{"id":892430,"date":"2019-07-25T12:08:21","date_gmt":"2019-07-25T11:08:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=892430"},"modified":"2019-07-24T22:11:14","modified_gmt":"2019-07-24T21:11:14","slug":"circulo-vicioso-da-concentracao-da-riqueza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2019\/07\/circulo-vicioso-da-concentracao-da-riqueza\/","title":{"rendered":"c\u00edrculo vicioso da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 frequente lermos estat\u00edsticas que ilustram a concentra\u00e7\u00e3o acelerada da riqueza no mundo; alguns bilion\u00e1rios acumulam mais riqueza do que a metade mais pobre do planeta e o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o possui mais de metade da riqueza mundial. Estamos resignados, como meros espectadores, a um processo de concentra\u00e7\u00e3o brutal e desumano. Esta resigna\u00e7\u00e3o assenta muitas vezes na certeza de que existem enormes pot\u00eancias capazes de resistir a qualquer tentativa de mudan\u00e7a e tamb\u00e9m no facto de as popula\u00e7\u00f5es serem por vezes contradit\u00f3rias e individualistas e de o seu comportamento ser funcional a um capitalismo consumista que conduz inevitavelmente a essa concentra\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em todo caso, se alguma esperan\u00e7a fosse capaz de reverter essa tend\u00eancia, n\u00f3s a depositar\u00edamos no Estado, porque \u00e9 ele que poderia modificar a matriz distributiva. Mas duvidamos quando vemos que muitas vezes \u00e9 dominada pelo poder econ\u00f4mico, e suas pol\u00edticas exacerbam o problema. Porque esse poder tem a capacidade de administrar os meios de comunica\u00e7\u00e3o que influenciam o eleitorado, tem os recursos para comprar testamentos nos tr\u00eas ramos do Estado e tem a for\u00e7a para pressionar, chantagear e disciplinar. \u00c9 claro que esta mec\u00e2nica perversa tende a ter fissuras, porque mais cedo ou mais tarde gera sofrimento nas popula\u00e7\u00f5es, e as crises pol\u00edticas oferecem oportunidades de mudan\u00e7a. Mas n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o suficiente, porque na hist\u00f3ria imediata e mediata h\u00e1 exemplos em que, mesmo contando com o poder estatal, a busca de modelos alternativos falhou, talvez porque n\u00e3o se entenderam todos os fatores que gravitam na concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e as conseq\u00fc\u00eancias foram abordadas mais do que as causas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando Piketty publicou &#8220;Capital no s\u00e9culo XXI&#8221;, explicando e fundamentando a forma como o processo de concentra\u00e7\u00e3o foi historicamente dado, alguns de seus detratores, n\u00e3o podendo negar o substancial (a tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o), preferiram atacar as propostas redistributivas, afirmando que a concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do capitalismo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o prejudicial, mas que favorece o investimento e, consequentemente, o progresso, que \u00e9 o que historicamente tem melhorado o padr\u00e3o de vida das popula\u00e7\u00f5es. Esquecem que o pr\u00f3prio Piketty em &#8220;A Economia das Desigualdades&#8221; tamb\u00e9m afirma que a melhoria na qualidade de vida das popula\u00e7\u00f5es se deveu fundamentalmente ao progresso e n\u00e3o tanto por ter conseguido mais algum ponto na porcentagem da distribui\u00e7\u00e3o do bolo. Mas esta \u00e9 uma meia verdade, porque para que a acumula\u00e7\u00e3o se transforme em investimento e progresso, deve haver uma demanda potencial que incentive tal investimento, e tal demanda n\u00e3o existiria se as popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o aumentassem suas rendas, e muito da licita\u00e7\u00e3o para a distribui\u00e7\u00e3o do bolo tem a ver com isso. Deve haver um equil\u00edbrio inst\u00e1vel para que a din\u00e2mica de desenvolvimento funcione. At\u00e9 uma certa escala, a acumula\u00e7\u00e3o de capital pode favorecer o investimento e a multiplica\u00e7\u00e3o (e dizemos &#8220;pode&#8221; porque as decis\u00f5es empresariais nem sempre coincidem com essa vis\u00e3o rom\u00e2ntica do capitalismo liberal, segundo a qual o excedente \u00e9 sempre salvo e as poupan\u00e7as s\u00e3o sempre investidas). Mas a partir de uma escala maior esta acumula\u00e7\u00e3o come\u00e7a a funcionar como um buraco negro, uma enorme for\u00e7a gravitacional que come\u00e7a a absorver empresas para dominar mercados e formar pre\u00e7os; come\u00e7a a impor marcas atrav\u00e9s da externaliza\u00e7\u00e3o e deslocaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, disciplinando pequenas e m\u00e9dias empresas que se tornam uma esp\u00e9cie de &#8220;emproletariado&#8221; for\u00e7ado a competir entre si, minimizando