{"id":913297,"date":"2019-09-07T15:53:06","date_gmt":"2019-09-07T14:53:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=913297"},"modified":"2019-09-05T15:59:30","modified_gmt":"2019-09-05T14:59:30","slug":"poderia-o-capitalismo-ser-menos-brutal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2019\/09\/poderia-o-capitalismo-ser-menos-brutal\/","title":{"rendered":"Poderia o capitalismo ser menos brutal?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Em manifesto, 102 executivos-chefes de megacorpora\u00e7\u00f5es prometem refrear a pr\u00f3pria voracidade e n\u00e3o pensar apenas nos lucros. Revis\u00e3o dos dogmas neoliberais ou jogada de marketing? Joseph Stiglitz e Ladislau Dowbor comentam<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>por <\/strong><a title=\"Posts de Joseph Stiglitz\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/josephstiglitz\/\" rel=\"author\"><strong>Joseph Stiglitz<\/strong> \/\u00a0 Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Simone Paz<\/strong><\/a><\/p>\n<p><em>Ser\u00e1 exagerado dizer que o capitalismo est\u00e1 \u00e0 procura de novos rumos? As grandes corpora\u00e7\u00f5es atuam no espa\u00e7o planet\u00e1rio, onde n\u00e3o h\u00e1 governo, regula\u00e7\u00e3o ou regras do jogo. As maiores simplesmente n\u00e3o pagam imposto, ou recolhem 0,05% dos lucros como a Apple. Os desastres ambientais e sociais est\u00e3o se generalizando, mas para as corpora\u00e7\u00f5es trata-se de \u201cexternalidades\u201d. A desigualdade atinge n\u00edveis explosivos, mas os bancos v\u00e3o bem. Em para\u00edsos fiscais temos 200 vezes mais recursos financeiros do que o a Confer\u00eancia Mundial sobre o Clima decidiu, e mal consegue, levantar. Fraudes em medicamentos, alimentos que generalizam a obesidade, inclusive infantil, trambiques em emiss\u00f5es de ve\u00edculos, agrot\u00f3xicos e antibi\u00f3ticos nos alimentos \u2014 \u00e9 um clima de vale-tudo. <\/em><\/p>\n<p><em>A indigna\u00e7\u00e3o est\u00e1 se generalizando, e 181 corpora\u00e7\u00f5es (gigantes como Amazon, JPMorgan, Apple etc.) decidiram que o credo que valia desde os anos 1980, com Milton Friedman, de que as empresas devem pensar apenas nos lucros, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Os impactos ambientais e sociais que provocam fazem parte das suas responsabilidades. Ap\u00f3s 40 anos de neoliberalismo irrespons\u00e1vel,\u00a0 h\u00e1 novos caminhos? \u00c9 saud\u00e1vel recebermos a not\u00edcia com ceticismo, a cosm\u00e9tica corporativa tem longa tradi\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m \u00e9 fato que pelo jeito as corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o sentindo o calor da irrita\u00e7\u00e3o social. Stiglitz faz a proposta essencial: novas leis e regras devem ancorar essas boas inten\u00e7\u00f5es corporativas.\u00a0 (<\/em><strong><em>Ladislau Dowbor)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, a doutrina prevalecente nos EUA tem sido a de que as corpora\u00e7\u00f5es devem potencializar os valores para seus acionistas \u2014 isto \u00e9, aumentar os lucros e os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es \u2014 aqui e agora, n\u00e3o importa o que aconte\u00e7a, sem se preocupar com as consequ\u00eancias para os trabalhadores, clientes, fornecedores e comunidades. Logo, a <a href=\"https:\/\/opportunity.businessroundtable.org\/ourcommitment\/\">declara\u00e7\u00e3o<\/a> que defende um <em>capitalismo consciente <\/em>e que foi assinada este m\u00eas por quase todos os membros da <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Business_Roundtable\">Business Roundtable<\/a> causou um grande alvoro\u00e7o. Afinal de contas, trata-se dos executivos-chefes das companhias mais poderosas dos EUA, dizendo aos norte americanos que o mundo dos neg\u00f3cios \u00e9 muito mais do que apenas balan\u00e7os patrimoniais. E isso \u00e9 uma baita virada de jogo, n\u00e3o \u00e9 