{"id":734416,"date":"2018-10-09T00:12:59","date_gmt":"2018-10-08T23:12:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=734416"},"modified":"2018-10-09T00:12:59","modified_gmt":"2018-10-08T23:12:59","slug":"dos-acampamentos-na-beira-de-estradas-as-retomadas-a-luta-do-povo-guarani-pelo-lugar-onde-se-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2018\/10\/dos-acampamentos-na-beira-de-estradas-as-retomadas-a-luta-do-povo-guarani-pelo-lugar-onde-se-e\/","title":{"rendered":"Dos acampamentos na beira de estradas \u00e0s retomadas: a luta do povo guarani pelo \u2018lugar onde se \u00e9\u2019"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Marco Weissheimer\/Sul21<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Todos os dias, uma cena se repete nas margens de rodovias ga\u00fachas, mostrando um lado sonegado da hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o do Estado. Fam\u00edlias de ind\u00edgenas guarani mbya e kaingang vivem acampadas em pequenas faixas de terra na beira de estradas ou em pequenas por\u00e7\u00f5es de terras e matas em uma situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. No artigo \u201cDemarca\u00e7\u00e3o das terras e os direitos dos povos ind\u00edgenas\u201d, publicado no Relat\u00f3rio Azul 2017 (da Comiss\u00e3o de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa ga\u00facha), o professor Jo\u00e3o Mauricio Farias e Roberto Liebgott, coordenador do CIMI Sul, apresentam uma s\u00edntese sobre a realidade de 25 comunidades ind\u00edgenas que est\u00e3o vivendo em acampamentos ou \u00e1reas degradadas. Essas fam\u00edlias convivem diariamente com a fome, falta de moradia, de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, de terra para plantar e cultivar sua cultura, al\u00e9m de outros riscos como o da amea\u00e7a de atropelamento em rodovias de intenso movimento.<\/p>\n<p>A maioria das terras ind\u00edgenas no Rio Grande do Sul, apontam ainda Jo\u00e3o Mauricio Farias e Roberto Liebgott, n\u00e3o est\u00e3o demarcadas. De um total de 90 \u00e1reas, apenas 14% est\u00e3o regularizadas. As restantes est\u00e3o envolvidas em processos paralisados ou em estudos de identifica\u00e7\u00e3o que ainda nem come\u00e7aram. Mesmo que a soma dessas \u00e1reas n\u00e3o atinja 1% do territ\u00f3rio ga\u00facho, fazendeiros e seus representantes pol\u00edticos trabalham contra as demarca\u00e7\u00f5es. O esquecimento a que essas comunidades s\u00e3o relegadas parece andar de m\u00e3os dadas com a tentativa de esconder a hist\u00f3ria de como essas fam\u00edlias ind\u00edgenas chegaram ali, vivendo na beira das estrada, espremidas entre o asfalto e a cerca das fazendas. Neste processo, as terras ind\u00edgenas foram divididas entre as oligarquias regionais e loteadas por empresas de coloniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria do Estado que muita gente prefere n\u00e3o conhecer ou fingir que n\u00e3o existe. No s\u00e9culo XVII, viviam aqui pelo menos 40 povos ind\u00edgenas diferentes. Quatro s\u00e9culos depois, restam pouco mais de 30 mil ind\u00edgenas vivendo no Estado.<\/p>\n<div id=\"attachment_734417\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734417\" class=\"size-large wp-image-734417\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/1guarani---BR290-arroio-dos-ratos-720x345.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/1guarani---BR290-arroio-dos-ratos-720x345.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/1guarani---BR290-arroio-dos-ratos-300x144.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/1guarani---BR290-arroio-dos-ratos-768x368.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/1guarani---BR290-arroio-dos-ratos.