{"id":913308,"date":"2019-09-05T16:14:01","date_gmt":"2019-09-05T15:14:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=913308"},"modified":"2019-09-05T16:14:01","modified_gmt":"2019-09-05T15:14:01","slug":"o-tempo-em-que-podemos-mudar-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2019\/09\/o-tempo-em-que-podemos-mudar-o-mundo\/","title":{"rendered":"\u201cO tempo em que podemos mudar o mundo\u201d"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Immanuel Wallerstein, que morreu em 31 de agosto, foi o grande pensador dos sistemas-mundo. Examinava o decl\u00ednio do capitalismo, mas frisava: falta saber o que ir\u00e1 substitu\u00ed-lo; a transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 apocal\u00edptica e depender\u00e1 das escolhas de agora.<\/p>\n<p>Desde seu lan\u00e7amento, em 2010, Outras Palavras traduziu e publicou dezenas de textos de Immanuel Wallerstein. Neles, o soci\u00f3logo trata de temas centrais da conjuntura global e tamb\u00e9m de sua vis\u00e3o particular sobre a crise do capitalismo e a indefini\u00e7\u00e3o do futuro. Um \u00edndice destes artigos pode ser encontrado <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/immanuelwallerstein\/\">aqui<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Entrevista de <strong>Sophie Shevarnadze<\/strong><\/p>\n<p><em>(Publicada originalmente em 14\/10\/2011)<\/em><\/p>\n<p><em>A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentar\u00e1 horas de debates em todo o mundo e certamente ajudar\u00e1 a enxergar melhor o per\u00edodo tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o soci\u00f3logo estadunidense <\/em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Immanuel_wallerstein\"><em>Immanuel Wallerstein<\/em><\/a><em>, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: j\u00e1 n\u00e3o pode mais sobreviver como sistema. Mas \u2013 e aqui come\u00e7am as provoca\u00e7\u00f5es \u2013 o que surgir\u00e1 em seu lugar pode ser melhor (mais igualit\u00e1rio e democr\u00e1tico) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.<\/em><\/p>\n<p><em>Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem ass\u00edduo dos F\u00f3runs Sociais Mundiais, em meio a uma \u201cbifurca\u00e7\u00e3o\u201d, um momento hist\u00f3rico \u00fanico nos \u00faltimos 500 anos.Ao contr\u00e1rio do que pensava Karl Marx, o sistema n\u00e3o sucumbir\u00e1 num ato her\u00f3ico. Desabar\u00e1 sobre suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. Mas aten\u00e7\u00e3o: diferente de certos cr\u00edticos do fil\u00f3sofo alem\u00e3o, Wallerstein n\u00e3o est\u00e1 sugerindo que as a\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o irrelevantes.<\/em><\/p>\n<p><em>Ao contr\u00e1rio: para ele, vivemos o momento preciso em que as a\u00e7\u00f5es coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. \u201cQuando o sistema est\u00e1 est\u00e1vel, \u00e9 relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arb\u00edtrio torna-se importante.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 no emblem\u00e1tico 1968, refer\u00eancia e inspira\u00e7\u00e3o de tantas iniciativas contempor\u00e2neas, que Wallerstein situa o in\u00edcio da bifurca\u00e7\u00e3o. L\u00e1 teria se quebrado \u201ca ilus\u00e3o liberal que governava o sistema-mundo\u201d. Abertura de um per\u00edodo em que o sistema hegem\u00f4nico come\u00e7a a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opini\u00e3o do soci\u00f3logo, o fato mais potente do s\u00e9culo passado \u2013 superiores, por exemplo, \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.<\/em><\/p>\n<p><em>As declara\u00e7\u00f5es foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televis\u00e3o russa RT (abaixo). A transcri\u00e7\u00e3o e a tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas s\u00e3o iniciativas de \u201cOutras Palavras\u201d.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/eDgya5clTCY\">https:\/\/youtu.be\/eDgya5clTCY<\/a><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 exatamente dois anos, voc\u00ea disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso est\u00e1 acontecendo agora?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, ainda vai demorar um ano ou dois, mas est\u00e1 claro que essa quebra est\u00e1 chegando.<\/p>\n<p><strong>Quem est\u00e1 em maiores apuros: Os Estados Unidos, a Uni\u00e3o Europeia ou o mundo todo?