{"id":451537,"date":"2017-04-05T17:17:43","date_gmt":"2017-04-05T16:17:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=451537\/"},"modified":"2017-04-05T17:17:43","modified_gmt":"2017-04-05T16:17:43","slug":"potencia-criativa-das-periferias-na-construcao-novas-narrativas-web","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2017\/04\/potencia-criativa-das-periferias-na-construcao-novas-narrativas-web\/","title":{"rendered":"A pot\u00eancia criativa das periferias na constru\u00e7\u00e3o de novas narrativas web"},"content":{"rendered":"<p>Na narrativa hegem\u00f4nica, da m\u00eddia e do senso comum, as <strong>periferias<\/strong> s\u00e3o zonas de medo e car\u00eancia, o que deriva de uma produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica pobre, sem levar em conta toda a complexidade destes territ\u00f3rios. Com a web, esse discurso encontra um contraponto, ainda que disperso, rico sobre a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564555\" target=\"_blank\">pot\u00eancia criativa das favelas<\/a>. \u201cAs periferias s\u00e3o zonas centrais; est\u00e3o na centralidade das artes, de a\u00e7\u00f5es empreendedoras criativas, das inven\u00e7\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es que refor\u00e7am a conviv\u00eancia. O reconhecimento como periferia n\u00e3o apresenta uma vis\u00e3o de territ\u00f3rios separados da cidade ou em suas beiras e pontas\u201d, destaca <strong>Eduardo Alves<\/strong>, em entrevista por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>.<\/p>\n<p>Evidentemente h\u00e1 diferen\u00e7as substanciais no acesso aos <strong>meios digitais<\/strong> por parte das popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, sobretudo porque o uso de banda larga, por exemplo, nem sempre \u00e9 acess\u00edvel geograficamente e economicamente. Tal dificuldade, resultado da profunda desigualdade social que caracteriza a sociedade brasileira, \u00e9 superada em certa medida pelo uso de computadores de m\u00e3o, os chamados smartphones. \u201c\u00c9 importante registrar que esse <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/557362\" target=\"_blank\">novo ambiente sociocultural<\/a> permitiu a amplia\u00e7\u00e3o da mobilidade simb\u00f3lica\u201d, pondera o entrevistado. \u201cPara os territ\u00f3rios populares, para as periferias, o grande desafio est\u00e1 na utiliza\u00e7\u00e3o da <strong>Internet<\/strong>, principalmente as<strong> redes sociais<\/strong>, no Brasil, para amplia\u00e7\u00e3o dos direitos e constru\u00e7\u00e3o de novas narrativas na cidade\u201d, complementa.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como as redes sociais web reorganizam a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas nas favelas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves &#8211;<\/strong> Tanto a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562325-autor-de-homo-deus-mapeia-as-graves-implicacoes-da-tecnologia\" target=\"_blank\">tecnologia da inform\u00e1tica<\/a>\u00a0(computadores de mesa, smartphone, smart tv), quanto as novas linguagens, os novos conceitos, os novos ambientes socioculturais criados (redes sociais e web) abriram possibilidades absolutamente novas no s\u00e9culo 21. Para as <strong>periferias<\/strong>, na cidade, esse impacto \u00e9 marcante, pois criou-se a possibilidade de\u00a0ambientes e canais para que os setores populares se expressassem diretamente e n\u00e3o ficassem dependendo apenas da grande m\u00eddia para isso. Registra-se que todos os setores sociais e pol\u00edticos se expressam por meio das redes, a diferen\u00e7a principal, no caso das periferias, est\u00e1 na constitui\u00e7\u00e3o de canais pr\u00f3prios. Os canais da <strong>grande m\u00eddia<\/strong> s\u00e3o, hegemonicamente, dos setores poderosos e dos \u201cdonos do poder\u201d.