{"id":48094,"date":"2013-04-16T20:26:20","date_gmt":"2013-04-16T19:26:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=48094"},"modified":"2013-04-16T20:26:20","modified_gmt":"2013-04-16T19:26:20","slug":"humanismo-na-empresa-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2013\/04\/humanismo-na-empresa-privada\/","title":{"rendered":"Humanismo na empresa privada"},"content":{"rendered":"<p><b>Entrevista a Roberto Blueh e Juan Avi\u00f1\u00f3<\/b><\/p>\n<p>Tivemos oportunidade de conversar com os gerentes de uma empresa privada que tenta implementar um novo modelo nas rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho, assim como na gest\u00e3o do seu neg\u00f3cio. Inspirados pelo Documento Humanista, estes dois chilenos levam vinte anos tentando por em pr\u00e1tica a sua vis\u00e3o duma empresa que, enquanto se desenvolve e cresce alcan\u00e7ando os padr\u00f5es mais positivos que lhe outorgam a maior competitividade no mercado nacional, n\u00e3o se endivida com bancos, reinveste suas utilidades no desenvolvimento da pr\u00f3pria empresa, prioriza o melhor tratamento poss\u00edvel tanto ao pessoal interno quanto aos provedores e aos clientes, na permanente busca de um melhoramento coerente com seus princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Roberto Blueh e Juan Avi\u00f1\u00f3 criaram <i>Alfacom Engenharia<\/i> h\u00e1 vinte anos, procurando formar uma empresa que propiciasse a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na tomada de decis\u00f5es da empresa, baseada num trato am\u00e1vel que promova a criatividade das pessoas. N\u00e3o queriam uma empresa autorit\u00e1ria, mas uma onde o pessoal se sentisse bem, que fizesse impecavelmente seu trabalho e estivesse contente, que pudesse se sentir \u00e0 vontade durante as horas laborais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Em geral nas empresas s\u00e3o priorizadas as utilidades. S\u00e3o outras institui\u00e7\u00f5es as que se formam para melhorar o modo de viver das pessoas: as ONGs, as institui\u00e7\u00f5es de caridade, as igrejas, os clubes&#8230;<\/i><\/p>\n<p>JA: &#8220;Nunca deixamos de ter interesse em que a empresa gere suas utilidades. Mas, quando o pessoal participa nas decis\u00f5es da empresa, o conjunto se torna mais inteligente. A empresa se desenvolve melhor e a gente se sente melhor. Quando se \u00e9 capaz de canalizar as ideias e os projetos dos empregados para melhorar a empresa, tudo avan\u00e7a. Temos f\u00e9 nas pessoas, nos times humanos, na intelig\u00eancia que as pessoas tem.<\/p>\n<p>Mas acontece que, na maioria das empresas, cada trabalhador tem que realizar uma mesma coisas, ou uma s\u00e9rie de fun\u00e7\u00f5es que no final s\u00e3o as mesmas. Rotiniza-se o trabalho em prol da efic\u00e1cia e com isso rotiniza-se a vida, a gente perde a capacidade de inovar, perde capacidade criativa, perde intelig\u00eancia e tudo vai se mecanizando. Ningu\u00e9m sente que se desenvolve, a menos que mude de fun\u00e7\u00e3o e vai se produzindo a rota\u00e7\u00e3o de pessoal nas empresas.<\/p>\n<p>N\u00f3s levamos muitos anos trabalhando com as mesmas pessoas, mas procurando que cada um se desenvolva ao m\u00e1ximo e seja cada vez mais inteligente. Cada um pode ir desenvolvendo todas suas potencialidades e assim v\u00e3o se cometendo menos erros. Porque a quantidade de erros que podem cometer os gerentes ao ter uma enorme quantidade de coisas que resolver, centralizadamente, s\u00e3o muito grandes. N\u00f3s descentralizamos o poder de decis\u00e3o e, como empresa, erramos menos. Al\u00e9m do mais, em geral, os gerentes manejam muitos recursos. Se estes recursos se descentralizam e cada qual tem efetivamente poder de decis\u00e3o a respeito duma parte dos recursos, as possibilidades de erro diminuem enquanto se ampliam as possibilidades de se ir melhorando.