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia, claramente. Mas tamb\u00e9m acredito que os chamados pa\u00edses emergentes, ou em desenvolvimento \u2013 Brasil, \u00cdndia, China \u2013 tamb\u00e9m enfrentar\u00e3o dificuldades. N\u00e3o vejo ningu\u00e9m em situa\u00e7\u00e3o tranquila.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que o sistema financeiro est\u00e1 claramente\u00a0quebrado. O que h\u00e1 de errado com o capitalismo contempor\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria muito longa. Na minha vis\u00e3o, o capitalismo chegou ao fim da linha e j\u00e1 n\u00e3o pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos come\u00e7ou h\u00e1 bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 \u2013 e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. N\u00e3o \u00e9 uma crise de um ano, ou de curta dura\u00e7\u00e3o: \u00e9 o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transi\u00e7\u00e3o. Na verdade, na luta pol\u00edtica que acontece no mundo \u2014 que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer \u2014 n\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o se o capitalismo sobreviver\u00e1 ou n\u00e3o, mas o que ir\u00e1 suced\u00ea-lo. E \u00e9 claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua vis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu gostaria de um sistema relativamente mais democr\u00e1tico, mais relativamente igualit\u00e1rio e moral. Essa \u00e9 uma vis\u00e3o, n\u00f3s nunca tivemos isso na hist\u00f3ria do mundo \u2013 mas \u00e9 poss\u00edvel. A outra vis\u00e3o \u00e9 de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo j\u00e1 \u00e9 assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. \u00c9 como vejo a luta pol\u00edtica que vivemos. Tecnicamente, significa \u00e9 uma bifurca\u00e7\u00e3o de um sistema.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, a bifurca\u00e7\u00e3o do sistema capitalista est\u00e1 diretamente ligada aos caos econ\u00f4mico?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, as ra\u00edzes da crise s\u00e3o, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princ\u00edpio b\u00e1sico do capitalismo, que \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de capital. Esse \u00e9 o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se prop\u00f5e a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.<\/p>\n<p><strong>Esses tremores econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais s\u00e3o perigosos? Quais s\u00e3o os pr\u00f3s e contras?<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea pergunta se os tremores s\u00e3o perigosos para voc\u00ea e para mim, ent\u00e3o a resposta \u00e9 <em>sim<\/em>, eles s\u00e3o extremamente perigosos para n\u00f3s. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de \u201cinferno na terra\u201d. \u00c9 um per\u00edodo no qual quase tudo \u00e9 relativamente imprevis\u00edvel a curto prazo \u2013 e as pessoas n\u00e3o podem conviver com o imprevis\u00edvel a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevis\u00edvel no longo prazo, mas n\u00e3o com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que fazer, e \u00e9 basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. \u00c9 uma paralisia, pois ningu\u00e9m est\u00e1 investindo, j\u00e1 que ningu\u00e9m sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem n\u00e3o tem certeza de que em tr\u00eas anos vai receber seu dinheiro, n\u00e3o investe \u2013 mas n\u00e3o investir torna a situa\u00e7\u00e3o ainda pior. As pessoas n\u00e3o sentem que t\u00eam muitas op\u00e7\u00f5es, e est\u00e3o certas, as op\u00e7\u00f5es s\u00e3o escassas.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, estamos nesse processo de abalos, e n\u00e3o existem pr\u00f3s ou contras, n\u00e3o temos op\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser estar nesse processo. Voc\u00ea v\u00ea uma sa\u00edda?<\/strong><\/p>\n<p>Sim! O que acontece numa bifurca\u00e7\u00e3o \u00e9 que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situa\u00e7\u00e3o relativamente est\u00e1vel. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que n\u00e3o sabemos qual ser\u00e1. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito otimista no sentido de que, na situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos, o que eu e voc\u00ea fizermos realmente importa. Isso n\u00e3o acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na R\u00fassia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolu\u00e7\u00e3o Russa, em 1917. Foi um enorme esfor\u00e7o social, um n\u00famero incr\u00edvel de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incr\u00edveis, mas no final, onde est\u00e1 a R\u00fassia, em rela\u00e7\u00e3o ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, est\u00e1 de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p><strong>O que isso diz sobre a import\u00e2ncia das escolhas pessoais?