lucros e sal\u00e1rios (como explica Naomi Klein em &#8220;Sem logotipo&#8221;). Esta posi\u00e7\u00e3o dominante alcan\u00e7ada pelo capital concentrado lhes permite aumentar sua rentabilidade em detrimento das empresas produtivas e dos trabalhadores, e nesse caso o capitalismo deixa de &#8220;multiplicar o peixe&#8221; e come\u00e7a a dar \u00e0 luz um monstruoso peixe gigante que engole os pequenos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Claro que, nos n\u00edveis de concentra\u00e7\u00e3o de que falamos, a vasocomunica\u00e7\u00e3o entre os grandes grupos empresariais e o setor financeiro \u00e9 absoluta, e a crescente rentabilidade das posi\u00e7\u00f5es dominantes est\u00e1 sendo derivada para a especula\u00e7\u00e3o financeira e bolsista, ou para a usura por endividamento dos empobrecidos para continuar consumindo, at\u00e9 que rebente as bolhas e todos percam (exceto o Banco); e assim a roda continua girando e a concentra\u00e7\u00e3o continua aumentando. Essa roda est\u00e1 cada vez mais longe do alcance de qualquer trav\u00e3o que se tente fazer, gra\u00e7as a uma globaliza\u00e7\u00e3o caracterizada pela deslocaliza\u00e7\u00e3o produtiva, pela fuga de capitais para para para\u00edsos fiscais e pela coniv\u00eancia das organiza\u00e7\u00f5es internacionais que imp\u00f5em regras de jogo que favorecem essa concentra\u00e7\u00e3o. A oferta distributiva entre trabalhadores e empregadores est\u00e1 limitada a uma por\u00e7\u00e3o cada vez menor do bolo, porque os grandes lucros est\u00e3o fora do alcance das demandas trabalhistas, e essa fraqueza sindical \u00e9 outro fator que alimenta o c\u00edrculo vicioso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 sabemos que em muitos casos eles s\u00e3o funcionais \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o; mas o que poderiam fazer se realmente quisessem trabalhar por uma melhor distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza? Claro que, atrav\u00e9s de pol\u00edticas laborais adequadas, o rendimento dos trabalhadores poderia ser um pouco melhorado, mas a margem de manobra em muitas empresas \u00e9 cada vez menor devido ao que foi explicado acima, o que tamb\u00e9m coloca um teto salarial sobre o resto. Assim, as pol\u00edticas laborais poderiam gerar al\u00edvio, mas n\u00e3o deslocariam demasiado o amper\u00edmetro de distribui\u00e7\u00e3o do rendimento. \u00c9 necess\u00e1rio intervir fortemente a partir da pol\u00edtica fiscal para equilibrar os encargos. Neste sentido, uma das limita\u00e7\u00f5es que o Estado encontra na concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 a crescente dificuldade de ter um sistema tribut\u00e1rio progressivo, n\u00e3o s\u00f3 porque aqueles que concentram riqueza t\u00eam melhores ferramentas para fugir, mas tamb\u00e9m porque quando a concentra\u00e7\u00e3o aumenta as taxas devem ser cada vez mais altas para os setores concentrados. Ou seja, numa esp\u00e9cie de demonstra\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o ao absurdo, se num pa\u00eds o coeficiente de Gini fosse igual a 1, o Estado deveria cobrar de uma s\u00f3 pessoa uma taxa de 99,99% para se financiar, o que seria ilegal por causa do confisco, e invi\u00e1vel na pr\u00e1tica porque essa pessoa seria dona do pa\u00eds. Sem chegar a esse extremo, podemos entender que quanto mais desigual for uma sociedade, maior ser\u00e1 a press\u00e3o tribut\u00e1ria que ser\u00e1 necess\u00e1ria para que alguns contribuintes financiem pol\u00edticas p\u00fablicas de forma eq\u00fcitativa; mas como isso muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil por raz\u00f5es legais e pol\u00edticas, a press\u00e3o tribut\u00e1ria acaba caindo sobre uma base maior de contribuintes com menor capacidade contributiva, e o sistema se torna altamente regressivo, o que pode estimular o crescimento da informalidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A quest\u00e3o da Previd\u00eancia Social n\u00e3o escapa \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza, pois na medida em que os benef\u00edcios da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica s\u00e3o apropriados pelos empres\u00e1rios ao aumentar sua mais-valia e reduzir o pessoal, aumenta o desemprego e, consequentemente, diminui a massa de contribuintes dos sistemas previdenci\u00e1rios solid\u00e1rios, o que, somado ao envelhecimento da pir\u00e2mide populacional e ao aumento da informalidade mencionado anteriormente, inviabiliza esse sistema. A solu\u00e7\u00e3o dos &#8220;liberais modernizadores&#8221; \u00e9 aumentar a idade da aposentadoria, que al\u00e9m de adiar a merecida aposentadoria dos trabalhadores, adia a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Uma solu\u00e7\u00e3o seria que os benef\u00edcios dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos aumentassem para os trabalhadores, seja reduzindo a jornada de trabalho mantendo o n\u00edvel de renda, seja alocando uma renda b\u00e1sica. Outros dir\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 ruim para os empregadores manter a maior rentabilidade resultante dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, porque eles v\u00e3o investi-la em novos projetos que v\u00e3o gerar trabalho, mas na pr\u00e1tica isso n\u00e3o acontece em medida suficiente para compensar o que foi perdido. Para aliviar essas conseq\u00fc\u00eancias, o Estado busca aumentar seus gastos com servi\u00e7os sociais, em um contexto em que, como explicamos anteriormente, a press\u00e3o fiscal se torna insustent\u00e1vel devido \u00e0 natureza regressiva do sistema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma poss\u00edvel ruptura deste c\u00edrculo vicioso deveria se concentrar no uso de pol\u00edticas fiscais para for\u00e7ar os setores de alto rendimento a reinvestir seus super\u00e1vits de forma produtiva. O imposto sobre lucros ou renda, tanto para pessoas f\u00edsicas como para empresas, deveria incluir taxas progressivas at\u00e9 n\u00edveis muito altos, mas n\u00e3o apenas em propor\u00e7\u00e3o \u00e0 magnitude do lucro, mas tamb\u00e9m em propor\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de trabalhadores empregados, de modo que esta taxa seja inversamente proporcional ao n\u00famero de empregos que foram gerados para obter este lucro. As taxas diferenciais tamb\u00e9m devem ser contempladas dependendo se este ganho \u00e9 reinvestido no pa\u00eds onde foi gerado, se escapa ao exterior ou se \u00e9 canalizado para a especula\u00e7\u00e3o financeira. Isto teria um impacto simult\u00e2neo no mercado de trabalho, reduzindo o desemprego e, consequentemente, fortalecendo os trabalhadores assalariados na licita\u00e7\u00e3o distributiva, e aumentaria a arrecada\u00e7\u00e3o para o sistema de pens\u00f5es. Taxas progressivas, que tributariam pesadamente os rendimentos elevados e n\u00e3o reinvestidos, equilibrariam a carga fiscal global, tornando o sistema fiscal menos regressivo e, consequentemente, tenderiam a reduzir a evas\u00e3o e a informalidade em n\u00edveis de rentabilidade mais baixos (desde que acompanhadas de controlos eficazes). A voca\u00e7\u00e3o evasiva certamente se concentraria nos n\u00edveis mais altos de rentabilidade, mas que ser\u00e3o melhor identificados para exercer sobre eles um intenso monitoramento e controle que minimize a fuga e a evas\u00e3o de capitais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser\u00e1 necess\u00e1rio contemplar pol\u00edticas muito rigorosas para o sistema financeiro, impedindo-o de continuar a acumular lucros \u00e0 custa do setor produtivo e, consequentemente, dos seus trabalhadores, para o que ser\u00e1 necess\u00e1rio regular todas as suas opera\u00e7\u00f5es, evitando ao mesmo tempo que continue a ser o principal apoio log\u00edstico \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos grandes evasores para escapar ao capital. \u00c9 claro que teremos de conviver com algumas limita\u00e7\u00f5es impostas pela globaliza\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 poss\u00edvel, a partir das pol\u00edticas nacionais, dar passos importantes para inverter, pelo menos em parte, esta concentra\u00e7\u00e3o de rendimento e riqueza que marginaliza cada vez mais pessoas. Em alguns pa\u00edses ser\u00e1 poss\u00edvel avan\u00e7ar mais depressa do que em outros, e o escalonamento das taxas poder\u00e1 ser adaptado ao ritmo do poss\u00edvel, mas o que n\u00e3o se pode duvidar \u00e9 que n\u00e3o ser\u00e1 o pr\u00f3prio mercado a melhorar a distribui\u00e7\u00e3o do rendimento e da riqueza, se os Estados n\u00e3o for\u00e7arem uma mudan\u00e7a substancial na matriz distributiva.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 frequente lermos estat\u00edsticas que ilustram a concentra\u00e7\u00e3o acelerada da riqueza no mundo; alguns bilion\u00e1rios acumulam mais riqueza do que a metade mais pobre do planeta e o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o possui mais de metade da riqueza mundial.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":892431,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11390,118,42],"tags":[61640,57152],"class_list":["post-892430","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conteudo-original","category-economia-pt-pt","category-internacional-2","tag-concentracao-de-riqueza","tag-violencia-economica-pt-pt"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>c\u00edrculo vicioso da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"\u00c9 frequente lermos estat\u00edsticas que ilustram a concentra\u00e7\u00e3o acelerada da riqueza no mundo; 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