{"id":724897,"date":"2018-09-26T04:07:52","date_gmt":"2018-09-26T03:07:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=724897"},"modified":"2018-09-26T04:07:52","modified_gmt":"2018-09-26T03:07:52","slug":"ameacadas-de-morte-por-quem-se-diz-pro-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2018\/09\/ameacadas-de-morte-por-quem-se-diz-pro-vida\/","title":{"rendered":"Amea\u00e7adas de morte por quem se diz pr\u00f3-vida"},"content":{"rendered":"<p>Uma pastora, uma jornalista, uma estudante e uma professora: quatro mulheres que sofrem ataques e persegui\u00e7\u00f5es por defenderem a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto falam \u00e0 P\u00fablica. As hist\u00f3rias s\u00e3o estarrecedoras.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de agosto, a P\u00fablica <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2018\/08\/vamos-deixar-o-odio-de-fora-no-debate-sobre-o-aborto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevistou a pesquisadora Debora Diniz<\/a>, que precisou deixar sua cidade por um tempo por causa de amea\u00e7as de morte que vinha sofrendo por defender publicamente a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Alguns dias depois, Debora e outras dezenas de especialistas, pesquisadores, institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e religiosas e representantes da sociedade civil se reuniram em torno do tema em <a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/justica\/noticia\/2018-08\/descriminalizacao-do-aborto-divide-especialistas-em-audiencia-no-stf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">audi\u00eancias p\u00fablicas no Supremo Tribunal Federal<\/a> (STF). Mas, apesar de a conversa dentro da corte ter transcorrido, com algumas exce\u00e7\u00f5es, com certo respeito e o debate ter sido feito a partir de reflex\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m das paix\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es religiosas \u2013 novamente com algumas exce\u00e7\u00f5es \u2013, fora dela quem se posiciona publicamente a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto tem sofrido cada vez mais ataques de \u00f3dio e amea\u00e7as de morte de grupos e pessoas que incoerentemente se dizem pr\u00f3-vida. A P\u00fablica conversou com quatro mulheres que sofreram ou ainda est\u00e3o sofrendo esse tipo de amea\u00e7a: uma pastora, uma professora, uma jornalista e uma estudante de direito m\u00e3e solo de dois filhos, bolsista do ProUni e trabalhadora em tempo integral, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/22\/politica\/1516635417_390008.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que teve o seu pedido judicial de aborto negado pelo STF<\/a>, sem an\u00e1lise de m\u00e9rito. Esta \u00faltima chegou a ter sua casa invadida por uma fundamentalista religiosa.<\/p>\n<p>Quando se fala em \u201cpr\u00f3-vida\u201d, \u00e9 importante n\u00e3o confundir com a institui\u00e7\u00e3o religiosa que leva esse nome. H\u00e1 grupos e pessoas que se autodenominam pr\u00f3-vida, geralmente ligados \u00e0s religi\u00f5es que professam a f\u00e9 crist\u00e3, que dizem lutar \u201cpela prote\u00e7\u00e3o da vida humana, desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 a morte natural\u201d e por isso s\u00e3o contra o aborto mesmo em caso de estupro, anencefalia e risco de vida para as mulheres. Esse ativismo est\u00e1 presente no mundo todo e \u00e9 bastante agressivo em sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vale lembrar ainda que uma em cada cinco mulheres at\u00e9 40 anos j\u00e1 fez ao menos um aborto no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto. Estima-se tamb\u00e9m que 1 milh\u00e3o de procedimentos, muitas vezes inseguros, s\u00e3o realizados por ano no Brasil, de acordo com dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p><strong>Lola Aronovich<\/strong><br \/>\nProfessora na Universidade Federal do Cear\u00e1, feminista, autora do blog Escreva Lola Escreva<\/p>\n<div id=\"attachment_724945\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-724945\" class=\"size-large wp-image-724945\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Lola-Aronovich-Analice-Diniz-Age--ncia-Pu--blica-720x480.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Lola-Aronovich-Analice-Diniz-Age--ncia-Pu--blica-720x480.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Lola-Aronovich-Analice-Diniz-Age--ncia-Pu--blica-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Lola-Aronovich-Analice-Diniz-Age--ncia-Pu--blica-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Lola-Aronovich-Analice-Diniz-Age--ncia-Pu--blica.