<\/p>\n<p>De alguma forma, os ambientes socioculturais chamados de redes sociais impactam na rela\u00e7\u00e3o das pessoas em toda a cidade. E \u00e9 fundamental destacar que a internet n\u00e3o \u00e9 o lugar dos chamados \u201cespa\u00e7os virtuais\u201d, como se fossem sem efeitos reais. As redes, assim como todos os espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o via internet (tecnologias, linguagens e conceitos), com a variedade de recursos que possui, j\u00e1 acumularam muito efeito real na vida, nas rela\u00e7\u00f5es, em atitudes, gostos, prefer\u00eancias art\u00edsticas, participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica etc. E esse movimento s\u00f3 tende a ampliar (uma tend\u00eancia n\u00e3o inexor\u00e1vel, mas uma tend\u00eancia). Coloca-se, para as periferias, o desafio de disputar cada vez mais tal ambiente sociocultural do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante, portanto, destacar a centralidade dessa nova vaga de conex\u00e3o (comunica\u00e7\u00e3o, contatos, divulga\u00e7\u00e3o de pensamento, apresenta\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as multim\u00eddia, sons e de artes em geral), por meio da qual as periferias possam mostrar sua pot\u00eancia, apresentar novas narrativas sobre a cidade, disputar os s\u00edmbolos e reivindicar mais investimentos do Estado. Apresentar as periferias, entre as quais est\u00e3o as favelas, como lugar de encontros, cria\u00e7\u00e3o, inventividade \u00e9 importante para a disputa de hegemonia da cidade. Mais que isso, atuar nos novos canais para apresentar uma narrativa contempor\u00e2nea sobre a viol\u00eancia que os moradores sofrem, como consequ\u00eancia da pol\u00edtica hegem\u00f4nica do Estado e do mercado. Este movimento, que busca alterar cultura e est\u00e9tica, \u00e9 decisivo no momento atual.<\/p>\n<p>Os <strong>moradores das periferias<\/strong> ainda possuem na presen\u00e7a dos corpos, por meio de intera\u00e7\u00e3o dos vizinhos, familiares, amigos, algo muito caracter\u00edstico e marcante no territ\u00f3rio. Ainda que, em certa medida, o fato de estarem conectados, majoritariamente, via o computador de m\u00e3o (chamados de celular ou smartphone), principalmente a juventude, demonstre a consequ\u00eancia de uma desigualdade que restringe acessos aos computadores de mesa e \u00e0 banda larga. Mas \u00e9 importante registrar que esse novo ambiente sociocultural permitiu a amplia\u00e7\u00e3o da mobilidade simb\u00f3lica. Os territ\u00f3rios da cidade, de forma positiva ou negativa, realizam novas formas de <strong>comunica\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o<\/strong> e as periferias n\u00e3o ficaram de fora. Muito pelo contr\u00e1rio, os moradores, os coletivos e as organiza\u00e7\u00f5es das periferias constru\u00edram canais que ampliam e apresentam a pot\u00eancia desses territ\u00f3rios.. \u00a0Mas ainda \u00e9 marcante nos territ\u00f3rios \u00a0perif\u00e9ricos, mais que em outros territ\u00f3rios<strong>[1]<\/strong> da cidade, os encontros dos corpos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A Internet, especialmente as redes sociais, possibilita \u00e0s periferias um maior protagonismo social? Como isso se d\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong> O upload m\u00faltiplo, as novas linguagens e os novos conceitos permitem \u00e0s periferias, assim como a todos os territ\u00f3rios da cidade, uma maior possibilidade de instrumentos e canais para apresentar uma narrativa pr\u00f3pria. Os ativistas do passinho fizeram isso, por exemplo, via Youtube. O <a href=\"http:\/\/www.observatoriodefavelas.org.br\/\" target=\"_blank\">Observat\u00f3rio de Favelas<\/a>\u00a0faz isso, principalmente, por meio do Facebook. A possibilidade de apresentar olhares, arte, recortes, articulados com narrativas origin\u00e1rias dos territ\u00f3rios