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734417\" class=\"wp-caption-text\">Fam\u00edlias guarani vivem em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade e sob perigo constante, \u00e0s margens da BR 290 e de outras rodovias no RS. Foto: captura de video Sul21<\/p><\/div>\n<p>Durante dois dias, o Sul21 visitou quatro acampamentos de guaranis mbya localizados na beira de movimentadas rodovias do Rio Grande do Sul e a primeira retomada guarani no Estado, que \u00e9 um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a e resist\u00eancia para os ind\u00edgenas. Todos os dias, uma parte importante da economia ga\u00facha passa em alta velocidade por esses acampamentos que re\u00fanem os descendentes de povos origin\u00e1rios que foram massacrados e expulsos de suas terras e que lutam at\u00e9 hoje um peda\u00e7o de terra inferior a 1% do territ\u00f3rio do Estado. Mas a luta guarani n\u00e3o se resume \u00e0 terra. Na aldeia Teko\u00e0 Ka Aguy Por\u00e1, que surgiu da retomada em Maquin\u00e9, no litoral norte do Estado, desenrola-se tamb\u00e9m uma luta silenciosa pela sobreviv\u00eancia da l\u00edngua, da cultura e da espiritualidade guarani.<\/p>\n<h4>Vivendo sob risco permanente na BR 290<\/h4>\n<p>Em 1995, seis fam\u00edlias guarani iniciaram um acampamento em uma estreita faixa de terra \u00e0s margens da BR 290, perto do munic\u00edpio de Arroio dos Ratos. Desde aquele ano vivem em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, aguardando que se cumpram as promessas de demarca\u00e7\u00e3o de terra. O cacique Estevan Garai conta que as fam\u00edlias vivem sob perigo constante, \u00e0s margens da BR 290 que apresenta um intenso e praticamente incessante fluxo de autom\u00f3veis e caminh\u00f5es que transitam em alta velocidade com cargas de eucalipto, autom\u00f3veis e diversos outros produtos. Essa comunidade guarani vive em um pequeno espa\u00e7o de terra espremida entre o arroio da Divisa, a BR e a cerca de uma fazenda que n\u00e3o permite que os ind\u00edgenas peguem mat\u00e9ria-prima para fazer artesanato, que \u00e9 a sua \u00fanica fonte de renda.<\/p>\n<p>Estevan agradece a Nhanderu (deus guarani) o fato de ningu\u00e9m de sua comunidade, de 28 pessoas, ter sido atropelado ainda na BR 290, como j\u00e1 aconteceu em outros acampamentos nos \u00faltimos anos. Quanto \u00e0 perspectiva de terra, o cacique cita a possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de 300 hectares, pelo governo federal, que faria parte de um processo de compensa\u00e7\u00e3o dentro do licenciamento ambiental do projeto de duplica\u00e7\u00e3o da BR 290. Enquanto isso, as fam\u00edlias resistem na pequena faixa de terra, vendendo artesanato na beira da estrada, plantando um pouco de aipim, milho, batata e melancia para sua subsist\u00eancia e pescando no arroio da Divisa, cujas \u00e1guas sofrem o impacto das lavouras da regi\u00e3o. Um dos raros apoios governamentais que o grupo recebe hoje \u00e9 uma cesta b\u00e1sica mensal para cada fam\u00edlia entregue pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). \u201c\u00c9 muito complicado, mas n\u00e3o perdemos a esperan\u00e7a de conseguir uma terra para viver com nossas fam\u00edlias longe da estrada\u201d, diz Estevan.