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-724945\" class=\"wp-caption-text\">Lola Aronovich, professora na Universidade Federal do Cear\u00e1, \u00e9 amea\u00e7ada desde 2011. Foto Analice Diniz\/Age\u0302ncia Pu\u0301blica<\/p><\/div>\n<p>Eu sou amea\u00e7ada, atacada e perseguida desde 2011. Meu blog j\u00e1 tem dez anos; pouco tempo depois de sua cria\u00e7\u00e3o eu comecei a ser perseguida por um grupo de mis\u00f3ginos que se autointitulam \u201cmasculinistas\u201d, que se dizem defensores dos direitos dos homens, mas que na verdade s\u00e3o s\u00f3 pessoas cheias de \u00f3dio, antimulheres, antifeministas, muitos neonazistas tamb\u00e9m. Esse grupo tem um longo hist\u00f3rico de viol\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 online. Nesse per\u00edodo eu fiz 11 BOs porque eu tinha que tentar fazer alguma coisa contra todas as amea\u00e7as n\u00e3o s\u00f3 a mim, mas a minha m\u00e3e e ao meu marido. Dois deles acabaram sendo presos pela Opera\u00e7\u00e3o Intoler\u00e2ncia, da Pol\u00edcia Federal em 2012. Ficaram presos um ano e tr\u00eas meses e, assim que sa\u00edram, em 2013, come\u00e7aram a fazer tudo que faziam antes. O Marcelo Melo [<a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/juiz-mantem-na-cadeia-homemdebem-por-racismo-nas-redes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">preso em maio deste ano na Opera\u00e7\u00e3o Bravata, da Pol\u00edcia Federal<\/a>] principalmente. Ele ficou me atacando durante cinco anos ininterruptos e infernais, e eu demorei muito para conseguir abrir um inqu\u00e9rito, mesmo com 11 BOs. Era muito dif\u00edcil saber onde denunciar, porque a Pol\u00edcia Civil tem mais o que fazer, e a Delegacia das Mulheres, ao menos aqui em Fortaleza, fica muito restrita a caso de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Aqui no Cear\u00e1 n\u00e3o tem delegacia de crimes cibern\u00e9ticos, e a Pol\u00edcia Federal disse que n\u00e3o iria investigar porque s\u00f3 investiga crimes em que o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio internacional, racismo e pedofilia. O primeiro BO foi em 2012 e o \u00faltimo foi no ano passado.Finalmente, com a ajuda de um programa de prote\u00e7\u00e3o aos defensores dos direitos humanos, a gente conseguiu\u00a0marcar uma reuni\u00e3o com o\u00a0Minist\u00e9rio P\u00fablico, que chamou a delegada da Delegacia da Mulher, e a gente abriu um inqu\u00e9rito em abril do ano passado. Foram mais de cinco horas de depoimento. E ainda assim as amea\u00e7as n\u00e3o pararam. Mas, agora em maio deste ano, o Marcelo, que era o l\u00edder dessa quadrilha mis\u00f3gina, foi preso e minha vida melhorou um pouco nesses meses. A gente espera que ele fique preso porque a PF diz que os crimes dele j\u00e1 somam 39 anos. Em junho teve um membro da quadrilha dele, que era, inclusive, moderador de um f\u00f3rum que eles tinham \u2013 ao qual eu tinha acesso porque o Marcelo me passou o link v\u00e1rias vezes para eu acompanhar o que eles tramavam contra mim. Anunciou que iria se matar, e sempre tem muita mensagem assim nesses f\u00f3runs. Ele j\u00e1 tinha dito isso muitas vezes e recebeu a resposta que sempre d\u00e3o para esses rapazes: \u201cN\u00e3o se mate, leve a esc\u00f3ria junto\u201d, ou seja, se mate depois que causar um atentado numa palestra feminista, numa marcha das vadias, parada LGBT. E foi isso que ele fez. <a href=\"http:\/\/www.folhadaregiao.com.br\/2018\/06\/16\/homem-atira-em-mulher-e-depois-se-mata-em-penapolis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ele saiu na rua na cidade onde ele morava, em Pen\u00e1polis, interior de S\u00e3o Paulo<\/a>. Viu duas mulheres que n\u00e3o conhecia, assediou essas mulheres \u2013 ele devia estar muito alterado porque elas sa\u00edram correndo \u2013 e ele atirou na nuca de uma delas pelas costas. Vinte dias depois ela morreu. Ele se matou no mesmo dia. A gente fica pensando: se a pol\u00edcia tivesse prendido esse outro membro da quadrilha, isso n\u00e3o teria acontecido.