populares, criando sobre todas as varia\u00e7\u00f5es que a internet disponibiliza \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para o per\u00edodo. No Brasil h\u00e1 destaque para as v\u00e1rias redes e o www, mas \u00e9 um desafio avan\u00e7ar para outros modelos de conex\u00e3o, como o<strong> P2P<\/strong> (<strong>Peer-to-peer<\/strong>), pouco usado no Brasil. Trata-se de a\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas que podem potencializar a constru\u00e7\u00e3o da cidadania ativa e a conquista de uma cidade de direitos. As organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, assim como as pessoas, possuem instrumentos que podem ampliar os raios de alcance e as conex\u00f5es.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o dos repert\u00f3rios variados sobre as diferentes tecnologias digitais, as t\u00e9cnicas de utiliza\u00e7\u00e3o, os conceitos e a express\u00e3o multim\u00eddia, \u00e9 um dos grandes desafios da atualidade para avan\u00e7ar nesse sentido. Vale destacar que, seja a express\u00e3o multim\u00eddia uma nova linguagem ou uma nova organiza\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos das variadas l\u00ednguas existentes, tais report\u00f3rios ocupam papel central que ultrapassa fronteiras de tempo e espa\u00e7o. No caso das periferias, \u00e9 muito importante superar a vis\u00e3o hegem\u00f4nica de que s\u00e3o territ\u00f3rios do medo e da car\u00eancia. O Observat\u00f3rio de Favelas j\u00e1 afirma, faz algum tempo, que esses territ\u00f3rios s\u00e3o pot\u00eancias inventivas na cidade.<\/p>\n<p>S\u00e3o sim territ\u00f3rios com menos investimentos do Estado, utilizados para amplia\u00e7\u00e3o do lucro do mercado, com seus moradores vivendo as consequ\u00eancias da explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o. S\u00e3o sim territ\u00f3rios no qual a viol\u00eancia do Estado e dos grupos criminosos armados ocorre com incid\u00eancia muito superior, se comparados aos outros territ\u00f3rios de toda a cidade. No ano de 2016, somente na favela da Mar\u00e9, se ficou 18 dias sem escola e postos de sa\u00fade, foram assassinadas 17 pessoas e 28 sofreram v\u00e1rias formas de viol\u00eancia. Isso n\u00e3o \u00e9 natural, nem tampouco pode ser visto como normal.<\/p>\n<p>Utilizar as redes para conquistar uma conviv\u00eancia ampla, com respeito \u00e0 diferen\u00e7a e que amplie a vida nesses territ\u00f3rios, alterando a pr\u00e1tica hegem\u00f4nica do Estado, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o urgente e decisiva. Trata-se da defesa da vida, em todos os seus sentidos e significados, pois as pessoas precisam viver, e com dignidade. Fica, portanto, colocado o desafio de ampliar os direitos, conquistar mais investimentos, mas, tamb\u00e9m, de apresentar uma nova narrativa sobre as periferias, apresentando-as como espa\u00e7o de pot\u00eancia e seus moradores como sujeitos estrat\u00e9gicos para conquistar uma cidade de direitos. E, principalmente, que o restante da cidade n\u00e3o considere \u201cnormal\u201d um jovem, negro, pobre, morrer em territ\u00f3rios perif\u00e9ricos. Juventude deve ser compreendida sempre como um verbo de vida em todos os territ\u00f3rios da cidade.<\/p>\n<p>Destaca-se, nesse sentido, a importante e grandiosa iniciativa que teve o Observat\u00f3rio de Favelas, a Redes da Mar\u00e9 e o Instituto Maria e Jo\u00e3o Aleixo em organizar o importante e grandioso Semin\u00e1rio Internacional das Periferias, que contou com a presen\u00e7a de estudiosos e ativistas de 15 pa\u00edses e mais de 20 estados brasileiros. Unificados, com v\u00e1rios ensinamentos sobre as quest\u00f5es e os desafios das periferias, dedicaram-se em responder a quest\u00e3o-chave e provocativa do encontro: O que \u00e9 periferia, afinal, e qual seu lugar na cidade? Neste encontro foi aprovada a <strong>CARTA DA