<\/p>\n<h4>\u201cO sonho da terra, pra mim, j\u00e1 est\u00e1 muito longe\u201d<\/h4>\n<p>Ainda na BR 290, na divisa entre Cachoeira e Ca\u00e7apava do Sul, outro grupo de fam\u00edlias guarani vive em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade no acampamento de Irapu\u00e1. Oito fam\u00edlias, totalizando 40 pessoas, est\u00e3o vivendo na beira da estrada. Apesar de j\u00e1 terem sua terra demarcada na regi\u00e3o pelo governo federal, fazendeiros da regi\u00e3o impedem a efetiva\u00e7\u00e3o da demarca\u00e7\u00e3o. O cacique Valdomiro Karai, de 64 anos, conta que chegou na regi\u00e3o de Irapu\u00e1 em 1999 para trabalhar com artesanato. Depois que estava l\u00e1 ouviu falar que havia uma terra que seria demarcada pra os guaranis na regi\u00e3o. A espera por essa terra perdura at\u00e9 hoje. \u201cO sonho da terra, pra mim, j\u00e1 est\u00e1 muito longe. Temos que avan\u00e7ar pra abrir caminho mais adiante\u201d, afirma Valdomiro. Por enquanto, as fam\u00edlias tentam conseguir alguma renda vendendo artesanato na beira da BR. H\u00e1 cerca de tr\u00eas meses, segundo o cacique, as fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e3o recebendo mais cestas b\u00e1sicas da Funai.<\/p>\n<div id=\"attachment_734435\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734435\" class=\"size-large wp-image-734435\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Valdomiro-Karai2-720x343.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Valdomiro-Karai2-720x343.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Valdomiro-Karai2-300x143.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Valdomiro-Karai2-768x366.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Valdomiro-Karai2.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734435\" class=\"wp-caption-text\">Cacique Estevan Garai agradece a Nhanderu por nenhuma pessoa de sua comunidade ter sido atropelada at\u00e9 aqui. Foto: captura de video Sul21.<\/p><\/div>\n<p>A falta de terras obriga muitas fam\u00edlias a se deslocar de aldeias e acampamentos para outras \u00e1reas, gerando novos acampamentos. Esse \u00e9 o caso, por exemplo, do acampamento do Papagaio, que abriga dez pessoas, integrantes de duas fam\u00edlias. \u201cFaz tr\u00eas anos que estamos aqui. Temos a aldeia Araxaty, perto de Cachoeira, mas a \u00e1rea l\u00e1 \u00e9 muito pequena para 13 fam\u00edlias. Por isso viemos pra c\u00e1. O que precisamos mais \u00e9 de terra pra plantar. S\u00f3 de artesanato n\u00e3o d\u00e1 pra viver\u201d, diz Albino Gimenez. Desde que est\u00e3o l\u00e1, relata ainda, a Funai nunca apareceu. A sobreviv\u00eancia das duas fam\u00edlias depende fundamentalmente da venda de pe\u00e7as de artesanato como bichinhos de madeira e balaios. \u201c\u00c9 com isso que compramos alimento, se conseguimos vender, mas est\u00e1 dif\u00edcil\u201d. Como a renda decorrente dessas vendas \u00e9 baixa, a pesca e alguma ca\u00e7a s\u00e3o alternativas de sobreviv\u00eancia. \u201cA nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito prec\u00e1ria. Al\u00e9m do alimento, temos que comprar lonas e \u00e9 tudo muito caro pra n\u00f3s\u201d, resume Albino.<\/p>\n<h4>\u201cFalta espa\u00e7o para a gente viver. Tudo \u00e9 dif\u00edcil\u201d<\/h4>\n<p>Os relatos dos guaranis em diferentes acampamentos apontam os mesmos problemas. Raul Benitez mora h\u00e1 cerca de 30 anos no acampamento localizado \u00e0s margens da RS 40, em Capivari do Sul. Oito fam\u00edlias vivem neste acampamento. \u201cMoro aqui desde crian\u00e7a. N\u00e3o me lembro que idade tinha quando comecei a viver aqui. J\u00e1 havia acampamento guarani aqui h\u00e1 muitos anos. A nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. Falta terra, falta espa\u00e7o para a gente viver. Tudo \u00e9 dif\u00edcil pra n\u00f3s\u201d, conta Raul que trabalha como agente de sa\u00fade junto \u00e0 Sesai (Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena).<\/p>\n<div id=\"attachment_734444\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734444\" class=\"size-large wp-image-734444\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-nin--os-720x345.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-nin--os-720x345.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-nin--os-300x144.