{"id":518904,"date":"2017-09-14T16:04:08","date_gmt":"2017-09-14T15:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=518904\/"},"modified":"2017-09-14T16:04:08","modified_gmt":"2017-09-14T15:04:08","slug":"narcisismo-e-paixao-negativa-dominantes-no-presente-fundamentam-odio-e-terrorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2017\/09\/narcisismo-e-paixao-negativa-dominantes-no-presente-fundamentam-odio-e-terrorismo\/","title":{"rendered":"O narcisismo e a paix\u00e3o negativa, dominantes no presente, fundamentam o \u00f3dio e o terrorismo"},"content":{"rendered":"<p>Por: <strong>Patricia Fachin<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571312-a-igreja-e-o-cuidado-de-viver-artigo-de-sarantis-thanopulos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Sarantis Thanopulos<\/a>, psiquiatra e psicanalista greco-italiano, busca na psicologia uma fonte para explicar as <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570802-a-dor-de-barcelona-uma-cidade-multicultural-e-trabalhadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a\u00e7\u00f5es terroristas<\/a>\u00a0que t\u00eam sido frequentes na <strong>Europa<\/strong>. Para ele, justificar esses atos com base nos problemas econ\u00f4micos e sociais que seus autores possam vir a enfrentar \u201cn\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d, porque o <strong>terrorismo<\/strong> tem uma natureza pr\u00f3pria, \u201c\u00e9 o produto de um narcisismo negativo, defensivo (fechado \u00e0 alteridade) que identifica a vida com a defini\u00e7\u00e3o monol\u00edtica de um modelo ideal de viv\u00eancia totalmente desprovido de contradi\u00e7\u00f5es\u201d, afirma. Entretanto, ressalva, \u201capesar da ferocidade dessas pessoas, n\u00e3o penso que os massacres que est\u00e3o ocorrendo na <strong>Europa<\/strong>, inspirados no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/566900-os-segredos-da-guerrilha-curda-contra-o-isis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ISIS<\/a>, sejam atos terroristas propriamente ditos. Nos terroristas sobrevive uma parte residual de paix\u00e3o: o \u00f3dio igualmente endere\u00e7ado ao pr\u00f3prio terrorista e \u00e0s suas v\u00edtimas, contra a subst\u00e2ncia humana \u2018corrupta\u2019 comum deles\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0<strong> IHU On-Line<\/strong>, <strong>Thanopulos<\/strong> diz que duas \u201c<strong>falhas de integra\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d podem explicar porque jovens se associam aos <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/558273-o-isla-e-o-niilismo-apocaliptico-a-esperanca-esta-na-humanidade-comum-entrevista-especial-com-donatella-di-cesare\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">jihadistas<\/a>\u00a0e optam pela morte, e n\u00e3o pela vida. A primeira, explica, \u201cdiz respeito \u00e0 impossibilidade de um interc\u00e2mbio aceitavelmente igual entre os pa\u00edses desenvolvidos e o restante do mundo. N\u00e3o \u00e9 um problema religioso em si, mas na <strong>Europa<\/strong> e nos <strong>EUA<\/strong> ele \u00e9 marcado pela derrota pol\u00edtica e militar dos pa\u00edses isl\u00e2micos e pela explora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que estas pessoas sofreram. Essas duas coisas impelem as pessoas e as na\u00e7\u00f5es para uma<strong> identidade religiosa<\/strong>, por\u00e9m esta identidade, constru\u00edda defensivamente, n\u00e3o \u00e9 \u00fatil. Os <strong>mu\u00e7ulmanos<\/strong> que migram para o Ocidente em geral n\u00e3o s\u00e3o, na verdade, aceitos e est\u00e3o privados de suas terras originais. Portanto tendem a ficar emocionalmente suspensos entre a limita\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias culturais do pa\u00eds adotivo e o isolamento em suas <strong>cren\u00e7as religiosas<\/strong> inferiorizadas. Isto implica um sentimento permanente de erradica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A segunda falha diz respeito \u00e0 lacuna entre as gera\u00e7\u00f5es. \u201cO <strong>conflito geracional<\/strong>, que faz da entrada dos jovens na vida social um processo de renova\u00e7\u00e3o, est\u00e1 congelado. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema ocupacional. \u00c9 sobretudo a impossibilidade de os jovens criarem as suas oportunidades, se n\u00e3o acima, ao menos de acordo com a conserva\u00e7\u00e3o da ordem existente. Eles correm o risco de se tornarem prisioneiros de um mundo que vive em um tempo presente permanente sem transforma\u00e7\u00f5es e futuro, que mata tamb\u00e9m o passado\u201d.