MAR\u00c9, RIO DE JANEIRO \u2013 MANIFESTO DAS PERIFERIAS: AS PERIFERIAS E SEU LUGAR NA CIDAD<\/strong>E. Documento, j\u00e1 dispon\u00edvel na internet , que, entre outras quest\u00f5es fundamentais, para pensar, atuar e construir o lugar da periferia na cidade, afirma: \u201ca defini\u00e7\u00e3o de periferias n\u00e3o deve ser constru\u00edda em torno do que elas n\u00e3o possuiriam em rela\u00e7\u00e3o ao modelo dominante na din\u00e2mica socioterritorial ou da dist\u00e2ncia f\u00edsica em rela\u00e7\u00e3o a um centro hegem\u00f4nico. Elas devem ser reconhecidas pelo conjunto de pr\u00e1ticas cotidianas que materializam uma organiza\u00e7\u00e3o genu\u00edna do tecido social com suas pot\u00eancias inventivas, formas diferenciadas de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e arranjos comunicativos contra-hegem\u00f4nicos e pr\u00f3prios de cada territ\u00f3rio\u201d. Trata-se de um marco fundamental para construir narrativas e pr\u00e1ticas estruturantes em escala internacional, com o objetivo de ampliar a pot\u00eancia das periferias e fortalecer a disputa por uma cidade de direitos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; As redes sociais preservam os marcadores sociais entre a periferia e as zonas centrais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong> As <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias-2015\/540674-vemos-a-realidade-melhor-da-periferia-do-que-do-centro-entrevista-com-o-papa-francisco\" target=\"_blank\">periferias<\/a>\u00a0s\u00e3o zonas centrais; est\u00e3o na centralidade das artes, de a\u00e7\u00f5es empreendedoras criativas, das inven\u00e7\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es que refor\u00e7am a conviv\u00eancia. O reconhecimento como periferia n\u00e3o apresenta uma vis\u00e3o de territ\u00f3rios separados da cidade ou em suas beiras e pontas. N\u00e3o \u00e9 a localiza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios que as fazem se conformar como periferias, indicando que est\u00e3o afastadas do centro. O centro de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e socioculturais, na cidade, passa pelo que \u00e9 inventado e praticado nas periferias existentes.<\/p>\n<p>No caso dos \u201c<strong>marcadores das desigualdades<\/strong>\u201d, n\u00e3o se trata de serem preservados nas <strong>redes sociais<\/strong>, e sim da presen\u00e7a em todos os elementos econ\u00f4micos e sociais, como trabalho, estudo, moradia, saneamento, transporte etc. Isso aparece nos discursos marcados pela den\u00fancia e naqueles que incidem sobre uma a\u00e7\u00e3o afirmativa. O Observat\u00f3rio realizou uma campanha marcante, com os jovens da<strong> Escola Popular de Comunica\u00e7\u00e3o Cr\u00edtica &#8211; Espocc<\/strong>, chamada <strong>Juventude marcada para viver<\/strong>. Colocar a import\u00e2ncia da defesa dos <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/166-sem-categoria\/565076-brasil-e-10-pais-que-mais-mata-jovens-no-mundo-em-2014-foram-mais-de-25-mil-vitimas-de-homicidio\" target=\"_blank\">jovens, pobres, negros<\/a>, que s\u00e3o os que mais sofrem as consequ\u00eancias da viol\u00eancia letal com um olhar afirmativo, apresentando propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas e culturais, assim como uma nova narrativa sobre o genoc\u00eddio que sofrem os jovens das periferias, principalmente os negros, foi uma a\u00e7\u00e3o fundamental para mostrar tais contradi\u00e7\u00f5es. A cidade \u00e9 um lugar de conflitos e enfrentar tais conflitos com direitos, respeitando as diferen\u00e7as, apostando na conviv\u00eancia, na empatia e na dignidade humana, \u00e9 um passo fundamental para conquistar uma cidade de direitos. Isso demonstra que ainda que as desigualdades sejam hegem\u00f4nicas nos territ\u00f3rios populares, tamb\u00e9m se faz marcante a pot\u00eancia de a\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o que desses emergem.