{"id":444127,"date":"2017-03-17T22:41:50","date_gmt":"2017-03-17T22:41:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=444127\/"},"modified":"2017-05-18T19:52:06","modified_gmt":"2017-05-18T18:52:06","slug":"europa-sera-capaz-aprender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2017\/03\/europa-sera-capaz-aprender\/","title":{"rendered":"A\u00a0Europa ser\u00e1 capaz de aprender?"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Boaventura de Sousa Santos<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Arrog\u00e2ncia colonial cegou Velho Continente para inova\u00e7\u00f5es que se produziam no Sul Global. Agora, esgotados e incapazes de criar, europeus abrir\u00e3o os olhos?<\/strong><\/p>\n<p>Um sentimento de exaust\u00e3o hist\u00f3rica e pol\u00edtica assombra a Europa e o Norte Global em geral. Ap\u00f3s cinco s\u00e9culos a impor solu\u00e7\u00f5es ao mundo, a Europa parece incapaz de resolver os seus pr\u00f3prios problemas, e entrega a sua resolu\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas multinacionais por via de tratados de livre com\u00e9rcio, cujo objectivo \u00e9 eliminar os \u00faltimos resqu\u00edcios da coes\u00e3o social e da consci\u00eancia ambiental obtidas depois da segunda guerra mundial. Nos EUA, Donald Trump \u00e9 mais consequ\u00eancia que causa da desagrega\u00e7\u00e3o de um sistema pol\u00edtico altamente corrupto, disfuncional e anti-democr\u00e1tico, em que o candidato mais votado em elei\u00e7\u00f5es nacionais pode ser derrotado pelo candidato que obteve menos tr\u00eas milh\u00f5es de votos dos cidad\u00e3os. Domina a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 alternativas ao estado cr\u00edtico a que se chegou. Os l\u00edderes mundiais, reunidos recentemente no F\u00f3rum Econ\u00f4mico de Davos, reconheceram que os 8 homens mais ricos do mundo t\u00eam tanta riqueza quanto a da metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o mundial, mas nem por isso lhes passou pela cabe\u00e7a apoiar pol\u00edticas que contribuam para redistribuir a riqueza. Pelo contr\u00e1rio, exortaram os desgra\u00e7ados do mundo a melhorarem o seu desempenho para amanh\u00e3 tamb\u00e9m serem ricos.<\/p>\n<p>Entretanto, os instrumentos de an\u00e1lise e de comunica\u00e7\u00e3o social global de que dispomos impedem-nos de ver que fora da Europa e do Norte Global h\u00e1 muita inova\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica que poderia servir de est\u00edmulo a procurar novas solu\u00e7\u00f5es globais que garantam um futuro politicamente mais democr\u00e1tico, socialmente mais solid\u00e1rio e ecologicamente mais sustent\u00e1vel. Curiosamente, algumas dessas solu\u00e7\u00f5es t\u00eam partido de ideias e experi\u00eancias europeias (entretanto abandonadas pela Europa) reinterpretadas e reconfiguradas \u00e0 luz dos diferentes contextos concretos e libertadas de dogmas e ortodoxias. Ao mesmo tempo, a Europa parece encolher, enquanto o mundo n\u00e3o-europeu se expande. O futuro do mundo ser\u00e1 muito menos europeu do que foi o seu passado.<\/p>\n<p>Seria l\u00f3gico pensar que a Europa teria todo o interesse em conhecer melhor o que de inovador vai emergindo no mundo. Mas, para tal, a Europa devia dispor-se a interrogar o modo como ao longo da era moderna se viu como professora do mundo e imaginar-se como aluna do mundo, como co-aprendiz do futuro junto de outras regi\u00f5es e culturas do mundo. Acontece que a Europa tem uma extrema dificuldade em aprender com as experi\u00eancias n\u00e3o-europeias, em particular quando t\u00eam origem no Sul Global, devido a um persistente preconceito colonial. Afinal, como poderia a Europa beneficiar de experi\u00eancias de \u201cregi\u00f5es e culturas mais atrasadas\u201d, solu\u00e7\u00f5es que, al\u00e9m do mais, remetem para problemas que a Europa alegadamente solucionou h\u00e1 muito?