mesmo<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.project-syndicate.org\/columnist\/milton-friedman\">Milton Friedman<\/a>, o te\u00f3rico do livre mercado e ganhador do Pr\u00eamio Nobel de Economia, influenciou n\u00e3o somente espalhando a doutrina da supremacia dos acionistas, mas tamb\u00e9m garantindo que fosse inscrita na legisla\u00e7\u00e3o estadunidense. Ele chegou a <a href=\"https:\/\/www.press.uchicago.edu\/ucp\/books\/book\/chicago\/C\/bo18146821.html\">declarar<\/a> \u201ch\u00e1 somente uma responsabilidade social nos neg\u00f3cios: usar seus recursos e compromet\u00ea-los em atividades que aumentem seus lucros\u201d.<\/p>\n<p>A ironia est\u00e1 no fato de que logo ap\u00f3s Friedman ter promovidos tais ideias, e mais ou menos na \u00e9poca em que elas se popularizavam e consagravam nas leis da administra\u00e7\u00e3o corporativa \u2014 como se fossem baseadas em teorias econ\u00f4micas s\u00f3lidas \u2014 Sandy Grossman e eu, num conjunto de artigos do final dos anos 1970, demonstramos como o capitalismo acion\u00e1rio n\u00e3o melhorava o bem-estar social.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 obviamente verdadeiro quando h\u00e1 tantas \u201cexternalidades\u201d relevantes, como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, ou como quando as corpora\u00e7\u00f5es contaminam o ar que respiramos e a \u00e1gua que bebemos. E isto \u00e9 ainda mais verdadeiro quando nos empurram produtos prejudiciais \u00e0 sa\u00fade, como bebidas a\u00e7ucaradas que colaboram com a obesidade infantil, ou analg\u00e9sicos que desatam uma epidemia de v\u00edcio em opioides, ou quando exploram os vulner\u00e1veis, como \u00e9 o caso da Trump University e tantas outras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior norte-americanas com fins lucrativos. E tamb\u00e9m \u00e9 real quando lucram exercendo o poder de mercado, como tantos bancos e empresas de tecnologia fazem<\/p>\n<p>Mas \u00e9 ainda mais verdadeiro de modo geral: o mercado consegue fazer com que as empresas n\u00e3o enxerguem no longo prazo e n\u00e3o invistam suficientemente em seus trabalhadores e comunidades. Por isso, \u00e9 um al\u00edvio que l\u00edderes corporativos, que supostamente deveriam ter uma vis\u00e3o profunda e interna do funcionamento da economia, finalmente tenham visto a luz e se atualizado com a economia moderna, mesmo tendo demorado mais de 40 anos para perceber isso.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que esses l\u00edderes empresariais pregam essa mudan\u00e7a de verdade, ou seria somente uma declara\u00e7\u00e3o num gesto ret\u00f3rico, em face de uma rea\u00e7\u00e3o popular contra o t\u00e3o disseminado mau comportamento? H\u00e1 raz\u00f5es para acreditar que eles est\u00e3o sendo mais do que apenas um pouco dissimulados<\/p>\n<p>A principal responsabilidade das corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 o pagamento de impostos, e entre os signat\u00e1rios da nova vis\u00e3o empresarial est\u00e3o mega-evasores de impostos, incluindo a Apple, que, de acordo com suas contas, continua utilizando para\u00edsos fiscais, como Jersey. Outros deles, apoiaram a nova pol\u00edtica de impostos proposta em 2017 por Donald Trump. Ela reduz os impostos para corpora\u00e7\u00f5es e bilion\u00e1rios, elevar\u00e1 os impostos para a maioria das fam\u00edlias de classe m\u00e9dia e far\u00e1 com que milhares percam seus seguros de sa\u00fade \u2014 num pa\u00eds com o n\u00edvel de <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/chart\/5EE0\">desigualdade<\/a> mais elevado, os piores resultados na <a href=\"https:\/\/interactives.commonwealthfund.org\/2017\/july\/mirror-mirror\/\">\u00e1rea da sa\u00fade<\/a>, e a <a href=\"https:\/\/www.bmj.com\/content\/362\/bmj.k2562\">menor expectativa de vida<\/a>, entre os principais pa\u00edses economicamente desenvolvidos. E embora esses l\u00edderes de mercado defendam que o corte de impostos traz mais investimento e melhores sal\u00e1rios, os