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como as redes sociais aproximam e distanciam as pautas das periferias com as pautas das zonas mais abastadas da cidade, como o caso Amarildo, de um lado, e as manifesta\u00e7\u00f5es \u201cverde-amarelo\u201d, de outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong> As v\u00e1rias fotografias da cidade, em todos os seus territ\u00f3rios, que demonstram a diversidade existente em cada local e entre os v\u00e1rios espa\u00e7os da cidade, s\u00e3o importantes para o conhecimento e para vida. Os exemplos citados na pergunta foram emblem\u00e1ticos nas redes e desenvolveram campanhas que alcan\u00e7aram import\u00e2ncias distintas. Destacam-se principalmente as atrocidades que fizeram com o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/524349-caso-amarildo-escancara-situacao-de-medo-violencia-e-tortura-nas-favelas\" target=\"_blank\">Amarildo<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, v\u00e1rios aspectos de encontros e desencontros dos territ\u00f3rios das cidades. Tais exemplos demonstram, de um lado, a diversidade existente nos territ\u00f3rios e entre os territ\u00f3rios. A maneira pela qual as redes sociais criaram um raio muito mais amplo para as manifesta\u00e7\u00f5es de ideias e das pr\u00e1ticas cotidianas, pois ampliam o raio de alcance para informa\u00e7\u00f5es, mensagens e conex\u00f5es. Tal amplia\u00e7\u00e3o, tanto da velocidade quanto do alcance, por sua vez, n\u00e3o significa, automaticamente, uma mudan\u00e7a do mundo. As redes podem, por exemplo, servir para <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563839-redes-sociais-validam-o-odio-das-pessoas-diz-psicanalista\" target=\"_blank\">ampliar preconceitos e intoler\u00e2ncias<\/a>, como servir para criar a conviv\u00eancia das diferen\u00e7as em v\u00e1rias dimens\u00f5es da vida. Para os territ\u00f3rios populares, para as periferias, o grande desafio est\u00e1 na utiliza\u00e7\u00e3o da internet (principalmente as redes sociais, no caso do Brasil) para amplia\u00e7\u00e3o dos direitos e constru\u00e7\u00e3o de novas narrativas na cidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma o acesso \u00e0 Internet e \u00e0s redes sociais atualiza o \u201cser\u201d na periferia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong> O \u201cser\u201d na periferia est\u00e1 em constantes mudan\u00e7as. E ainda bem que as mudan\u00e7as s\u00e3o poss\u00edveis e s\u00e3o inventadas por homens e mulheres. N\u00e3o h\u00e1 nada de natural em como s\u00e3o as pessoas e em suas rela\u00e7\u00f5es. Desnaturalizar o que aparece como \u201cnatural\u201d, tornar inaceit\u00e1vel o que pode ser visto como \u201ccomum\u201d, principalmente a viol\u00eancia letal, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es urgentes e fundamentais. Desnaturalizar a viol\u00eancia, desnaturalizar a mis\u00e9ria, desnaturalizar as v\u00e1rias discrimina\u00e7\u00f5es, desnaturalizar o centro. As periferias n\u00e3o podem ser vistas e muito menos narradas como um lugar de medo, de viol\u00eancia, de mis\u00e9ria. H\u00e1 muita beleza, cria\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o e sorrisos que tomam essas ruas e \u00e9 necess\u00e1rio ampliar os direitos nesses territ\u00f3rios para superar progressivamente tamanha desigualdade que possuem em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto da cidade. Por isso, tamb\u00e9m, \u00e9 importante apresentar e construir as periferias como centros de pot\u00eancia para a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade de direitos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ainda h\u00e1 nas favelas do Rio de Janeiro muitas lan houses? Qual foi (ou \u00e9) a import\u00e2ncia desses espa\u00e7os para a