<\/p>\n<p>As amea\u00e7as que eu sofro n\u00e3o s\u00e3o algo pessoal \u2013 ficam pessoais porque eles buscam dados para me atacar pessoalmente, atacar meu marido \u2013, mas surgem porque eu sou feminista. Eles se consideram homens de fam\u00edlia, se dizem pr\u00f3-vida, mas como voc\u00ea vai ser pr\u00f3-vida amea\u00e7ando de morte e matando pessoas? Comemorando a morte de mulheres? Eles defendem abortos for\u00e7ados, compuls\u00f3rios para mulheres negras, por exemplo, para que n\u00e3o se reproduzam. Eles me odeiam por defender a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, mas tamb\u00e9m por ter um marido, por ser gorda e ser casada. O Marcelo dizia que gastava n\u00e3o sei quantas horas por dia construindo um site na deep web com nome e fotos do meu marido, alimentando esse site com pornografia infantil, esperando que algum dia a pol\u00edcia chegasse at\u00e9 esse site e prendesse meu marido. E eles j\u00e1 usaram algumas vezes o fato de o aborto ser crime no Brasil para tentar me criminalizar e manchar minha imagem. Em 2014 tinha um masculinista de outra quadrilha l\u00e1 de Mato Grosso que passou o ano inteiro fazendo um site contra mim. Ele fez 500 posts me xingando, xingando meu marido, fazendo montagens. Ent\u00e3o de repente descobri que ele pr\u00f3prio tinha me denunciado para o Minist\u00e9rio P\u00fablico! O MP acatou a den\u00fancia sem nenhuma investiga\u00e7\u00e3o de quem estava denunciando e eu cheguei na delegacia e tinha um caso Lola Aronovich. Ele me denunciou por um guest post em que uma convidada an\u00f4nima dizia que tinha passado por um aborto. Eu j\u00e1 publiquei mais de 900 posts de convidados sobre assuntos que fogem do meu alcance, do meu conhecimento, da minha viv\u00eancia. J\u00e1 publiquei sobre viol\u00eancia obst\u00e9trica, sobre poliamor, sobre qualquer coisa que queiram escrever e que eu ache interessante. E j\u00e1 publiquei v\u00e1rios guest posts an\u00f4nimos de mulheres que abortaram. Um deles era bem suave, o t\u00edtulo era \u201cO verdadeiro sentido da palavra comunh\u00e3o\u201d, e foi esse que ele denunciou. Era de uma mo\u00e7a que abortou falando sobre como ela recebeu apoio de outras mulheres, de como ela n\u00e3o se arrepende porque era a decis\u00e3o certa para ela naquele momento. A\u00ed eu chego na delegacia \u2013 felizmente o delegado n\u00e3o estava l\u00e1 naquele dia, um ambiente extremamente opressor \u2013 e na \u00e9poca eu fui sem advogado \u2013, e tinha esse caso Lola Aronovich, em que eu estava sendo acusada de apologia ao crime. A escriv\u00e3 foi gentil, mas a conversa foi tensa. Ela disse que se eles quisessem eu teria que falar o nome dessa mulher, que ela cometeu um crime e que eu poderia ser incriminada. Eu disse que de jeito nenhum, que eu nem tinha mais contato com ela e que eu tinha todo o direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o, mas que, se eles quisessem entrar nessa guerra, tudo bem. Esse caso rolou durante anos. S\u00f3 no ano passado, quando eu fui na delegacia pedir para marcar uma data para pegar meu depoimento e na reuni\u00e3o tinha representantes do MP, \u00e9 que eles disseram que o caso tinha sido arquivado. Mas \u00e9 preciso refletir que, se a gente estiver em um governo de extrema direita, isso vai para a frente.<\/p>\n<p>O outro caso parecido aconteceu em 2015 com o Marcelo. Ele sempre fez blogs de \u00f3dio, pregando assassinato de mulheres, negros, gays, que foi o que causou a pris\u00e3o dele em 2012 por intoler\u00e2ncia. E ele unia o \u00fatil ao agrad\u00e1vel porque, al\u00e9m de promover essa ideologia, pregar a legaliza\u00e7\u00e3o da pedofilia, do estupro, estupro corretivo para l\u00e9sbicas \u2013 e ele de fato acredita nisso \u2013, ele colocava o nome de inimigos dele nesses sites. Ele fazia guia de como estuprar vadias nas universidades, recompensa para quem me matasse e matasse o Jean Willys. Em 2015 ele decidiu inovar e criou um site de \u00f3dio no meu nome. Como se fosse de uma feminista, eu no caso, espalhando um monte de coisas em que eu n\u00e3o acredito. Com meu nome completo, meu telefone residencial e meu endere\u00e7o em cada post, fotos minhas, links para meu Lattes. Ele n\u00e3o hackeou meu blog. O que fez foi criar outro blog com meu nome. Nesse site de \u00f3dio, ele colocava coisas horr\u00edveis, como se fosse eu escrevendo em primeira pessoa. Defendendo o aborto de fetos masculinos, infantic\u00eddio de meninos, \u201cvendia\u201d rem\u00e9dios abortivos \u2013 espero que nunca ningu\u00e9m tenha ca\u00eddo nessa \u2013, dizia que eu queimava b\u00edblia em sala de aula, inclu\u00eda racismo e chegou ao c\u00famulo de fazer um post como se fosse eu falando com grande orgulho que tinha realizado um aborto em sala de aula de uma aluna na UFC [Universidade Federal do Cear\u00e1]. Eu dei risada, imaginei que qualquer pessoa que lesse aquilo iria perceber que realmente n\u00e3o era verdade, que n\u00e3o era eu. Mas as pessoas acreditaram, teve v\u00e1rias den\u00fancias \u00e0 ouvidoria da UFC. Eles criaram o blog em agosto de 2015 e, durante um