trabalhadores acabam recebendo apenas uma ninharia. A maior parte do dinheiro acaba sendo utilizada para recomprar a\u00e7\u00f5es, o que serve para, basicamente, alinhar os bolsos dos investidores e dos executivos-chefes com esquemas de incentivo e valoriza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Um senso de responsabilidade sincero e verdadeiro faria com que l\u00edderes de corpora\u00e7\u00f5es aceitassem regulamenta\u00e7\u00f5es mais fortes para proteger o meio ambiente e para melhorar a sa\u00fade e seguran\u00e7a de seus empregados. <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/climate-environment\/2019\/07\/25\/major-automakers-strike-climate-deal-with-california-rebuffing-trump-proposed-mileage-freeze\/\">Algumas poucas companhias<\/a> automobil\u00edsticas (Honda, Ford, BMW e Volkswagen) t\u00eam feito isso, defendendo regras mais firmes do que as impostas pelo governo Trump, j\u00e1 que o presidente atual trabalha no desmonte do legado ambiental constru\u00eddo por Barack Obama. H\u00e1 inclusive executivos de empresas de bebidas n\u00e3o-alc\u00f3olicas que parecem estar envergonhados pela sua influ\u00eancia na obesidade infantil, a qual costuma levar \u00e0 diabetes, pois eles sabem disso<\/p>\n<p>Por\u00e9m, embora muitos executivos-chefes queiram fazer o correto (ou tenham familiares e amigos que se preocupam com essas quest\u00f5es), eles sabem que t\u00eam concorrentes que n\u00e3o. Deveria existir condi\u00e7\u00f5es equitativas, que garantissem que empresas conscientes n\u00e3o se vissem prejudicadas por aquelas que n\u00e3o t\u00eam preocupa\u00e7\u00e3o alguma. \u00c9 por isso tamb\u00e9m que muitas corpora\u00e7\u00f5es desejam e pedem normas contra as propinas, e querem regras que protejam o meio ambiente, al\u00e9m da seguran\u00e7a e sa\u00fade nos locais de trabalho<\/p>\n<p>Infelizmente, muitos dos grandes bancos cujo comportamento irrespons\u00e1vel provocou a crise financeira global de 2008 n\u00e3o est\u00e3o nesse grupo. Mal havia secado a tinta da legisla\u00e7\u00e3o da reforma financeira da Lei Dodd-Frank, em 2010 \u2014 a qual endureceria as normas, com o intuito de evitar a recorr\u00eancia das crises \u2014 quando os bancos come\u00e7aram a trabalhar para revogar algumas das medidas-chave. Entre eles, estava o JPMorgan Chase, cujo diretor \u00e9 Jamie Dimon, presidente atual do Business Roundtable. Considerando as pol\u00edticas norte americanas, t\u00e3o pautadas pelo dinheiro, n\u00e3o surpreende o fato de que os bancos tenham esse \u00eaxito todo. Uma d\u00e9cada ap\u00f3s a crise, alguns bancos ainda lutam contra a\u00e7\u00f5es judiciais movidas por aqueles que foram prejudicados em vista de seu comportamento irrespons\u00e1vel e fraudulento. Eles esperam que seus grandes bolsos permitam-lhes permanecer na disputa mais do que quem os processa.<\/p>\n<p>A nova postura dos diretores mais poderosos dos EUA \u00e9, obviamente, bem vinda. Mas teremos que esperar para ver se se trata somente de mais um golpe publicit\u00e1rio, ou se eles realmente est\u00e3o sendo verdadeiros. Enquanto isso, precisamos de uma reforma legislativa. O pensamento de Friedman n\u00e3o s\u00f3 deu aos executivos-chefes uma desculpa perfeita para fazerem tudo o que sempre quiseram, como tamb\u00e9m conduziu leis de governan\u00e7a corporativa que deram suporte e incorporaram o capitalismo acion\u00e1rio na estrutura legal dos EUA e na de tantos outros pa\u00edses. Isso precisa mudar, de modo que as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 possam, como sejam obrigadas a considerar as consequ\u00eancias de seu comportamento sobre os demais colaboradores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em manifesto, 102 executivos-chefes de megacorpora\u00e7\u00f5es prometem refrear a pr\u00f3pria voracidade e n\u00e3o pensar apenas nos lucros. Revis\u00e3o dos dogmas neoliberais ou jogada de marketing? 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