<\/p>\n<p>Como vencer este preconceito e criar uma nova disponibilidade para aprendizagens m\u00fatuas \u00e0 escala global? Para responder precisamos de recuar no tempo. O per\u00edodo alto da Europa como poder global e imperial terminou em 1945. Quando os pa\u00edses perif\u00e9ricos do Sul Global, muitos dos quais antigas colnias europeias, se tornaram independentes e tentaram tra\u00e7ar a sua hist\u00f3ria num mundo p\u00f3s-europeu, a jornada foi acidentada, com a Europa e os EUA a questionarem qualquer tentativa de desvincula\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a recusar qualquer alternativa que n\u00e3o a sua. O movimento dos n\u00e3o-alinhados, iniciado em 1955 com a Confer\u00eancia de Bandung \u2014 convocada pelos presidentes Nehru (\u00cdndia), Sukarno (Indon\u00e9sia), Nasser (Egipto), Nkrumah (Gana) e Tito (Jugosl\u00e1via) \u2013, foi a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de desenhar um caminho que fosse al\u00e9m da vis\u00e3o bipolar e contradit\u00f3ria que a Europa oferecia ao mundo, ora liberal e capitalista, ora marxista e socialista, dois sistemas pouco sens\u00edveis \u00e0s realidades extra-europeias, e ambos exigindo lealdade incondicional. Esta dicotomiza\u00e7\u00e3o nos assuntos mundiais, dramaticamente ilustrada pela Guerra Fria, colocou dilemas pol\u00edticos irresol\u00faveis \u00e0s novas elites pol\u00edticas do Sul Global, mesmo \u00e0s mais distanciadas da cultura ocidental capitalista e comunista, que viam em ambos os sistemas armadilhas g\u00e9meas assentes na supremacia do \u201chomem branco\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_444128\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-444128\" class=\"size-large wp-image-444128\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/amira_a-720x477.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"477\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/amira_a-720x477.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/amira_a-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/amira_a-768x509.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/amira_a.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-444128\" class=\"wp-caption-text\">Imagem:\u00a0amira_a<\/p><\/div>\n<p>O movimento dos n\u00e3o alinhados foi entretanto neutralizado pelo neoliberalismo global e pela queda do Muro de Berlim, e o chamado Terceiro Mundo diversificou-se ao ponto de perder conte\u00fado. Mas isto n\u00e3o impediu que novas solu\u00e7\u00f5es continuassem a ser pensadas e executadas. Sempre que puseram em causa o dom\u00ednio do Norte Global e, em particular, do imperialismo norte-americano, tais solu\u00e7\u00f5es foram violentamente combatidas: do embargo a Cuba, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Iraque, da L\u00edbia e da S\u00edria; da Nova Ordem Econ\u00f4mica Mundial \u00e0 neutraliza\u00e7\u00e3o dos BRICS (a coopera\u00e7\u00e3o entre os chamados pa\u00edses emergentes: Brasil, R\u00fassia, China e \u00c1frica do Sul). A verdade \u00e9 que, apesar disso, a tenacidade com que os povos do mundo v\u00e3o procurando solu\u00e7\u00f5es de liberta\u00e7\u00e3o e autonomia continua a surpreender os analistas. N\u00e3o se trata de romantizar tal tenacidade ou de aceitar acriticamente as solu\u00e7\u00f5es que dela resultam. Trata-se apenas de iniciar uma conversa do mundo que n\u00e3o se esgote na discuss\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es que uma pequena parte, a euroc\u00eantrica, legitimou no passado. Essas solu\u00e7\u00f5es foram, sucessiva ou simultaneamente, o colonialismo, a evangeliza\u00e7\u00e3o, o neocolonialismo, o imperialismo, o desenvolvimento, a globaliza\u00e7\u00e3o, a ajuda externa, os direitos humanos, a assist\u00eancia humanit\u00e1ria. Dependente destas solu\u00e7\u00f5es, o mundo n\u00e3o-europeu acabou quase sempre por adot\u00e1-las, volunt\u00e1ria ou compulsoriamente, residindo a\u00ed a sua subalternidade relativamente \u00e0 Europa e aos EUA. Mas nunca deixou de pensar fora da caixa euroc\u00eantrica. Neste tempo de aparente elimina\u00e7\u00e3o das alternativas, esse pensamento pode hoje ser precioso para lan\u00e7ar a possibilidade de novas aprendizagens globais como alternativa \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o e \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>Por parte da Europa, s\u00e3o duas as condi\u00e7\u00f5es principais para essa aprendizagem e nenhuma delas se coaduna como solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas. Ambas implicam a constru\u00e7\u00e3o de uma nova vis\u00e3o da Europa. A primeira consiste em submeter a um debate profundo o pr\u00f3prio conceito de Europa. Devemos come\u00e7ar por ter presente que n\u00e3o existe uma defini\u00e7\u00e3o