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-nin--os-768x368.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-nin--os.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734444\" class=\"wp-caption-text\">Raul Benitez: &#8220;Falta terra, falta espa\u00e7o pra gente viver&#8221;.\u00a0Foto: captura de video Sul21.<\/p><\/div>\n<p>\u201cA gente sabe plantar e conhece a nossa cultura de planta\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta Raul, \u201cmas n\u00e3o temos espa\u00e7o pra plantar\u201d. \u201cTem brancos que falam que os \u00edndios n\u00e3o sabem plantar, que n\u00e3o trabalham e s\u00e3o vagabundos. N\u00f3s somos trabalhadores, mas n\u00e3o temos terra para construir esse trabalho e a nossa cultura. Tem muitos acampamentos que est\u00e3o sofrendo como n\u00f3s. N\u00e3o tem como criar nossos filhos com uma educa\u00e7\u00e3o melhor por causa da falta de espa\u00e7o. A gente conhece a nossa cultura e n\u00e3o est\u00e1 esquecendo a nossa cultura. Primeiramente a gente tem que conseguir a terra para construir a casa de reza, para o cachimbo, o fumo. Tudo isso \u00e9 sagrado pra n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<h4>Fazendeiros conseguiram paralisar demarca\u00e7\u00f5es de terras<\/h4>\n<p>Mauricio da Silva Gon\u00e7alves, lideran\u00e7a guarani, relata que h\u00e1 hoje diversos acampamentos ao longo de rodovias como a BR 290 e a BR 116. \u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complicada. Os acampamentos t\u00eam uma estrutura m\u00ednima com casinhas de madeira ou feitas com lonas de pl\u00e1stico. H\u00e1 algumas terras em processo de demarca\u00e7\u00e3o como ocorre aqui em Irapu\u00e1, com uma \u00e1rea de 22 hectares, onde praticamente s\u00f3 falta a demarca\u00e7\u00e3o f\u00edsica. S\u00f3 que h\u00e1 uma resist\u00eancia muito grande dos que se dizem donos dessa terra, j\u00e1 demarcada, que n\u00e3o deixam os guaranis entrar na \u00e1rea. At\u00e9 hoje n\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para essa situa\u00e7\u00e3o e os guaranis seguem na beira da estrada, correndo o risco de ser atropeladas por caminh\u00f5es que passam em alta velocidade. Em todos os acampamentos h\u00e1 esse risco. Na BR 116, j\u00e1 ocorreram v\u00e1rios atropelamentos de ind\u00edgenas guarani\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_734489\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734489\" class=\"size-large wp-image-734489\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/7-chozas-guarani--2-720x343.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/7-chozas-guarani--2-720x343.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/7-chozas-guarani--2-300x143.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/7-chozas-guarani--2-768x366.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/7-chozas-guarani--2.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734489\" class=\"wp-caption-text\">Albino Gimenez: \u201cprecisamos de terra pra plantar\u201d. Foto: captura de video Sul21.<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 diversos estudos envolvendo demarca\u00e7\u00f5es de terras para os ind\u00edgenas, mas os fazendeiros, com o apoio da bancada ruralista e do governo Temer, conseguiram paralisar esse processo. Com isso, assinala Mauricio da Silva Gon\u00e7alves, vem aumentando o numero de acampamentos na beira das estradas. Somente no trecho da BR 290 entre Arroio dos Ratos e Ca\u00e7apava do Sul s\u00e3o tr\u00eas acampamentos (Divisa, Papagaio e Irapu\u00e1), reunindo cerca de 30 fam\u00edlias. \u201cA luta dos guaranis \u00e9 para que a Funai tome as provid\u00eancias necess\u00e1rias para que essas terras que est\u00e3o com os estudos de demarca\u00e7\u00e3o