<\/p>\n<p>O psicanalista pontua ainda que <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/548464-quem-sao-os-terroristas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">terroristas<\/a>\u00a0est\u00e3o privados de esperan\u00e7a de dar sentido \u00e0 sua exist\u00eancia. \u201cQuando preferimos assassinar as nossas emo\u00e7\u00f5es a fim de evitar sermos mortos por elas \u2014 porque n\u00e3o somos capazes de dar um sentido ao que sentimos e fazemos \u2014, a destrui\u00e7\u00e3o de si mesmo e do outro pode aparecer como a \u00fanica coisa importante que podemos alcan\u00e7ar. H\u00e1 a ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o nisso, uma <strong>vitalidade vinda da morte<\/strong>, a qual desesperadamente desafia o pr\u00f3prio medo de morrer. N\u00e3o \u00e9 um medo da morte f\u00edsica. \u00c9 o terror da falta de sentido que nos invade quando nos sentimos emocionalmente envolvidos sem estar na condi\u00e7\u00e3o de gerir este sentimento\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor compreende o fen\u00f4meno do terrorismo, especialmente tal como tem acontecido na Europa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570908-sera-necessario-aprender-a-conviver-com-o-terrorismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">terrorismo<\/a> \u00e9 o produto de um narcisismo negativo, defensivo (fechado \u00e0 alteridade) que identifica a vida com a defini\u00e7\u00e3o monol\u00edtica de um modelo ideal de viv\u00eancia totalmente desprovido de contradi\u00e7\u00f5es. O monumento abstrato de uma vida futura plena de felicidade toma o lugar da vida realmente experienciada com as suas desestabiliza\u00e7\u00f5es, turbul\u00eancias, frustra\u00e7\u00f5es, decep\u00e7\u00f5es e lutos. O presente \u00e9 ruim e o futuro ser\u00e1 bom: toda a\u00e7\u00e3o malvada se justifica se visar uma nova ordem pac\u00edfica e harm\u00f4nica. O modo ideal de ser absorve a experi\u00eancia real e os indiv\u00edduos reais. A primeira v\u00edtima \u00e9 o pr\u00f3prio <strong>terrorista<\/strong> que perde a sua identidade espelhada no ser humano exemplar desmembrado, \u201csem carne\u201d que ele deseja ser. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para pessoas \u201cinocentes\u201d e quanto mais a \u201cideia\u201d toma o lugar da vida real, tanto mais os assassinatos se tornam <strong>massacres indiscriminados<\/strong>.<\/p>\n<p>Apesar da ferocidade dessas pessoas, n\u00e3o penso que os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/557765-ataque-em-nice-o-que-se-sabe-ate-agora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">massacres que est\u00e3o ocorrendo na Europa<\/a>, inspirados no <strong>ISIS<\/strong>, sejam <strong>atos terroristas<\/strong> propriamente ditos. Nos terroristas sobrevive uma parte residual de paix\u00e3o: o \u00f3dio igualmente endere\u00e7ado ao pr\u00f3prio terrorista e \u00e0s suas v\u00edtimas, contra a subst\u00e2ncia humana \u201ccorrupta\u201d comum deles. Uma paix\u00e3o negativa domina o presente enquanto o amor \u00e9 projetado para o futuro, quando a nova ordem estar\u00e1 estabelecida.<\/p>\n<p>Os que promovem <strong>assassinatos em massa na Europa<\/strong> agem de uma forma mec\u00e2nica, operativa. Eles n\u00e3o odeiam suas v\u00edtimas; s\u00e3o indiferentes afetivamente. Eles n\u00e3o s\u00e3o tocados pela d\u00favida, sentimento impetuoso que inspira a rigidez defensiva de pessoas fan\u00e1ticas. Tampouco possuem a concep\u00e7\u00e3o de um novo mundo, edificado sobre a destrui\u00e7\u00e3o da antiga ordem.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; N\u00e3o h\u00e1 consenso entre os especialistas acerca de qual \u00e9 a influ\u00eancia do Isl\u00e3 nas pr\u00e1ticas terroristas. Que rela\u00e7\u00f5es diria que \u00e9 poss\u00edvel estabelecer entre o terrorismo e mais precisamente o Isl\u00e3 e o jihadismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> Os assassinos n\u00e3o s\u00e3o, na verdade, pessoas religiosas. O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/166-sem-categoria\/565086-todas-as-metamorfoses-do-islamismo-entrevista-com-tahar-ben-jelloun\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">islamismo<\/a> \u00e9 usado por eles como um tipo de droga para anestesiar os seus sentimentos. \u00c9 claro que h\u00e1 muitas refer\u00eancias totalit\u00e1rias ao <strong>Isl\u00e3<\/strong>, mas isso acontece porque esta religi\u00e3o \u00e9 percebida por eles como uma civilidade derrotada privada de um poder concreto. Eles podem se identificar com ela sentindo que n\u00e3o possuem restri\u00e7\u00f5es e agindo em liberdade plena junto \u00e0s regras e limita\u00e7\u00f5es sociais e religiosas. Num n\u00edvel mais profundo, inconscientemente, eles percebem o <strong>Isl\u00e3<\/strong> como uma religi\u00e3o morta e a usam para serem da mesma mat\u00e9ria que a morte e estarem invulner\u00e1veis \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o que amea\u00e7a o mundo interior deles.