oficial de \u201ceuropeu\u201d, pelo menos em termos de pol\u00edticas culturais. Quantas Europas existem? Quantos s\u00e3o os pa\u00edses europeus? O que significa ser europeu? A desintegra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha e o movimento em grande escala de migrantes, trabalhadores e refugiados por toda a Europa criaram uma nova complexidade, tanto no dom\u00ednio das identidades como no das fronteiras. Por esta raz\u00e3o, muitos autores defendem que o discurso da \u201cidentidade da Europa\u201d \u00e9 prematuro. Tal como n\u00e3o existe \u201cuma Europa\u201d, mas antes uma pluralidade de defini\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas espec\u00edficas e concorrentes entre si, existem \u201cidentidades europeias\u201d contrastantes e rivais, dependentes do desenho das fronteiras e da percep\u00e7\u00e3o da natureza da \u201cEuropeidade\u201d. Os servi\u00e7os de imigra\u00e7\u00e3o e de fronteiras v\u00e3o desenvolvendo as suas pr\u00f3prias ideias sobre a Europa e a identidade europeia, mas sem qualquer conex\u00e3o com outros n\u00edveis de discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda condi\u00e7\u00e3o, intimamente relacionada com a primeira, diz respeito ao que se entende por Sul Global enquanto mundo n\u00e3o-europeu. O Sul que confronta a Europa como \u201co outro\u201d existe tanto dentro como fora da Europa. Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, o estadista austr\u00edaco Metternich escrevia que \u201cAsien beginnt an der Landstrasse\u201d, ou seja, a \u00c1sia come\u00e7a numa rua da periferia de Viena, a rua onde viviam imigrantes provenientes dos Balc\u00e3s. Ent\u00e3o, como agora, a distin\u00e7\u00e3o entre os Balc\u00e3s e a Europa parece clara, como se os primeiros n\u00e3o pertencessem \u00e0 Europa. Hoje, o Sul dentro da Europa s\u00e3o os imigrantes; os ciganos; os filhos de imigrantes, alguns dos quais nascidos nesta mesma Europa h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, portadores de passaportes europeus, sem, no entanto, serem tidos como \u201ceuropeus como os outros\u201d. E ainda h\u00e1 um outro Sul dentro da Europa que particularmente nos interessa, o Sul que, sendo perif\u00e9rico em sentido geogr\u00e1fico, \u00e9-o em muitos outros sentidos. Refiro-me a Portugal, Espanha, Sul da It\u00e1lia e Gr\u00e9cia. Historicamente sempre houve duas europas, a do centro e a da periferia, e a primeira nunca imaginou que pudesse aprender algo de positivo com a experi\u00eancia da segunda.<\/p>\n<p>O Sul fora da Europa tem sido entendido desde o s\u00e9culo XV de uma forma grosseiramente reducionista. S\u00e3o os pa\u00edses fornecedores de mat\u00e9ria-prima e, mais tarde, mercados de consumo a explorar; pa\u00edses cujas cat\u00e1strofes naturais tornam necess\u00e1ria a ajuda humanit\u00e1ria europeia; pa\u00edses incapazes de sustentar a sua popula\u00e7\u00e3o, dando origem ao problema da imigra\u00e7\u00e3o que \u201caflige\u201d a Europa; pa\u00edses que criam terroristas contra os quais \u00e9 necess\u00e1rio lutar com o m\u00e1ximo de inclem\u00eancia. Esta vis\u00e3o do Sul Global continua dominada pela empresa colonial. Esta estipulava que as popula\u00e7\u00f5es e na\u00e7\u00f5es sujeitas \u00e0 governa\u00e7\u00e3o europeia, independentemente da diversidade do seu passado, estavam condenadas a um s\u00f3 futuro: o futuro ditado pela Europa. O futuro da Europa ficou assim ref\u00e9m dos limites que impunha ao mundo n\u00e3o-europeu. Quantas ideias e projetos foram descartados, desacreditados, abandonados, demonizados dentro da Europa por simplesmente n\u00e3o servirem o projeto colonial?<\/p>\n<p>A Europa tem de voltar \u00e0 escola do mundo e da sua diversidade infinita. Para aprender, tem de estar disposta a desaprender muitas das concep\u00e7\u00f5es sobre si pr\u00f3pria e sobre o mundo n\u00e3o-europeu que a trouxeram at\u00e9 aqui, a este momento de grau zero da inova\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica em que se encontra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Boaventura de Sousa Santos Arrog\u00e2ncia colonial cegou Velho Continente para inova\u00e7\u00f5es que se produziam no Sul Global. Agora, esgotados e incapazes de criar, europeus abrir\u00e3o os olhos? 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