m\u00eas, n\u00e3o tinha muita audi\u00eancia. Ent\u00e3o o Olavo de Carvalho e o Roger, do Ultraje a Rigor, divulgaram esse site falso. Eles sabiam que n\u00e3o era meu, mas espalharam. Isso viralizou e foi um esc\u00e2ndalo. Eu digo no meu blog que acredito em homem feminista, digo que todos os homens devem ser feministas, e por a\u00ed vai. Foi f\u00e1cil desmentir. Teve bastante cobertura da m\u00eddia sobre o ataque, fizeram at\u00e9 um Profiss\u00e3o Rep\u00f3rter comigo. Eu recebi bastante apoio da minha universidade, fui chamada para uma audi\u00eancia no Congresso para falar de crimes cibern\u00e9ticos. Ent\u00e3o teve seu lado bom. E a deputada federal Luizianne Lins (PT) criou, no come\u00e7o de 2016, o projeto de lei que viria a ser a <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2018\/lei\/L13642.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei Lola 13.642\/2018<\/a>, que foi aprovada agora em abril, que atribui \u00e0 Policia Federal a investiga\u00e7\u00e3o de crimes contra as mulheres na internet. Mas antes disso um dos caras, o Emerson, que tinha sido preso em 2012 na Opera\u00e7\u00e3o Intoler\u00e2ncia, denunciou esse site de \u00f3dio \u00e0 pol\u00edcia e ao MP, e eles abriram um outro caso Lola Aronovich. E eu fui chamada de novo para depor em 2015 para me explicar sobre esse blog que defendia o aborto. Dessa vez eu fui com advogado, porque eu j\u00e1 estava nesse programa de prote\u00e7\u00e3o aos defensores de direitos humanos. Felizmente eu j\u00e1 tinha um BO dizendo que aquilo n\u00e3o era meu, mas ainda assim fizeram um monte de perguntas. Eu sa\u00ed naquele dia convicta de uma coisa muito triste: que as pol\u00edcias no nosso pa\u00eds levam muito mais a s\u00e9rio, veem muito mais como crime voc\u00ea defender a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto do que voc\u00ea defender estupro de mulheres. Porque foi muito r\u00e1pido que me chamaram para depor sobre um site obviamente falso sobre aborto. E o tempo que eles demoraram para fazer qualquer tipo de investiga\u00e7\u00e3o sobre as centenas de sites que o Marcelo fazia que defendiam estupro etc. foi enorme. A pr\u00f3pria delegada me mostrou que quem denunciou foi o Emerson. Eu fiquei perplexa porque voc\u00ea tem um cara que foi presidi\u00e1rio, acusado, julgado e condenado por crimes de \u00f3dio, e a\u00ed ele denuncia uma feminista e tudo bem? Isso \u00e9 acatado. Mas agora o Marcelo est\u00e1 sendo tamb\u00e9m acusado por esse site. E tamb\u00e9m por vender rem\u00e9dios abortivos, porque afinal ele fez isso.<\/p>\n<p>Eu estou numa universidade p\u00fablica com certa estabilidade, tenho o apoio do meu marido e da minha fam\u00edlia. Comecei o blog j\u00e1 tinha 40 anos e uma certa maturidade. Se eu parasse com o blog, eles n\u00e3o iriam parar de me atacar. Se eu parasse, significaria que eles ganharam. E eles n\u00e3o podem ganhar. Eu me baseio muito no que a Audre Lorde disse: que o seu sil\u00eancio n\u00e3o te proteger\u00e1. N\u00e3o adianta a gente ficar quieta, que n\u00e3o vamos parar de ser atacadas por sermos mulheres. N\u00e3o precisa nem ser feminista para ser atacada por ser mulher. Claro que um dia eu vou parar com o blog porque cansa, porque vou querer me aposentar, mas n\u00e3o vai ser porque eles ganharam. Eu sei que sou um exemplo de luta e n\u00e3o quero que ningu\u00e9m passe pelo que passei, mas quero que as mulheres tenham mais coragem para, unidas, irmos em frente e mostrar que n\u00e3o temos medo.<\/p>\n<p><strong>Rebecca Mendes<br \/>\n<\/strong>Estudante de direito, m\u00e3e solo de dois meninos, trabalhadora; \u00e9 a primeira mulher brasileira a pedir no STF o direito a fazer um aborto legal e seguro por n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es financeiras e psicol\u00f3gicas para seguir com a gesta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<div id=\"attachment_724936\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-724936\" class=\"size-large wp-image-724936\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rebeca-Mendes-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-720x480.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rebeca-Mendes-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-720x480.