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que tem motivado, na sua avalia\u00e7\u00e3o, a ades\u00e3o de jovens a esses grupos? Do ponto de vista psicanal\u00edtico, qual seu diagn\u00f3stico em rela\u00e7\u00e3o a essa nega\u00e7\u00e3o da vida, se \u00e9 que podemos falar assim?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> Assassinos s\u00e3o pessoas que negam a vida porque a identificam dentro de si mesmas como a sua maior vulnerabilidade, como um ponto fraco que pode destru\u00ed-los. Eles percebem que quanto mais vivos est\u00e3o, tanto mais cresce a sua fragilidade. A nossa vida interior se dirige no sentido da vida externa e se torna o lugar de tens\u00f5es insuport\u00e1veis se n\u00e3o conseguimos estabelecer rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas de interc\u00e2mbio com o mundo exterior. Os seres humanos p\u00f5em, em primeiro lugar, a sua coes\u00e3o ps\u00edquica (a possibilidade de fazer a pr\u00f3pria exist\u00eancia ter um sentido) e, quando tens\u00f5es extremas a amea\u00e7am, podem procurar uma <strong>descarga ps\u00edquica<\/strong> agindo de modo destrutivo. A destrui\u00e7\u00e3o se torna, para eles, mais confi\u00e1vel do que a constru\u00e7\u00e3o, a onipot\u00eancia toma o lugar da impot\u00eancia. Isso faz sentido, embora seja sinistro e desumano como o percebemos, tamb\u00e9m porque a imobilidade ps\u00edquica que a a\u00e7\u00e3o destrutiva produz gera a falsa percep\u00e7\u00e3o de solidez.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel tra\u00e7ar um perfil dos jovens que praticam esses atos terroristas? Muitos analistas dizem que eles est\u00e3o \u00e0 margem da sociedade e enfrentam uma s\u00e9rie de problemas econ\u00f4micos e sociais. Isso \u00e9 suficiente para explicar esse tipo de pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Do ponto de vista econ\u00f4mico e social, eles n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o marginalizados. H\u00e1 um problema de <strong>integra\u00e7\u00e3o cultural<\/strong> que n\u00e3o funciona. A integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assimila\u00e7\u00e3o de uma cultura por outra, mas as novas perspectivas, a abertura da nossa experi\u00eancia que o jogo das diferen\u00e7as cria. Estes <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/557490-em-bangladesh-o-isla-dos-filhos-traiu-o-dos-pais-entrevista-com-grenas-rozario\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">jovens<\/a>, que encontram um destino em se tornar os mensageiros da morte, vivem na interse\u00e7\u00e3o entre duas falhas da integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Falhas da integra\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>A primeira diz respeito \u00e0 impossibilidade de um interc\u00e2mbio aceitavelmente igual entre os pa\u00edses desenvolvidos e o restante do mundo. N\u00e3o \u00e9 um problema religioso em si, mas na <strong>Europa<\/strong> e nos <strong>EUA<\/strong> ele \u00e9 marcado pela derrota pol\u00edtica e militar dos<strong> pa\u00edses isl\u00e2micos<\/strong> e pela explora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que estas pessoas sofreram. Essas duas coisas impelem as pessoas e as na\u00e7\u00f5es para uma <strong>identidade religiosa<\/strong>, por\u00e9m esta identidade, constru\u00edda defensivamente, n\u00e3o \u00e9 \u00fatil. Os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/563922-nao-ha-nenhuma-equacao-entre-migracao-e-terrorismo-entrevista-com-gilles-kepel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mu\u00e7ulmanos que migram<\/a>\u00a0para o <strong>Ocidente<\/strong> em geral n\u00e3o s\u00e3o, na verdade, aceitos e est\u00e3o privados de suas terras originais. Portanto tendem a ficar emocionalmente suspensos entre a<strong> limita\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias culturais<\/strong> do pa\u00eds adotivo e o isolamento em suas cren\u00e7as religiosas inferiorizadas. Isto implica um sentimento permanente de erradica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda falha diz respeito \u00e0 lacuna entre as gera\u00e7\u00f5es. O <strong>conflito geracional<\/strong>, que faz da entrada dos jovens na vida social um processo de renova\u00e7\u00e3o, est\u00e1 congelado. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema ocupacional. \u00c9 sobretudo a impossibilidade de os jovens criarem as suas oportunidades, se n\u00e3o acima, ao menos de acordo com a conserva\u00e7\u00e3o da ordem existente. Eles correm o risco de se tornarem prisioneiros de um mundo que vive em um tempo presente permanente, sem transforma\u00e7\u00f5es e futuro, que mata tamb\u00e9m o passado.<\/p>\n<p>A conflu\u00eancia das duas formas de erradica\u00e7\u00e3o em <strong>pessoas psiquicamente vulner\u00e1veis<\/strong> (expostas a experi\u00eancias emocionais dif\u00edceis em suas fam\u00edlias) pode criar destruidores da vida. Eles n\u00e3o apenas se sentem rejeitados. N\u00e3o s\u00e3o contra a integra\u00e7\u00e3o no sentido de que odeiam os que n\u00e3o os aceitam. Eles perderam o sentido da vida comum (que implica aceita\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o) e se tornam agentes de desintegra\u00e7\u00e3o sem \u00f3dio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570847-nos-prisioneiros-da-era-do-presente-remoto-artigo-de-sarantis-thanopulos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Em artigo recente<\/a> o senhor disse que os terroristas est\u00e3o privados de qualquer esperan\u00e7a de dar sentido \u00e0 sua exist\u00eancia. Pode nos explicar essa ideia? \u00c9 a falta de dar sentido \u00e0 exist\u00eancia que motiva esse tipo de a\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> Como algu\u00e9m pode viver dando um sentido \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia e exist\u00eancia se percebe que as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es e desejos o levaram a um sentimento de vazio infinito? A pessoa s\u00f3 pode atacar aquilo que toca as suas emo\u00e7\u00f5es e desejos: o outro como uma parte &#8216;co-construtiva&#8217; de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Ao fazer isso, o indiv\u00edduo n\u00e3o est\u00e1 odiando a vida; ele prefere o seu sil\u00eancio. Sofre de necrofilia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel romper com essa crise de sentido \u00e0 exist\u00eancia? Como oferecer sentido a essas pessoas? A psican\u00e1lise, a religi\u00e3o, a filosofia ainda podem oferecer alguma resposta nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> N\u00e3o podemos dar a essas pessoas um sentido. Elas n\u00e3o precisam dos \u201cnossos\u201d significados. Quando preferimos assassinar as nossas emo\u00e7\u00f5es a fim de evitar sermos mortos por elas \u2014 porque n\u00e3o somos capazes de dar um sentido ao que sentimos e fazemos \u2014, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/549195-terror-o-ocidente-prepara-a-pior-resposta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">destrui\u00e7\u00e3o de si mesmo e do outro<\/a> pode aparecer como a \u00fanica coisa importante que podemos alcan\u00e7ar. H\u00e1 a ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o nisso, uma <strong>vitalidade vinda da morte<\/strong>, a qual desesperadamente desafia o pr\u00f3prio medo de morrer. N\u00e3o \u00e9 um medo da morte f\u00edsica. \u00c9 o terror da falta de sentido que nos invade quando nos sentimos emocionalmente envolvidos sem estar na condi\u00e7\u00e3o de gerir este sentimento.<\/p>\n<p>S\u00f3 podemos construir as condi\u00e7\u00f5es que tornam poss\u00edveis aos vulner\u00e1veis criarem o pr\u00f3prio sentido de exist\u00eancia deles. N\u00e3o conseguimos combater a morte ps\u00edquica com valores abstratos. A <strong>psican\u00e1lise<\/strong>, a <strong>religi\u00e3o<\/strong> e a <strong>filosofia<\/strong> precisam sustentar a vida. Para facilitar as condi\u00e7\u00f5es que permitem \u00e0s pessoas aceitar as transforma\u00e7\u00f5es produzidas pelo envolvimento pleno delas no campo do desejo e para viver a desestabiliza\u00e7\u00e3o, que a profundidade da experi\u00eancia transformadora implica, extraindo prazer dela.<\/p>\n<p>No campo da <strong>religi\u00e3o<\/strong>, isso significa que a <strong>ideia de eternidade<\/strong> n\u00e3o pode absorver a vida verdadeiramente experienciada, que a esperan\u00e7a de uma vida ap\u00f3s a morte, que funda a <strong>cren\u00e7a religiosa<\/strong>, n\u00e3o pode se basear em exist\u00eancias desencarnadas, em seres humanos emocionalmente, eroticamente mortos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que \u00e9 o fen\u00f4meno de acting (agir) e que rela\u00e7\u00e3o estabelece entre ele e o terrorismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> Agir (<em>acting<\/em>) em lugar de pensar a pr\u00f3pria experi\u00eancia partindo dos desejos, da emo\u00e7\u00e3o e dos sentimentos \u00e9 um instrumento t\u00edpico que usamos para