avan\u00e7ados sejam liberadas. O guarani \u00e9 um povo que respeita muito o que n\u00e3o \u00e9 dele, mas n\u00f3s precisamos ir para essas terras que est\u00e3o com os estudos praticamente prontos. H\u00e1 uma resist\u00eancia muito grande dos fazendeiros contra isso, especialmente aqui em Irapu\u00e1 onde h\u00e1 uma terra praticamente demarcada do outro lado da pista, mas os guaranis n\u00e3o podem ir para l\u00e1. Se tentarem entrar l\u00e1 podem ser alvo de alguma viol\u00eancia. J\u00e1 houve duas tentativas de ocupar aquela \u00e1rea. Numa delas, o fazendeiro foi l\u00e1 e colocou fogo nas barracas\u201d, relata.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras situa\u00e7\u00f5es envolvendo \u00e1reas adquiridas por conta do processo de compensa\u00e7\u00e3o das obras de duplica\u00e7\u00e3o da BR 116. Foram adquiridas oito \u00e1reas que j\u00e1 foram ocupadas por cerca de 300 fam\u00edlias guaranis. Ainda faltam recursos para construir moradias e centros culturais nestas aldeias, diz ainda Mauricio Gon\u00e7alves. \u201cAs fam\u00edlias que foram para essas \u00e1reas est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o melhor, pois estavam vivendo tamb\u00e9m na beira das estrada. J\u00e1 est\u00e3o conseguindo plantar alguma coisa, mas ainda falta muito. S\u00e3o \u00e1reas muito pequenas. O que resolveria mesmo seria a libera\u00e7\u00e3o das terras que est\u00e3o em processo de demarca\u00e7\u00e3o. Mas esse processo est\u00e1 praticamente paralisado h\u00e1 cinco anos aqui no Estado. E ainda temos fam\u00edlias acampadas na beira da estrada na BR 116, no Passo Grande, onde tamb\u00e9m h\u00e1 um processo de demarca\u00e7\u00e3o em curso\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_734462\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734462\" class=\"size-large wp-image-734462\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/3-guarani-Mauricio-Gonc--alves-720x347.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/3-guarani-Mauricio-Gonc--alves-720x347.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/3-guarani-Mauricio-Gonc--alves-300x145.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/3-guarani-Mauricio-Gonc--alves-768x371.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/3-guarani-Mauricio-Gonc--alves.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734462\" class=\"wp-caption-text\">Mauricio da Silva Gon\u00e7alves: \u201cH\u00e1 uma resist\u00eancia muito grande dos fazendeiros\u201d. Foto: captura de video Sul21.<\/p><\/div>\n<h4>\u201cO lugar onde se \u00e9\u201d<\/h4>\n<p>Al\u00e9m de pressionar o governo federal pela retomada das demarca\u00e7\u00f5es, os guaranis iniciaram tamb\u00e9m um processo de retomadas de terras no Rio Grande do Sul. Ao todo, s\u00e3o cinco retomadas. \u201cN\u00f3s estamos vivendo um momento muito importante. N\u00e3o d\u00e1 mais para ficar simplesmente esperando pelas demarca\u00e7\u00f5es. As fam\u00edlias est\u00e3o se organizando para ocupar essas \u00e1reas que ainda est\u00e3o com matas, que devem ser preservadas e cuidadas, e possuem um espa\u00e7o adequado para os guaranis viverem\u201d, assinala Mauricio.<\/p>\n<p>Esse processo de retomadas n\u00e3o est\u00e1 ligado somente \u00e0 busca da terra. Essa busca est\u00e1 ligada a uma dimens\u00e3o mais profunda que \u00e9 a luta pela sobreviv\u00eancia da l\u00edngua, da cultura e da espiritualidade guarani. A conflu\u00eancia e articula\u00e7\u00e3o entre essas lutas aparece exemplarmente na primeira retomada Guarani Mbya no Rio Grande do Sul, iniciada dia 27 de janeiro de 2017, em uma \u00e1rea no munic\u00edpio de Maquine, litoral norte do Estado. Essa \u00e1rea pertence \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Fepagro), uma das funda\u00e7\u00f5es de pesquisa extinta pelo governo Jos\u00e9 Ivo Sartori (MDB). A aldeia criada com a retomada recebeu o nome de Teko\u00e0\u00a0Ka Aguy Por\u00e1 (Aldeia Mata Sagrada). O sentido do termo \u201cTeko\u00e0\u201d n\u00e3o se reduz \u00e0 palavra \u201caldeia\u201d, significando o lugar do modo de ser guarani, o lugar onde se \u00e9.