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rebeca-Mendes-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rebeca-Mendes-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rebeca-Mendes-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-724936\" class=\"wp-caption-text\">Rebecca Mendes \u00e9 a primeira mulher brasileira a pedir no STF o direito a fazer um aborto legal e seguro. Foto Jose C\u00edcero da Silva\/Agencia Publica<\/p><\/div>\n<p>No come\u00e7o do ano passado, eu decidi trocar de m\u00e9todo contraceptivo e queria colocar o DIU. Porque, desde que meu segundo filho nasceu, eu usava horm\u00f4nio sem parar e me sentia muito mal. Parei de tomar a inje\u00e7\u00e3o e comecei a tentar marcar consulta no posto de sa\u00fade com a ginecologista. No come\u00e7o do ano. Eu consegui marcar a consulta para setembro. A m\u00e9dica me deu um papel e me encaminhou para o planejamento familiar, mas me pediu um ultrassom para iniciar o processo burocr\u00e1tico para colocar o DIU. Eu consegui marcar o exame em outubro. No dia do exame, minha menstrua\u00e7\u00e3o veio e precisei remarcar o exame para dezembro. Nesse meio-tempo eu tive um encontro amoroso e acabei engravidando. Descobri no come\u00e7o de novembro. Eu entrei em desespero. Surtei. Chorava dentro de casa e meus filhos ficavam perguntando o que estava acontecendo. A\u00ed eu liguei para o pai daquela gesta\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 o pai dos outros filhos que eu tenho. A gente se encontrou e eu disse o que tinha acontecido. Eu j\u00e1 tinha entendido que n\u00e3o podia e n\u00e3o queria. E contei para ele e ele disse \u201ceu n\u00e3o quero\u201d. A gente concluiu que ningu\u00e9m queria, mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o queria fazer o aborto de qualquer forma. Passamos o dia seguinte procurando um m\u00e9todo para interromper a gesta\u00e7\u00e3o de forma segura. Eu disse que n\u00e3o queria colocar minha sa\u00fade em risco, tinha pavor de tomar uma coisa e ficar em casa sangrando com os meninos, morrer em casa. E tamb\u00e9m n\u00e3o queria nada que botasse minha seguran\u00e7a em risco. No semestre anterior da faculdade, eu tinha visto as penalidades para mulheres que praticavam o aborto. E a gente escuta hist\u00f3rias na vida. Uma amiga que fez isso, aquilo. Eu morria de medo. Eu coloquei esses dois quesitos, essas duas condi\u00e7\u00f5es. E no dia seguinte a gente come\u00e7ou a procurar op\u00e7\u00f5es, a gente viu cl\u00ednicas car\u00edssimas que n\u00e3o ter\u00edamos condi\u00e7\u00f5es de pagar; a gente viu lugares que vendem os comprimidos na rua; a gente viu grupos nas redes sociais; a gente viu um site que parece um e-commerce, e eu dizia \u201cn\u00e3o confio, n\u00e3o sei de onde vem\u201d. Acabei conhecendo a Debora Diniz atrav\u00e9s de um amigo do pai dos meus filhos. Eu disse que estava no comecinho de uma gravidez indesejada e que precisava de ajuda. Eu n\u00e3o a conhecia, ela me contou sobre o trabalho dela e me disse que a forma que poderia me ajudar era entrarmos com um pedido na Justi\u00e7a. Ela me explicou o que seria, disse dos problemas que poderia ter a exposi\u00e7\u00e3o, disse que provavelmente teria exposi\u00e7\u00e3o e disse para eu pensar. Fui pesquisar quem era ela e achei que era a \u00fanica alternativa. E a\u00ed disse que topava. N\u00f3s passamos semanas providenciando documentos, fazendo exames. O caso come\u00e7ou a repercutir muito e passei a receber muitas mensagens de grupos pr\u00f3-vida, que descobriram meu telefone e me ligavam, me mandavam mensagens. Recebi amea\u00e7as de morte de todo tipo nos coment\u00e1rios das reportagens. Foi horr\u00edvel. Eu estava em um momento conturbado, passando por muitos problemas, com os horm\u00f4nios da gesta\u00e7\u00e3o, me sentindo sozinha com meus filhos. O pai j\u00e1 tinha largado m\u00e3o. Eu n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. Meus amigos mais pr\u00f3ximos vinham me questionar, todo mundo tinha uma solu\u00e7\u00e3o perfeita para o meu problema. Come\u00e7aram a aparecer pessoas na minha casa! Um domingo \u00e0 noite apareceu uma mulher de um grupo pr\u00f3-vida que tinha descoberto meu endere\u00e7o e foi entrando. Eu disse que ela n\u00e3o podia fazer isso, que era uma propriedade particular, e ela disse que, j\u00e1 que meu caso era p\u00fablico, ela tinha o direito de fazer aquilo. Nesse dia fiquei com muito medo porque estava sozinha em casa com meus filhos, e n\u00e3o d\u00e1 para argumentar com essas pessoas. Fora todas as barbaridades que eu lia e ouvia. Eu me afastei das m\u00eddias sociais, dava entrevista, mas n\u00e3o via. Sei que saiu na TV, mas nunca vi. Muita gente me acusou, que eu era uma assassina, que eu merecia morrer, que meus filhos mereciam morrer, que uma hora ou outra eu ia matar os filhos que j\u00e1 tenho. Eu fiquei com medo e at\u00e9 hoje, mesmo depois que