nos livrar de tens\u00f5es ps\u00edquico-corp\u00f3reas que n\u00e3o podemos elaborar e transformar. Na <strong>Gr\u00e9cia antiga<\/strong>, havia duas palavras para \u201c<strong>agir<\/strong>\u201d (<em>acting<\/em>): \u201c<em>\u03c0\u03c1\u03ac\u03c4\u03c4\u03b5\u03b9\u03bd<\/em>\u201d e \u201c<em>\u03b4\u03c1\u03ac\u03bd<\/em>\u201d. A primeira define a\u00e7\u00e3o em seu acontecer factual, em sua realiza\u00e7\u00e3o concreta, operativa. A segunda define a\u00e7\u00e3o em sua potencialidade, juntamente com a sua abertura para outros desdobramentos. \u00c9 na a\u00e7\u00e3o sobre o palco, como dizia <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/559436-aristoteles-contra-o-isis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arist\u00f3teles<\/a>, onde as coisas acontecem como poderiam acontecer.<\/p>\n<p>Nossas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o significativas quando n\u00e3o est\u00e3o totalmente realizadas em seus desdobramentos emotivos, transformativos e criativos e quando mant\u00eam um car\u00e1ter experimental (on\u00edrico), abertas a uma maior elabora\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de estarem fechadas em si mesmas. Podemos comer um alimento a fim de n\u00e3o ficarmos com fome ou para degust\u00e1-lo, desfrut\u00e1-lo, com os nossos sentidos, emo\u00e7\u00f5es\/sentimentos e pensamentos.<\/p>\n<p>No primeiro caso, agimos de acordo com uma \u201cnecessidade\u201d de um jeito autom\u00e1tico que lida com (calcula) \u201cquantidades\u201d e \u00e9 totalmente alcan\u00e7ado, sem maiores elabora\u00e7\u00f5es, com a cessa\u00e7\u00e3o da necessidade.<\/p>\n<p>No segundo caso, a a\u00e7\u00e3o lida com a \u201cqualidade\u201d, seguindo a din\u00e2mica do desejo (e sua forma sublime: a aspira\u00e7\u00e3o) que gosta de diferen\u00e7as, mudan\u00e7as, imprevisibilidade, complexidade, persist\u00eancia, intensidade e profundidade. A a\u00e7\u00e3o permanece insaturada desenvolvendo a potencialidade: transforma a estrutura ps\u00edquico-corp\u00f3rea inteira e a revela, assim como a si mesma, para outras transforma\u00e7\u00f5es e perspectivas da vida.<\/p>\n<p>Os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/538585-al-azhar-quem-comete-atos-terroristas-em-nome-do-isla-nao-pode-por-isso-ser-declarado-infiel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cterroristas\u201d jihadistas<\/a> s\u00e3o uma forma extrema de uma <strong>psique homeost\u00e1tica<\/strong> a funcionar com base na libera\u00e7\u00e3o imediata de uma necessidade: o descarregar de uma tens\u00e3o que produz al\u00edvio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que e em que medida, de outro lado, voc\u00ea sugere que a resolu\u00e7\u00e3o do terrorismo passa por compreender a rela\u00e7\u00e3o entre o sistema econ\u00f4mico e a pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> Est\u00e1 claro que o nosso <strong>sistema econ\u00f4mico<\/strong> produz cada vez mais <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/567853-a-crescente-desigualdade-do-capitalismo-mundial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desigualdade<\/a>. Existe uma dissocia\u00e7\u00e3o progressiva entre, de um lado, o valor de um produto e, de outro, o valor do trabalho que o produziu e o valor de uso. As coisas s\u00e3o produzidas para serem consumidas em termos de descarregar as nossas tens\u00f5es ao inv\u00e9s de serem usadas de um modo pr\u00f3prio: transformar a nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade permitindo sermos transformados por isso.<\/p>\n<p>O <strong>sistema produtivo<\/strong> orienta-se quase totalmente na dire\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades que exclui o desejo: envolvimento profundo e prazer. \u00c9 evidente que a produ\u00e7\u00e3o de bens n\u00e3o pode diretamente envolver desejo. A diferen\u00e7a que o desejo faz tem a ver com a concep\u00e7\u00e3o de vida e a experi\u00eancia real que ela sustenta. Por exemplo, uma casa \u00e9 um sistema complexo de coisas materiais que o sistema produtivo nos fornece e nos d\u00e1 a possibilidade de <strong>satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades f\u00edsicas<\/strong>. Mas a casa \u00e9 sobretudo um \u201clar\u201d: privacidade, intimidade, calor humano, qualidade das rela\u00e7\u00f5es, prazer est\u00e9tico, conforto, recep\u00e7\u00e3o, abertura ao mundo exterior. Como podemos projetar e usar os objetos materiais a fim de obter isso tudo? Numa extremidade, existem casas bonitas, panor\u00e2micas, luxuosas, muito tecnol\u00f3gicas, ricas de coisas preciosas que s\u00e3o lares desconfort\u00e1veis. Na outra extremidade, h\u00e1 casas pequenas, pobres que s\u00e3o espa\u00e7os vivos. O uso das coisas \u00e9 um problema real com o qual temos perdido o contato.