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Quer dizer, esta \u00e9 uma empresa na qual o poder de decis\u00e3o est\u00e1 descentralizado?<\/i><\/p>\n<p>JA: &#8220;Muito descentralizado. Isto se percebe especialmente quando h\u00e1 momentos de crise, nos quais todo o conjunto humano vai dando resposta, ainda que se mantenha uma capacidade de gest\u00e3o na ger\u00eancia, sobretudo para temas mais estrat\u00e9gicos ou mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o. Mas, a margem disso, grande parte das resolu\u00e7\u00f5es v\u00e3o se tomando pelos diferentes cargos, assumindo cada um a responsabilidade que lhe compete, de modo descentralizado e aut\u00f4nomo.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da empresa com o capital e, em particular, com os bancos?<\/i><\/p>\n<p>RB: &#8220;N\u00f3s temos trabalhado durante vinte anos estando tranquilos, sem d\u00edvidas, com seguran\u00e7a laboral, estabilidade laboral para os trabalhadores e uma quantidade de horas de trabalho que s\u00e3o &#8211; no m\u00e1ximo &#8211; as horas legais exigidas. N\u00e3o se abusa do empregado, se trata que cada um trabalhe o menos poss\u00edvel, n\u00e3o que tenha que passar horas extras na empresa. Procuramos que se trabalhe de forma aut\u00f4noma e sem press\u00e3o. Sem chantagem, temor ou tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com os bancos, n\u00e3o temos d\u00edvida nenhuma, nem empr\u00e9stimos. Porque quando queres que um banco te empreste dinheiro para injet\u00e1-lo na empresa, est\u00e1s indo mais r\u00e1pido do que \u00e9s capaz de gerar, porque n\u00e3o tens conseguido gerar esses recursos com a tua empresa. Ent\u00e3o colocas a tua empresa em uma situa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. N\u00f3s preferimos gerar o nosso pr\u00f3prio capital por crescimento e ir reinvestindo as utilidades no crescimento da empresa. N\u00e3o especulamos com as nossas utilidades, as reinvestimos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o endividamento com os bancos gera uma depend\u00eancia que, em qualquer momento de crise, resulta nefasta para a empresa. Agindo como fazemos pode ser muito mais devagar, demora vinte anos em lugar de cinco, qui\u00e7\u00e1. Mas se voc\u00ea aponta a crescer velozmente em base a d\u00edvidas, vives na intranquilidade, tanto para o trabalho como para o capital. Por isso temos optado pelo lento mas seguro, n\u00e3o nos endividar mas nos fortalecer em base ao que geramos n\u00f3s mesmos, sem ir por atalhos. N\u00f3s temos crescido gra\u00e7as \u00e0 poupan\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>O que fazem com a poupan\u00e7a?<\/i><\/p>\n<p>RB: &#8220;Ano a ano vamos reinvestindo. Compramos todas as propriedades onde est\u00e1 instalada <i>Alfacom<\/i>, o invent\u00e1rio que temos \u00e9 pr\u00f3prio, reinvestimos a poupan\u00e7a em equipamentos, em capacita\u00e7\u00e3o, no desenvolvimento pessoal dos trabalhadores: aulas de ingl\u00eas, viagens ao exterior para ampliar a pr\u00f3pria experi\u00eancia, visitas \u00e0 Feiras, capacita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Tamb\u00e9m nos certificamos em diversos aspectos. Preferimos diversificar dentro da empresa, que especular com o capital poupado.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>JA: &#8220;Vamos nos diversificando em quanto aos servi\u00e7os e aos produtos que oferecemos, tamb\u00e9m atendendo aos requerimentos que o mercado vai sinalizando. Essas novas necessidades s\u00e3o detectadas pelos vendedores, pelo pessoal; n\u00e3o surgem desde a ger\u00eancia, mas de requerimentos concretos aos que atendemos e nisso vamos reinvestindo.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>A empresa tem vinte anos, come\u00e7ou com voc\u00eas dois. Atualmente quantas pessoas formam parte de Alfacom? <\/i><\/p>\n<p>JA: &#8220;Cinquenta pessoas.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Com quanto capital come\u00e7aram?