sociabilidade destas popula\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013\u00a0<\/strong>Ainda h\u00e1 <em>lan houses<\/em> nas favelas cariocas. Mas, sem d\u00favida, hoje as pessoas est\u00e3o conectadas principalmente via computador de m\u00e3o, os chamados smartphones. Esse \u00e9 o instrumento (ou aparelho) tecnol\u00f3gico que mais garante as conex\u00f5es. Hoje em dia seria importante inverter e n\u00e3o perguntar quando as pessoas se conectam na internet; o mais importante seria perguntar em que momento n\u00e3o est\u00e3o conectadas na internet ou rompem com suas conex\u00f5es. Coloca o corpo em uma dimens\u00e3o muito diferente em rela\u00e7\u00e3o aos s\u00e9culos passados, nos quais os encontros dependiam da aproxima\u00e7\u00e3o dos corpos. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante que precisa estar colocada sempre. E, para as periferias, onde os encontros dos corpos ainda s\u00e3o momentos marcantes com vizinhos, parentes, amigos, \u00e9 ainda mais simb\u00f3lico. Cabe ressaltar que as desigualdades da cidade, que coloca a periferia em condi\u00e7\u00f5es adversas dos outros territ\u00f3rios, atingem seus moradores tamb\u00e9m no caso da internet, pois banda larga de fibra \u00f3tica e computadores de mesa s\u00e3o escassos ou inexistentes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A Internet, por defini\u00e7\u00e3o um espa\u00e7o potencialmente democr\u00e1tico, permitiu a amplia\u00e7\u00e3o dos modos de vida e culturas das periferias no espa\u00e7o digital? Como isso ocorreu? O que isso significa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong> A internet, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o democr\u00e1tico. As desigualdades de acesso, tanto das bandas largas (que permitem o fluxo de dados variados) como das tecnologias, n\u00e3o permitem ver a internet, por si s\u00f3, como espa\u00e7o democr\u00e1tico. Mas sua chegada, principalmente com o www e as redes sociais (no caso do Brasil de hoje), criou sim um novo ambiente sociocultural inexistente at\u00e9 o s\u00e9culo passado. Volto a lembrar, o P2P \u00e9, praticamente, inexistente no Brasil e \u00e9 uma arquitetura de rede na qual, cada ponto, cada computador, funciona tanto como emissor e receptor de dados e mensagens quant0 como servidor. Algo que n\u00e3o depende de media\u00e7\u00f5es e servidores centrais, como a grande maioria das redes sociais que conhecemos por aqui possuem. Portanto, a internet como temos no s\u00e9culo 21, por sua novidade em tempo e escala, \u00e9 um ambiente que muito h\u00e1 para desvendar, descobrir e inventar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um grande percurso hist\u00f3rico quando falamos de <strong>Internet<\/strong>. Esse processo de mudan\u00e7as, em escala mundial, vem ocorrendo desde o fim da <strong>Segunda Guerra Mundial<\/strong> [2] e deu um grande salto quando, na d\u00e9cada de 1960, ocorreu a primeira a\u00e7\u00e3o do que seria conhecido logo em seguida como Internet. A <strong>ARPAnet<\/strong> [3] foi fundamental, surgiu com a cria\u00e7\u00e3o da ARPA em 1957, e foi lan\u00e7ada em 1969, ganhando terreno durante toda a d\u00e9cada de 1970. A partir de 1990, com a cria\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da Internet como conhecemos hoje \u2013 <strong>World Wide Web<\/strong> (www) \u2013, foi dado um salto decisivo para a cria\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo XXI, das v\u00e1rias redes conhecidas e das tais redes sociais, t\u00e3o disseminadas e discutidas no Brasil, em particular.<\/p>\n<p>O crescimento (e as chamadas revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI no ambiente da Internet) se deu em conceitos e tecnologia. Quanto maior o repert\u00f3rio, os conceitos e as tecnologias ser\u00e3o manipulados com mais qualidade e poder\u00e3o ser superados para os v\u00e1rios objetivos. As <strong>periferias<\/strong> s\u00e3o territ\u00f3rios de novos personagens em cena para superar esse conjunto de coisas a favor das pessoas na constru\u00e7\u00e3o de uma cidade de direitos.