<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o muda quando voc\u00ea est\u00e1 em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esfor\u00e7o se traduz em pouca mudan\u00e7a, nessas situa\u00e7\u00f5es raras um pequeno esfor\u00e7o traz um conjunto enorme de mudan\u00e7as \u2013 porque o sistema, agora, est\u00e1 muito inst\u00e1vel e vol\u00e1til. Qualquer esfor\u00e7o leva a uma ou outra dire\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, digo que essa \u00e9 a \u201chistoriza\u00e7\u00e3o\u201d da velha distin\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica entre determinismo e livre-arb\u00edtrio. Quando o sistema est\u00e1 relativamente est\u00e1vel, \u00e9 relativamente determinista, com pouco espa\u00e7o para o livre-arb\u00edtrio. Mas, quando est\u00e1 inst\u00e1vel, passando por uma crise estrutural, o livre-arb\u00edtrio torna-se importante. As a\u00e7\u00f5es de cada um realmente importam, de uma maneira que n\u00e3o se viu nos \u00faltimos 500 anos. Esse \u00e9 meu argumento b\u00e1sico.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influ\u00eancias. Voc\u00ea acredita que ele ainda seja t\u00e3o relevante no s\u00e9culo 21?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, Karl Marx foi um grande pensador no s\u00e9culo 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percep\u00e7\u00f5es, e todas as limita\u00e7\u00f5es, por ser um homem do s\u00e9culo 19. Uma de suas grandes limita\u00e7\u00f5es \u00e9 que ele era um economista cl\u00e1ssico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolu\u00e7\u00e3o. Eu estou sugerindo que o fim \u00e9 reflexo de contradi\u00e7\u00f5es internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do s\u00e9culo 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p><strong>Do s\u00e9culo 21, agora.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no s\u00e9culo 20, eu sinto que sou um produto do s\u00e9culo 20. Isso provavelmente se revela como limita\u00e7\u00e3o no meu pr\u00f3prio pensamento.<\/p>\n<p><strong>Quanto \u2013 e de que maneiras \u2013 esses dois s\u00e9culos se diferem? Eles s\u00e3o realmente t\u00e3o diferentes?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolu\u00e7\u00e3o mundial de 1968, que n\u00e3o foi um evento sem import\u00e2ncia. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do s\u00e9culo 20. Mais importante que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegem\u00f4nico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilus\u00e3o liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurca\u00e7\u00e3o que viria. Vivemos, desde ent\u00e3o, na esteira de 1968, em todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolu\u00e7\u00e3o aconteceu. As pessoas \u00e0s vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. O mundo ficou mais violento?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez n\u00e3o corresponda \u00e0 realidade. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto \u00e0 viol\u00eancia em 1950 ou 1960. Hoje, elas t\u00eam medo e, em muitos sentidos, t\u00eam o direito de sentir medo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que, com todo o progresso tecnol\u00f3gico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, n\u00e3o haver\u00e1 mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?<\/strong><\/p>\n<p>Significa que as pessoas est\u00e3o prontas para serem violentas em muitas circunst\u00e2ncias. Somos mais civilizados? Eu n\u00e3o sei. Esse \u00e9 um conceito d\u00fabio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o n\u00e3o civilizado; os civilizados tentam destruir os b\u00e1rbaros, n\u00e3o s\u00e3o os b\u00e1rbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os b\u00e1rbaros: os outros s\u00e3o b\u00e1rbaros; n\u00f3s, os civilizados.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os b\u00e1rbaros de todo o mundo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o que vemos h\u00e1 500 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Immanuel Wallerstein, que morreu em 31 de agosto, foi o grande pensador dos sistemas-mundo. 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