<\/p>\n<p>Aqui n\u00e3o falo contra as necessidades. E n\u00e3o tenho a inten\u00e7\u00e3o de idealizar os desejos. No entanto, temos de considerar a diferen\u00e7a entre uma vida em que as necessidades eliminam os desejos e uma vida em que est\u00e3o os desejos que nos ajudam a gerir as nossas necessidades e a satisfaz\u00ea-las. O que chamamos de \u201c<strong>necessidade ps\u00edquica<\/strong>\u201d, em sua qualidade pr\u00f3pria que n\u00e3o \u00e9 um conjunto defensivo da estrutura ps\u00edquica, \u00e9 uma necessidade (a cessa\u00e7\u00e3o de uma tens\u00e3o) interpretada e inspirada em sua satisfa\u00e7\u00e3o pelo desejo.<\/p>\n<h3>Consumo para eliminar tens\u00f5es<\/h3>\n<p>N\u00f3s produzimos bens que essencialmente <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/558703-zygmunt-bauman-tres-decadas-de-orgia-consumista-resultaram-em-uma-sensacao-de-urgencia-sem-fim\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">consumimos<\/a> para eliminar tens\u00f5es, para nos distrair das dificuldades e impasses, para nos acalmar. E, quando isso cria um estado depressivo, produzimos meios de excita\u00e7\u00e3o, anima\u00e7\u00e3o. A altern\u00e2ncia de excita\u00e7\u00e3o e al\u00edvio \u00e9 o principal esteio da vida ocidental, que rapidamente se expande pelo resto do mundo. O que \u00e9 a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/567534-uniao-europeia-reconhece-problemas-da-globalizacao-e-propoe-regras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">globaliza\u00e7\u00e3o<\/a> se n\u00e3o isto? Isso de que estamos falando cria um mercado enorme, quase infinito em um mundo abstrato, um sistema econ\u00f4mico que, essencialmente, se reproduz. Quando convertemos desejos em necessidades, podemos tamb\u00e9m criar novas necessidades. O que nos d\u00e1 a possibilidade de continuamente expandir o nosso mercado e realizar lucros incr\u00edveis, porque n\u00e3o vendemos objetos para um uso real (que regula o pre\u00e7o), mas produzimos o v\u00edcio e os meios para satisfaz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um circuito perverso onde a<strong> produ\u00e7\u00e3o dos meios<\/strong> que satisfazem o v\u00edcio, estando incapaz de providenciar uma satisfa\u00e7\u00e3o real das nossas necessidades e desejos, cria um estado depressivo e tens\u00f5es suplementares, fortalecendo a demanda de solu\u00e7\u00f5es excitantes\/animadoras, que nos acalmam. Isso implica a possibilidade de vender modos antidepressivos, homeost\u00e1ticos de vida e de promover tanto a produ\u00e7\u00e3o de coisas que sustentam diretamente estes modos quanto um planejamento de todos os bens produzidos que facilitam o uso viciado deles e aumentam a sua demanda.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a \u00fanica coisa que o <strong>sistema econ\u00f4mico<\/strong> pode produzir \u00e9 uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/563945-estudo-alerta-que-apenas-8-homens-possuem-a-mesma-riqueza-que-a-metade-mais-pobre-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">concentra\u00e7\u00e3o enorme de riqueza nas m\u00e3os de uma oligarquia<\/a>. A sua dissocia\u00e7\u00e3o do valor do trabalho e do valor de uso torna as trocas, em qualquer n\u00edvel, totalmente arbitr\u00e1rias e desiguais. \u00c9 um sistema maluco que quanto mais domina as nossas vidas, mais produz uma loucura fria, terrivelmente destrutiva.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica perdeu o controle, porque perdeu o seu papel espec\u00edfico de media\u00e7\u00e3o entre a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades e a satisfa\u00e7\u00e3o dos desejos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que em sua avalia\u00e7\u00e3o a civiliza\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 gerando uma cegueira \u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> A civiliza\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 indo contra a<strong> dimens\u00e3o feminina<\/strong> da nossa mat\u00e9ria ps\u00edquico-corp\u00f3rea, em que nos revelamos \u00e0 alteridade. Dado que \u00e9 esta dimens\u00e3o que nos permite gostar das diferen\u00e7as, gostar daquilo que transforma a nossa experi\u00eancia e as nossas perspectivas de vida, n\u00f3s n\u00e3o conseguimos alcan\u00e7ar uma postura \u00e9tica. Isto quer dizer que temos perdido o caminho de um sentido verdadeiro de responsabilidade (que n\u00e3o deriva do medo de elementos pol\u00edticos, culturais ou religiosos). Estamos perdendo a capacidade de cuidar do que desejamos, de respeitar o seu modo idiom\u00e1tico, original de ser.