201d Portanto, a OMS provavelmente criar\u00e1 um menu de op\u00e7\u00f5es para os pa\u00edses considerarem. Isso poderia, infelizmente, levar ao turismo gen\u00e9tico. Pessoas privilegiadas que queiram aprimoramentos v\u00e3o viajar para pa\u00edses que possam oferec\u00ea-los. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil for\u00e7ar pr\u00e1ticas e padr\u00f5es\u201d, diz Hamburg. \u201cN\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que armas nucleares, que podem ser guardadas por seguran\u00e7as e cadeados para impor um regime de seguran\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p><strong>COLD SPRING HARBOR<\/strong><\/p>\n<p>De Aspen, parti para o Laborat\u00f3rio de Cold Spring Harbor, na costa norte de Long Island, tamb\u00e9m nos EUA, onde o pr\u00eamio Nobel James Watson, de 91 anos de idade, vive com sua esposa em um ex\u00edlio espl\u00eandido e torturado em uma mans\u00e3o imponente e p\u00e1lida, com vista para a Ba\u00eda de Oyster e os pr\u00e9dios dos semin\u00e1rios para os quais ele n\u00e3o \u00e9 mais convidado. Watson ajudou a iniciar a marcha da biologia molecular em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, quando ele e seu colega Francis Crick descobriram, em 1953, parcialmente baseados em imagens de difus\u00e3o de raios-X produzidas por Rosalind Franklin e Maurice Wilkins, a estrutura de dupla h\u00e9lice e o esquema de codifica\u00e7\u00e3o de quatro bases do DNA.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma d\u00e9cada, Watson falou, para um rep\u00f3rter de um jornal brit\u00e2nico, que sabia, de maneira contundente e n\u00e3o filtrada, sobre sua cren\u00e7a de que h\u00e1 diferen\u00e7as no QI m\u00e9dio de v\u00e1rios grupos \u00e9tnicos, sendo o dos africanos mais baixo, e que essas diferen\u00e7as s\u00e3o amplamente gen\u00e9ticas. Logo pediu desculpas, dizendo que \u201cn\u00e3o h\u00e1 base cient\u00edfica para tal cren\u00e7a\u201d, e foi for\u00e7ado a se aposentar de sua posi\u00e7\u00e3o de chanceler do Laborat\u00f3rio de Cold Spring Harbor, que liderou, junto a outros, por 40 anos. Mas, h\u00e1 um ano, quando foi entrevistado para um document\u00e1rio de televis\u00e3o, confirmou suas opini\u00f5es. O conselho de Cold Spring Harbor emitiu uma nota chamando suas opini\u00f5es de \u201cinfundadas \u2026 imprudentes \u2026 repreens\u00edveis, sem o apoio da ci\u00eancia\u201d, e retirou seus t\u00edtulos honor\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>O Dilema de Jefferson<\/strong><\/p>\n<p>Watson, pronto, apresenta aos historiadores o que poderia ser chamado de O <a href=\"https:\/\/harvardmagazine.com\/2009\/07\/jeffersons-conundrum\">Dilema de Jefferson<\/a>; at\u00e9 que ponto voc\u00ea pode respeitar algu\u00e9m por suas grandes realiza\u00e7\u00f5es (\u201cn\u00f3s mantemos essas verdades\u201d), quando est\u00e3o acompanhadas por falhas repreens\u00edveis (\u201ctodos nascemos iguais\u201d)? Uma pergunta, levantada pelo Dilema de Jefferson, se relaciona, pelo menos metaforicamente, com a edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Excluir um gene relacionado a uma caracter\u00edstica indesejada (anemia falciforme ou receptividade do HIV) pode afetar algumas caracter\u00edsticas desej\u00e1veis existentes (resist\u00eancia \u00e0 mal\u00e1ria ou ao v\u00edrus do Nilo Ocidental).<\/p>\n<p>Pelo que vale a pena, eu pessoalmente acredito que \u00e9 igualmente verdadeiro, moral e \u00fatil acreditar que as falhas das pessoas n\u00e3o podem ser perdoadas por dizer que elas est\u00e3o entrela\u00e7adas com sua grandeza. Mas acredito, ainda assim, que podemos aprender com pessoas que fizeram grandes conquistas, mesmo quando nos afastamos de suas falhas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pergunto a Watson o que ele pensa sobre o CRISPR. \u201cO que Jennifer fez foi o maior avan\u00e7o na ci\u00eancia desde a descoberta da dupla h\u00e9lice\u201d, diz. \u201cMas \u00e9 importante usar a descoberta para que seja equitativa. Se s\u00f3 for usada para resolver problemas e desejos dos 10% mais ricos, vai ser terr\u00edvel. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, evolu\u00edmos cada vez mais para uma sociedade desigual, e isso a pioraria muito.