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ando m\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es na linguagem, da est\u00e9tica da comunica\u00e7\u00e3o e da possibilidade de realiza\u00e7\u00f5es de upload, temos insumos para altera\u00e7\u00f5es fundamentais nesse novo s\u00e9culo. Objetivamos, por um lado, criar uma ferramenta f\u00e9rtil para a desnaturaliza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas sociais e culturais hegem\u00f4nicas e, por outro, potencializar a a\u00e7\u00e3o criativa e transformadora dos novos sujeitos em cena.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o os principais desafios a serem enfrentados pelas comunidades das favelas no ambiente digital? Que tipos de preconceitos se perpetuam em novas formas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong> Ainda h\u00e1 uma vis\u00e3o hegem\u00f4nica na cidade que as periferias, favelas entre elas, s\u00e3o lugar de medo, de bandidos, de desocupados; espa\u00e7os de dor. O livro de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/27014-temos-uma-crise-profunda-de-compreensao-das-favelas-entrevista-especial-com-jailson-de-souza-e-silva\" target=\"_blank\">Jailson de Souza e Silva <\/a>e de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/517801--a-multiplicacao-da-internet-nas-favelas-e-a-visibilidade-social-entrevista-com-jorge-luiz-barbosa\" target=\"_blank\">Jorge Luiz Barbosa<\/a>, ambos fundadores e da dire\u00e7\u00e3o do <strong>Observat\u00f3rio de Favelas<\/strong>, lan\u00e7ado em 2005, j\u00e1 apresentava tal narrativa. O t\u00edtulo do livro \u00e9 <strong>Favela: alegria e dor na cidade<\/strong> (Rio de\u00a0Janeiro: Editora SENAC RJ,2005).<\/p>\n<p>Apresentar esses territ\u00f3rios de <strong>periferias<\/strong> como espa\u00e7os de pot\u00eancia, ampliar o que j\u00e1 apresentam para cidade como encontros com alegria, inventividade, tecnologias de v\u00e1rios tipos e formas, \u00e9 um grande desafio para o contempor\u00e2neo. Conquistar direitos que garantam a dignidade da vida e uma nova representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dos territ\u00f3rios de periferias s\u00e3o grandes desafios para o momento atual.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Alves \u2013<\/strong>\u00a0Agrade\u00e7o o convite e o espa\u00e7o gentilmente oferecido. Se for poss\u00edvel concluir com uma de minhas poesias (que gosto de chamar de \u201cjun\u00e7\u00e3o ou arranjo de letrinhas\u201d), assim o farei:<\/p>\n<p><strong><em>OLHA AI: A FAVELA<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Olha o que \u00e9 a favela<\/em><br \/>\n<em>Veja suas pr\u00f3prias cores<\/em><br \/>\n<em>Descubra a identidade da vida<\/em><br \/>\n<em>Deixe aberto o canal de amor<\/em><br \/>\n<em>Passe na rua ocupada<\/em><br \/>\n<em>Chegue de casa em casa<\/em><br \/>\n<em>Descubra a conviv\u00eancia diversa<\/em><br \/>\n<em>Encontre-se em cada ferida<\/em><br \/>\n<em>No som que agora chegou<\/em><br \/>\n<em>Arte que brota do ch\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Temas lan\u00e7ados de m\u00e3o em m\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Frases que s\u00e3o decoradas<\/em><br \/>\n<em>Monte a pr\u00f3pria vers\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Cada encontro repentino<\/em><br \/>\n<em>Chegadas com sorrisos ou sustos<\/em><br \/>\n<em>Com corpos gratinados por sol e lua<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 mais que bemol na vida<\/em><br \/>\n<em>Mais que um hasteg na trilha<\/em><br \/>\n<em>Sustenidos dissonantes no ar<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1 