<\/p>\n<div id=\"attachment_734471\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734471\" class=\"size-large wp-image-734471\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/8-Andre-Benitez-720x343.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/8-Andre-Benitez-720x343.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/8-Andre-Benitez-300x143.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/8-Andre-Benitez-768x366.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/8-Andre-Benitez.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734471\" class=\"wp-caption-text\">Cacique Andr\u00e9 Benitez: \u201cNenhum povo nasceu para ser o dono da terra\u201d. Foto: captura de video Sul21.<\/p><\/div>\n<p>Andr\u00e9 Benitez, cacique da Aldeia Teko\u00e0 Ka Aguy Por\u00e1, resume assim o sentido da retomada realizada no munic\u00edpio de Maquin\u00e9:<\/p>\n<p>\u201cA gente foi chamado pelo nosso esp\u00edrito ancestral. A nossa luta \u00e9 diferente da de outros povos. Somos pac\u00edficos como na\u00e7\u00e3o guarani. A \u00e1rea que vai desde aqui da regi\u00e3o do Rio Grande do Sul at\u00e9 a regi\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, historicamente, sempre foi um territ\u00f3rio de passagem dos povos origin\u00e1rios. ara n\u00f3s, toda a Am\u00e9rica Latina \u00e9 um territ\u00f3rio para vivermos tranquilamente. Para as culturas ind\u00edgenas, principalmente para os guaranis, n\u00e3o existem fronteiras. Por isso n\u00e3o posso dizer exatamente onde \u00e9 nosso territ\u00f3rio e onde n\u00e3o \u00e9. Esse mundo foi criado para todos vivermos nele. Nenhum povo nasceu para ser o dono da terra. Cada povo nasceu para ser guardi\u00e3o da natureza e cada um deles tem seu modo de cuidar e de entender\u201d.<\/p>\n<h4>\u201cA nossa luta \u00e9 uma luta calada, no sil\u00eancio\u201d<\/h4>\n<p>O chamado do esp\u00edrito ancestral ao qual o cacique guarani se refere, est\u00e1 associado \u00e0 ideia de sentimento, que tem uma dimens\u00e3o individual e coletiva ao mesmo tempo. \u201cA gente sente isso. A nossa luta \u00e9 uma luta calada, no sil\u00eancio. O pr\u00f3prio esp\u00edrito puxa um ao outro. Ele chama a natureza e chama as pessoas. N\u00e3o vou conseguir explicar como foi esse chamado, mas a gente sabe que foi chamado e guiado por Nhanderu para fazer a retomada. Cada fam\u00edlia sentiu isso. N\u00e3o houve um movimento organizado para vir pra c\u00e1. Eu falei que estava vindo fazer a retomada. Outras fam\u00edlias sentiram tamb\u00e9m esse chamado e vieram junto\u201d.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 destaca essa dimens\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o da natureza ao falar sobre a decis\u00e3o da retomada em Maquin\u00e9. \u201cA gente est\u00e1 fazendo a retomada para cuidar desta natureza que restou. O n\u00e3o-ind\u00edgena tem um projeto para acabar com a natureza, vendendo as terras e fazendo lotes privativos. A gente n\u00e3o quer isso. A nossa luta \u00e9 uma luta para toda a humanidade, n\u00e3o s\u00f3 para o povo ind\u00edgena. Daqui a 50 , 60 anos, nossos filhos e nossos netos precisar\u00e3o de uma natureza preservada para poder respirar. Sem terra, sem mata, sem natureza, a gente n\u00e3o tem vida. Por isso retomamos essa \u00e1rea. Os nossos ancestrais j\u00e1 passaram por aqui para coletar sementes, frutas, rem\u00e9dios e material para artesanato\u201d.