{"id":51837,"date":"2013-05-13T23:56:16","date_gmt":"2013-05-13T22:56:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=51837"},"modified":"2013-05-14T05:06:04","modified_gmt":"2013-05-14T04:06:04","slug":"o-mundo-em-2030","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2013\/05\/o-mundo-em-2030\/","title":{"rendered":"O mundo em 2030"},"content":{"rendered":"<p>Documento elaborado pela CIA, de quatro em quatro anos, no in\u00edcio de cada novo mandato presidencial nos Estados Unidos, e que Barack Obama recebeu ao tomar posse do seu segundo mandato, tem o t\u00edtulo &#8216;Global Trends 2030 &#8211; Alternative Worlds&#8217; (Tend\u00eancias mundiais 2030: novos mundos poss\u00edveis). Que nos diz? A principal constata\u00e7\u00e3o \u00e9: o decl\u00ednio do Ocidente.<\/p>\n<p>De quatro em quatro anos, no in\u00edcio de cada novo mandato presidencial nos Estados Unidos, o National Intelligence Council (NIC), o departamento de an\u00e1lise e antecipa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e econ\u00f4mica da Central Intelligence Agency (CIA), publica um relat\u00f3rio que se converte automaticamente numa refer\u00eancia para todas as chancelarias do mundo.<\/p>\n<p><em id=\"__mceDel\"><br \/>\nAinda que obviamente se trate de uma vis\u00e3o muito parcial (a de Washington), elaborada por uma ag\u00eancia, a CIA, cuja principal miss\u00e3o \u00e9 defender os interesses dos Estados Unidos, o relat\u00f3rio estrat\u00e9gico do NIC apresenta uma indiscut\u00edvel utilidade porque resulta de uma posi\u00e7\u00e3o conjunta \u2013 revista por todas as ag\u00eancias de seguran\u00e7a dos Estados Unidos \u2013 de estudos elaborados por peritos independentes de v\u00e1rias universidades e de muitos outros pa\u00edses (Europa, China, \u00cdndia, \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina, mundo \u00e1rabe-mu\u00e7ulmano, etc.).<\/em><\/p>\n<p>O documento confidencial que o presidente Barack Obama encontrou na sua mesa de trabalho na Casa Branca no passado dia 21 de janeiro ao tomar posse do seu segundo mandato, foi publicado com o t\u00edtulo: Global Trends 2030. Alternative Worlds (Tend\u00eancias mundiais 2030: novos mundos poss\u00edveis). Que nos diz?<\/p>\n<p>A principal constata\u00e7\u00e3o \u00e9: o decl\u00ednio do Ocidente. Pela primeira vez, desde o s\u00e9culo XV, os pa\u00edses ocidentais est\u00e3o a perder poder face \u00e0 subida das novas pot\u00eancias emergentes2. Come\u00e7a a fase final de um ciclo de cinco s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o ocidental do mundo. Ainda que os Estados Unidos continuem a ser uma das principais pot\u00eancias planet\u00e1rias, perder\u00e3o a sua hegemonia econ\u00f4mica a favor da China. E j\u00e1 n\u00e3o exercer\u00e1 a sua \u201chegemonia militar solit\u00e1ria\u201d como o faz desde o fim da Guerra Fria (1989). Caminhamos para um mundo multipolar no qual novos atores (China, \u00cdndia, Brasil, R\u00fassia, \u00c1frica do Sul) t\u00eam como voca\u00e7\u00e3o constituir s\u00f3lidos polos continentais e disputar a supremacia internacional a Washington e aos seus aliados hist\u00f3ricos (Jap\u00e3o, Alemanha, Reino Unido, Fran\u00e7a).<\/p>\n<p>Para ter uma ideia da import\u00e2ncia e da rapidez da decad\u00eancia ocidental que se avizinha, basta assinalar estes dados: a parte dos pa\u00edses ocidentais na economia mundial vai passar dos atuais 56%, para cerca de 25% em 2030&#8230; Ou seja, em menos de vinte anos, o Ocidente perder\u00e1 mais de metade da sua preponder\u00e2ncia econ\u00f4mica&#8230; Uma das principais consequ\u00eancias disto \u00e9 que os Estados Unidos e os seus aliados j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e3o provavelmente os meios financeiros para assumir o papel de pol\u00edcias do mundo&#8230; De tal modo que esta mudan\u00e7a estrutural (somada \u00e0 profunda crise econ\u00f4mico-financeira atual) poder\u00e1 conseguir o que nem a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nem a Al Qaeda conseguiram: debilitar durante muito tempo o Ocidente.