<\/p>\n<p>Estamos na condi\u00e7\u00e3o de ser os respons\u00e1veis somente quando entendemos que, ao abusar do nosso <strong>objeto de desejo<\/strong>, n\u00f3s o destru\u00edmos. Se n\u00e3o protegemos o seu jeito de ser, destru\u00edmos aquilo que o torna desej\u00e1vel: as suas caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas, a sua diferen\u00e7a e particularidade irredut\u00edvel que o faz interessante e agrad\u00e1vel a n\u00f3s. Isso vale n\u00e3o apenas para as pessoas ativas com as quais temos interesse de lidar, mas tamb\u00e9m para objetos materiais e culturais (um carro, um alimento, uma bebida, um romance, uma cren\u00e7a religiosa ou pol\u00edtica) que t\u00eam suas identidades e oferecem uma variedade de aspectos e possibilidades a serem percebidos, concebidos e usados. Mesmo quando lidamos com um objeto para a satisfa\u00e7\u00e3o das nossas necessidades materiais fundamentais, n\u00e3o podemos verdadeiramente proteg\u00ea-lo da nossa tend\u00eancia a us\u00e1-lo de uma maneira irracional, impulsiva, gastando-o, se n\u00e3o tivermos condi\u00e7\u00f5es de conect\u00e1-lo aos nossos desejos.<\/p>\n<p>O <strong>desejo<\/strong> \u00e9 a \u00fanica coisa que nos d\u00e1 um sentido de responsabilidade porque nos faz sentir vazios quando n\u00e3o respeitamos aquilo que gostamos e usamos. Se o nosso objeto de desejo morre, o nosso desejo morre tamb\u00e9m. Esta regula\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel das nossas trocas com o outro vem do lado de fora da nossa rela\u00e7\u00e3o com o que desejamos, a partir das transforma\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas da nossa percep\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos e dos demais, que nos permite perceber onde estamos vivos e onde corremos o risco de morrer \u2014 em nossa subst\u00e2ncia ps\u00edquico-f\u00edsica humana fundamental \u2014, para moderar o excesso das nossas paix\u00f5es.<\/p>\n<h3>Cegueira \u00e9tica e existencial<\/h3>\n<p>A <strong>cegueira \u00e9tica<\/strong> \u00e9 uma cegueira existencial. Deixada \u00e0 l\u00f3gica pura das necessidades, a nossa vis\u00e3o da vida \u00e9 irreal e corremos o risco de prejudicar, de um modo irremedi\u00e1vel, todas as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da nossa exist\u00eancia. Nem sempre se pode satisfazer o desejo. Ele cria conflitos de interesse e inimizades, \u00e0s vezes ele contrasta com as condi\u00e7\u00f5es objetivas, materiais da vida. No entanto, s\u00f3 quando somos pessoas de desejo, e de modo respons\u00e1vel \u2014 o que significa aceita\u00e7\u00e3o dos conflitos que as nossas diferen\u00e7as trazem \u2014, \u00e9 que podemos lidar com a realidade de uma maneira construtiva, sem exagerar. Onde os conflitos e as diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o aceitos e preferimos permanecer em um mundo purificado, &#8216;aconflitual&#8217;, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/560269-bauman-as-guerras-religiosas-apenas-uma-das-ofertas-do-mercado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reina a indiferen\u00e7a e assassinamos uns aos outros<\/a> (emotiva e fisicamente) por uma colis\u00e3o casual ou por causa do dist\u00farbio que o nosso encontro envolve.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como, na sua avalia\u00e7\u00e3o, os chefes de Estado e l\u00edderes religiosos, a comunidade internacional de modo geral, t\u00eam se pronunciado acerca do terrorismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565053-papa-diz-a-encontro-nos-eua-que-nenhum-povo-e-criminoso-e-nenhuma-religiao-e-terrorista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">papa Francisco<\/a> e o ex-presidente americano <strong>Barack Obama<\/strong> s\u00e3o destaques entre os demais l\u00edderes. Eles reconheceram o <strong>problema \u00e9tico<\/strong> que gera loucura fria, terrorismo e a sua rela\u00e7\u00e3o estreita com o fen\u00f4meno da migra\u00e7\u00e3o. Mas quando vemos o presidente [<strong>Donald<\/strong>]\u00a0<strong>Trump<\/strong> (at\u00edpico e n\u00e3o confi\u00e1vel em seu cargo, por\u00e9m eleito pelas massas americanas) revogando o projeto chamado \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571222-eua-bispo-de-el-paso-apoia-educadores-catolicos-que-lutam-contra-a-deportacao-de-criancas-de-pais-sem-documentos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Development, Relief, and Education for Alien Minors\u00a0&#8211; DREAM<\/a>\u201d, o que \u00e9 um decl\u00ednio da administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade que tampouco <strong>Obama<\/strong> p\u00f4de deter, ou quando vemos o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/566303-brexit-afetara-4-milhoes-de-imigrantes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brexit<\/a> (onde a estupidez dos pol\u00edticos compete com a cegueira \u00e9tica), sentimos um desconforto com a ideia de que pessoas t\u00e3o culturalmente pobres administram o nosso futuro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/546611-como-a-alemanha-vai-se-beneficiar-ao-receber-800-mil-refugiados\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">[Angela] Merkel<\/a> tentou ter uma outra vis\u00e3o, mas fatores eleitorais e a sua convic\u00e7\u00e3o de que uma <strong>austeridade<\/strong> cega dar\u00e1 certo a colocaram numa posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua entre uma abertura relativa aos migrantes e um fechamento \u00e0 marginalidade da maioria dos cidad\u00e3os dos pa\u00edses europeus em termos de poder pol\u00edtico real, capacidade de desfrutar de trabalho e das rela\u00e7\u00f5es e de desenvolver um modo satisfat\u00f3rio de vida. A exclus\u00e3o social e a perda de identidade na <strong>Europa<\/strong> e nos <strong>Estados Unidos<\/strong> produzem um movimento invis\u00edvel silencioso de ex\u00edlio\/migra\u00e7\u00e3o interior. Em certa ocasi\u00e3o, escrevi que o <strong>terrorismo frio<\/strong> \u00e9 a met\u00e1stase perigosa de um c\u00e2ncer localizado no cora\u00e7\u00e3o do mundo ocidental.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que seria uma alternativa para acabar com o terrorismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sarantis Thanopulos &#8211;<\/strong> Uma oposi\u00e7\u00e3o a todas as formas superficiais que encorajam artificialmente um modo de ser, uma oposi\u00e7\u00e3o a todos os projetos pol\u00edticos que insistem em par\u00e2metros quantitativos e que n\u00e3o se preocupam com a qualidade de viver a vida. Uma batalha constante contra o <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/508\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">populismo<\/a> que engana as pessoas e as leva a rea\u00e7\u00f5es impulsivas que favorecem a cat\u00e1strofe \u00e9tica que vivemos. A compreens\u00e3o de que a <strong>migra\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 um movimento real, derivado da nossa cegueira e que, no entanto, pode nos enriquecer caso sejamos capazes de lidar responsavelmente com ela. Negando-a, iremos pagar um pre\u00e7o alto.<\/p>\n<p>Uma firme determina\u00e7\u00e3o para usar as coisas de um modo a personalizar a nossa rela\u00e7\u00e3o com elas. Este \u00e9 o \u00fanico jeito de permanecer s\u00e3o em um ambiente insano. Implica sobretudo a nossa capacidade de cultivar a amizade. Perdendo a amizade, tamb\u00e9m perdemos o inimigo. Vivemos sem inimigos reais e n\u00e3o estamos cientes do perigo que \u00e9 um mundo sem eles.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m n\u00e3o pode ser nosso amigo sem estar livre para constituir-se como um inimigo dos nossos desejos (oposto a ele) num ou noutro aspecto, n\u00edvel ou campo das nossas rea\u00e7\u00f5es. Aquele que \u00e9 o nosso amigo hoje pode ser o nosso inimigo amanh\u00e3 e vice-versa. A melhor amizade (\u201c<em>\u03c6\u03b9\u03bb\u03af\u03b1 \u03c0\u03c1\u03ce\u03c4\u03b7<\/em>\u201d, segundo <strong>Arist\u00f3teles<\/strong>) \u00e9 a amizade desinteressada e isso significa inclus\u00e3o da inimizade (liberdade) em seu espa\u00e7o. Quando o inimigo est\u00e1 separado do amigo, podemos ser levados a uma guerra contra ele. A guerra \u00e9 dolorosa e pode destruir muitas coisas que amamos. No entanto, a partir da destrui\u00e7\u00e3o podemos nos recuperar se lembrarmos que o inimigo permanece sendo um amigo potencial. Aceitando o luto, precisamos elaborar, podemos amplificar o nosso espa\u00e7o (depois da disputa) a fim de inclu\u00ed-lo. <strong>Ant\u00edgona<\/strong> percebeu isto com <strong>Policine<\/strong>, mas <strong>Creonte<\/strong>, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos ser impelidos (pelas falhas nossas ou dos outros, ou por conjunturas infelizes) a separar os amigos dos inimigos, pagando o pre\u00e7o. Por\u00e9m n\u00e3o podemos nos dar ao luxo de dissoci\u00e1-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Patricia Fachin Sarantis Thanopulos, psiquiatra e psicanalista greco-italiano, busca na psicologia uma fonte para explicar as a\u00e7\u00f5es terroristas\u00a0que t\u00eam sido frequentes na Europa. 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