<\/i><\/p>\n<p>RB: &#8220;Com o capital necess\u00e1rio para comprar dois computadores&#8230; hoje seriam dois mil d\u00f3lares.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Atualmente, quanto capital tem?<\/i><\/p>\n<p>RB: &#8220;Ao redor de dois milh\u00f5es de d\u00f3lares.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Quer dizer que em vinte anos conseguiram dar trabalho a cinquenta pessoas e produzir esse capital de dois milh\u00f5es de d\u00f3lares, vivendo tranquilos e com um estilo de trabalho que procura o desenvolvimento mais pleno de cada uma das pessoas.<\/i><\/p>\n<p>RB: &#8220;Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que o pessoal tenha estabilidade laboral. Aspiramos que os que s\u00e3o contratados por <i>Alfacom<\/i> fiquem na empresa a maior quantidade de tempo poss\u00edvel e por isso tamb\u00e9m os sal\u00e1rios da nossa empresa s\u00e3o superiores aos do mercado. A cultura da nossa empresa \u00e9 o apoio rec\u00edproco, compartilhamos conhecimentos, ajudamo-nos reciprocamente. Sendo que aspiramos a transcorrer o maior tempo poss\u00edvel com os mesmos empregados, o trato \u00e9 muito importante, o trato c\u00e1lido, a compreens\u00e3o das dificuldades de cada um e apostar que pode ir sendo superadas. A solidariedade, a reciprocidade, o desenvolvimento da intelig\u00eancia como forma de resolver os problemas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O valor central desta empresa \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o muito querida, que se move por inten\u00e7\u00f5es humanas sem por o dinheiro como o prim\u00e1rio, mas o aprendizado, os projetos que somos capazes de empreender, os novos produtos e servi\u00e7os que podemos desenvolver. A empresa \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>JA: &#8220;Come\u00e7amos com um cliente e hoje temos mil. Muitos de nosso clientes tem se fidelizado, tem clientes que est\u00e3o h\u00e1 uns 15 anos ou mais conosco e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque oferecemos um servi\u00e7o impec\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 unicamente pelos produtos, mas fundamentalmente pelo trato que damos. Os provedores nossos tamb\u00e9m tem longa perman\u00eancia no tempo, pagamos-lhes o mais cedo poss\u00edvel, os atendemos o melhor que podemos. Assim como mais da metade dos empregados da <i>Alfacom<\/i> tem mais de cinco anos na empresa.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PF: <i>Como definiriam a cultura e os valores da Alfacom?<\/i><\/p>\n<p>RB: &#8220;Vemos a empresa como um processo, no qual o trabalhador e o cliente tamb\u00e9m se sentem cada vez melhor; \u00e9 uma empresa solid\u00e1ria que aponta ao desenvolvimento conjunto do trabalho e do capital, compartilhando a gest\u00e3o, assegurando a continuidade e a estabilidade do trabalho e nos desenvolvendo como empresa, reinvestindo as utilidades no pr\u00f3prio crescimento, nos antecipado para aumentar os sal\u00e1rios antes que ningu\u00e9m os solicite, procurando que todos estejamos melhor.<\/p>\n<p>Como base est\u00e1 o respeito real pela outra pessoa. Valorizamos muito a diversidade, as diferentes fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas chave, entre todas se constr\u00f3i a empresa e portanto o trato tremendamente respeitoso \u00e9 muito importante. Nesse bom trato ficam, tamb\u00e9m, inclu\u00eddos os familiares dos empregados, vai se formando um mundo de v\u00ednculos entre as pessoas.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a Roberto Blueh e Juan Avi\u00f1\u00f3 Tivemos oportunidade de conversar com os gerentes de uma empresa privada que tenta implementar um novo modelo nas rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho, assim como na gest\u00e3o do seu neg\u00f3cio. 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