consegui fazer o procedimento de forma legal na Col\u00f4mbia, eu tenho medo. A gente ficou meio visado aqui no bairro. Eu estou sempre de olho. Eu vi o que aconteceu com a Debora e com outras pessoas que apoiam a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Umas duas semanas depois que eu voltei da Col\u00f4mbia, ainda lia coment\u00e1rios maldosos. S\u00e3o pessoas contradit\u00f3rias e pr\u00f3-vida at\u00e9 a p\u00e1gina dois, enquanto aquele feto est\u00e1 ali. Depois que essa crian\u00e7a nasce ou se ela acaba tendo uma cria\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, com pais desestruturados ou vai parar num orfanato, eles j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3-vida. J\u00e1 entram no modo \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Pessoas cheias de \u00f3dio, discrimina\u00e7\u00e3o. Eu dizia na \u00e9poca, eu n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de criar tr\u00eas filhos sozinha, n\u00e3o tinha dinheiro, iria ter que largar a faculdade. A\u00ed, se eu n\u00e3o consigo criar meus filhos direito, eles crescem e entram para o crime, esse mesmo pessoal iria querer a morte deles. S\u00e3o pessoas perigosas, que disseminam \u00f3dio e preconceito a quem pensa diferente deles.<\/p>\n<p><strong>Rita Lisauskas<\/strong><br \/>\nJornalista, escritora, colunista do Estad\u00e3o e da R\u00e1dio Eldorado<\/p>\n<div id=\"attachment_724927\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-724927\" class=\"size-large wp-image-724927\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rita-lisauskas-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-720x480.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rita-lisauskas-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-720x480.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rita-lisauskas-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rita-lisauskas-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/rita-lisauskas-Jose-Cicero-da-Silva-Agencia-Publica.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-724927\" class=\"wp-caption-text\">Rita Lisauskas \u00e9 jornalista e autora da coluna Ser m\u00e3e \u00e9 padecer na internet. Foto Jos\u00e9 C\u00edcero da Silva\/Agencia Publica<\/p><\/div>\n<p>Eu escrevi tr\u00eas mat\u00e9rias sobre aborto para a coluna do Estad\u00e3o. Uma que chamava <a href=\"https:\/\/emais.estadao.com.br\/blogs\/ser-mae\/sou-mae-e-a-favor-do-aborto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cSou m\u00e3e e a favor do aborto\u201d<\/a>, depois eu fiz uma reportagem sobre uma menina que foi denunciar o agressor e ouviu \u201c<a href=\"https:\/\/emais.estadao.com.br\/blogs\/ser-mae\/tem-certeza-que-esse-ele-nao-e-seu-namorado-ouviu-mulher-vitima-de-estupro-ao-denunciar-agressor-e-tentar-fazer-aborto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tem certeza que ele n\u00e3o \u00e9 seu namorado?<\/a>\u201d e outra que \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/emais.estadao.com.br\/blogs\/ser-mae\/precisamos-falar-de-novo-sobre-o-aborto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Precisamos falar de novo sobre aborto<\/a>\u201d. Todas tiveram aquele chorume nos coment\u00e1rios das redes sociais. Quando come\u00e7aram as audi\u00eancias no STF, eu pensei em escrever a respeito, mas desisti. Porque \u00e9 uma coisa t\u00e3o cansativa, aqueles coment\u00e1rios, aquela coisa infernal. Eu tenho a impress\u00e3o que as pessoas que leem e concordam com voc\u00ea guardam suas opini\u00f5es, compartilham os textos sem falar muito, mas, quando s\u00e3o contra, elas comentam, agridem, escrevem palavras de \u00f3dio e s\u00f3 chega em n\u00f3s esse feedback. Isso \u00e9 muito cansativo.<\/p>\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o e as amea\u00e7as \u00e0 Debora Diniz, que \u00e9 uma estudiosa que se debru\u00e7a sobre o assunto, tamb\u00e9m colaboraram um pouco para o meu cansa\u00e7o. Acho que de alguma forma voc\u00ea acaba se autocensurando porque \u00e9 uma coisa t\u00e3o s\u00e9ria e t\u00e3o grave que voc\u00ea fala \u201cpoxa n\u00e3o vou mexer mais nisso porque j\u00e1 foi t\u00e3o cansativo da outra vez\u201d e voc\u00ea acaba se silenciando. Eu acho que parte desse \u00f3dio \u00e9 uma coisa orquestrada. \u201cVamos pra cima dessa mulher que t\u00e1 falando sobre esse assunto com toda a agressividade poss\u00edvel porque ela vai pensar duas vezes antes de falar sobre isso de novo.