alegra os afetos despeda\u00e7ando distopias<\/em><br \/>\n<em>Grito de pot\u00eancia da esperan\u00e7a<\/em><br \/>\n<em>Reanima a lembran\u00e7a<\/em><br \/>\n<em>Com o territ\u00f3rio m\u00faltiplo e singular<\/em><br \/>\n<em>Reinven\u00e7\u00e3o que brota no solo<\/em><br \/>\n<em>Ch\u00e3o ocupado, inventado, ilimitado<\/em><br \/>\n<em>Assim se transforma a vida<\/em><br \/>\n<em>No longo encontro presente<\/em><br \/>\n<em>Com imagin\u00e1rio popular<\/em><br \/>\n<em>Com os nervos e m\u00fasculos candentes<\/em><br \/>\n<em>Narrativas humanas para desenhar<\/em><br \/>\n<em>Essa \u00e9 a favela da gente<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 nessa que vamos entrar<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 nessa que o corpo dan\u00e7a e se alegra<\/em><br \/>\n<em>E deixo assim o convite<\/em><br \/>\n<em>Para o seu olhar, sobre a favela, se transformar<\/em><br \/>\n<em>Para a presen\u00e7a ativa revolucionar a cidade<\/em><br \/>\n<em>Mudar voc\u00ea e o lugar<\/em><\/p>\n<p><em>Eduardo Alves<\/em><\/p>\n<p><strong>Notas:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[1] O conceito de territ\u00f3rio aqui utilizado \u00e9 baseado em Milton Santos. Eis aqui o de escrita mais reduzida por mim encontrada, retirada do livro TERRIT\u00d3RIO, TERRIT\u00d3RIOS \u2013 ENSAIOS SOBRE O ORDENAMENTO TERRITORIAL, editora Lamparina: \u201cO territ\u00f3rio \u00e9 o lugar em que desembocam todas as a\u00e7\u00f5es, todas as paix\u00f5es, todos os poderes, todas as for\u00e7as, todas as fraquezas, isto \u00e9, onde a hist\u00f3ria do homem plenamente se realiza a partir das manifesta\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia\u201d. (Nota do entrevistado)<\/p>\n<p>[2] <strong>Segunda Guerra Mundial<\/strong>: conflito iniciado em 1939 e encerrado em 1945. Mais de 100 milh\u00f5es de pessoas, entre militares e civis, morreram em decorr\u00eancia de seus desdobramentos. Op\u00f4s os Aliados (Gr\u00e3-Bretanha, Estados Unidos, China, Fran\u00e7a e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) \u00e0s Pot\u00eancias do Eixo (Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o). O l\u00edder alem\u00e3o Adolf Hitler pretendia criar uma &#8220;nova ordem&#8221; na Europa, baseada nos princ\u00edpios nazistas da superioridade alem\u00e3, na exclus\u00e3o &#8211; elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica inclu\u00edda &#8211; de minorias \u00e9tnicas e religiosas, como judeus e ciganos, al\u00e9m de homossexuais, na supress\u00e3o das liberdades e dos direitos individuais e na persegui\u00e7\u00e3o de ideologias liberais, socialistas e comunistas. Essa ideologia culminou com o Holocausto. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n<p>[3] <strong>ArpaNet<\/strong>: \u00e9 a sigla para Advanced Research Projects Agency Network, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que foi a primeira rede operacional de computadores \u00e0 base de comuta\u00e7\u00e3o de pacotes, e o precursor da Internet, tendo sido criada inicialmente para fins militares. Desenvolvida pela ag\u00eancia Americana ARPA (Advanced Research and Projects Agency &#8211; Ag\u00eancia de Pesquisas em Projetos Avan\u00e7ados) em 1969, tinha o objetivo de interligar as bases militares e os departamentos de pesquisa do governo dos Estados Unidos. Esta rede teve o seu ber\u00e7o dentro do Pent\u00e1gono. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<em><br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na narrativa hegem\u00f4nica, da m\u00eddia e do senso comum, as periferias s\u00e3o zonas de medo e car\u00eancia, o que deriva de uma produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica pobre, sem levar em conta toda a complexidade destes territ\u00f3rios. 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