<\/p>\n<p>Segundo este relat\u00f3rio, a crise na Europa durar\u00e1 pelo menos um dec\u00e9nio, isto \u00e9 at\u00e9 2023&#8230; E, sempre segundo este documento da CIA, n\u00e3o \u00e9 seguro que a Uni\u00e3o Europeia consiga manter a sua coes\u00e3o. Enquanto, se confirma a emerg\u00eancia da China como a segunda economia mundial e com voca\u00e7\u00e3o para se converter na primeira. Ao mesmo tempo, os demais pa\u00edses do grupo chamado BRICS (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul) instalam-se em segunda linha competindo diretamente com os antigos imp\u00e9rios dominantes do grupo JAFRU (Jap\u00e3o, Alemanha, Fran\u00e7a, Reino Unido).<\/p>\n<p>Em terceira linha, aparecem agora uma s\u00e9rie de pot\u00eancias interm\u00e9dias, com demografias em subida e fortes taxas de crescimento econ\u00f4mico, chamadas a converter-se tamb\u00e9m em polos hegem\u00f3nicos regionais e com tend\u00eancia a se transformar num grupo de influ\u00eancia mundial, o CINETV (Col\u00f4mbia, Indon\u00e9sia, Nig\u00e9ria, Eti\u00f3pia, Turquia, Vietnam).<\/p>\n<p>Mas de aqui a 2030, no Novo Sistema Internacional, algumas das maiores coletividades do mundo j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o pa\u00edses mas comunidades congregadas e vinculadas entre si pela Internet e pelas redes sociais. Por exemplo, \u2018Facebookl\u00e2ndia\u2019: mais de mil milh\u00f5es de utentes&#8230; Ou \u2018Twitterl\u00e2ndia\u2019, mais de 800 milh\u00f5es&#8230; Cuja influ\u00eancia, na \u201cguerra dos tronos\u201d da geopol\u00edtica mundial, poder\u00e1 revelar-se decisiva. As estruturas de poder esmaecer-se-\u00e3o gra\u00e7as ao acesso universal \u00e0 Rede e ao uso de novas ferramentas digitais.<\/p>\n<p>A este respeito, o relat\u00f3rio da CIA anuncia o aparecimento de tens\u00f5es entre os cidad\u00e3os e alguns governos numas din\u00e2micas que v\u00e1rios soci\u00f3logos qualificam de \u2018p\u00f3s-pol\u00edticas\u2019 ou \u2018p\u00f3s-democr\u00e1ticas\u2019&#8230; Por um lado, a generaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 Rede e a universaliza\u00e7\u00e3o do uso das novas tecnologias permitir\u00e3o \u00e0 cidadania atingir altas quotas de liberdade e desafiar os seus representantes pol\u00edticos (como durante as primaveras \u00e1rabes ou na crise dos \u201cindignados\u201d). Mas, ao mesmo tempo, segundo os autores do relat\u00f3rio, estas mesmas ferramentas eletr\u00f3nicas proporcionar\u00e3o aos governos \u201cuma capacidade sem precedentes para vigiar os seus cidad\u00e3os\u201d3.<\/p>\n<p>\u201cA tecnologia \u2013acrescentam os analistas de Global Trends 2030\u2013 continuar\u00e1 a ser o grande nivelador, e os futuros magnatas da Internet, como poder\u00e1 ser o caso do Google e do Facebook, possuem montanhas de bases de dados, e manejam em tempo real muita mais informa\u00e7\u00e3o que qualquer Governo\u201d. Por isso, a CIA recomenda \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos que fa\u00e7a frente a essa amea\u00e7a eventual das grandes corpora\u00e7\u00f5es da Internet ativando o Special Collection Service4, um servi\u00e7o de espionagem ultra-secreto \u2013administrado conjuntamente pela NSA (National Security Service) e o SCE (Service Cryptologic Elements) das For\u00e7as Armadas\u2013 especializado na capta\u00e7\u00e3o clandestina de informa\u00e7\u00f5es de origem eletromagn\u00e9tica. O perigo de que um grupo de empresas privadas controle toda essa massa de dados reside, principalmente, em que poderia condicionar o comportamento em grande escala da popula\u00e7\u00e3o mundial e inclusive das entidades governamentais. Tamb\u00e9m se teme que o terrorismo jihadista seja substitu\u00eddo por um ciberterrorismo ainda mais surpreendente.<\/p>\n<p>A CIA toma t\u00e3o a s\u00e9rio este novo tipo de amea\u00e7as que, eventualmente, o decl\u00ednio dos Estados Unidos n\u00e3o ter\u00e1 sido provocado por uma causa externa mas por uma crise interna: o colapso econ\u00f4mico ocorrido a partir de 2008. O relat\u00f3rio insiste em que a geopol\u00edtica de hoje deve interessar-se por novos fen\u00f3menos que n\u00e3o possuem for\u00e7osamente um car\u00e1cter militar. Pois, ainda que as amea\u00e7as militares n\u00e3o tenham desaparecido (veja-se as intimida\u00e7\u00f5es armadas contra a S\u00edria ou a recente atitude da Coreia do Norte e o seu an\u00fancio de um poss\u00edvel uso de armas nucleares), os perigos principais que ocorrem hoje nas nossas sociedades s\u00e3o de ordem n\u00e3o militar: mudan\u00e7a clim\u00e1tica, conflitos econ\u00f4micos, crime organizado, guerras eletr\u00f4nicas, esgotamento dos recursos naturais&#8230;<\/p>\n<p>Sobre este \u00faltimo aspeto, o relat\u00f3rio indica