\u201d E acaba tendo um efeito, n\u00e9? O epis\u00f3dio mais grave pra mim e para minha fam\u00edlia foi o do Queer Museum: eu escrevi falando que levaria meu filho para aquela exposi\u00e7\u00e3o. Aquilo j\u00e1 me deixou com medo de escrever sobre esses assuntos porque a pauta do pessoal de extrema direita \u00e9 sempre a mesma, sempre inclui o aborto, chamam uma exposi\u00e7\u00e3o de arte de pedofilia. Na \u00e9poca eu tinha no meu Twitter escrito que eu era m\u00e3e do Samuel. Eles pegavam meu nome e falavam \u201ca gente vai ver onde o Samuel estuda\u201d, a ponto de o meu marido entrar em p\u00e2nico e pedir para eu tirar o nome dele do meu perfil. Recebi muitas amea\u00e7as, uma avalanche. Notifiquei o jornal, mudamos nossa rotina por um tempo. Eu fechei meu Instagram porque eles entravam me chamando de aborteira e ped\u00f3fila. Eram tantas mensagens que eu nem sabia quais denunciar \u00e0 pol\u00edcia. Foi uma coisa enlouquecedora. Meu pai geralmente busca meu filho na escola e naquela semana eu fui buscar meu filho todos os dias, olhando para os lados, esperando ser atacada. Fiquei meio paranoica. Fiquei conhecida como aborteira e ped\u00f3fila. As pessoas s\u00e3o as mesmas e as pautas s\u00e3o as mesmas. Juntou o medo com um cansa\u00e7o de alma. E isso \u00e9 terr\u00edvel, n\u00e9? Sermos silenciadas dessa forma.<\/p>\n<p><strong>Lusmarina Campos Garcia<br \/>\n<\/strong>Te\u00f3loga e pastora da Igreja Luterana, bacharel, mestra e doutoranda na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ<\/p>\n<div id=\"attachment_724918\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-724918\" class=\"size-large wp-image-724918\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Pastora-Lusmarina-Alexandre-Campbell-Agencia-Publica-720x480.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Pastora-Lusmarina-Alexandre-Campbell-Agencia-Publica-720x480.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Pastora-Lusmarina-Alexandre-Campbell-Agencia-Publica-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Pastora-Lusmarina-Alexandre-Campbell-Agencia-Publica-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Pastora-Lusmarina-Alexandre-Campbell-Agencia-Publica.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-724918\" class=\"wp-caption-text\">Lusmarina Campos Garcia come\u00e7ou a sofrer amea\u00e7as de morte desde que o Conselho de Igrejas Crist\u00e3s do Rio De Janeiro fez uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o para ajudar na reconstru\u00e7\u00e3o do terreiro da M\u00e3e Concei\u00e7\u00e3o de Liss\u00e1. Foto Alexandre Campbell\/Agencia Publica<\/p><\/div>\n<p>Eu comecei a sofrer amea\u00e7as de morte na verdade desde que o Conselho de Igrejas Crist\u00e3s do Rio De Janeiro, do qual eu era presidente, fez uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o para ajudar na <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-43879422\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reconstru\u00e7\u00e3o do terreiro da M\u00e3e Concei\u00e7\u00e3o de Liss\u00e1<\/a>, que havia sido queimado em Duque de Caxias. Foi uma a\u00e7\u00e3o afirmativa diante da intoler\u00e2ncia perpetrada por grupos que se dizem evang\u00e9licos. Essa a\u00e7\u00e3o teve bastante repercuss\u00e3o na m\u00eddia e uma avalanche de persegui\u00e7\u00f5es come\u00e7ou a acontecer. Um dos v\u00eddeos me atacando era, inclusive, de um youtuber evang\u00e9lico que me chamava de \u201cpastora vagabunda, vadia\u201d e dizia que eu tinha que tomar tapa na cara. Uma fala muito agressiva e muitas mensagens de degrada\u00e7\u00e3o, desrespeito e inj\u00faria. Mas eu acho importante dizer que essas mensagens e amea\u00e7as aparecem em n\u00famero muito menor do que as que chegam em apoio, carinho e agradecimento. Com minha participa\u00e7\u00e3o nas audi\u00eancias p\u00fablicas sobre a quest\u00e3o do aborto no STF, eu voltei a receber mensagens nas redes sociais, e duas especialmente foram consideradas como amea\u00e7as de morte reais. Uma delas veio de um pastor, se n\u00e3o me engano \u2013 a pol\u00edcia est\u00e1 investigando \u2013 que diz \u201cessa vadia, essa vagabunda que se diz pastora luterana, seria uma honra para mim mat\u00e1-la. Voc\u00ea \u00e9 um alvo bom para eu descarregar o meu fuzil\u201d. E uma outra pessoa que diz \u201cmorre sua maldita\u201d, que na verdade a pol\u00edcia achou a princ\u00edpio que n\u00e3o era uma amea\u00e7a de morte direta, mas, quando eu fui na p\u00e1gina da pessoa, vi que \u00e9 algu\u00e9m que tem arma, que tem autoriza\u00e7\u00e3o para isso \u2013 e aparece em fotos atirando em um alvo, fazendo treinamento de tiro. Essas foram as duas mais pesadas de que eu tenho conhecimento at\u00e9 o momento, porque eu confesso que n\u00e3o fico olhando. N\u00e3o quero gastar meu tempo nisso.