{"id":62333,"date":"2013-07-25T16:41:41","date_gmt":"2013-07-25T15:41:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=62333"},"modified":"2013-07-25T22:52:32","modified_gmt":"2013-07-25T21:52:32","slug":"um-olhar-irreverente-sobre-nelson-mandela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2013\/07\/um-olhar-irreverente-sobre-nelson-mandela\/","title":{"rendered":"Um olhar irreverente sobre Nelson Mandela"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o discuto a import\u00e2ncia de Nelson Mandela nem as li\u00e7\u00f5es de inteireza, hero\u00edsmo e grandeza que dele emanam. <\/p>\n<p>Mas junto a essa imagem estatu\u00e1ria est\u00e1 a outra: a do homem que instaurou, com sua indulg\u00eancia, a impunidade na \u00c1frica do Sul p\u00f3s-apartheid. <\/p>\n<p>\u00c9 como se, depois da segunda guerra mundial n\u00e3o se houvesse realizado o ju\u00edzo de Nuremberg. Como se, em nosso reduzido \u00e2mbito, Fujimori n\u00e3o houvesse sido julgado e condenado. <\/p>\n<p>O certo \u00e9 que a transi\u00e7\u00e3o sul-africana foi, eticamente, uma farsa. A Comiss\u00e3o da Verdade e a Reconcilia\u00e7\u00e3o, presidida pelo arcebispo anglicano Desmond Tutu,teve que se sujeitar \u00e0 lei antipunitiva de Mandela e o que fez foi convocar os criminosos para confessar suas maldades para, de imediato, serem soltos. Houve uma prescri\u00e7\u00e3o de fato e uma anistia geral sem processo pr\u00e9vio. E a repara\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas consistiu em dat 5mil d\u00f3lares por cabe\u00e7a a 16mil deles [parte das 21mil que puderam dar seus testemunhos antes do 15 de dezembro de 1997, num percurso que fez a Comiss\u00e3o de Tutu, acossada por falta de fundos, ao longo do pa\u00eds]. <\/p>\n<p>Quantas v\u00edtimas ficaram fora dessa lista apenas indenizat\u00f3ria? Centenas de milhares, provavelmente. Todos os pedidos para ampliar essa contagem tem sido rejeitados pelos sucessivos governos negros sul-africanos. <\/p>\n<p>Ao \u00fanico que tem contribu\u00eddo essa colossal impunidade, tramada entre Mandela, Botha e De Klerk, \u00e9 ao crescimento de uma espantosa delinqu\u00eancia antibranca nascida do ressentimento e o leg\u00edtimo \u00f3dio. Se os respons\u00e1veis do crime do apartheid e suas massacres tivessem sido severamente condenados em processos formais, o \u00edndice da criminalidade de hoje n\u00e3o houvesse alcan\u00e7ado cotas t\u00e3o altas e ser granjeiro branco n\u00e3o seria uma atividade mais perigosa que a de ser pol\u00edcia. Como ningu\u00e9m pagou, que paguem todos. Como n\u00e3o houve culpados, que todos o sejam. <\/p>\n<p>A isso conduziu uma transi\u00e7\u00e3o medrosa que atrai\u00e7oou o ideal de justi\u00e7a num pa\u00eds que houvesse reuqerido mais energia, por exemplo, para modificar a propriedade de terras, herdeira duma lei que datava de 1913 e que condenava \u00e0 maioria negra a n\u00e3o possuir mais do 15% dos territ\u00f3rios f\u00e9rteis. <\/p>\n<p>Foi uma transi\u00e7\u00e3o fruto do realismo? S\u00edm, claro que sim. E que disse que o rasteiro realismo deve ser a filosofia dos idealistas e dos justos? N\u00e3o h\u00e1 inimigo mais atroz da justi\u00e7a que o realismo. N\u00e3o h\u00e1 amigo mais grato do inaceit\u00e1vel que o realismo. <\/p>\n<p>Vinte e sete anos de pris\u00e3o explicam a sabedoria ghandiana de Mandela. Mas n\u00e3o justificam o cen\u00e1rio montado ap\u00f3s seu ascenso ao poder em 1994, nem a teatraliza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a encarnada nas sess\u00f5es da Comiss\u00e3o da Verdade. De que serve um crime confessado se o criminoso sabe-se livre de antem\u00e3o por decis\u00e3o pol\u00edtica? <\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o espanhola, mole tamb\u00e9m, produziu-se ao final dum regime encabe\u00e7ado pela fac\u00e7\u00e3o triunfante numa guerra civil. Na \u00c1frica do Sul o que houve foi um sistema criminoso baseado em acreditar que os nativos, os donos ancestrais do pa\u00eds, eram pouco menos que animais pestilentos e que