\u201d<\/p>\n<p>Um passo que pode ajudar um pouco, ele sugere, \u00e9 n\u00e3o permitir ou refor\u00e7ar patentes para t\u00e9cnicas de engenharia gen\u00e9tica. Ainda haveria muito financiamento para encontrar maneiras seguras de corrigir doen\u00e7as claramente devastadoras, como a anemia de Huntington e as c\u00e9lulas falciformes. Mas, se n\u00e3o houvesse patentes, provavelmente haveria menos recompensa para as corridas para ser o primeiro a criar m\u00e9todos de aprimoramentos. E os aprimoramentos que eventualmente forem inventados poder\u00e3o ser mais baratos, e mais amplamente dispon\u00edveis, se algu\u00e9m puder copi\u00e1-los. \u201cEu aceitaria uma certa desacelera\u00e7\u00e3o na ci\u00eancia, se, em contrapartida, isso a tornasse mais acess\u00edvel\u201d, ele diz. \u201cMesmo que n\u00e3o patenteemos esses produtos, alguns pesquisadores ainda ficariam ansiosos para n\u00e3o abandonar a ci\u00eancia e fazer descobertas. \u00c9 isso que motiva a vida dos pesquisadores.\u201d<\/p>\n<p>Voltando para casa, em Nova Orleans, fui ao funeral da amada grande dama da cidade, Leah Chase, que morreu aos 96 anos ap\u00f3s tocar por quase sete d\u00e9cadas um restaurante no bairro do Trem\u00e9. Com sua colher de pau, mexia o roux [molho espesso, de origem francesa, feito com farinha de trigo e manteiga] para sua sopa Gumbo de camar\u00e3o e lingui\u00e7a (uma x\u00edcara de \u00f3leo de \u00f3leo de amendoim e oito colheres de sopa de farinha) at\u00e9 que ficasse da cor de caf\u00e9 com leite, e conseguia unir os mais diversos ingredientes. Chase era uma negra <em>Creole<\/em>, e seu restaurante, assim como sua vida, uniam os muitos sabores da vida de Nova Orleans, preta, branca e crioula. A pequena nobreza da cidade alta encontrava com l\u00edderes pol\u00edticos e ativistas pelos direitos civis em sua sala de jantar no final dos anos 1960, para tentar manter a cidade unida.<\/p>\n<p>Pessoas como Leah Chase me lembram as <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ligase\">ligases<\/a>, enzimas que podem ligar e costurar fios de DNA. Hoje, as c\u00e9lulas de nossa sociedade possuem muito poucas ligases, e h\u00e1 gente demais que age como <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nuclease\">nucleases<\/a>, as enzimas que cortam, clivam e dividem nosso DNA.<\/p>\n<p>O Bairro Franc\u00eas, onde vivemos, est\u00e1 saltitante nesse final de semana. H\u00e1 uma bicicletada pelada que se destina (curiosamente) a reivindicar a seguran\u00e7a do tr\u00e2nsito. Tamb\u00e9m acontece um dos muitos desfiles e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Second_line_(parades)\"><em>second lines<\/em><\/a> [um tipo de desfile tradicional de Nova Orleans] para celebrar a vida de Mac Rebennack Jr., o m\u00fasico de funk norte-americano conhecido por Dr. John. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma parada do orgulho gay e blocos de festas relacionadas a essa cultura. Coexistindo alegremente, acontece o Festival do Mercado Franc\u00eas de Tomate Creole, com seus caminh\u00f5es trazidos por fazendeiros e cozinheiros que mostram as muitas variedades de suculentos tomates locais n\u00e3o geneticamente modificados.<\/p>\n<p>De minha varanda, fico maravilhado com a diversidade da humanidade que passa. H\u00e1 pessoas baixas e altas; homo, h\u00e9tero e transexuais; gordas e magras, brancas e negras; e at\u00e9 algumas vestindo camisetas da Universidade de Gallaudet animadamente usando a linguagem de sinais. A suposta promessa do CRISPR \u00e9 de que n\u00f3s, um dia, conseguiremos escolher quais dessas caracter\u00edsticas queremos em todos os nossos descendentes. Poder\u00edamos escolher que sejam altos e musculosos, loiros e de olhos azuis, n\u00e3o surdas e n\u00e3o\u2026 bem, selecione suas prefer\u00eancias.<\/p>\n<p>Enquanto examino o delicioso espet\u00e1culo p\u00fablico com toda sua variedade natural, pondero como a promessa do CRISPR pode tamb\u00e9m ser seu perigo, em sua superioridade, com a codifica\u00e7\u00e3o de oportunidades desiguais. Levou mais de 3,2 bilh\u00f5es de anos para que as leis e o deis da natureza tecessem tr\u00eas bilh\u00f5es de bases de DNA, de uma maneira complexa e ocasionalmente imperfeita, para permitir toda a maravilhosa diversidade de nossa esp\u00e9cie. Estamos certos de pensar que podemos agora chegar e, em algumas d\u00e9cadas, editar todo o genoma para eliminar o que vemos como imperfei\u00e7\u00f5es? Ser\u00e1 que perderemos nossa diversidade? Ser\u00e1 que nos tornaremos menos saborosos, como nossos tomates? Ser\u00e1 bom para nossa esp\u00e9cie?<\/p>\n<p>Walter Isaacson is a professor of history at Tulane and the author of biographies of Benjamin Franklin, Albert Einstein, Steve Jobs, and Leonardo da Vinci.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bi\u00f3logos de todo o mundo participam de uma corrida rumo \u00e0 edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u2014 que permitir\u00e1 curar doen\u00e7as e \u201caprimorar\u201d a natureza e o ser humano. Mas quais as consequ\u00eancias, num mundo hoje marcado por desigualdades e preconceitos? 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