<\/p>\n<p>Essas duas eu levei para a pol\u00edcia, fiz boletim de ocorr\u00eancia e est\u00e3o sendo investigadas. Eu acho que h\u00e1 uma teologia mis\u00f3gina que perpassa as igrejas de modo geral. \u00c9 uma teologia baseada numa perspectiva patriarcal na qual o homem \u00e9 o centro das rela\u00e7\u00f5es e do universo, da cria\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o h\u00e1 um tratamento com respeito \u00e0s mulheres, em termos teol\u00f3gicos e em termos eclesiol\u00f3gicos, de considerar a mulher como um ser de segunda categoria. \u00c9 como \u00e9 interpretado o texto do G\u00eanesis [primeiro livro da B\u00edblia]. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da mulher, de subalternidade, de n\u00e3o sujeito. Ent\u00e3o, embora o discurso de muitas igrejas seja \u201cn\u00f3s valorizamos as mulheres, as mulheres s\u00e3o muito importantes\u201d, na verdade elas s\u00f3 s\u00e3o importantes na medida da sua subservi\u00eancia e na medida do seu servi\u00e7o \u2013 porque na verdade s\u00e3o as mulheres que mant\u00eam as igrejas funcionando. \u00c9 um discurso muito controverso e muito hip\u00f3crita. Ent\u00e3o, tem uma teologia carregada de misoginia, que perpassa nossas igrejas, e por causa disso, inclusive, voc\u00ea vai ter esse tipo de comportamento que se coloca t\u00e3o veemente em defesa da vida do feto e n\u00e3o da vida da mulher. Porque na verdade, quando voc\u00ea tem grupos pr\u00f3-vida amea\u00e7ando mulheres de morte, isso significa que essas pessoas que defendem a vida do feto acham que a vida das mulheres \u00e9 descart\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 toda vida.<\/p>\n<p>O que eu tenho observado, tamb\u00e9m, \u00e9 que h\u00e1 uma crescente onda conservadora dentro das igrejas, inclusive dentro da minha pr\u00f3pria igreja, e a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se preocupa em responder a esses conservadores. A gente percebe uma viol\u00eancia, atitudes hostis tanto de lideran\u00e7as como de colegas e de membros comuns da igreja. A hostilidade acompanha essa onda conservadora n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo. O Brasil tem caracter\u00edsticas espec\u00edficas porque houve um crescimento muito grande das igrejas neopentecostais, que tem um discurso mais violento tamb\u00e9m. E, como elas cresceram muito, eu acho que as igrejas protestantes hist\u00f3ricas e a cat\u00f3lica acabaram tendo que concorrer, entrar na disputa pelos membros e acabaram com algumas caracter\u00edsticas importantes da sua hist\u00f3ria. O que a gente est\u00e1 vivendo hoje \u00e9 resultado dessas \u00faltimas d\u00e9cadas, e por outro lado eu acho que \u00e9 resultado desta onda global de crescimento dos protofascismos. H\u00e1 essa onda antig\u00eanero, antidireitos humanos, antidistribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 importante dizer que essas amea\u00e7as e atitudes de \u00f3dio t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de desarticular nossa a\u00e7\u00e3o e nosso desejo de permanecer lutando por esta causa e por outras que s\u00e3o causas justas e s\u00e3o causas da afirma\u00e7\u00e3o da autonomia das mulheres, da dignidade das mulheres, dos direitos das mulheres de decidir seu presente e seu futuro e de ser tratadas como seres livres e aut\u00f4nomos. Essas amea\u00e7as t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de nos parar, de nos interromper, amedrontar. No entanto, eu gostaria de deixar muito claro que nenhuma dessas atitudes vai me fazer parar e nem vai fazer parar as mulheres que eu conhe\u00e7o, que est\u00e3o nessa luta. N\u00e3o v\u00e3o fazer parar as pessoas que defendem os direitos humanos. Esse pessoal vai ter que arrumar outra estrat\u00e9gia para lidar comigo, por exemplo. Porque a mim n\u00e3o amedronta. E tudo isso \u00e9 muito menor do que o tanto de mensagens de solidariedade que eu recebo e que me fortalecem.<\/p>\n<p>Assista <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RblN7f6Kg8o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a> ao v\u00eddeo da fala da pastora Lusmarina no STF.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pastora, uma jornalista, uma estudante e uma professora: quatro mulheres que sofrem ataques e persegui\u00e7\u00f5es por defenderem a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto falam \u00e0 P\u00fablica. As hist\u00f3rias s\u00e3o estarrecedoras. 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