que um dos recursos que mais aceleradamente se est\u00e1 a esgotar \u00e9 a \u00e1gua doce. Em 2030, cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o mundial ter\u00e1 problemas de abastecimento de \u00e1gua, dando lugar ao aparecimento de \u201cconflitos h\u00eddricos\u201d&#8230; Quanto ao fim dos hidrocarbonetos, a CIA mostra-se, pelo contr\u00e1rio, bem mais otimista que os ecologistas. Gra\u00e7as \u00e0s novas t\u00e9cnicas de fratura\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e do g\u00e1s de xisto est\u00e1 a atingir n\u00edveis excecionais. Os Estados Unidos j\u00e1 s\u00e3o autossuficientes em g\u00e1s, e em 2030 s\u00ea-lo-\u00e3o em petr\u00f3leo, o que embaratece os seus custos de produ\u00e7\u00e3o manufatureira e exorta \u00e0 relocaliza\u00e7\u00e3o das suas ind\u00fastrias. Mas se os Estados Unidos \u2013 principal importador atual de hidrocarbonetos\u2013 deixar de importar petr\u00f3leo, \u00e9 de prever que os pre\u00e7os caiam significativamente. Quais ser\u00e3o ent\u00e3o as consequ\u00eancias para os atuais pa\u00edses exportadores?<\/p>\n<p>No mundo para que vamos, cerca de 60% das pessoas viver\u00e1, pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, nas cidades. E, como consequ\u00eancia da redu\u00e7\u00e3o acelerada da pobreza, as classes m\u00e9dias ser\u00e3o dominantes e triplicar-se-\u00e3o, passando de 1.000 para 3.000 milh\u00f5es de pessoas. Isto, que em si \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o colossal, acarretar\u00e1 como sequela, entre outros efeitos, uma mudan\u00e7a geral nos h\u00e1bitos culin\u00e1rios e, em particular, um aumento do consumo de carne \u00e0 escala planet\u00e1ria. O que agravar\u00e1 a crise ambiental. Porque multiplicar-se-\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de gado, de porcos e de aves; e isso sup\u00f5e um aumento do gasto de \u00e1gua (para produzir alimentos), de pastos, de adubos e de energia, com repercuss\u00f5es negativas em termos do efeito de estufa e do aquecimento global&#8230;<\/p>\n<p>O informe da CIA anuncia tamb\u00e9m que, em 2030, os habitantes do planeta ser\u00e3o 8.400 milh\u00f5es, mas o aumento demogr\u00e1fico cessar\u00e1 em todos os continentes menos em \u00c1frica, com o consequente envelhecimento geral da popula\u00e7\u00e3o mundial. Pelo contr\u00e1rio, o v\u00ednculo entre o ser humano e as tecnologias de pr\u00f3tese acelerar\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de rob\u00f4s e o aparecimento de super-homens\u201d capazes de proezas f\u00edsicas e intelectuais in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>O futuro \u00e9 poucas vezes previs\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 por isso que h\u00e1 que deixar de o imaginar em termos de prospetiva, preparando-nos para atuar perante diversas circunst\u00e2ncias poss\u00edveis, das quais uma s\u00f3 se produzir\u00e1. Ainda que j\u00e1 tenhamos advertido que a CIA tem o seu pr\u00f3prio ponto de vista subjetivo sobre a marcha do mundo, condicionado pelo prisma da defesa dos interesses norte-americanos, o seu relat\u00f3rio tetranual n\u00e3o deixa de constituir uma ferramenta extremamente \u00fatil. A sua leitura ajuda-nos a tomar consci\u00eancia das r\u00e1pidas evolu\u00e7\u00f5es em curso e a refletir sobre a possibilidade de cada um de n\u00f3s para intervir e para fixar o rumo. Para construir um futuro mais justo.<\/p>\n<p><i>*Artigo de Ignacio Ramonet, publicado em Le Monde Diplomatiqueem espanhol e dispon\u00edvel em monde-diplomatique.es. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Santos para esquerda.net e publicado pelo Portal Carta Maior<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documento elaborado pela CIA, de quatro em quatro anos, no in\u00edcio de cada novo mandato presidencial nos Estados Unidos, e que Barack Obama recebeu ao tomar posse do seu segundo mandato, tem o t\u00edtulo &#8216;Global Trends 2030 &#8211; Alternative Worlds&#8217;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":51893,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[113,165],"tags":[4947,1372],"class_list":["post-51837","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-do-exterior","category-opiniao","tag-4947","tag-barack-obama-pt-pt"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O mundo em 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