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas, diz ainda o cacique, dependem da natureza para a sua sobreviv\u00eancia f\u00edsica e cultural. \u201cN\u00e3o precisa de armas de fogo para nos matar. Sem lugar, sem natureza, a gente est\u00e1 morrendo. Por isso todos os povos ind\u00edgenas v\u00e3o continuar lutando por seus direitos, uma luta que \u00e9 de toda a humanidade. Estamos aqui h\u00e1 um ano e sete meses mais ou menos, vivendo bem. As crian\u00e7as n\u00e3o tem nenhum problema de sa\u00fade. Todo dia, levantam, brincam, est\u00e3o felizes. A retomada \u00e9 por isso tamb\u00e9m, pela felicidade das crian\u00e7as. Cada fam\u00edlia tem sua casinha, sua ro\u00e7a, est\u00e1 plantando. Estamos retomando tamb\u00e9m nossas atividades culturais, nosso canto, nossa dan\u00e7a. E temos uma escola aut\u00f4noma, que se chama Teko Jeap\u00f3 (cultura em a\u00e7\u00e3o), que conseguimos construir com o apoio dos nossos amigos. A escola, que funciona com regras definidas pela pr\u00f3pria comunidade, tem hoje 32 alunos\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_734507\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-734507\" class=\"size-large wp-image-734507\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-escola-720x345.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-escola-720x345.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-escola-300x144.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-escola-768x368.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/guarani-escola.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-734507\" class=\"wp-caption-text\">Escola Teko Jeap\u00f3 (cultura em a\u00e7\u00e3o), constru\u00edda na retomada de Maquin\u00e9. Foto: captura de video Sul21.<\/p><\/div>\n<p>Andr\u00e9 n\u00e3o tem ilus\u00f5es a respeito da posi\u00e7\u00e3o do governo do Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 retomada. Prefere pensar e se concentrar na for\u00e7a do que a comunidade vem construindo. \u201cA gente sabe que o governo do Estado nunca vai dar, mas a gente n\u00e3o alimenta a nossa cabe\u00e7a com esse \u2018n\u00e3o vai dar\u2019. A gente alimenta a nossa cabe\u00e7a com o pensamento de que estamos indo bem e vamos conseguir. Estamos lutando para a humanidade e pela nossa cultura, que quase foi perdida. Sabemos que t\u00eam muitas fam\u00edlias sofrendo na beira da estrada, sem casa, sem \u00e1gua, sem alimento. Estamos lutando por eles tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Ele lembra a presen\u00e7a dos povos ind\u00edgenas neste territ\u00f3rio muito antes da chegada de portugueses e espanh\u00f3is. \u201cO Brasil n\u00e3o foi descoberto, foi destru\u00eddo. Para descobrir uma coisa, teria que n\u00e3o haver nada antes dessa descoberta. Antes da chegada dos portugueses tinha povos origin\u00e1rios vivendo aqui. Mas n\u00f3s n\u00e3o queremos retomar o Brasil. Queremos retomar um lugarzinho que resta para a nossa sobreviv\u00eancia. Estamos acreditando e estamos felizes porque est\u00e1 acontecendo a retomada. N\u00e3o queremos lutar contra o Estado, mas apenas ser reconhecidos\u201d.<\/p>\n<div style=\"position: relative; height: 0; padding-bottom: 56.25%;\"><iframe loading=\"lazy\" style=\"position: absolute; width: 100%; height: 100%; left: 0;\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C3239-U3h1c?ecver=2\" width=\"720\" height=\"405\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marco Weissheimer\/Sul21 Todos os dias, uma cena se repete nas margens de rodovias ga\u00fachas, mostrando um lado sonegado da hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o do Estado. 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