seus l\u00edderes deviam ser ca\u00e7ados. Isso \u00e9 o que em ess\u00eancia revelou, em 1989, o tr\u00e1nsfuga Dirk Coetzee, at\u00e9 ent\u00e3o chefe da Vlakplass, um aut\u00eantico esquadr\u00e3o da morte no seio da Pol\u00edcia Secreta ao servi\u00e7o do apartheid. Entre os muitos crimes admitidos por Coetzee est\u00e1 o assassinato dos dirigentes do Congresso Nacional Africano Siswe Khondile e Griffiths Mxenge. N\u00e3o preciso dizer que Coetzee foi anistiado por Mandela. N\u00e3o s\u00f3 isso: foi incorporado aos servi\u00e7os de intelig\u00eancia de seu governo. Esqueceria Coetzee, com esta ins\u00f3lita reivindica\u00e7\u00e3o mandeliana, que alguma vez -tal como confessou ante a Comiss\u00e3o da Verdade- comeu um churrasco e bebeu abundante cerveja perto do cad\u00e1ver dum prisioneiro negro ao que acabavam de queimar vivo? Qui\u00e7\u00e1. Os benef\u00edcios do esquecimento costumam ser misteriosos. <\/p>\n<p>Mencionar os ju\u00edzos de Nuremberg neste tema n\u00e3o \u00e9 um esc\u00e2ndalo. O governo dos brancos racistas na \u00c1frica do Sul tinha, desde a oficializa\u00e7\u00e3o do apartheid em 1948, ascend\u00eancia nazista e a resist\u00eancia negra foi apoiada, em algum momento, por ativistas judeus que consideravam a \u00c1frica do Sul um arremedo monstruoso do gueto de Vars\u00f3via. <\/p>\n<p>Em Port Elizabeth, \u00c1frica do Sul, a General Motors construiu uma f\u00e1brica de autom\u00f3veis. Tinha a m\u00e3o de obra mais barata do mundo porque os negros n\u00e3o tinham direito ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, nem possibilidades de criar sindicatos ou de fazer graves. Muitos deles viviam em casa feitas com restos de embalagens de madeira das importa\u00e7\u00f5es da Ford. Assim chegou a se criar a aldeia Krawford. H\u00e1 um ju\u00edzo de previs\u00edvel desenlace, delineado nos Estados Unidos, em contra das transnacionais -IBM, Toshiba e muitas outras- que lucraram com a escravid\u00e3o impl\u00edcita na pol\u00edtica dos her\u00f3is sul-africanos. Tamb\u00e9m n\u00e3o se vislumbraram repara\u00e7\u00f5es sobre este tema. <\/p>\n<p>Alguns adeptos ao realismo dizem que Mandela tinha que transar, porque se n\u00e3o o tivesse feito teria que ter condenado tamb\u00e9m o terrorismo praticado por uma fac\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional Africano -\u00e0 qual ele, dito seja de passo, pertenceu ativa e dirigencialmente-. Se a impunidade para o racismo assassino dos brancos foi ruim, o descumprimento mentiroso e endog\u00e2mico para os seus foi pior. Sobre os alicerces de tamanha hipocrisia n\u00e3o podem se construir altares nem ab\u00f3bodas. <\/p>\n<p>O que mais me estranha \u00e9 que as ONG&#8217;s das esquerdas, que al\u00e7am os punhos e reclamam justi\u00e7a, n\u00e3o tenham dito nada sobre este delicado tema. Ao fim das contas, a paz nascida na mazela da impunidade n\u00e3o \u00e9 paz, mas dila\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o entendo a pol\u00edtica das duas varas: a que diz que os ju\u00edzos sobre os crimes na Iugosl\u00e1via foram necess\u00e1rios [e o foram], e a que converte em santo da paci\u00eancia e o perd\u00e3o indevido a quem teve em suas m\u00e3os castigar a barb\u00e1rie. Quando a atrocidade cessa, o que deve chegar n\u00e3o \u00e9 o esquecimento nem a vingan\u00e7a, mas a justi\u00e7a. <\/p>\n<p>E que, enquanto persegue Edward Snowden, o &#8220;Premio Nobel da Paz&#8221; Barack Obama beatifique tamb\u00e9m a Mandela, me enche de adicionais suspeitas. Nego-me, em soma, a me submeter ao clorof\u00f3rmio de boa parte da imprensa mundial. <\/p>\n<p>Por: C\u00e9sar Hildebrandt <\/p>\n<p>Publicado em: &#8220;Hildebrandt en sus Trece&#8221;<br \/>\nprensa@hildebrandtensustrece.com<br \/>\nwww.facebook.com\/semanariohildebrandtensustrece <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o discuto a import\u00e2ncia de Nelson Mandela nem as li\u00e7\u00f5es de inteireza, hero\u00edsmo e grandeza que dele emanam. 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